OBatuque.com
– Quando tudo começou?
Marcos Roza –
Bom,
tudo começou
com a
curiosidade.
Eu trabalhava
como aderecista no
barracão de
alegorias da Unidos de
Vila Isabel e nesse
período estava
prestes a
me
formar.
Não contive a
minha
vontade de
saber
como
era
feito,
desenvolvido,
quem pesquisava e
como pesquisava
para
atingir
um
grandioso
carnaval,
que
durante
semanas crescia a
cada
dia
diante dos
meus
olhos.
Não
me contive e
me dirigi ao
carnavalesco,
que na
época
que
era o Jorge Freitas, e perguntei: "Como
é construída a
sua
pesquisa?". E descobri
que
não
era
feita
por
um
profissional de
História e
nem
sequer
por
um
estudante
universitário da
área... Daí, desenvolvi
um
projeto de
pesquisa
que pudesse
dar
conta dessa
lacuna e
atender aos
diversos
carnavalescos das
escolas de
samba dos
grupos
Especial e de
Acesso, dando
assessoria
histórica,
produção de
textos de
sinopse e
histórico do
enredo,
defesa de
tese das
fantasias,
alegorias e
justificativa do
enredo.
Inicialmente, contando
com o
apoio do
departamento de
História da PUC na
assessoria, distribuí o projeto-pesquisa no
ano
seguinte
para
todos os
barracões. A
aceitação foi de
absoluta
surpresa
por
parte dos
carnavalescos.
Até
porque
muitos deles se consideravam
auto-suficientes e
não entenderam uma
proposta de
um formando de
História, propondo
um
serviço e
um
trabalho
tão
específico e
inovador.
Mesmo
com
toda
dificuldade de
acesso aos
carnavalescos e
um
suposto desdenho a uma
proposta
profissional
nova e
ousada, o
projeto teve
sucesso. Osvaldo
Jardim e Max Lopes,
para o
carnaval de 1999, apostaram na
proposta de serem assistidos e o
projeto de
pesquisa
Carnaval
Século XXI teve as
suas primeiras
aceitações. Ao
lado desses
excelentes
carnavalescos, identificando
quais eram as
principais
demandas de
um
carnavalesco, fiz o
desenvolvimento
interno e dos
segmentos de uma
escola de
samba e,
principalmente, o
desenvolvimento da
estrutura de
apresentação do
enredo.
Já se
vão 10
anos de
muitos
carnavais e
hoje
eu, mantendo
um
aprendizado
constante transitando
em outras
linguagens artísticas,
como o
audiovisual (o
cinema),
que somam e fazem a
diferença ao
meu
olhar de historiador,
pesquisador e
cineasta,
me aproximo da plasticidade do
carnaval.
Contudo,
como
pioneiro desse
mercado, continuo e,
certamente, continuarei daqui a 10
anos contribuindo
para
abrilhantar e
enriquecer
intelectual,
histórica e culturalmente o
carnaval
carioca e
brasileiro.
OBatuque.com -
Quais os enredos que você já participou como enredista?
Marcos Roza -
Vila Isabel (1999-2000);
Grande
Rio (1999);
União da
Ilha do
Governador (2001);
Império
Serrano (2001, 2006); Unidos da
Tijuca (2001);
Estação
Primeira de
Mangueira (2001, 2002, 2003, 2004, 2005,
2006);
Acadêmicos do
Salgueiro (2002);
Mocidade
Independente de
Padre Miguel (2002, 2005); Villa
Rica (2002);
Acadêmicos da
Barra da
Tijuca (2002, 2003);
Acadêmicos da Rocinha (2003, 2008);
Inocentes de Belford
Roxo (2003);
Império da
Tijuca (2003, 2008);
Acadêmicos de
Santa
Cruz (2003, 2004); Unidos do Viradouro
(2004); Portela (2004);
Caprichosos de
Pilares (2004, 2008); e Unidos do
Porto da
Pedra (2008). E
já
em negociação
com
vários
carnavalescos e
escolas
para o
Carnaval 2009.
OBatuque.com -
Como funciona o trabalho de enredista?
Marcos Roza -
Definir o
pesquisador de
enredos
ou enredista é:
desenvolver o
enredo,
trabalhar integrado
com a
criatividade do
carnavalesco
ou
Comissão de
Carnaval;
produzir
um diferencial na
sinopse
para os
compositores;
historiar (produzir
em
textos a
alma do
enredo: o
histórico do
enredo);
defender
fantasias,
alegorias;
justificar o
enredo;
assessorar
histórica e culturalmente a
saúde
intelectual do
enredo.
Isto é,
ser
um
excelente
pesquisador.
OBatuque.com
-
Para
muitos,
são os
próprios
carnavalescos
que desenvolvem o
tema.
Quando é
que entra o enredista na
história?
Marcos Roza -
Como ressaltei, o
meu
trabalho
como
pesquisador de
enredo é integrado à
criatividade do
carnavalesco. Participo de
todo
processo de
desenvolvimento do
enredo.
Alguns
carnavalescos fazem,
por
segurança, uma
pesquisa
muito
prévia e apresentam-nos uma
primeira
estrutura pensada.
Mas uma
vez
que o
pesquisador entra, tem a
inteira
responsabilidade de
ampliar
através da
pesquisa as
informações
sobre o
tema. Acabamos
juntos redefinindo
ou definindo a
estrutura de
base
fundamental
para o
desenvolvimento do
histórico e,
conseqüentemente, o
trabalho
plástico do
carnavalesco.
OBatuque.com -
O porquê do apelido Caneta do Samba? Quem o criou?
Marcos Roza - É
com
muito
carinho
que sou considerado o Caneta
do Samba. Sou
pioneiro desse
processo, desenvolvo os
carnavais
intelectualmente produzindo
textos, escrevendo... Lembro-me
como
muitos
jornalistas
me ligavam - e ligam -
semanas
antes do
carnaval
para
que
eu pudesse
enviar
por
e-mail a
produção
textual das
escolas
para
suas
matérias
ou
coberturas. O Caneta
do Samba surgiu de umas dessas
ligações
através do Mário,
diretor da
Associação das
Escolas de
Samba do
Rio de
Janeiro,
que
além de
criar o Caneta
do Samba, divulgou
este
apelido e ele pegou. E tem
tudo a
ver
com o
que
eu realizo
para o
carnaval e as
escolas de
samba.
OBatuque.com -
No enredo campeão da Mangueira "Brasil com S é Nação do Nordeste. Brazil
com Z é pra Cabra da Peste" você comentou sobre o formato que ninguém
escrevia até aquele ano. O que você quis dizer com isso?
Marcos Roza –
Bom,
como
em
qualquer
outra
profissão,
mesmo
que no
meu
caso tenha sido o
pioneiro e inaugurado
este
mercado, há
concorrência, e
hoje,
mais do
que
nunca.
Muitos dos
pesquisadores
que desenvolvem
pesquisa de
enredos
para as
escolas de
samba dos
grupos
Especial e de
Acesso no
Rio se aperfeiçoaram a
partir do
meu
trabalho e
outros foram
meus estagiários e
atualmente desenvolvem
carreira
solo.
Isto é
genial!
Ter gerado
esses
pesquisadores, a possibilidade de
um
novo
mercado
como a
célula propulsora,
me
orgulha
muito. Desta
feita,
ter a autoria faz a
diferença.
Em 2002, desenvolvi a
criação das
sinopses
poéticas.
Sinopses
que congregam
rimas,
poesia e
história. Criei
um diferencial ao
meu
trabalho,
que pode
ser constatado
nos
excelentes sambas-enredos
que
são
compostos a
partir das
sinopses
poéticas.
OBatuque.com –
Enredista, na verdade, é um pesquisador, historiador... Como você se
considera?
Marcos Roza - Enredista é
um
pesquisador de
enredos. Considero-me historiador de
formação e
pesquisador de
enredos na
profissão do
mundo do
samba.
OBatuque.com -
Você já descobriu em suas pesquisas erros históricos que são passados
para a sociedade?
Marcos Roza - A
minha
função é
exatamente essa (dentre
outras):
manter a veracidade histórico-cultural do
enredo, sendo a
maior
importância do
meu
trabalho.
OBatuque.com
-
Já houve alguma
influência na
mudança de
algum
enredo
devido à
sua
pesquisa?
Marcos Roza -
Sim. O
enredo "O
Rio Corre
para o
Mar", do
Império
Serrano.
Através do
meu
trabalho, foram
tiradas
dúvidas
sobre a
origem do 1º
sindicato do Brasil,
período
histórico da 2ª migração
baiana
para o
Rio de
Janeiro,
quando os
negros habitaram a
região da
cercania do
Porto e
posteriormente a
Praça Onze, no
início do
século XX.
OBatuque.com -
Na letra do samba também?
Marcos Roza - Na
letra do
samba a
interferência é
muito
mais
direta.
Até
porque
também é
trabalho do
pesquisador
analisar as
letras de
todos os
sambas inscritos,
para
ver se estão de
acordo
com o
desenvolvimento da
sinopse do
enredo, desenvolvendo
este
trabalho
durante
todo o
processo de
seleção.
OBatuque.com -
Você disse que o enredista é pouco reconhecido, pois quem leva a fama é
o carnavalesco. O que poderia ser feito para que seu trabalho não
passasse em branco?
Marcos Roza –
Bom,
não disse
que
quem
leva a
fama é o
carnavalesco. Os
carnavalescos levam
consigo a
parcela de
seus
trabalhos e o
pesquisador
trabalha integrado a essa
criatividade. Nesse
sentido,
são duas
coisas
diferentes. Acho,
sim,
que o
trabalho do
pesquisador deve
ser reconhecido.
Tudo
começa
com o
pesquisador, uma
vez
que a
idéia do
enredo está
definida, é o
pesquisador
que escreve o
histórico do
enredo de
onde
tudo,
tudo,
tudo
mesmo plasticamente é desenhado.
Vocês
não acham
que
esse
profissional merece
ter
mais
reconhecimento? É o
que
eu
exatamente fiz e vou
continuar fazendo, divulgando, escrevendo
para a
imprensa especializada
em
carnaval.
Chegar a
um
mérito de
reconhecimento
em
que os
prêmios de
carnaval
como S@mba-Net,
Estandarte de
Ouro,
Tamborim de
Ouro,
entre
outros, vejam
que
esse
profissional faz
parte do
cérebro
intelectual e de
criação no
desenvolvimento de
um
enredo de uma
escola de
samba.
OBatuque.com
-
Com o
conhecimento
que
você tem,
não interessa
ser
carnavalesco
algum
dia?
Marcos Roza -
Como disse,
são duas
coisas
diferentes. O
carnavalesco tem o
maior
mérito.
Carnaval é
plástico e
visual, e
quem gera
isso e dirige a
sua
equipe
são os
carnavalescos.
Mesmo
com
todo o
meu
conhecimento, sou
pesquisador de
enredos, historiador de
formação. E
não
carnavalesco.
OBatuque.com -
Qual o enredo que você gostaria de ter assinado?
Marcos Roza - O
enredo da Portela de 2008 apresentado
pelo
carnavalesco Cahê Rodrigues.
Absurdamente
lindo. Ficaria
muito
feliz se a
sinopse e o
histórico houvessem sido
escritos
por
mim.
Parabéns, Cahê.
OBatuque.com
- E
um
samba
que
você gostaria
que descrevesse
um
enredo
seu?
Marcos Roza -
Todos os sambas-enredos nascidos de
sinopses assinadas
por
mim
são
excelentes
sambas.
Exemplos:
Mangueira 2002;
Império 2001 e 2006; Unidos da
Tijuca 2001;
Acadêmicos da
Barra da
Tijuca 2003;
Mocidade
Independente de
Padre Miguel 2002;
Caprichosos de
Pilares 2008; e
muitos
outros.
Por
ser a
célula
que gerou e
que continua gerando
frutos. E esta
entrevista é
resultante desse
processo. Sou
Marcos Roza, o Caneta
do Samba-
pesquisador de
enredos
pioneiro do
carnaval do
Rio.