É hoje o dia! (Reedição do samba da escola de 1982)

OBatuque.com | | 22 de maio de 2008 2:19

Carnavalesco: Jack Vasconcelos e André Marins

SINOPSE

Mas afinal, que dia é esse? Que dia é esse que nos faz tremer, suar frio e o coração bater mais forte? Que nos faz sofrer sem dor? Que nos faz temê-lo e, ao mesmo tempo, ansiar pela sua excitante chegada? Que dia é esse que nos extrai o sangue, o suor e até mesmo nossas lágrimas? Que faz nossa individualidade ser completamente absorvida pelo êxtase coletivo?

“A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante no maior show da terra*”

Ilha, uma extensão de terra cercada de água por todos os lados. Por isso, todos os anos, a minha alegria atravessa o mar e ancora na passarela para fazer seu desembarque fascinante no carnaval! Foi também atravessando o mar que os negros africanos nos trouxeram sua alegria – é claro que não nos referimos às condições degradantes a qual foram submetidos no processo de escravidão, e sim ao caráter festivo dos povos africanos – e ancoraram por aqui toda a sua ancestralidade cultural.

Artífices de “mãos cheias” que talham, trançam, esculpem, pintam e forjam como poucos. Além das tradições plásticas, orais como o “griot” (pai do enredo) que narra as histórias de seus antepassados, e musicais como seus batuques, ritos e instrumentos. Música para a magia, para a fé, para o amor, para a guerra, para os homens conversarem com seus deuses…

Tambores, atabaques e afins, unindo-se aos cânticos e louvores. Suas Nações e dinastias vindas de várias partes da África, clamando por Olorum ou por Alá, fizeram o desembarque fascinante de suas culturas para lançar em nossa terra a semente que germinaria o maior show do planeta.

“Será que eu serei o dono dessa festa?
Um Rei no meio de uma gente tão modesta*”

Espalhando seus cantos, danças e crenças, a força do trabalho negro embalou nosso mestiço país menino. Das sonoras noites nas senzalas nasce o lundu misturado aos bate-coxas e umbigadas, estimulando a imaginação dos moradores da casa-grande. Com a chegada gloriosa do batismo cristão, ganhou-se o domingo para as festas e batucadas após a santa missa matinal, bem alinhados em roupas coloridas e vistosas. Festejos negros em homenagem a santos católicos florescem e, desta união sincrética, vão aparecer cerimônias, autos e embaixadas.

Coroações de Reis e Rainhas com seus séqüitos reais, misturando hierarquia africana com monarquia portuguesa em cortejos processionais. Muitos continham dramatizações e encenações em seu desenvolvimento, contavam e cantavam alguma história, como um enredo. Modelos estes, aliás, seguidos até hoje como formato de desfile pelas escolas de samba.

“Eu vim descendo a serra, cheio de euforia para desfilar
O mundo inteiro espera, hoje é dia do riso chorar*”

E o “cortejo” virou preferência na organização da brincadeira de carnaval, em resposta à bagunça agressiva do antigo entrudo português que emporcalhava as pessoas e a cidade. Grupos e comunidades se reuniam para desfilar fantasiados pelas ruas. Espocam as Sumidades, Cordões e Ranchos carnavalescos.

As “procissões” continuam, com o povo fantasiado tocando seus instrumentos, cantando e dançando, para misturar de vez as raças e classes. As turmas e famílias com fantasias unificadas inspirariam o surgimento das chamadas “alas” e as exibições das luxuosas e engenhosas alegorias das Grandes Sociedades influenciariam as escolas de samba na construção de seus “carros alegóricos”, além de nos presentear com a tradição das “comissões de frente” como os mestres de cerimônia dos desfiles.

“Levei o meu samba pra mãe de santo rezar
Contra o mau-olhado carrego o meu patuá
Acredito ser o mais valente nessa luta do rochedo com o mar*”

Sob as densas fumaças perfumadas dos incensos, rezado, benzido e iluminado pelas velas de cera dos barracões de fé, o nosso bom e velho samba é filho legítimo dos terreiros das religiões afro-brasileiras, com seus Orixás e entidades, herdando o misticismo, a musicalidade e a tradição dramática de seus pontos e louvores.

Marginalizado e perseguido, é gerado, alimentado e escondido nos fundos das casas das “tias baianas” na Praça XI. Mas o samba vencerá as dificuldades e ganhará força com o aparecimento das primeiras “escolas de samba”, que traduzirão em seus desfiles o histórico da influência e da resistência cultural negra na miscigenação de nosso povo.

“É hoje o dia da alegria
E a tristeza nem pode pensar em chegar*”

“É hoje!”. Assim exclamavam os negros nos preparativos dos antigos congos. Os foliões exclamam excitados para o grande momento, único e decisivo, para o qual se preparam o ano inteiro: o desfile de sua escola do coração. Revivem-se as tradições dos antepassados com todos os seus elementos se agrupando para compor uma só festa.

Das casas simples, das ruas de asfalto ou do alto dos morros, sai a nobreza do samba. Trabalhadores esquecem das dificuldades do cotidiano e têm seus dias de reis e rainhas, ou damas e fidalgos; homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, comungam a santidade deste momento ancestral que corre nas veias de todos nós.

Da comissão de frente à velha guarda, a expectativa para a hora da explosão de euforia num misto de honroso dever e satisfação pessoal. A felicidade é insulana e alegria é sinônimo de União da Ilha do Governador, famosa pelos desfiles coloridos e memoráveis que traçaram o caráter apaixonantemente feliz da escola. É hoje o dia! A azul, vermelha e branca evoca seu passado glorioso rumo a mais uma conquista na construção de um futuro de vitórias. Caramba, segura a marimba que lá vem a Ilha!

“Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu?*”

Duvido!

Jack Vasconcelos

Bibliografia:

Samba de Enredo “É Hoje”, Didi e Mestrinho. G.R.E.S. União da Ilha do Governador. Rio de Janeiro: Top Tape música ltda, 1981.

ARAÚJO, Hiram. “Carnaval: Seis Milênios de História”. Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.

CASCUDO, Luís da Câmara. “Made in África”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

ENEIDA. “História do Carnaval Carioca”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1958.

FERREIRA, Felipe. “O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro”. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

LAN (pseudônimo). “As Escolas de Lan” / Ilustrações de Lan (Lanfranco Vaselli); texto de Haroldo Costa. Rio de Janeiro: Novas Direções, 2001.

MORAIS FILHO, Melo: “Festas e Tradições Populares no Brasil”. São Paulo, EDUSP, 1979.

MOURA, Roberto. “Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1983

RIO, João do. “As religiões no Rio”. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

Samba-Enredo

Autores: Didi e Mestrinho

A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da Terra
Será que eu serei o dono desta festa
Um rei
No meio de uma gente tão modesta
Eu vim descendo a serra
Cheio de euforia para desfilar
O mundo inteiro espera
Hoje é dia do riso chorar

Levei o meu samba
Pra mãe-de-santo rezar (bis)
Contra o mau olhado
Carrego o meu Patuá

Acredito ser o mais valente
Nesta luta do rochedo com o mar
(E com o mar)
É hoje o dia da alegria e a tristeza
Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu
Se há na avenida (bis)
Alguém mais feliz que eu

FICHA TÉCNICA 2008

Presidente

Márcio André

Diretor de Carnaval Peixinho
Diretor de Harmonia Tio Hélio
Diretor de Bateria Mestre Riquinho
Rainha de Bateria Bruna Bruno
1º casal MS & PB Rogerinho Rosa e Priscilla Rosa
Coreógrafo comissão de frente Handerson Big

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