Tekinha
De baianinha a passista,
graça e simpatia iluminando a Avenida

Estela Laureano, 20 anos, passista, solteira, virginiana, universitária, poliglota, corretora de seguros e moradora do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro. Em um descontraído bate-papo com nossa reportagem no Tio Sam, tradicional bar da rua Dias Ferreira no próprio bairro onde vive, Estela conta um pouco de sua história no mundo do samba após ter sido temporariamente liberada de um castigo imposto pela mãe por ter se esquecido de pagar uma conta de luz, o que deixou toda a família em um tremendo apagão.

Tekinha, como é mais conhecida pelos amigos, devido a um apelido nas salas de bate-papo na Internet, deu seus primeiros passos no carnaval em 1993 desfilando como baianinha na Beija-Flor de Nilópolis, sua escola de coração, cujo enredo era “Uni-Duni-Tê, a Beija-flor Escolheu Você!”. Com o dom de sambar no pé e inspirada em sua mãe e em Luma de Oliveira, Estela fez em 2001 sua estréia como passista na Paraíso do Tuiuti, que naquele ano desfilava no Grupo Especial.
- Antes de iniciar o desfile eu já estava chorando de emoção, principalmente quando ouvia o refrão: “Tu és meu sonho, Tuiuti...”. Foi emocionante. Este ano desfilei em cinco escolas...quero dizer, quatro, pois na Leão de Nova Iguaçu cheguei atrasada. Comecei a correr quase que pelada pela avenida Presidente Vargas, sapatos na mão, todo mundo mexendo, mas não adiantou, fui barrada (risos).
Além de sambar com graça e simpatia, a passista é admiradora e crítica das baterias das escolas de samba. Observa se uma paradinha é feita corretamente e se o andamento está acelerado ou lento.
- Fui a primeira a indagar no grupo de discussão sobre a bateria da União de Jacarepaguá, que na festa do S@mba-Net tocou os sambas das outras escolas com paradinhas e entradas semelhantes ao desfile. Eles arrebentaram – relembra, orgulhosa por antecipar o sucesso que a bateria da União faria na Avenida.
A vaidade e a independência são características marcantes de Estela. Ao ouvir um samba, as pernas e o quadril começam a mexer e ela imediatamente procura seu parceiro preferido: o espelho, que não se cansa de refletir novas coreografias da passista. Como corretora, onde já fechou até seguro de cavalo, ganha o suficiente para arcar com as despesas do terceiro período da faculdade de informática e também para se aventurar em uma vida solitária, como fez no início deste ano, quando foi morar sozinha. Mas a boa filha à casa torna, mesmo a mamãe não perdoando.
- Estou de castigo por dois meses. Minha mãe me colocou porque esqueci de pagar a conta da luz e a Light cortou - explica. Se você me perguntar qual foi o momento mais triste da minha vida, eu te repondo: está sendo agora. É muito ruim não poder ir a um samba (risos). Só estou aqui conversando contigo porque ela abriu uma exceção. Mas amanhã a luz está de volta, pois já paguei a conta.
Muito embora goste de sambar e tenha que conviver com apresentações em roupas sensuais, Tekinha não gosta de cantadas e do assédio de homens inconvenientes:
- Os caras ficam encostando, pegam no braço, dão cantadas velhas, como: “Não sabia que boneca sambava”; “Quer ser a rainha da minha bateria?”; e vai por aí. Outra vez, estava num bar que tinha aquelas máquinas musicais e quando tocou um samba comecei a sambar. Tinha um cara que gostou e começou a comprar fichas pra colocar samba pra me ver sambando. Ele gastou muito dinheiro naquele dia. Não gosto muito de aparecer. Gosto de sambar sem parar e pode até ser atrás da bateria, como já ocorreu no ensaio técnico da Unidos da Tijuca, neste ano, quando a bateria fez o recuo e entrou em uma rua para simular o box. Eu fiquei ali bem atrás, ninguém percebeu, o importante foi que me diverti a beça (risos).
Simpática, extrovertida, esquecida, a sambista reclama a falta de um namorado e torce para que o próximo goste das mesmas coisas que ela.
- Estou sozinha. Meu namorado eu gostaria que fosse alto, inteligente, simpático, sei lá... Tem que ser homem. Eu gosto de homem (risos). Ele tem que gostar de samba, porque senão não dará certo. Tem que torcer para o Botafogo, gostar de bife com batata frita, um bom vinho... – sonha Tekinha.