Tem Boi na linha

OBatuque.com | | 21 de maio de 2007 23:19

Carnavalesco: Paulo Cavalcanti

SINOPSE

Alô! Se liga! O Boi da Ilha vem falar deste meio de comunicação que une as pessoas distantes; que traz conforto a saudade; que faz tudo ficar próximo.

O Boi da Ilha e sua irreverência pede passagem e quer brincar com esse meio de comunicação. Com alegria constante, a leveza e a sutileza para falar do telefone.

Começando lá nos primórdios, o homem das cavernas sentindo necessidade de se comunicar, descobriu que, gritando poderia ser ouvido à longa distância. Porém este mesmo homem, ser pensante e criativo, desenvolveu outros métodos de comunicação.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas ainda faltava alguma coisa. Algo mais eficiente. E, vieram os índios com seus tambores e sinais de fumaça… E, lá, ao longe, outros índios entendiam os seus sinais.

O tempo passou, a transformação do mundo tornava o progresso uma coisa atual. Não dava mais para pensar em fumaças e tambores para uma comunicação ideal. Mas o que era a comunicação ideal? Ou melhor, como seria esta comunicação ideal?

O escocês Alexander Grahan Bell e seu assistente Thomas Watson, faziam experimentos com um objetivo: emitir notas musicais através da eletricidade. Bell acreditava que transmitindo notas musicais conseguiria transmitir a voz das pessoas. Acidentalmente, Bell e Watson conseguem a transmissão da primeira frase por telefone: (“Mr. Watson come here, I need you” – Sr. Watson, venha aqui. Eu preciso de você!). E a partir daí, se liga, surge o telefone.

Neste mesmo ano, o nosso Imperador Dom Pedro II, visitando uma exposição em Filadélfia, exclama diante do telefone de Grahan Bell: “Meu Deus, isso fala!”.

Meses depois, é instalado no Rio de Janeiro o primeiro telefone do país.

Tudo que é novidade causa espanto e, às vezes, desconfiança, o telefone, como não podia deixar de ser, deixou as pessoas com uma “pulga atrás da orelha”.

Em terras tupiniquins tudo vira gozação, piada, brincadeira. É esta irreverência que o Boi da Ilha quer mostrar.

Dom Pedro II instalou o telefone. O povo se perguntava estarrecido: “Com quem o Imperador fala ao telefone, se só existe o seu?”. Provavelmente, esta mensagem chegara aos nobres ouvidos e,
para não ser chamado de louco, autorizou o funcionamento da primeira empresa de telefonia do Brasil.

No ano seguinte, foi comemorado, pela primeira vez, o Dia da Telefonista, em 29 de junho, dia de São Pedro. Isso porque São Pedro detinha as chaves do céu e elas, as telefonistas, detinham a chave da comunicação.

Com a popularidade do aparelho, em 1917, foi gravado o primeiro samba: “Pelo telefone”. Este samba provocou muitas polêmicas entre os freqüentadores dos pagodes na casa de Tia Ciata. Quem registrou este samba, como se fosse de sua autoria foi Donga.

Mas nem todo mundo tinha condições de ter um telefone em casa. Telefone era luxo, privilégio de uns poucos. Por isso foi criado o telefone público. Primeiro usando moedas. Depois, fichas.

A malandragem, que não perde tempo, tratou de dar um jeito de economizar as suas fichas e, com o “jeitinho brasileiro”, amarrava as fichas em uma linha e as prendia ao dedo. À medida que elas caíam, o esperto tratava de puxá-las de volta e as usavam novamente.

Em qualquer bar, qualquer farmácia ou mercearia tinha um telefone público, porém nas ruas, nada!
Nos anos 70, uma chinesinha, naturalizada brasileira e conhecida arquiteta paulista criou o projeto do “orelhão”.

Mas antes, de ganhar o famoso apelido, ele foi chamado de “Chu 2” (devido ao nome da inventora, Chu Ming Silveira), de “tulipa”, “capacete de astronauta” e, finalmente, de orelhão.

O orelhão foi um sucesso internacional. A arquiteta que o criou, partiu da forma acústica mais perfeita – o ovo – que foi ao mesmo tempo, a mais econômica.

A música popular se rendeu à invenção do telefone e muitas canções foram criadas em torno desde título:
“Alô… alô? Responde, responde com toda sinceridade…”
“Telefone ao menos uma vez para 344333”.
O Boi da Ilha, irreverente e gozador, lembra o grande animador de auditório popular, Chacrinha, que dizia:
“Alô, alô, Terezinha!” e “Quem não se comunica se trumbica”.
Todas as vertentes da MPB tiraram a sua fatia do invento:
A música sertaneja fez muito sucesso com a melosa “Pense em mim/ chore por mim/ liga pra mim/ mas não liga pra ele…”

Elis Regina gravou de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, “Alô, alô, marciano”;
Gabriel, o pensador, em seu famoso Rap, brincou: “2345 meia 78, tá na hora de molhar o biscoito”;

Os Paralamas do Sucesso pedia encarecidamente: “Me liga…”;

A turma do pagode dizia: “Se você sentir saudade, liga pro meu celular…”;

O funk não podia ficar de fora e lançou: “Trim trim trim, alguém ligou pra mim?”.

A telefonia se desenvolvia rapidamente. A década de 90 chega trazendo novidades para o Rio de Janeiro. Foi a primeira cidade brasileira a usar a telefonia móvel celular. Depois foi instalado o primeiro telefone público a cartão, por ocasião da ECO-92 e, por isso, os primeiros cartões tiveram motivos ecológicos. A arara azul foi a primeira ave a ser retratada nos cartões telefônicos.
Hoje, a tecnologia a serviço da informação, nos gabarita a acompanhar os tempos modernos. Em 1995, é implantada a Internet comercial no Brasil.

A comunidade do Boi da Ilha “tá ligada” na tecnologia de ponta. O Boi se liga nos aparelhos que salvam vidas, naqueles que são utilizados pela mundana vida de quem ganha a vida, nos serviços, nas informações, no despertar de um novo dia.

A Escola alegre e irreverente não quer tratar de um tema como o telefone, de forma austera. A idéia é mostrar o lado irônico, satírico e gozador. Falar sobre linha cruzada, linha cortada, escuta telefônica. Mostrar como o telefone chegou ao Brasil. A Escola critica e se diverte com todas as formas e intenções que o telefone é usado: denunciar, fofocar, aterrorizar, fazer amigos…

Atualmente, o telefone deixou de ser apenas um objeto de necessidade para se transformar e ganhar status de melhor amigo. É aquele companheiro inseparável, indispensável, sempre presente que não se desgruda por nada; está sempre à mão para afogar as mágoas, contar as alegrias, medos, deixar recados, etc…

Telefonar é se aproximar, fotografar, mandar mensagens…

O Boi da Ilha sabe que o tempo não pára e que, aqueles velhos sinais de fumaça e tambores não passam hoje, de memórias de um tempo distante. Hoje, o índio não quer apito. Quer celular. E sem o telefone, a vida não tem sentido. Percebendo isto, sem perder a oportunidade de brincar, a Escola anuncia, em altos brados: “Alô… Alô? Se liga, tem Boi na linha”.

Paulo Cavalcanti
e Jefferson Rocha

Samba-Enredo

Autores: Aloisio Villar, Cadinho da Ilha, Marquinhos do Banjo, Walkir e Barbieri

Vou te ligar a poesia
Sou a comunicação
Na pré história não havia, telefonia
Gritar foi solução
O índio achava pouco
Não queria ficar rouco, bateu tambor
Uma nova era a transmissão
Ao mundo assombrou
De Graham Bell a invenção
Alô você, tá curioso? com novidade é assim
No palácio orgulhoso o Imperador (bis)
Pergunta “Alguém ligou pra mim”

O chefe da polícia mandou avisar
“Pelo telefone”, o samba vai rolar
Caiu a ficha, to sem dinheiro
Dou um jeitinho afinal sou brasileiro
Amor, vem atender
Por esse fio vou até você
Queria te abrir meu coração
Mas não dei sorte, tá quebrado o orelhão
Num impulso vou ao espaço sideral
Navegar pelo planeta, conectado a imensidão
Índio não quer apitar, quer e-mail pra comunicar
“Mim” só quer falar de celular

Alô, Alô, tem boi na linha
Se liga no que eu vou falar (bis)
Se o telefone tocar, tá grampeado iaiá
O Boi da Ilha vem te conquistar

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