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26-02-2010
Globo se supera, dá as costas
Uma vez, em 1995, ao comentar no programa noturno de domingo da extinta Rede Manchete a final do Campeonato Carioca entre Flamengo e Fluminense, vencida pelo Tricolor com o antológico gol de barriga de Renato Gaúcho no fim da partida, o comentarista Márcio Guedes observou que há uma tendência natural a engrandecermos e contextualizarmos os fatos com o passar do tempo, em retrospectiva. “O maior isso”, “o maior aquilo” etc. Mas ali, naquela noite, ele disse, sem medo de errar (em suas próprias palavras), que aquele havia sido o maior Fla-Flu da História. Eu, aqui, vou só escrever o óbvio, porque muita gente tem comentado isso por aí: a Rede Globo conseguiu fazer a pior transmissão de desfiles de escolas de samba da História da televisão.
Não vi a transmissão toda, claro. Quem nos acompanha sabe que OBatuque.com esteve aquartelado em Campinho, na Intendente Magalhães, acompanhando os desfiles das escolas de samba da AESCRJ. Mas, graças ao bom e velho videocassete, vi a transmissão integral do desfile da União da Ilha, alguns momentos de escolas da segunda-feira e trechos da campeã Unidos da Tijuca. Houve uma série de lambanças que uma emissora do porte da Globo, com os recursos que tem e a experiência de dezenas de carnavais, jamais poderia cometer. Mas o principal de tudo foi o desrespeito escancarado com as escolas de samba. Onde já se viu alguém dar as costas para uma escola de samba enquanto ela passa à sua frente? Os profissionais globais se aboletaram numa patética tentativa de recriação do bom “Botequim da Manchete", sentaram de costas para a pista e... acompanharam o desfile por um telão??? Como assim??? Deram a isso o nome de “Esquina do Samba”, mas deveria ser “Esquina da Vergonha”. Como pode ignorarem a tradição do samba, não prestarem seus respeitos a baianas, mestre-sala e porta-bandeira, velha guarda, que passavam ali, bem em frente? Além disso, interrompiam os desfiles de uma agremiação para entrevistar gente de... outra agremiação! Ninguém me contou, eu vi. Exemplo: a Vila crescia na Avenida e a Globo cortou para a “Esquina da Vergonha” para conversar com pessoas da Mangueira.
Fora outros... foras. O que foi aquele texto de abertura do desfile? Como disse alguém, parecia texto do Pedro Bial no BBB. Ah, e o desfile da Ilha não foi a abertura do carnaval: alguém tem que avisar à Globo que o carnaval não é o que ela transmite. O carnaval é aberto sexta-feira, quando o Rei Momo recebe a chave da cidade das mãos do prefeito, e encerra-se na terça. Não começa no domingo e acaba na segunda. Para diminuir ainda mais o tempo de cada escola no ar, exibiam vídeos de 5, 6 minutos APÓS o início do desfile. A animação gráfica que anunciava as escolas fez da tricolor União da Ilha uma agremiação vermelho e branco. E aquele palco de publicidade no curral da bateria? Não, não me venham com essa de que aquilo foi feito com aquela inclinação para facilitar o trabalho dos mestres de bateria, isso é fazer muito pouco deles. Aquilo é só mais um espaço absurdo de publicidade. E ainda havia repórter entrevistando ritmistas... Aliás, uma poluição visual tremenda durante toda a transmissão, mal se via as escolas. Comentaristas e apresentadores? Haroldo Costa tem uma gama imensa de serviços prestados ao nosso carnaval e às escolas de samba. Foi a única voz entendida na transmissão. Chico Pinheiro... O que foi aquilo? Luis Roberto é um bom profissional, visivelmente esforçado e que trabalha com correção, mas não havia muito o que fazer naquela situação. Geraldo Carneiro? Pedro Luís? Deborah Colker? Comentando desfile de escola de samba? Melhor passar batido. Acredito que a ex-bodyboarder Glenda Kozlowski tenha feito alguma pesquisa, mas, além de um tom deslumbrado, as palavras saíam de sua boca da mesma forma que eu falaria, por exemplo, sobre a Semana de Moda de Nova York ou microbiologia molecular: sem espontaneidade ou credibilidade alguma. O que eu entendo de moda ou microbiologia? Nada. Aliás, a moça parece mal orientada. O outro dia apresentou o Globo Esporte sentada de pernas cruzadas em cima da bancada. É assim que se entra na casa dos outros para transmitir informação? Informalidade tem limite para um programa jornalístico. E a credibilidade, onde fica? Como levar a sério uma postura assim? Mas, enfim, ela é que está na boa, trabalhando na Globo, ganhando bem, e eu aqui, ralando no OBatuque.com, onde trabalhamos apenas por prazer. E, definitivamente, alguém precisa dizer a essa gente que nós, pelo menos eu e todo mundo com quem comento, não temos o menor interesse em ver a cara de apresentadores e comentaristas durante um desfile de escola de samba. Quem disse que queremos ver essa gente enquanto comentam? Queremos no vídeo a imagem das escolas! Na minha ignorância, jamais conheci o rosto do falecido Roberto Barreira enquanto vivo (depois pesquisei no Google), ele que com tanto brilhantismo participou das cada vez mais saudosas transmissões da Manchete – saudosas, principalmente, pelo respeito que demonstravam à instituição escola de samba. E não o conhecia simplesmente porque não era importante colocar no vídeo, durante a passagem das escolas, a cara dele, do Pamplona, do José Carlos Rêgo, Haroldo Costa, Mestre Marçal, João Saldanha... Quem queria ver isso? Eu, não. Mas vivemos uma era em que o jornalista cisma de ser mais notícia que o próprio fato. Em nosso caso, o fato que é notícia é o desfile das escolas de samba. Difícil entender isso? Culpa da falta de concorrência. No tempo em que Globo e Manchete transmitiam, a Manchete era sempre melhor, mas a transmissão da Globo não era essa lástima de hoje. Havia um esforço para acompanhar a rival. Sozinha, a Globo não parece estar nem aí para a qualidade da sua transmissão dos desfiles de escolas de samba. Responsabilidade da Liesa Em grandes eventos esportivos, como Olimpíadas, Copa do Mundo e jogos das grandes ligas norte-americanas (NBA, NFL...), os organizares cuidam da qualidade do trabalho das emissoras responsáveis pela geração das imagens dos eventos. Elas pagam pelo direito e tanto podem transmitir sozinhas como negociar com outras emissoras. Mas são cobradas. Há pouco tempo, os chefões da NBA exigiram maior qualidade nas transmissões das suas partidas. Tanto o Comitê Olímpico Internacional como o Panamericano estabelecem padrões de qualidade para as transmissões de seus Jogos. Há vários outros exemplos mundo afora. E aqui? A Liesa deve estar satisfeita com o trabalho global, já que não se ouve qualquer cobrança. Se a Liesa negocia os direitos exclusivos de transmissão com a Rede Globo, deve cobrar qualidade à altura do evento, e não fazer entrevistas promocionais afiançando desculpas para a má transmissão (culpa do Sambódromo, da luz, do asfalto...). A Globo fatura muita grana com o desfile. Muita! Deve ser cobrada à altura. Ou só o dinheiro já basta para a Liesa? Aliás, como evento cultural que é, os desfiles de escolas de samba deveriam ter transmissão liberada para todas as TVs Educativas do país e jamais ser propriedade exclusiva de uma emissora privada. Da mesma forma que os jogos da seleção brasileira de futebol. Em outros países, as redes estatais transmitem os jogos. A Rai (Itália), a RTP (Portugal), TV5Monde (França)... No Brasil, não. Mas isso é outro papo. *** *** *** *** *** Trilha-enredo da coluna
Ajoelhou tem que rezar
"Eu prometo
(Ajoelhou, tem que rezar...)" *** *** *** *** ***
Nota 5
Nota 5
Nota 5
Nota 5
Nota 5 *As notas da Liesa passaram a ser de 8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de OBatuque.com decidiu voltar aos tempos simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto. *** *** *** *** *** David Telio Duarte |
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