05-03-2010
Valeu, Pilares!
Crise ajuda Caprichosos a lembrar como
era bom desfilar
numa escola de samba
Todos
sabíamos, nem que fosse por “ouvir dizer”, que a
Caprichosos de Pilares enfrentava sérios problemas para
colocar seu carnaval na Avenida. Seu barracão, por
exemplo, preocupava – e muito. Havia receio que a escola
caísse.
A
opção pela reedição do enredo “E por falar em
saudade...”, de 1985, talvez já fosse uma saída de
segurança. Afinal, o grande samba está até hoje na boca
do povo, lembra os melhores momentos da escola e com
certeza daria ânimo e confiança ao componente.
Com
seus enredos críticos e irreverentes, a Caprichosos dos
anos 80 seguia a linha consagrada pela União da Ilha,
de muita entrega de seus desfilantes e tremenda
comunicação popular.
A
mim, particularmente, ainda preocupava a decisão de não
atualizar o enredo, mantendo o mesmo desenvolvimento de
25 anos atrás. Havia a possibilidade de algumas
atualizações, o que abrilhantaria o desfile, mas essa
não foi a opção da agremiação.
O
abre-alas da escola, com a palavra “saudade”, parecia um
rascunho do desfile original.
Quem corresse a
concentração veria fantasias que pareciam saídas do
túnel do tempo. Tudo isso mostrava que o caixa
definitivamente poderia comprometer a escola.
Sem grana, a Caprichosos parecia apostar tudo em seu
chão. E foi uma aposta certeira.
Falta
de grana para alegoria e fantasia acabou não tendo
importância alguma, porque
veio para a Avenida uma escola de samba valente,
divertida, cantando, brincando e contagiando. Você sentia a escola pulsando. Até acho que
o samba podia ter sido batido menos acelerado, mas isso
pode ter ajudado a jogar o astral mais lá para cima. O
que importa é que era evidente que a Caprichosos
brincava e os componentes sentiam prazer desfilando.
Estavam alegres, felizes, contentes. Era a imagem que
passavam. E muito deve-se ao ótimo trabalho de harmonia
da escola.
A
harmonia de Pilares mandou muito bem, deixando os
componentes desfilarem à vontade. Porque alguém
descobriu que fazer harmonia é manter todo mundo em
linha, numa espécie de formação militar, sem essa de
sambar ou pular para não sair do seu quadrado. E as
harmonias de hoje levam isso a sério, como se fosse algo
difícil de fazer.
Ora,
formação militar qualquer criança de pré-escolar faz
para desfilar no 7 de Setembro. É assim: a tia chega e
forma a turminha com os menores na frente. Depois pede
para colocarem a mão diretita no ombro do coleguinha da
frente e a esquerda no ombro do coleguinha do lado. E
com três ou quatro tardes de ensaio as crianças,
obedientes, marcham
lindamente no Dia da Independência. Difícil isso? Bem,
com adultos deve ser mais fácil...
As
crianças desfilando assim é uma coisa linda, bonitinha a
toda vida de se ver. Já assistir a uma escola de samba
passar desse jeito é chato pra caramba. E tome diretor
com espírito de feitor gritando: “Não samba!”, “Para de
pular!”, “Olha a linha, olha a linha!”, “Não sai do seu
quadrado!” et cetera e tal.
Na
minha modesta ignorância de apaixonado por escolas de
samba, acho que harmonia boa é justamente aquela que não
prende seu componente, não o oprime. Que consegue manter
a ala definida, sem invadir o espaço da outra, mas
empolgada, cantando e contagiando. Que faz do desfile de
escola de samba algo diferente de uma parada militar.
Mas fica a impressão que os harmonias de hoje não sabem
fazer diferente ou, sob o peso da responsabilidade,
optam por travar tudo em nome do mentiroso desfile
técnico e garantir nota. E só garantem nota porque
jurado acha que desfile é marcha, já que harmonia que
não empolga jamais poderia passar sequer perto de um 10.
Sempre
gosto de lembrar as palavras de José Carlos Rego em
entrevista ao nosso site, dizendo que escola de samba é
para se divertir. E o desfile da Caprichosos foi
divertido. Passaram pela Sapucaí, não só no Especial
como no Acesso, dezenas de escolas mais ricas (muito
mais ricas) e “espetaculosas” (espetacular +
maravilhosa) que a Caprichosos. Mas duvido que alguma
delas tenha despertado em quem assistisse tanta vontade
de desfilar como a Caprichosos despertou em mim, por
exemplo.
Vendo
a escola de Pilares passar,
bateu aquela vontade: “Puxa, eu
queria estar lá.”
Porque “lá” estava bom à beça.
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Trilha-enredo da
coluna
Oh! Saudade, ô
Meu
carnaval é você
Caprichosamente
Vamos reviver,
vamos reviver...
"Saudadeando" o que sumiu no dia-a-dia
Na
fantasia de um eterno folião
O bonde
O amolador de
facas
O leite sem água
A gasolina barata
Aquela
Seleção Nacional
E derreteram a taça na maior
cara-de-pau
Bota, bota, bota fogo nisso
A virgindade já levou sumiço
(Quero
votar!)
Diretamente, o povo escolhia o presidente
Se comia mais feijão
Vovó botava a poupança no
colchão
Hoje está tudo mudado
Tem muita gente no
lugar errado
Onde andam vocês, ô ô ô
Antigos
carnavais?
Os sambistas imortais
Bordados de
poesia
Velhos tempos que não voltam mais
E no
progresso da folia...
Tem bumbum de fora
pra chuchu
Qualquer dia é todo mundo nu...
"E por falar em
saudade..."
Almir de Araújo, Balinha,
Marquinho Lessa,
Hércules
e Carlinhos de Pilares
Caprichosos de Pilares 1985
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Nota 5
Como
diria alguém: "Como assim o carro de som da Grande Rio
não cantou um verso do samba-enredo da escola?" E como
diria eu: "Como assim o carro de som da Grande Rio não
cantou um verso do samba-enredo da escola e a escola
ainda ganhou boas notas em samba-enredo?"
Tudo
por causa do "Camarote número 1", que não era
patrocinador oficial do desfile nem da Globo.
Com
a palavra, a Liesa.
Nota 5
Como
diria alguém - II: "Como
assim a comissão de frente da
Unidos da Tijuca tinha 45 componentes?" E como diria eu
- II: "Como assim a comissão de frente da Unidos da
Tijuca tinha 45 componentes e não foi penalizada por
isso"
Então quer dizer que todos aqueles
componentes de comissões de frente que passam na Avenida
carregando casas, prédios, ocas, campos de futebol,
estradas, 300 quilos nas costas e não sei mais o que
são... uns bobos, né? Podiam levar um monte de gente
ajudando ou revezando durante o desfile...
Com a palavra, a Liesa - II.
Nota 5
O "sucesso" (voltar ao Grupo Especial)
parece ter subido à cabeça da União da Ilha. Há muito
não se ouvia na comunidade tanta coisa errada no
desfile como se ouviu neste ano. No fim das contas,
parece que foi muito carnavalesco para pouca escola de
samba.
*As notas da Liesa passaram a ser de
8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de
OBatuque.com decidiu voltar aos tempos
simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto.
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David Telio Duarte
davidelias@obatuque.com
Mais opiniões do colunista em
www.opiniaododavid.blogspot.com