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08-02-2010
Vestir uma camisa listrada e sair
Responsável
pela arrecadação e distribuição de direitos autorais de
músicas e de posse do cadastro na prefeitura dos blocos
de rua que desfilarão este ano no Rio de Janeiro, o Ecad
quer multar os organizadores que não pagarem os direitos
autorais das músicas cantadas em seus blocos.
Segundo
a matéria, “o cálculo dos direitos autorais é baseado na
quantidade de pessoas: R$ 4,00 por folião”. Então
imaginem vocês: se o Cordão da Bola Preta levar dois
milhões de pessoas ao Centro do Rio, deve pagar 8
milhões de reais ao Ecad. É sério isso? Seria o fim do
mundo para os blocos.
Ouvido
pela reportagem da revista, um representante do órgão
disse que antes do cadastro na prefeitura eles iam atrás
de um bloco sempre que sabiam de sua existência. Então
agora, sabendo antes, não vão atrás para saber as
músicas executadas? Ou haverá um acordo, de mentirinha
ou não, sei lá, com os organizadores apresentando um
repertório e pagando antes pela execução de apenas
aquelas músicas listadas? E nada da massa pedir bis ou
improvisos, hein? Nem pensar vestir uma camisa listrada
e sair cantando o que quiser por aí!
Acho
surreal - e
injusto. O Ecad tem uma função vital para garantir o
direito dos autores, claro, mas isso é exagero e diria
até imoral. Afinal, bloco de rua não cobra ingresso.
Então se eu quiser pegar minha família, vizinhos e
amigos e sair pelas ruas batendo em panelas cantando
marchas de carnaval, vou ter que pagar direitos ao Ecad?
De acordo com os argumentos apresentados na matéria, até
em festinha de aniversário corremos risco de pagar
direitos autorais. Torcida cantar música no Maracanã?
Não pode também. Procissão religiosa? Direito$ para os
autores dos hinos.
Falta
bom senso nesse esforço do Ecad. Obviamente, nenhum
bloco de rua pode arcar com essa cobrança, mesmo os
maiores. Então vai rolar um acordo, uma conta de chegar,
que satisfaça ambas as partes. O que deixa dúvidas sobre
a legitimidade da cobrança. Não falo da legitimidade
legal, mas da legitimidade moral de cobrar direitos
autorais em eventos que não cobrem ingressos. Isso é uma
ameaça a eventos realmente populares.
Ainda
na mesma matéria, o querido João Roberto Kelly defende a
posição do Ecad: “Adoro os blocos de rua. Mas o trabalho
do Ecad é importante porque vários compositores, como
eu, vivem disso.” Só que tomo a liberdade de discordar
do genial compositor de marchinhas de carnaval, pois são
os blocos de rua cantando clássicos como “Cabeleira do
Zezé” que eternizam compositores como ele, Lamartine
Babo, Haroldo Lobo, Zé Keti e Braguinha, que desse modo
têm suas músicas levadas para os bailes, shows e discos
de carnaval, onde, aí assim, a cobrança de ingresso e a
comercialização fazem obrigatória a contrapartida ao
Ecad. Sem os blocos de rua, talvez não lembrássemos mais de “Cabeleira do Zezé”, “Me Dá um Dinheiro Aí”, “Mulata Iê-Iê-Iê”, “Mamãe Eu Quero”, “As Águas Vão Rolar”, “O Teu Cabelo Não Nega”, “Índio Quer Apito”, “Bandeira Branca”, “Linda Lourinha”, “Linda Morena”, “Máscara Negra”, “Pastorinhas”, “Até Quarta-Feira”, “Allah-Lá-Ô”, “Cachaça”, “Chiquita Bacana”, “Marcha do Remador”, “A Jardineira”, “Pierrô Apaixonado”... São os blocos de rua que divulgam e eternizam os autores dessas marchinhas maravilhosas - e de graça! Quer forma de divulgação maior e melhor que essa? E permanente, que se repete ano após ano. *** *** *** *** *** Trilha-enredo da coluna
Eu quero é botar meu bloco na rua
"Eu quero é botar meu
bloco na rua" *** *** *** *** ***
Nota
10
Nota 5 *As notas da Liesa passaram a ser de 8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de OBatuque.com decidiu voltar aos tempos simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto. *** *** *** *** *** David Telio Duarte |
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