Trabalhadores do Brasil

OBatuque.com | | 22 de maio de 2008 2:11

Carnavalesco: Alex de Souza

APRESENTAÇÃO

O G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel apresenta, para o Carnaval/2008, o enredo Trabalhadores do Brasil.

A escolha desse tema resgata os enredos engajados com temáticas sociais que a Vila levou para a Marquês de Sapucaí no final dos anos oitenta e início da década de noventa. Dentre esses temas ganham destaque Kizomba, Festa da Raça (1988-Vila Isabel Campeã); Direito é Direito (1989); e, Se Essa Terra, Se Essa Terra Fosse Minha… (1990). No carnaval de 2006, também com um enredo de cunho social, Soy Loco Por Ti América – A Vila Canta a Latinidade, a Agremiação conseguiu o segundo campeonato no Grupo Especial.

O enredo Trabalhadores do Brasil tem como questão central por fim ao mito da indolência nacional, segundo o qual o brasileiro é um sujeito preguiçoso, indolente e avesso ao trabalho. Ao chegar por essas terras, o homem branco se deparou com povos com uma cultura totalmente diferente da sua. Os nativos pescavam, coletavam, caçavam, teciam, entre outras atividades necessárias para garantir o seu auto-sustento. Esse fato levou o europeu a considerar o gentio um sujeito inerte, voltado unicamente para o ócio, incapaz de produzir riquezas. Essa visão eurocêntrica tem se mantido viva em nosso imaginário até os dias de hoje. O enredo, portanto, visa desmistificar esse ponto de vista errôneo que tem estigmatizado o nosso povo.

O trabalhador brasileiro será visto no enredo como sujeito ativo da sua própria história, não como um sofredor, um “pobre coitado”, um sujeito que a tudo aceita passivamente. Ao longo da história do nosso país, diversos foram os momentos que os trabalhadores se rebelaram e lutaram para conseguir melhores condições de vida e de trabalho. Nada lhes foi dado gratuitamente. Seus direitos foram conseguidos com base em muito conflito e negociação.

O G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel, ao celebrar o trabalhador brasileiro, as suas lutas e conquistas, estará investindo num tema impactante e de forte teor cultural, pois acreditamos que a cultura é capaz de modificar a vida das pessoas e a estrutura social em que vivemos.

SINOPSE DO ENREDO

O Brasil, outrora conhecido como Pindorama, foi o paraíso descoberto nos trópicos, terra de fartura, habitada pelos índios. Na chegada, os portugueses puseram os nativos a trabalhar, trocando madeira vermelha por objetos desconhecidos, que fizeram brilhar aqueles olhos ingênuos.

Não satisfeitos, os portugueses resolveram investir em outra atividade, mais rentável, o cultivo da cana-de-açúcar. O indígena vira escravo do trabalho e de uma fé imposta, que ora lhe protege, ora não. O índio se rebela! Utilizaram até de rituais mágicos aos quais os colonos chamaram de “Santidades Nativas” como forma de resistência. Era essa uma das formas de lutar contra a exploração.

Havia aqueles que por seu interesse em traficar negros da África, no lugar de escravizar os índios, criaram o mito de que esses eram preguiçosos, indolentes. Idéia que permaneceu no imaginário popular até os dias de hoje.

Os africanos resistiram ao trabalho forçado, trabalho que ajudou a construir as riquezas dessa terra. Embora seus senhores acreditassem que negro só trabalha debaixo da chibata. Seu espírito guerreiro e suas mais variadas formas de fé, o faz lutar contra os maus tratos. A exemplo dos Malês, que recorrem a Alá para fortalecer seu levante. Outra forma de rebeldia estava na formação de fortalezas, ou quilombos, onde o trabalho não se regia no açoite.

A classe dominante, que acusava índios e negros de preguiçosos, também era acometida do que diziam ser pecado. Acostumados a acreditar que o trabalho não é coisa pra gente de bem. Isso é coisa para pretos… Diziam. Aquarelas e gravuras do período joanino retratavam o cotidiano de mucamas, negros vendedores de flores, frutas, aves, etc. Os brancos eram transportados em redes; liteiras; cadeirinhas. Por muito tempo, o serviço braçal continuaria indigno e somente restrito às classes mais baixas, cujo suor garantiria o bom descanso das elites.

A partir da abertura dos portos às nações amigas, começaram a chegar os primeiros imigrantes. A imigração em massa foi a forma encontrada para substituir o trabalhador negro escravo. Na lavoura de café, trabalham em um regime semi-livre. Na cidade, parte deles ocupa espaço na indústria. A expressão “hoje é dia de branco”, que se refere a um dia de trabalho, surgiu da imagem construída do proletário imigrante, que de forma errada seria supostamente mais dedicado do que o brasileiro.

Os direitos dos trabalhadores, no início do século XX, estavam longe de serem reconhecidos. Movimentos grevistas eram duramente reprimidos. O operário se rebela! Anarquistas e socialistas, que provinham de grupos italianos e espanhóis, organizam movimentos de luta por melhores condições de trabalho.

Enquanto isso no campo, onde por longo tempo predominaram as fazendas de monocultura, o pequeno sitiante ficou a margem. Ali, predominou o trabalho escravo e, mais tarde, o de imigrantes europeus e orientais, deixando o caboclo em segundo plano. Acusado de provocar as queimadas, a “velha praga”, nosso roceiro foi comparado ao Urupê, um fungo parasita. Personificado na figura do Jeca Tatu, o caipira foi descrito como um ser pouco afeito ao trabalho. Mas, a ciência da época revelou os males do Brasil quais são. A negligência das autoridades era culpada pelo abandono da população rural.

Os primeiros movimentos dos trabalhadores urbanos foram passos importantes na realização de muitas conquistas. Ventos sopram do sul e trazem ao poder Vargas, que chamou para si a responsabilidade de criar os direitos trabalhistas, reunidos na CLT, direitos esses conquistados por anos de luta dos trabalhadores. Getúlio se tornou ainda mais popular com o programa de rádio a “Hora do Brasil” e nas comemorações de primeiro de maio (dia do trabalhador). Getúlio cria o trabalhismo, que surge como um braço político-partidário em resposta aos anseios do povo trabalhador.

Nos anos 30 e 40, fez-se a travessia do mundo rural com a migração, sobretudo nordestina, para o urbano e industrial, do centro sul. Desenvolvimento, progresso, palavras de ordem que seguiram seu curso nos dourados anos JK. Em seu programa de metas (50 anos em 5), merece destaque o incentivo à indústria automobilística e a criação de Brasília, cuja construção deveu-se principalmente à força dos chamados candangos, trabalhadores migrantes em sua maioria nordestinos.

No início dos anos sessenta, forças intersindicais reivindicaram melhoria das condições de trabalho. Esse movimento conquistou o 13º salário para os trabalhadores urbanos. Era também o tempo das reformas de base. E, os trabalhadores rurais exigiam reforma agrária. Com a aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, muitas ligas camponesas se transformaram em sindicatos rurais.

Em 1964, deu-se início aos “anos de chumbo”. Os trabalhadores ainda assim lutaram por melhores condições salariais e pela liberdade de expressão. Maior exemplo dessa rebeldia foi a greve operária do ABCD paulista no ano de 1978. Os metalúrgicos se rebelam, e cruzam os braços. Sua luta abre caminho para a redemocratização do país.

E, hoje revelamos o grande protagonista dessa história feita de lutas e conquistas, história que tem um começo, mas que certamente não tem um fim, já que as lutas continuam. O Brasil conquista seu espaço no mercado internacional, fruto do trabalho de homens e mulheres, que com sua dedicação e determinação, constroem esse imenso país.

Avante trabalhadores do meu Brasil, uni-vos nessa festa!!! Avante Vila Isabel!!! Alegria e paz!!! Que o rufar dos seus tambores sejam alavancas incentivadoras para as futuras conquistas e vitórias do povo brasileiro!!!

Carnavalesco: Alex de Souza
Autores do Enredo: Alex Varela (historiador)
& Alex de Souza
Revisão de Texto: Martinho da Vila

Samba-Enredo

Autores: André Diniz, Evandro Bocão, Pingüim, Professor Wladimir, Carlinhos Petisco, Dedé Aguiar, Dinny, Miro Jr, Carlinhos do Peixe e Eduardo Katata

É mais que um samba o que se criou
Um hino ao povo trabalhador
A louvação a nossa gente
Vista indolente, pelos olhos da ambição
Nativa cor que foi presente
Pintou as dores da escravidão
A resistência mudou de cor e renasceu
Com a força e a fé do negro
E ao quilombo ascendeu
Nosso ideal de liberdade
Cansado de ter nos ombros
Descanso do senhor, ecoou…

Que o brasileiro tem o seu valor!
Meu deus ajude o trabalhador! (bis)
E a imigração cruzou o azul do mar
Em nosso campo ver a vida melhorar

Voz de quem resistiu, a era Vargas ouviu
Consolidar nossas conquistas,
Em direitos trabalhistas,
Comemora quem tanto lutou
Tempo de industrialização,
Candangos, então, erguem Brasília
Sindicato consciente,
Terra para nossa gente cultivar democracia
“Avante trabalhadores de Vila Isabel”
“Quem faz a hora não espera acontecer”
Suor dessa gente, construiu esta nação
Verdadeiros filhos deste chão

Hoje é dia do trabalhador
Que conquistou o seu lugar refrão (bis)
E vai nossa vila, fazendo história
Pra luta do povo eternizar

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