SÃO CLEMENTE

11-11-2005

Entrevista
Érica Duarte
Porta-bandeira

Fotos: acervo pessoal de Érica Duarte

Estudante de Psicologia da Faculdade Veiga de Almeida, na Tijuca, nascida em Jacarepaguá e moradora do Centro da cidade, filha de Maria do Carmo Teixeira e Carlos Duarte, Érica Renata Teixeira Duarte conta em entrevista ao OBatuque.com um pouco de sua história, sua passagem pela Unidos de Lucas, Vizinha Faladeira e a alegria em estar na São Clemente como segunda porta-bandeira.

OBatuque.com - Quando começou no mundo do samba?
Érica - Comecei assistindo aos ensaios da Vizinha Faladeira, aos nove anos de idade. Nesse mesmo ano desfilei na ala mirim da escola e gostava de assistir aos casais de mestre-sala e porta-bandeira. Aí falei pra minha mãe: “Eu quero dançar assim também”. Minha mãe perguntou para elas como é que era, e elas indicaram o projeto do Manoel Dionísio. Com 10 anos fui pra lá. Comecei como porta-bandeira mirim da Vizinha. Morava no bairro e ainda conhecia as pessoas da escola. Depois disso me chamaram para ser 2ª porta-bandeira da Cabuçu (1999) e no mesmo ano 1ª da Unidos de Lucas, no ano do Osmar Valença. As duas estavam em grupos diferentes. Permaneci nessa posição por dois anos. No ano seguinte, fui primeira da Cabuçu. No outro ano, fui pra Vizinha e lá fiquei por quatro anos. No meu primeiro ano, a escola subiu do Grupo de Acesso B para o A.
Quer dizer: com a responsabilidade mesmo de dar nota pra escola, minha estréia foi na Unidos de Lucas. Pena que a Rio Branco é pequena, quando você vê já acabou o desfile e dá vontade de voltar. (risos) Eu tirei nota máxima, a escola subiu nesse ano. Foi para o Acesso B. Minha estréia foi muito nervosa, mas fique muito feliz.


OBatuque.com - Como você encara essa responsabilidade de ter que dar a nota máxima para a escola?
Érica - Eu penso assim: treino o ano inteiro, eu e meu parceiro. Não sei quantas horas no total, mas são três horas por dia, três vezes por semana, com alguém filmando pra ver se me corrijo. Chega na hora, é como uma prova, tem que mostrar tudo que treinamos. Não tem jeito, dá nervosismo, dá dor de barriga, mas eu faço uma concentração. Fico pensando no lado positivo, que vai dar tudo certo. Tem gente que reza. Roda a escola inteira. Eu não. Eu fico ao lado da bateria me concentrando. É uma responsabilidade enorme. Você pode derrubar uma escola, assim como pode, também, levantar uma escola.

OBatuque.com - Chegou a treinar com cabo de vassoura?
Érica - Cheguei. Também utilizava aquelas bandeirinhas que as torcidas levam pro samba. Amarrava no cabo de vassoura e começava a treinar que nem uma louca em casa. Minha avó ficava olhando e falava: "Cuidado! Olha o lustre! Vai quebrar tudo!" Mas não quebrei nada, não. Treinei muito em casa e depois no próprio projeto do Manoel Dionísio, todos os sábados, das 14h às 18h.

OBatuque.com - Como funciona o curso? Tem faixa etária?
Érica - Tem. A partir dos quatro anos de idade até os 80, se alguém quiser... O aluno paga R$ 10 de mensalidade e compra uma camiseta que custa R$ 12. Fica ali no Sambódromo, setor 3, junto ao Juizado de Menores.

OBatuque.com - O que mais a fascina na dança da porta-bandeira?
Érica - Primeiramente, as roupas. Eu achava linda aquelas roupas, com saia rodada, cheia de brilho... Depois, a própria dança. Todo mundo pára ao seu redor pra te observar. Eu sempre gostei de dançar, mas nunca fiz balé, dança ou outra atividade, então eu vi uma oportunidade de realizar um desejo.

OBatuque.com - Vocês falam muito em treinamento. Por que vocês não ensaiam com uma fantasia?
Érica - Às vezes a fantasia fica com a escola. Não é fácil se locomover com ela. Tem gente que ensaia com a anágua, a parte de baixo, que é a base. O material é muito grande. Tem muita roupa para levar pra um ensaio. Tem fantasia que pesa 30 kg.

OBatuque.com - Vocês fazem algum treinamento para suportar esse peso?
Érica - Não. Eu faço no próprio projeto do Dionísio. Eu ensaio muito. Não deixa de ser uma ginástica. Além do mais, lá existe preparador físico, que faz alongamento nos alunos.

OBatuque.com - Quantos quilos uma porta-bandeira perde, em média, num desfile?
Érica - Não cheguei a me pesar, mas fica em torno de três a quatro quilos. Este ano, a fantasia pesava 20 quilos. Com a chuva, que não parou um minuto, chegou a pesar 40 quilos. A chuva me atrapalhou muito.
No meu primeiro ano na Vizinha, a minha fantasia era de canudos. Toda feita de canudos de refrigerante. Era levíssima. Foi no ano do Paulo Barros. Eu participei muito da confecção dessa fantasia. Fiquei em pé várias horas, porque ela foi montada canudo a canudo. Levou dois dias pra ficar pronta. A fantasia não dobrava, teve que ser transportada no caminhão da bateria.
No ano seguinte, eu vim de bruxa com chifres. Houve muita gozação. Bruxa com chifres e vai por aí. Meu
namorado também foi muito sacaneado. Cheguei a sugerir pra não colocar os chifres, mas não houve jeito. Todo mundo falava: "Tá dentro do enredo!". Aí eu respondia: "Nunca vi bruxa de chifre". Mas foi uma gozação muito sadia. Tudo em nome da arte. Acabei saindo com chifre. Foi um sucesso. Duas notas 10. A escola subiu do B para o A. Choveu à beça. As plumas me atrapalharam. A Ruth, que hoje está na Vila, que me conduziu, me deu a maior força. Se você pegar o vídeo, vai ver que eu chutava a fantasia. A frente arriou. Estava parecendo um pinto. A Ruth falava que faltava somente um pouquinho. Mesmo que tivesse que voltar, eu voltaria. Fiz com muita garra. Minhas notas foram complicadas. Perdi seis décimos.

OBatuque.com - Daí você foi dispensada?
Érica - Foi muito complicado. Acabou o carnaval, teve reunião e eu continuei a ser a porta-bandeira. Há dois meses, uma senhora do Conselho Deliberativo me ligou e me pediu a bandeira, sem me dizer o porquê, e eu também não perguntei. A escola é deles, a rua é minha. Agora eles estão com o casal que está dando essa polêmica toda.

OBatuque.com - A polêmica é com seu nome.
Érica - Também. Eles estão criticando os dois casais, o atual e o anterior, que era eu. Eu não entendo é que eu estou fora da escola há algum tempo e ainda continuam me criticando.

OBatuque.com - A que você atribui essas críticas?
Érica - Não sei. Não faço a menor idéia. Acho que as pessoas acharam que a culpa era minha porque a fantasia me atrapalhou. Acho que devem ter me culpado pela chuva. Como se eu fosse responsável por chover. Eu saí bem da escola. Saí com vários amigos. Não entendo porque estão fazendo isso comigo. Já fui à escola depois disso e me trataram muito bem. Falo com todo mundo.

OBatuque.com - Existe muita rivalidade entre as porta-bandeiras?
Érica - Existe, e muito. Tem um jogo de vaidades. Tem muita gente que sorri pra você e, depois que você vira as costas, o pessoal mete o malho. Mas não é só o casal, não. Tem no meio das passistas, rainhas de bateria... Tudo que envolve um posto de destaque acaba tendo inveja. É normal.

OBatuque.com - Você já presenciou isso?
Érica - Já. Mas prefiro não falar.

OBatuque.com - Quanto ganha uma porta-bandeira?
Érica - No Grupo Especial, R$ 1.200,00. Dependendo da escola. Tem escola que paga menos. Nos Acessos, tem porta-bandeira que não ganha nada, faz por amor mesmo.
De certa forma, isso até é legal, pois ainda existem aqueles que desfilam somente por amor à escola. No fundo, no fundo, todo mundo quer estar lá.


OBatuque.com - Na São Clemente, você é segunda. Como aconteceu essa história?
Érica - Eu já estava sem escola, aí o Renatinho me fez o convite para ir à São Clemente dançar pra ver como eu dançava, já que a escola estava sem a segunda. Fiquei meio receosa, mas aceitei o convite. Meu negócio é estar na Avenida. Não conhecia o Marcelo. Acabou que parecia que dançávamos há anos. O Renatinho adorou e me convidou pra desfilar. O primeiro casal, Daniele e Marcelo, foi superamoroso comigo. A gente ensaia uma vez por semana, durante quatro horas, pra fazer bonito na sexta-feira. O Renatinho vai abrir a quadra duas vezes por semana pra gente ensaiar mais, pois é muito importante o papel da segunda porta-bandeira. Eu já substitui a Lucinha na Cabuçu. A roupa dela não ficou pronta e eu tive que vir como primeira. A minha chegou aos frangalhos, mas chegou. Fique supernervosa.

OBatuque.com - Quem mais a apoiou?
Érica - Meu pai e minha mãe. Mas eu quis pegar um pouco de cada uma. Peguei um pouco da Ruth, Marcella, Ana Paula, Lucinha Nobre...fora o sorriso lindo da Selminha, que é inigualável.

OBatuque.com - Como você vê a situação da Maria Helena, que passou mal quando viu a nova porta-bandeira bailando com o pavilhão que ela defendeu por muito tempo?
Érica - Eu acho a Maria Helena um baluarte. A nota 10 não é fácil. Hoje, não basta somente o nome. Tem que se superar. Acho que ela merece uma bela homenagem. Aí, sim, ela pode sair da escola de cabeça erguida. É uma dor tremenda ver outra pessoa com o pavilhão. Eu acho que desmaiaria, também.

OBatuque.com - Qual é o tema da sua fantasia para 2006?
Érica – "A fome e a fartura". Gostaria de enfatizar isso. Fui muito bem recebida pela São Clemente. A comissão de carnaval está sendo muito legal comigo. Logo que cheguei vieram me mostrar a fantasia, que está linda.

OBatuque.com - Você dá sua opinião na confecção da fantasia?
Érica - Sim. É bom, pois às vezes o esplendor não dá pra pessoa levantar o braço e aí a gente corrige. O cara tá criando, ele é que tem que desenhar a fantasia, mas um toque ali é bom. Eu costumo dar opinião, mas sempre respeitando o desenho do carnavalesco.

OBatuque.com - A justificativa dos jurados, às vezes, é a mais absurda. Este ano um casal, ao ser avaliado, recebeu a seguinte justificativa: "O casal não fez o pas des deux". Tem que fazer "pas des deux"?
Érica - Não. Isso não existe. Temos que dançar com graça e elegância. Já recebi uma justificativa do tipo: "Parabéns! O casal foi maravilhoso!". Nota 9,9. Uma coisa não condiz com a outra. Eu acho que tem que ser um jurado formado em dança, e não um artista, um jogador ou escritor.

OBatuque.com - Seu estilo é clássico ou mais samba?
Érica - Eu sou mais samba. As pessoas que têm o estilo mais clássico, geralmente, são bailarinos.

OBatuque.com - Um samba que você gostaria de ter bailado na Avenida?
Érica - "Os Sertões", da Em Cima da Hora. Esse samba é lindíssimo. E "Kizomba, festa da raça" da Vila Isabel.

OBatuque.com - Na voz de quem?
Érica – Wantuir, da Unidos da Tijuca.

OBatuque.com - Com que mestre-sala?
Érica - Gosto muito do Marcelo, que é meu parceiro. O Bira, que dança com a Lucinha, também é excelente. E o Rogerinho.

OBatuque.com - Em que escola?
Érica - Na São Clemente.

OBatuque.com - Muito obrigado pela entrevista.
Érica - Eu é que agradeço. Gostaria de agradecer muito à São Clemente pela oportunidade que me deu. Estou muito feliz. E para aquelas que estão começando agora, que querem ser porta-bandeira, tem que gostar muito e se dedicar e assistir a um vídeo da Vilma Nascimento, para ver o que é uma porta-bandeira.
 


Clique aqui e leia a sinopse do enredo e a letra do samba da São Clemente para o Carnaval 2006!


Érica e Marcelona São Clemente


Vizinha Faladeira - 2004


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Vizinha Faladeira - 2002


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