Entrevista
Diego Mendes,
jovem compositor
do samba-enredo 2005
OBatuque.com -
Nome completo, idade, onde nasceu?
Diego Mendes - Diego Martins Mendes, 24
anos, Rio de Janeiro.
OBatuque.com - Formação?
Diego Mendes - 2º Grau.
OBatuque.com - Trabalho fora das escolas de
samba?
Diego Mendes - Desde 1997 com eventos, e
em abril entrei para o Comitê Olímpico Brasileiro.
OBatuque.com - Quantos anos de carnaval?
Diego Mendes - Vivendo ele no seu
dia-a-dia, desde o Carnaval 2000.
OBatuque.com - Como foi o caminho até o mundo
do samba? Quais seus primeiros passos?
Diego Mendes - Sempre gostei de ouvir
samba, não podia ouvir a bateria que ficava arrepiado,
herança da minha mãe que, quando era pequeno, com
menos de 10 anos ia para os ensaios da São Clemente na
antiga sede do Botafogo, em frente ao Mourisco.
Depois, trabalhando na Federação de Beach Soccer do
Estado do Rio de Janeiro, conheci o Renatinho, hoje
presidente da São Clemente. Comecei através dele a
conhecer as pessoas da escola e em 2001, tocando
tamborim, conheci o Alexandre Araújo, que me chamou
para escrever um samba para o Carnaval 2002, junto com
o Rodrigo (outro irmão), Ivan e Leandro. Achei uma
maluquice, mas topei, tendo certeza que não ia dar em
nada. Fizemos um samba muito bonito (mas bem longo
também) que nos levou à final da São Clemente, em
nosso primeiro ano de disputa. Daí para frente foram
mais três sambas, três finais, e duas vitórias (2003 e
2005), nesta última com a entrada na parceria do
Júnior Duarte (grande intérprete), Eugênio Leal (da
Rádio Tupi) e Armandinho do Cavaco. Logo após a nossa
primeira disputa entrei para uma lista de discussão na
Internet (Palácio do Samba) onde conheci muita gente,
e essa lista deu origem a outra, ao Monarcas do Samba,
onde através das pessoas fui conhecendo muita gente e
é dela que surgiram a maioria dos meus amigos de
samba. Para não citar todos, vou falar de um que
representa a lista, que é o Walkir.
Gosto muito de ajudar no que puder, se precisar de
ajuda para empurrar o carro até a Avenida, eu vou. Se
precisar para fazer outra coisa, eu faço. Tenho muita
vontade de ajudar e aprender. Gostaria de poder fazer
mais coisas, mas não tenho muito tempo por causa do
trabalho, mas se tudo der certo, em breve, vou poder
me dedicar mais à São Clemente.
OBatuque.com - O que mais o atrai como
compositor nas escolas de samba?
Diego Mendes- A felicidade de ganhar um
samba.
OBatuque.com - O que você não gosta em uma
disputa de samba-enredo?
Diego Mendes - A única coisa que não me
agrada em uma disputa de samba-enredo é o
comportamento de algumas pessoas que fazem de um
concurso uma grande guerra. Você é amigo do cara o ano
inteiro e quando começa a disputa, começa a palhaçada.
Tem “diretor” que, como prefere outro, deixa de falar
contigo, é outro compositor que não fala contigo pq
você é "adversário". Eu prefiro fazer da disputa uma
grande brincadeira, às vezes entro na torcida de
sambas concorrentes do meu, e não vejo problema nisso.
Se são meus amigos e estão concorrendo, ajudo mesmo.
Para brincar durante a disputa, já me fantasiei de
várias coisas: boi voador, galinha, presidiário, tribo
maresia... Esta foi a pior, era uma tanguinha com bóia
de patinho na cintura, bóia de braço, máscara de
mergulho, cocar e pé-de-pato, nesse dia caiu um
temporal e inundou o Boqueirão, minha fantasia veio a
calhar.
OBatuque.com - E qual seria a grande recompensa
do compositor de samba-enredo?
Diego Mendes - Justamente essa,
principalmente se esta vitória for em sua escola de
seu coração. Quando você faz a curva e entra na
Avenida ouvindo o seu samba, não tem nem o que fazer.
OBatuque.com - Como se sente um compositor
quando ganha pela primeira vez um samba e vê esse
samba eternizado?
Diego Mendes - A felicidade de ganhar um
samba é enorme, e a de vê-lo eternizado deve ser maior
ainda. Nosso samba de 2003 não era um samba
excepcional, era um samba que falava do enredo com um
pouco do bom humor típico da São Clemente. Fizemos o
que podíamos, numa homenagem à Mangaratiba. O samba
vai ficar na história da São Clemente, não só pela
qualidade, mas por ter dado a ela mais um título no
Acessa A.
OBatuque.com - Havia alguém que admirasse e
cuja obra servisse de exemplo, espelho ou inspiração?
Diego Mendes - Dentro da São Clemente,
sempre admirei os sambas do Helinho 107, Ricardo Góes,
Filé e Naldo, que ganharam vários sambas na escola; da
parceria do Eugênio com o Fabinho, Índio e Paulo
Renato.
OBatuque.com - Como você definiria seu estilo
de samba-enredo?
Diego Mendes - Alegre, irreverente e,
acima de tudo e mais importante quando você faz uma
crítica, inteligente.
OBatuque.com - Como você vê a situação atual
dos samba-enredos, em relação à qualidade?
Diego Mendes - Existem muitos samba
bons, alguns ganham, outros perdem, às vezes até para
samba piores, mas acho que as escolas não têm do que
reclamar. Muitas direções entregam a sinopse falando
que querem um samba mais cadenciado e no final ganha o
mais “pula-pula”. O Satu, uma grande pessoa que anda
meio sumida do carnaval, fez um samba maravilhoso para
a Arrastão de Cascadura em 2003, daqueles que mesmo
depois de perder você guarda o CD e ouve sempre, não
ganhou, mas me marcou, assim como muitos outros belos
sambas que foram desperdiçados. Claro que tudo não
passa de opinião pessoal.
OBatuque.com - E como é seu processo de compor
a partir da idéia de um carnavalesco, de um enredo?
Diego Mendes - Para a São Clemente acaba
sendo mais fácil para a gente, pois já sabemos os
“limites” da escola, e com o Milton fica mais fácil
ainda por que ele tem a cara da escola. Difícil é você
ter que fazer um samba em um estilo diferente do que
está acostumado, ou em cima de um enredo ruim ou mal
escrito.
OBatuque.com - O que você mais pensa quando
está compondo? Na receptividade junto ao público, no
atendimento ao enredo...?
Diego Mendes - Primeiro no entendimento
do samba frente ao enredo pela direção da escola e
pelo júri (no caso de vitória), depois na
receptividade.
OBatuque.com - Além da São Clemente, por quais
escolas você já compôs?
Diego Mendes - Já compus para a Rocinha
e Imperatriz, escola onde pretendo continuar, pois foi
uma disputa das mais justas que já vi, pois não era
nem o intérprete, nem o compositor, muito menos a
torcida que faziam com que um samba fosse cortado, e
sim a qualidade dele. Quando fomos cortado, eram sete
sambas, três que na minha opinião já estavam na final
e quatro brigando por uma vaga. Nos apresentamos bem,
mas sem muita empolgação, enquanto nossos concorrente
passaram muito bem, fomos cortados com justiça.
Inclusive, gostaria parabenizar o Wagner Araújo e o
Cigano, presidente da Ala dos Compositores. Falando
nisso, vários presidente de ala merecem os parabéns
por seu trabalho, entre eles o Marquinhos, da ala da
Rocinha, pessoa boníssima.
OBatuque.com - A Liesa liberou as escolas para
reeditarem antigos enredos que tiveram grandes sambas.
Como você, particularmente, acompanhou essa questão?
Diego Mendes - É uma questão que gera
muita discussão. Por um lado é bom, mas o chato é que
falam que samba antigo é que é bom, e se você faz um
samba desse e entra num concurso, hoje, cai no 1º
corte.
OBatuque.com – Os Sertões e Aquarela Brasileira
cairiam, na sua opinião?
Diego Mendes - Lógico que ninguém pode
afirmar isso, mas que com certeza ia ter muita gente
sacaneando "Aquarela", falando do refrão que só tem
LA-RA-LA-RA... Acho que estamos acostumados com um
modelo de samba e quando aparece um samba diferente a
maioria ja condena a obra. Nos últimos anos na
Imperatriz, a parceria do César Som Livre e do Eduardo
Medrado fez sambas bem diferentes, alguns não
gostavam, eu adorava. Este ano tivemos uma batalha
direta entre os dois estilos, o samba do Luiz Carlos
da Vila contra o do André Diniz. A direção da Vila
Isabel optou pelo "atual". Não estou dizendo que foi
uma decisão errada, mas será que as escolas não têm
medo de "inovar", ou de sair do modelo de
samba-enredo? Se um dia uma escola inovar e der certo,
acho que várias outras vão seguir o caminho. Até lá,
muitos sambas podem ser desperdiçados.
OBatuque.com - Que intérpretes gostaria de ver
cantando um samba seu?
Diego Mendes - Lógico que ter alguns dos
melhores intérpretes cantando um samba seu é sempre
bom, um Rixxa, Wantuir, Daniel Collete (Mocidade
Alegre)... Mas temos uma equipe boa e jovem. O Júnior
Duarte (Cubango), Maurício Poeta (Villa Rica) e Igor,
que é um garoto de 17 anos e que deve vir este ano na
Sossego.
OBatuque.com - Qual foi seu momento mais
marcante na Avenida?
Diego Mendes - O desfile de 2003, com
nosso samba.
OBatuque.com - Houve algum enredo para o
qual lhe tenha dado especial prazer compor?
Diego Mendes - São Clemente 2004 e 2005
e Imperatriz 2005.
OBatuque.com - E há algum enredo para o qual
que preferiria não ter trabalhado? Ou, nesses casos,
você não participaria do concurso?
Diego Mendes - Rocinha 2003.
OBatuque.com - Houve algum enredo para o qual
você gostaria de ter composto, mas não era sua escola
que o estava desenvolvendo?
Diego Mendes - Vários.
OBatuque.com - Um samba-enredo?
Diego Mendes – “Os Sertões” (Em Cima da
Hora), “O Samba Sambou” (São Clemente), “Heróis da
Liberdade”, “Brasil com 'Z' é pra cabra da peste,
Brasil com 'S' é nação do Nordeste” (Mangueira),
“Orun-Ayê” (Boi da Ilha), Tuiuti 2001, “Agudás: os que
levaram a África no coração e trouxeram para o coração
da África o Brasil!” (Unidos da Tijuca), “Aquarela
Brasileira” (Império Serrano).
OBatuque.com - Um compositor?
Diego Mendes - Aloísio Villar.
OBatuque.com - Um desfile?
Diego Mendes - São Clemente 2003.
OBatuque.com - Uma escola?
Diego Mendes - São Clemente.