UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

07-06-2005

Entrevista
Aroldo Melodia

Por Daniel Duarte

Nome: Aroldo Forde. Nascido em 1930 na Ilha do Governador, no bairro do Cacuia, reside há 22 anos no Conjunto Tijolinhos, no Cocotá. No mundo do samba e na MPB em geral, é o consagrado cantor e compositor Aroldo Melodia, eterna voz da União da Ilha, dono do famoso "Segura a marimba!" que anunciava a entrada da alegre e comunicativa escola insulana na Avenida.

Aroldo teve sete filhos, sendo que um deles, Aroldão, faleceu na porta da agremiação, vítima de um atropelamento. Outro, Ito, segue honrando o talento e o nome do pai, hoje como intérprete oficial da União da Ilha. São vários netos e quatro bisnetos.

Depois de dois derrames, duas cirurgias e um infarto recente, em meados de abril, Aroldo, que teve alta em 4 de maio último, se recupera em sua casa, ao lado da companheira Birinha, como afetivamente trata Dª Ubiraci. E foi em sua casa que Aroldo Melodia recebeu a reportagem de OBatuque.com.

OBatuque.com – Como foi sua infância no bairro da Ilha do Governador?
Aroldo Melodia – Na infância a gente brincava muito e eu gostava muito de pular nos bailes de carnaval. Aqui na Ilha tinha os bailes e só fui convidado pra União da Ilha depois de conseguir me profissionalizar.

OBatuque.com – Na sua família havia pessoas ligadas ao samba, músicos, artistas....
Aroldo Melodia – Minha mãe era doméstica, mas meu pai, que era estivador, gostava muito de música. Pra ele, era como se fosse músico, mas profissionalmente não, porque naquele tempo a música não remunerava nada. As pessoas faziam porque gostavam e ele todo ano botava um surdo nas costas e saía pela rua a baixo. Eu mesmo nunca pensei em ser sambista. Mesmo quando comecei a compor para a União da Ilha, não pensava em ser cantor.


OBatuque.com – Como era sua participação no carnaval do bairro?
Aroldo Melodia – Eu vivia muito no Booggie-Woogie, morro que tem atrás da atual quadra da União da Ilha. Lá,com os parceiros Ademar e Nelson Pequenininho, fundamos o Bloco Paraíso Imperial, que desfilava no Cacuia junto com o Bloco Império da Ligação, o Boi da Freguesia .... E esse Bloco que fundamos era no Cacuia mesmo, mas não tínhamos filiação, não.

OBatuque.com – Como foi sua ida para a União da Ilha?
Aroldo Melodia – Teve um dia que a gente estava lá na Ribeira, que na época era o ponto de bate-papo da rapaziada, e apareceu o Paulo Amargoso. Isso foi em 58. Ele chegou e falou "Vamos lá pra União da Ilha, rapaz" e eu disse que tinha o nosso bloco de samba e estava tudo bem. Mas Paulo disse que era aquela coisa de uma escola só, que era a União. Que eu ia pra lá ajudar e esse negócio todo, e eu disse a ele que ia pensar. No mesmo dia, eu subi o morro direto e encontrei com o Ademar e o Nelson, os dois já falecidos, e falei que o Paulo tinha chamado pra ir para a União. Eles disseram que era uma coisa pessoal, que só eu podia decidir, e, então, disse que ia para a União da Ilha, que ia lá pra ajudar também. Naquela época, na União tinha poucos instrumentos, os instrumentos foram emprestados para a escola e ficamos lá.

OBatuque.com – Como foi esse primeiro ano na União?
Aroldo Melodia – Foi em 58, foi muito bom. Tive uma surpresa que Deus me deu, essa é minha referência que eu guardo até hoje, sou forte porque guardo. Então recebi logo um posto como cantor. Naquela época, nós éramos cantores, crooner, intérpretes, só nome bonito. Só não tinha retorno financeiro e eu fui tudo isso pela União da Ilha. Tanto que conheci todos os estados do Brasil pela escola, conheci várias cidades do país.

OBatuque.com – Como foram os trabalhos em discos feitos na época? E que música lhe deu maior satisfação em cantar?
Aroldo Melodia – Eu gravei alguns discos, LPs, compactos, tudo nessa época dos anos 60, 70 e 80. Eu gostei muito de gravar uma música chamada "Moça Bonita", era um samba no qual me inspirei numa menina que estava presente em todos os eventos em que eu ia. Fiz junto com o L. Harmonia, Zezé e o Clebinho, meu filho.

OBatuque.com – O que o senhor gostava mais de fazer? Gravar os sambas dos seus discos ou os sambas-enredos da escola?
Aroldo Melodia – Eu gostava muitos dos sambas dos discos, dos shows e o samba-enredo tinha muito aquela coisa do dever, da obrigação. Eu era radicado na escola e cantava com muito orgulho os sambas. Gostava muito também de cantar em serestas.

OBatuque.com – Como era o retorno financeiro na época?
Aroldo Melodia – Eu sempre vivi da minha profissão. Era funcionário público do município e hoje sou aposentado. É essa renda que me segura hoje em dia. No samba-enredo não dava dinheiro nenhum quase. O que às vezes dava era pra defender um troco com os shows. Tinha que viajar. Muita gente fez antes de mim, outros passaram a fazer depois, mas eu tenho um companheiro que muitos não conhecem na Ilha. Eu conheço porque trabalhei com ele e o cara é legal. É o Jamelão. Ele é legal, é humano, não é nada disso que a mídia fala por aí.

OBatuque.com – Fala um pouco sobre a Ala de Compositores da escola.
Aroldo Melodia – Essa história é muito grande, vai até me cansar de falar, mas eu vou falar. A Ala de Compositores é uma criação minha, eles de repente não vão assumir isso, não, mas realmente foi. Quando eu cheguei na escola, no final da década de 50, início de 60, o número era muito pequeno de compositores. Só tinha dois pares de compositores. Didi, Aurinho, Mundinho e Brasília e não tinha cantor fixo. Não lembro bem o ano, não se tinha muito interesse, até porque não tinha dinheiro como se tem hoje e o Paulo Amargoso, que era o presidente, não quis se candidatar, e deixou com o Orfilo, o Altair e alguns outros. Ele convidou um amigo, que era também estivador, que aceitou e assumiu a presidência. A primeira pessoa que procurou para conversar sobre a escola fui eu. E ele queria saber por que tinha uma política toda braba pro meu lado. Eu disse que não tinha nada a ver com isso e que continuava a ser o Aroldo Melodia. Mais à frente chegou um compositor da Colônia de Pescadores e, no final das contas, eram só sete compositores, se não me engano. Já tinha alguns anos na escola e todo ano eles ganhavam o samba, Aurinho e Didi. Um dia lá cismei, cheguei pra Leôncio e falei "Vamos escrever?". Fizemos um samba para o Bloco Guerreiros, também do Cacuia, e viemos fazer samba para a União. Na época eu tinha um projeto de cada um escrever o samba e apresentar na hora, pra evitar o que se chamava de "samba de escritório". Quem levantou essa lebre foi o Davi Corrêa, isso já existia muito anos atrás. De mim ninguém pode falar, porque eu sempre fui correto com isso.

OBatuque.com – E como foi a homenagem da Ala de Compositores nos 50 de carreira e nos 50 anos da União da Ilha?
Aroldo Melodia – Isso eu gosto de agradecer de público, toda vez que eu falo da festa, ao Almir da Ilha, ao Carlinhos Fuzil e a todos os integrantes atuais da Ala, principalmente porque havia uma dificuldade muito grande para trazer as pessoas que eu gostaria que estivessem na festa, que era o Jamelão, o Neguinho da Beija-Flor e muitos outros, e eles conseguiram. Muitos senhores, senhoras, amigos, até porque muitos me julgam como um cara prepotente, orgulhoso e isso não tem nada a ver, cara. O que eu não consegui na União, eu consegui lá fora, nas outras escolas. Eles não podem esquecer que eu coloquei a União no primeiro grupo, isso eles não podem me tirar.

OBatuque.com – Qual o momento mais marcante que o senhor viveu na Avenida? O samba-enredo que mais mexeu com sua emoção?
Aroldo Melodia – Foi "Domingo" (1977). Isso não tem como ser diferente. A própria mídia diz isso e volta e meia passa alguma coisa sobre aquele ano. O meu samba não poderia ser ("Lendas e festas das Yabás", 1974), que foi antes, ainda no grupo de baixo, não tem mais graça. Eu é que forço barra pra cantar na quadra. Agora, tem um samba que ninguém pode tirar nunca. Na escola não pode deixar de tocar nunca, que é o hino "Azul, Vermelho e Branco".

OBatuque.com – Desde 1995, último ano em que cantou na Avenida pela escola, o senhor vem acompanhando os desfiles ou em cadeiras de rodas ou em carros alegóricos. Como é esse momento? A emoção ainda é a mesma? Ainda vale o prazer do desfile?
Aroldo Melodia – A emoção é a mesma, sim, ou até maior. Porque o que a gente vê é o reconhecimento do público, nem da descola, dos diretores, mas do público. Este ano eles fizeram uma paródia, que era assim: "Aroldo, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!". Isso emociona muito, é como gratidão ao trabalho que a gente fez.

OBatuque.com – Dentro da escola o senhor sente falta desse reconhecimento?
Aroldo Melodia – Eu nunca fiquei sem desfilar pela escola, mesmo de cadeira de rodas. Teve uma vez que eu me senti muito mal. O carnavalesco era o Milton Cunha, que eu gosto muito como pessoa. Não gosto do trabalho dele, mas como pessoa gosto. Numa noite de quadra cheia, umas 8 mil pessoas, anunciou “senhoras e senhores, uma notícia de última hora trazida pela diretoria. Aroldo Melodia e Ito Melodia não são mais os crooners da escola. Isso porque eu quero um cara com uma voz mais aguda .....". Isso foi uma. Segunda: teve um ano, eu trouxe um parceiro de Manaus pra cá. Fizemos o samba e eu deixei um garoto meu cantando na quadra e fui defender um trocado, acho que na Rocinha. Quando cheguei na escola, meu garoto falou que o samba foi cortado porque eu não estava na quadra. Falei pro meu filho que já estava acostumado com isso e a gente vai perdendo o prazer aos poucos.
Dª Ubiraci, que acompanhava a entrevista, fez questão de completar a resposta de Aroldo. "Eu só acho triste é que o Aroldo sente a falta de atenção da escola, até mesmo durante as internações que teve. Ele teve dois derrames, um enfarte e duas cirurgias e praticamente ninguém o visitou. Tem essa coisa da ajuda, mas o que mais faz falta é não ter o carinho e o respeito das pessoas. O Fumaça pagou uma das cirurgias, o Barbosão doou duas cadeiras de rodas, são pessoas que o visitaram em casa. A Dalila também veio aqui. O que mais me impressiona é essa paixão dele pela escola. Às vezes, ele não está bem, mas faz questão de ir desfilar, não fica de fora um ano sequer.

OBatuque.com – E por quais outras escolas o senhor teve a oportunidade de cantar? E como é cantar fora da sua escola?
Aroldo Melodia – Pra mim foi um prazer poder cantar na Mocidade, na Caprichosos de Pilares, na Unidos da Ponte e na Santa Cruz. Sempre que eu ia lá, deixava aqui coberto pelos meninos, mas eles não gostavam e me tiravam. A diferença é muito grande, principalmente na bateria, porque você vai cantar com outra orquestra. Mas como eles já me conheciam, ia tudo bem no final.

OBatuque.com – Como é ver seu filho, Ito, assumindo o posto de primeiro cantor na escola?
Aroldo Melodia – Isso é só o começo. Eu acho, é minha opinião, que meu filho vai sofrer a mesma coisa que eu sofri lá dentro. Isso me preocupa. O problema é que ele chegou um pouco tarde, não pegou essa fase que eu participava mais, viajava Acre, Belém, Brasília, Manaus, Santos, Bahia, eu viajei pra esses lugares todos. Então, perguntavam quanto eu queria, eu falava 10 e eles diziam 5 e eu respondia que tá legal. Mas isso tudo sem prejudicar o meu trabalho, eu nunca faltei um dia de trabalho no meu emprego do município. Isso eu sempre falo, pra ver sempre alguma coisa por fora.

OBatuque.com – Na nova geração de músicos e artistas da escola, quem o senhor aponta como revelação?
Aroldo Melodia – O Maurício Sem Pescoço, hoje Maurício Maia. Tanto como compositor, como cantor também.

OBatuque.com – O que o senhor acha do momento da União da Ilha? Vai voltar para o Especial?
Aroldo Melodia – Eu acho que volta, sim, estão lutando pra isso. Mas é uma luta muito diferente. Acho que não tem aquele carisma de sambista. Eu passei vários anos cantando no segundo grupo, até que demos sorte de botar a escola no primeiro grupo. E cada vez a briga é mais difícil.

OBatuque.com – Você quer lembrar de algumas pessoas que estiveram ao seu lado, que as tem com carinho?
Aroldo Melodia – Eu tenho que falar de Dª Ubiraci, que me ajuda e fica me empurrando de lá pra cá, até mesmo no samba e nos desfiles. Eu acho que a União precisa de um diretor musical, não tem um diretor musical. Se for uma pessoa com conhecimento, vai ajudar muito. Corrigir as letras e tudo mais. Agora que estão inventando aí nas escolas de samba o profissional de música pra ensinar música. Mas pra mim, não vai ensinar o cara a cantar. Você canta como sabe, com naturalidade, porque Deus te deu condições de cantar bem.

OBatuque.com – Aroldo, deixa uma mensagem para seus admiradores no mundo do samba.
Aroldo Melodia – Eu quero deixar uma grande lembrança a todos que me consideram. Senhoras, senhores, rapazes, crianças, porque eles me deram uma satisfação muito grande durante esse tempo em que estive dentro da União da Ilha. Eu tinha uma maneira de falar, de tratar. Eu peço desculpas às pessoas para as quais fui rude, porque rude eu sei que sou. Mas isso era uma maneira que eu tinha de desabafar meu coração. Tem coisa que você não pode guardar. Eu recebia convites em casa pro Chacrinha, pra Xuxa, mas nem a condução eles me davam.

OBatuque.comOBatuque.com o parabeniza pela brilhante carreira, deseja plena recuperação de saúde e agradece por nos ter recebido em casa.
Aroldo Melodia – Obrigado a vocês por terem vindo aqui e quando quiserem é só voltar.



Alguns dos troféus recebidos por
Aroldo Melodia ao longo de sua vitoriosa carreira



Troféu Jamelão, com o rosto
do intérprete mangueirense



Ao lado do grande amigo Jamelão:
"Tenho um companheiro que muitos não conhecem na Ilha. Eu conheço porque trabalhei com ele e o cara é legal. É o Jamelão. Não é nada disso que a mídia fala por aí."



Com Birinha no desfile
da União da Ilha no Carnaval 2005



Ao lado do filho Ito Melodia


Em fevereiro de 2005, ao lado de Paulo
 Amargoso e do atual presidente da Ala de
 Compositores da União da Ilha, Carlinhos Fuzil


Na Festa dos Campeões da escola em 2004 em
 homenagem a Aroldo Melodia, a quadra da
Ilha encheu para louvar seu baluarte



Aroldo Melodia e sua arte

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