07-04-2010
Distribuição de renda melhora
no país, mas não entre
as escolas de samba
Mostram
as estatísticas que a distribuição de renda no país
apresenta gradual melhoria ao longo do atual governo.
Ainda longe da ideal, mas uma situação bem mais
animadora do que a que se apresentava, digamos, nos 500 anos
antes.
Mas
não vou entrar em detalhes econômicos. Ao menos, não
diretamente relacionados à economia nacional. O lance
aqui é comentar, tristemente, que qualquer melhora a
esse nível verificada no país passa longe, muito longe,
da realidade do mundo das escolas de samba.
Enquanto
no país até uma nova classe consumidora surgiu, o que
significa mais gente com poder de compra, pessoas que
antes não faziam parte do mercado consumidor e agora
fazem, entre as escolas de samba a riqueza segue
concentrada cada vez mais nos cofres de poucas
agremiações. E isso acontece graças ao injusto e
discriminatório regulamento da Liesa.
Já
comentei aqui, muita gente reclama ali, mas a Liesa não
está nem aí. A organização responsável pelo milionário
desfile principal das escolas de samba insiste em
rebaixar e ascender apenas uma agremiação a cada ano. É
um horrível retrato da má concentração de renda no país,
uma síntese dessa nossa triste sina histórica.
As
escolas do grupo Especial recebem acima de 4 milhões de
reais de diversas fontes para colocar seu carnaval na
rua. Para as demais, trocados. Um trocado melhor, mas
muito inferior, para o desfile do Acesso,
organizado pela Lesga, com todo o jeitão da Liesa. E
esmola para as demais escolas, as escolas da AESCRJ.
E
lá da Liesa já ouvimos argumentos por muito tempo
– até hoje, na verdade – usados pela "elite" do país
para manter os menos favorecidos fora disso, fora daquilo, à margem
da sociedade, tipo: “Ah, mas as escolas dos grupos de
acesso não têm estrutura para um desfile do porte do
grupo Especial, por isso não podemos subir muitas
escolas.”
Quanta
discriminação, não é mesmo? Porque as escolas dos grupos
de acesso só não têm a estrutura das escolas do grupo
Especial porque as autoridades, da cidade e do carnaval,
não deixam. Simples assim.
Se
caíssem e subissem quatro escolas do grupo Especial, um
número maior de escolas teria direito a receber a
fortuna que as ricas coirmãs de cima recebem. E mesmo
que caíssem de novo, já teriam obtido condições de dar
uma melhorada na quadra, ajeitar um barracão para quando
não estiver na Cidade do Samba (a “corte do reino”), de
repente aprontar um estacionamento, agitar um trabalho
social...
A
partir daí,
dessa "democracia" no grupo Especial, uma mais justa
distribuição de verbas para os grupos de baixo, acabando
com a demagogia dos governos municipal e estadual de dar
mais para as escolas que precisam menos.
Mas
a intenção parece ser concentrar a renda sempre nas
mãos dos mesmos. E daí começa-se a ouvir pelas esquinas
que Beija-Flor não cai, Mangueira não cai, Unidos da
Tijuca não cai, Salgueiro não cai... Bem, depois que a
Portela não caiu naquele triste ano em que praticamente
não desfilou, não restou muito de credibilidade aos
resultados dos desfiles da Liesa. De todo modo, um
quadro que só muda quando a escola perde força na Liga,
como aparentemente ocorreu com a Viradouro, "incaível" até pouco tempo
atrás.
Enfim,
há sete, oito escolas, que todo mundo comenta que “não
cai”. Assim, essas escolas “incaíveis” ficam cada vez
mais ricas e distanciam-se cada vez mais em questão de
estrutura das demais escolas, pobres e discriminadas
mortais.
A
Cidade do Samba parece ter sido criada para essa elite,
uma corte onde a plebe não tem direito de entrar. E a
plebe, nesta história, é todo o conjunto de escolas de
samba que não fazem parte do desfile principal.
Todo
mundo fatura com as escolas de samba e TODAS as escolas
de samba fazem jus ao seu quinhão, pois compõem uma
única célula cultural. Ou alguém acha que com o fim dos desfiles da AESCRJ, por exemplo, as escolas de samba "principais"
resistiriam por muito tempo?
Até
porque escola de samba, mesmo, temos visto mais nos
desfiles da AESCRJ, já que o milionário grupo principal
hoje está mais para um grande e maravilhoso show de
variedades, espécie de mistura das antigas e gloriosas grandes
sociedades com Cirque Du Soleil, espetáculos de Vegas,
paradas militares, painéis coreografados, aeróbica e
agora até batidos truques de ilusionismo do que para desfile de
escola de samba propriamente dito.
É
preciso dar chance de
crescer e de se estruturar a todas
as escolas de samba. Mas o meio das escolas de samba,
principalmente no que se refere àquelas que estão "lá em
cima", parece contaminado pelos vírus da cobiça e do
egoísmo, onde cada uma preocupa-se com o seu sem largar
nem um pedaço do osso para quem precisa. E ainda ouvimos
carnavalesco e dirigente chorando porque só teve 5, 6 milhões de reais
para fazer o carnaval no grupo Especial...
E
um carnaval cada vez mais impessoal, sem característica
definida, em que se for trocado o nome da escola que
estiver passando na Avenida ou na telinha pouca gente vai perceber. Todas estão muito parecidas e pouco destacam
suas cores, parecendo não mais se orgulharem delas. Mas
que, pelo menos, seja dado a todas, todas de todos os
grupos, o direito de enriquecer
também e assim ascender socialmente no reino das escolas
de samba.
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Trilha-enredo da
coluna
Vem de longo tempo
O mesmo cantar
Se esta terra fosse minha, se esta terra
Eu iria semear, semear...
Assim disse o português
Ao ver tanta riqueza neste chão
Quando os invasores aportaram
Com a sede louca da ambição
Cana-de-açúcar e pau-brasil
Uma delirante obsessão
(Mas brilhou...)
Brilhou no ouro a cobiça
Levando os bandeirantes ao sertão
Com o progresso e a colonização
Era o índio espancado sem perdão
E o herói Guarani
Gritou forte defendendo sua terra
Mas de nada adiantou
Aquele grito de guerra
Se minha fosse esta terra
Das pedras nasceriam flores
Com sangue, suor e lágrimas
Cantou o negro em suas cores (mas vindo...)
Vindo... lá das bandas do Agreste
- Terra seca do Nordeste
O homem em busca de aventuras
Quando a vontade mais pura do irmão
Era produzir no seu quinhão
(Se esta terra...)
Se esta terra fosse minha
É a Vila a cantar
Que felicidade é dividir
Com igualdade pra reforma reformar!
"Se esta terra, se esta
terra fosse minha"
Jorge Tropical, Jorginho Pereira, Anninha Guedes,
Antônio Grande e Vilani Silva ("Bombril")
Unidos de Vila Isabel 1990
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Nota 10
A Império da Tijuca contratou o carnavalesco Severo
Luzardo. Boa contratação. Luzardo fez belos carnavais em
desfiles da AESCRJ, como o da Acadêmicos do Dendê em
2007 ("Licença vamos pedir, pra nossa folia brincar,
quem quiser entre na dança, se assim lhe agradar!"), na
Intendente Magalhães, e este ano na Arranco ("Bendita
baderna numa rua chamada felicidade"), na Marquês de
Sapucaí. É bom ver o talentoso artista perto do grupo
Especial.
Nota 5
Depois de muita agonia, o Terreirão do Samba foi ao
chão. De pé, por ora, só o palco. Vamos aguardar os próximos capítulos..
*As notas da Liesa passaram a ser de
8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de
OBatuque.com decidiu voltar aos tempos
simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto.
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David Telio Duarte
davidelias@obatuque.com
Mais opiniões do colunista em
www.opiniaododavid.blogspot.com