OBATUQUE.COM

08-04-2008

Entrevista
Marcos Roza

Por Wellington Lopes

O Caneta do Samba
O pioneirismo na historicidade dos enredos

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"Enredista" é uma palavra dificilmente encontrada nos dicionários, mas no meio do samba o seu emprego é comum e qualifica o pesquisador e historiador de enredos. E para contar essa história a fundo, o enredista Marcos Roza, de 36 anos, em entrevista ao OBatuque.com, conta um pouco do seu trabalho e os enredos que ajudou a elaborar a partir de suas pesquisas.

Nascido e criado em Inhaúma, imperiano de coração, sambista inato, o Caneta do Samba, como é carinhosamente chamado, desde muito cedo já discutia em família assuntos relacionados às escolas de samba. A partir disso, o vislumbrou a possibilidade de se tornar um pesquisador, historiador e estudioso de carnaval.

Formado em História e pós-graduado em História Social pela PUC do Rio de Janeiro, em 1999, especializou-se em Roteiro Cinematográfico, Redação, História da Arte e Produção Cultural, o que gerou uma dinâmica extraordinária à criação e desenvolvimento do seu projeto de pesquisa para carnaval nos idos dos anos de 1997, período no qual, segundo ele, não existia nenhum profissional de História realizando esta atividade como pesquisador de enredos junto aos carnavalescos e às escolas de samba do grupo Especial no Rio de Janeiro - muito menos um projeto de pesquisa organizado.

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OBatuque.com – Quando tudo começou?
Marcos Roza Bom, tudo começou com a curiosidade. Eu trabalhava como aderecista no barracão de alegorias da Unidos de Vila Isabel e nesse período estava prestes a me formar. Não contive a minha vontade de saber como era feito, desenvolvido, quem pesquisava e como pesquisava para atingir um grandioso carnaval, que durante semanas crescia a cada dia diante dos meus olhos. Não me contive e me dirigi ao carnavalesco, que na época que era o Jorge Freitas, e perguntei: "Como é construída a sua pesquisa?". E descobri que não era feita por um profissional de História e nem sequer por um estudante universitário da área... Daí, desenvolvi um projeto de pesquisa que pudesse dar conta dessa lacuna e atender aos diversos carnavalescos das escolas de samba dos grupos Especial e de Acesso, dando assessoria histórica, produção de textos de sinopse e histórico do enredo, defesa de tese das fantasias, alegorias e justificativa do enredo.

Inicialmente, contando com o apoio do departamento de História da PUC na assessoria, distribuí o projeto-pesquisa no ano seguinte para todos os barracões. A aceitação foi de absoluta surpresa por parte dos carnavalescos. Até porque muitos deles se consideravam auto-suficientes e não entenderam uma proposta de um formando de História, propondo um serviço e um trabalho tão específico e inovador

Mesmo com toda dificuldade de acesso aos carnavalescos e um suposto desdenho a uma proposta profissional nova e ousada, o projeto teve sucesso. Osvaldo Jardim e Max Lopes, para o carnaval de 1999, apostaram na proposta de serem assistidos e o projeto de pesquisa Carnaval Século XXI teve as suas primeiras aceitações. Ao lado desses excelentes carnavalescos, identificando quais eram as principais demandas de um carnavalesco, fiz o desenvolvimento interno e dos segmentos de uma escola de samba e, principalmente, o desenvolvimento da estrutura de apresentação do enredo.

se vão 10 anos de muitos carnavais e hoje eu, mantendo um aprendizado constante transitando em outras linguagens artísticas, como o audiovisual (o cinema), que somam e fazem a diferença ao meu olhar de historiador, pesquisador e cineasta, me aproximo da plasticidade do carnaval. Contudo, como pioneiro desse mercado, continuo e, certamente, continuarei daqui a 10 anos contribuindo para abrilhantar e enriquecer intelectual, histórica e culturalmente o carnaval carioca e brasileiro

OBatuque.com - Quais os enredos que você já participou como enredista?
Marcos Roza - Vila Isabel (1999-2000); Grande Rio (1999); União da Ilha do Governador (2001); Império Serrano (2001, 2006); Unidos da Tijuca (2001); Estação Primeira de Mangueira (2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006); Acadêmicos do Salgueiro (2002); Mocidade Independente de Padre Miguel (2002, 2005); Villa Rica (2002); Acadêmicos da Barra da Tijuca (2002, 2003); Acadêmicos da Rocinha (2003, 2008); Inocentes de Belford Roxo (2003); Império da Tijuca (2003, 2008); Acadêmicos de Santa Cruz (2003, 2004); Unidos do Viradouro (2004); Portela (2004); Caprichosos de Pilares (2004, 2008); e Unidos do Porto da Pedra (2008). E em negociação com vários carnavalescos e escolas para o Carnaval 2009.

OBatuque.com - Como funciona o trabalho de enredista?
Marcos Roza - Definir o pesquisador de enredos ou enredista é: desenvolver o enredo, trabalhar integrado com a criatividade do carnavalesco ou Comissão de Carnaval; produzir um diferencial na sinopse para os compositores; historiar (produzir em textos a alma do enredo: o histórico do enredo); defender fantasias, alegorias; justificar o enredo; assessorar histórica e culturalmente a saúde intelectual do enredo. Isto é, ser um excelente pesquisador.

OBatuque.com - Para muitos, são os próprios carnavalescos que desenvolvem o tema. Quando é que entra o enredista na história?
Marcos Roza - Como ressaltei, o meu trabalho como pesquisador de enredo é integrado à criatividade do carnavalesco. Participo de todo processo de desenvolvimento do enredo. Alguns carnavalescos fazem, por segurança, uma pesquisa muito prévia e apresentam-nos uma primeira estrutura pensada. Mas uma vez que o pesquisador entra, tem a inteira responsabilidade de ampliar através da pesquisa as informações sobre o tema. Acabamos juntos redefinindo ou definindo a estrutura de base fundamental para o desenvolvimento do histórico e, conseqüentemente, o trabalho plástico do carnavalesco.

OBatuque.com - O porquê do apelido Caneta do Samba? Quem o criou?
Marcos Roza - É com muito carinho que sou considerado o Caneta do Samba. Sou pioneiro desse processo, desenvolvo os carnavais intelectualmente produzindo textos, escrevendo... Lembro-me como muitos jornalistas me ligavam - e ligam - semanas antes do carnaval para que eu pudesse enviar por e-mail a produção textual das escolas para suas matérias ou coberturas. O Caneta do Samba surgiu de umas dessas ligações através do Mário, diretor da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, que além de criar o Caneta do Samba, divulgou este apelido e ele pegou. E tem tudo a ver com o que eu realizo para o carnaval e as escolas de samba.

OBatuque.com - No enredo campeão da Mangueira "Brasil com S é Nação do Nordeste. Brazil com Z é pra Cabra da Peste" você comentou sobre o formato que ninguém escrevia até aquele ano. O que você quis dizer com isso?
Marcos RozaBom, como em qualquer outra profissão, mesmo que no meu caso tenha sido o pioneiro e inaugurado este mercado, há concorrência, e hoje, mais do que nunca. Muitos dos pesquisadores que desenvolvem pesquisa de enredos para as escolas de samba dos grupos Especial e de Acesso no Rio se aperfeiçoaram a partir do meu trabalho e outros foram meus estagiários e atualmente desenvolvem carreira solo. Isto é genial! Ter gerado esses pesquisadores, a possibilidade de um novo mercado como a célula propulsora, me orgulha muito. Desta feita, ter a autoria faz a diferença. Em 2002, desenvolvi a criação das sinopses poéticas. Sinopses que congregam rimas, poesia e história. Criei um diferencial ao meu trabalho, que pode ser constatado nos excelentes sambas-enredos que são compostos a partir das sinopses poéticas.

OBatuque.com – Enredista, na verdade, é um pesquisador, historiador... Como você se considera?
Marcos Roza - Enredista é um pesquisador de enredos. Considero-me historiador de formação e pesquisador de enredos na profissão do mundo do samba.

OBatuque.com - Você já descobriu em suas pesquisas erros históricos que são passados para a sociedade?
Marcos Roza - A minha função é exatamente essa (dentre outras): manter a veracidade histórico-cultural do enredo, sendo a maior importância do meu trabalho.

OBatuque.com - houve alguma influência na mudança de algum enredo devido à sua pesquisa?
Marcos Roza - Sim. O enredo "O Rio Corre para o Mar", do Império Serrano. Através do meu trabalho, foram tiradas dúvidas sobre a origem do 1º sindicato do Brasil, período histórico da 2ª migração baiana para o Rio de Janeiro, quando os negros habitaram a região da cercania do Porto e posteriormente a Praça Onze, no início do século XX.

OBatuque.com - Na letra do samba também?
Marcos Roza - Na letra do samba a interferência é muito mais direta. Até porque também é trabalho do pesquisador analisar as letras de todos os sambas inscritos, para ver se estão de acordo com o desenvolvimento da sinopse do enredo, desenvolvendo este trabalho durante todo o processo de seleção.

OBatuque.com - Você disse que o enredista é pouco reconhecido, pois quem leva a fama é o carnavalesco. O que poderia ser feito para que seu trabalho não passasse em branco?
Marcos Roza Bom, não disse que quem leva a fama é o carnavalesco. Os carnavalescos levam consigo a parcela de seus trabalhos e o pesquisador trabalha integrado a essa criatividade. Nesse sentido, são duas coisas diferentes. Acho, sim, que o trabalho do pesquisador deve ser reconhecido. Tudo começa com o pesquisador, uma vez que a idéia do enredo está definida, é o pesquisador que escreve o histórico do enredo de onde tudo, tudo, tudo mesmo plasticamente é desenhado. Vocês não acham que esse profissional merece ter mais reconhecimento? É o que eu exatamente fiz e vou continuar fazendo, divulgando, escrevendo para a imprensa especializada em carnaval. Chegar a um mérito de reconhecimento em que os prêmios de carnaval como S@mba-Net, Estandarte de Ouro, Tamborim de Ouro, entre outros, vejam que esse profissional faz parte do cérebro intelectual e de criação no desenvolvimento de um enredo de uma escola de samba.

OBatuque.com - Com o conhecimento que você tem, não interessa ser carnavalesco algum dia?
Marcos Roza - Como disse, são duas coisas diferentes. O carnavalesco tem o maior mérito. Carnaval é plástico e visual, e quem gera isso e dirige a sua equipe são os carnavalescos. Mesmo com todo o meu conhecimento, sou pesquisador de enredos, historiador de formação. E não carnavalesco.

OBatuque.com - Qual o enredo que você gostaria de ter assinado?
Marcos Roza - O enredo da Portela de 2008 apresentado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues. Absurdamente lindo. Ficaria muito feliz se a sinopse e o histórico houvessem sido escritos por mim. Parabéns, Cahê.

OBatuque.com - E um samba que você gostaria que descrevesse um enredo seu?
Marcos Roza - Todos os sambas-enredos nascidos de sinopses assinadas por mim são excelentes sambas. Exemplos: Mangueira 2002; Império 2001 e 2006; Unidos da Tijuca 2001; Acadêmicos da Barra da Tijuca 2003; Mocidade Independente de Padre Miguel 2002; Caprichosos de Pilares 2008; e muitos outros. Por ser a célula que gerou e que continua gerando frutos. E esta entrevista é resultante desse processo. Sou Marcos Roza, o Caneta do Samba- pesquisador de enredos pioneiro do carnaval do Rio.

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