08-08-2005
Entrevista
Rodrigo Sampaio
O jornalista e programador visual Rodrigo Sampaio, de 31 anos, nasceu na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Há sete anos trabalhando no carnaval carioca, estréia em 2006 como carnavalesco da União de Jacarepaguá, com o enredo "Alô, Alô, Intendente! Aquele abraço...", uma viagem à história de uma das mais tradicionais vias da Cidade Maravilhosa.
OBatuque.com - Como foi o caminho até o mundo do samba?
Rodrigo Sampaio – Bem, na minha cidade natal (Petrópolis) o carnaval é bem amador, mas foi lá que eu comecei. Minha avó era costureira e fazia trabalhos para escolas da região, e eu acompanhava tudo e ficava realmente fascinado com o que via. Minha prima Claudia casou com o presidente da Unidos da 24 de Maio, Reinaldo Alfredo, mais conhecido como Dino. Foi assim que eu comecei no carnaval.
OBatuque.com - Já gostava de escolas de samba antes? Acompanhava?
Rodrigo Sampaio - Sempre assisti pela TV e freqüentava ensaios aqui no Rio de Janeiro.
OBatuque.com - Você sempre trabalhou como auxiliar. Como é a expectativa de ser carnavalesco oficial?
Rodrigo Sampaio - É muito boa, mas sou totalmente pé no chão, o cargo de carnavalesco é como outro qualquer. Na verdade, a gente é sempre cobrado e dificilmente agrada a todos.
OBatuque.com - Como surgiu o convite para ser carnavalesco?
Rodrigo Sampaio - O amigo Anderson, que trabalha no atelier da Tradição, também é amigo do presidente da União de Jacarepaguá, Reinaldo Bandeira. Foi ele quem me convidou.
OBatuque.com - O que aconteceu com o carro da Tradição ao passar pelo viaduto no carnaval deste ano (2005)?
Rodrigo Sampaio - Fui o responsável por todos os projetos dos carros da Tradição. O que ocorreu foi que a escultura ficou 15cm maior, devido à colocação do gerador, há uma semana do desfile. Eu estava embaixo do viaduto quando o carro estava passando, percebi que ia bater. Então, pedi pra parar o carro, e foi aquela história vista por todos.
OBatuque.com - Como será o carnaval da União de Jacarepaguá?
Rodrigo Sampaio - Pretendo fazer um carnaval com fácil leitura e com uma proposta clara. Vamos falar da origem da estrada Intendente Magalhães, oriunda do caminho dos jesuítas, até chegar aos dias de hoje, com a economia local voltada para o Intendente Auto Center.
OBatuque.com - Como surgiu o título "Alô, Alô, Intendente! Aquele abraço..."?
Rodrigo Sampaio - Apresentei um enredo sobre automóvel e o Reinaldo me convidou para desenvolver o enredo sobre a estrada. Daí comecei a pesquisar e saiu o título. Inspirei-me na música do Gilberto Gil, "Aquele Abraço".
OBatuque.com - Como você definiria seu estilo de trabalho, em relação a enredos, materiais e concepção de fantasias e adereços?
Rodrigo Sampaio - Sou de uma linha mais moderna, acho que as pessoas têm que visualizar a fantasia e logo assimilar o enredo. Além disso, o componente esta ali para brincar, se divertir. Não gosto de fantasias muito grandes. E carros sem propostas. Em relação aos materiais, trabalhamos com o que podemos usar. Hoje, fazer um carnaval é muito caro, temos que adaptar esculturas, ferragens, ou seja, temos que reciclar.
OBatuque.com - Você, como carnavalesco, tem preferência pelo horário que sua escola desfile, manhã ou noite?
Rodrigo Sampaio - Acho que fica mais bonito durante a noite. O desfile é um grande espetáculo. A iluminação é fundamental. Por exemplo: no desfile da Tradição, tivemos vários problemas de iluminação nos carros. Isso atrapalhou um pouco.
OBatuque.com - Quais os carnavalescos que mais o inspiraram?
Rodrigo Sampaio - Quando criança, ficava encantado com o trabalho do Fernando Pinto. Assisti um pouco ao do Arlindo Rodrigues, e me encantei com o João, na Beija-Flor, em 1989. Os de hoje, acho o Mauro Quintaes muito bom, e o Renato Lage, fantástico.
OBatuque.com - Você também é web designer. Além de ter criado o site da Viviane Araújo, quais os outros que você ajudou a montar?
Rodrigo Sampaio - Estou trabalhando com a modelo paulista Elen Pinheiro, estou construindo o site www.elenpinheiro.com.br. Também trabalhei de 2000 a 2001 no site do Salgueiro, e em 2002 e 2003 no da Porto da Pedra.
OBatuque.com - Como você vê o trabalho dos sites que falam do carnaval?
Rodrigo Sampaio - Acho muito importante. Como jornalista, vejo a mídia cada vez mais distante do carnaval. Vou citar um exemplo: este ano, fui convidado para o programa "Deles & Delas", e na mesa, o debate centrou em quem era a rainha da bateria, quem são as personalidades que irão desfilar e coisa e tal. O papel da Internet deve ser direcionado na divulgação dos eventos da comunidade, pesquisa de enredos, premiação e etc...
OBatuque.com - Além do carnaval e os trabalhos com a Internet, você também participou de projetos ligados ao futebol. Conte essa história e como é conviver o tempo todo com a criação de idéias?
Rodrigo Sampaio - Bom, tenho uma empresa de assessoria esportiva, a MEBF Brasil. Temos uma equipe que trabalha na captação de novos atletas. Gosto muito de futebol, mas confesso que todo o trabalho está nas mãos do meu sócio Edmilson Batista, o Maninho, lá do Fluminense. Eu só administro, até porque não daria tempo para tudo. Costumo brincar que trabalho nas três paixões do brasileiro: carnaval, futebol e mulher... (risos)
OBatuque.com - O que você mais pensa quando está elaborando um enredo? Na receptividade junto ao público, na satisfação de desenvolver um projeto pessoal, divulgar idéias ou assuntos que gostaria de compartilhar com as comunidades das escolas ou as pessoas em geral...?
Rodrigo Sampaio - Esta pergunta é muito boa. O grande problema do carnaval é a vaidade. O artista é contratado e logo passa por cima de uma história, que é a escola de samba. Procuro sempre adaptar o enredo à escola, porque não podemos descaracterizar a entidade. O cargo de carnavalesco vai sempre existir, as pessoas é que irão passar por ele. Claro que tem o lado de satisfação pessoal, mas isso é normal nas nossas vidas. Vejo esse lado como inspiração para procurar fazer o máximo. Quanto a divulgar idéias, isso depende do enredo que estamos apresentando. Existem temas que são mais sociais, outros não. Para o sucesso, a fórmula é a escola de samba. A comunidade tem que entender o enredo e absorver. Se isso não acontecer, acabou tudo. Veja o exemplo da Caprichosos de Pilares, que sempre teve uma linha de enredos, e com o passar dos tempos foi totalmente descaracterizada. Só falei da Caprichosos, mas tem outras também que estão fora do seu estilo.
OBatuque.com - Como programador visual, é difícil passar uma idéia do papel ou computador para o barracão? Qual é seu processo de trabalho?
Rodrigo Sampaio - Normalmente, temos que aproveitar a estrutura que a escola nos oferece. Desenho os carros me baseando na ferragem da escola.
OBatuque.com - Você acha justo o carnavalesco participar da escolha do samba?
Rodrigo Sampaio - O melhor samba para mim é o que o presidente escolher. Eles sabem o que é melhor para a escola. Se me perguntarem, aí é outra coisa.
OBatuque.com - Como você vê os enredos patrocinados?
Rodrigo Sampaio - Isso depende de como o trabalho é realizado. Veja a Rosa: ela pega uma idéia bancada e faz coisas maravilhosas, correto? Outros não...
OBatuque.com - Seu enredo é patrocinado?
Rodrigo Sampaio - Ainda não, mas a escola está tentando.
OBatuque.com - Mesmo trabalhando como auxiliar, você criou algum enredo ou ajudou a criar algum que tenha ido para a Avenida?
Rodrigo Sampaio - Não era assistente na Porto da Pedra, mas trabalhei na pesquisa do enredo "Serra acima, rumo à Terra dos Coroados", em 2002. Na Tradição, em 2005, desenvolvi os desenhos das alas, dos carros e a pesquisa do enredo.
OBatuque.com – Um momento marcante na Avenida?
Rodrigo Sampaio - Acho que os próximos serão. Na União, estou muito confiante, e na São Clemente o enredo me emociona muito, acho que vamos fazer um belo desfile.
OBatuque.com - Pois é, você também vai trabalhar na São Clemente, na comissão de carnaval. Gostaria que você falasse sobre esse trabalho e como surgiu essa oportunidade?
Rodrigo Sampaio - Bom, o Maninho, novamente ele, é diretor da São Clemente, e me convidou para apresentar um trabalho na escola. Levei um enredo que tinha um lado bem crítico e poderia, talvez, captar algum recurso com a história. O Roberto Gomes, disse: "O enredo é bom, mas a nossa linha para o próximo carnaval é outra". Mas como levei alguns desenhos desse enredo que eu apresentei, ele me disse que iria formar uma comissão de carnaval e que tentaria me encaixar nela. Foi assim que tudo começou. Quanto à oportunidade, estou ainda radiante. A escola é ótima, tem uma excelente estrutura. As alegorias são todas motorizadas e a agremiação vem para brigar. Isso sem falar na bela escolha do enredo.
OBatuque.com – Dos enredos que você ajudou a desenvolver, qual você acha que faltou algo, que poderia ter feito mais, ou diferente?
Rodrigo Sampaio - O da Tradição. Faltou muita coisa. Foi o problema do patrocínio. A escola estava direcionada para uma estética. Achei que deveria ser feito de outra forma.
OBatuque.com - Dos enredos que já passaram na Avenida, qual você gostaria de desenvolver?
Rodrigo Sampaio - Acho que o enredo sobre a Elis Regina, em 1989, pela Mocidade: "Elis, um trem chamado emoção".
OBatuque.com - Existe algum enredo, ou tema, que o faça pensar "um dia levo isso para a Avenida"?
Rodrigo Sampaio - Vários.
OBatuque.com - Como avalia o Carnaval 2005, em relação ao desfile em geral?
Rodrigo Sampaio - Gostei muito. Só o resultado que eu contesto. Não é chorar, mas acho que a Tradição pagou por erros passados. Não merecia descer. Até porque a Portela infringiu vários itens do regulamento. Mas isso não é assunto para carnavalescos.
OBatuque.com - Como você definiria o Rodrigo Sampaio?
Rodrigo Sampaio - Sou dedicado em tudo que faço. Primeiramente, faço por amor, acho que o dinheiro é conseqüência.
OBatuque.com - Um enredo?
Rodrigo Sampaio - "O Círio de Nazaré"...
OBatuque.com - Um samba-enredo?
Rodrigo Sampaio - "O Círio de Nazaré"...
OBatuque.com - Um carnavalesco?
Rodrigo Sampaio - Mauro Quintaes.
OBatuque.com - Uma escola?
Rodrigo Sampaio - Salgueiro.