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07-02-2010
Parafraseando Nelson Rodrigues: “Tudo
é escola de samba.
As
escolas de samba são parte da cultura popular. E cultura
popular é algo que ofende certos segmentos privilegiados
de nossa sociedade, até porque esse tipo de cultura
existe – e resiste - à revelia deles, de seu poder e sua
influência. Por isso que esses segmentos não estão nem
aí para coisas populares – ou pior: só estão aí para
lucrar em cima. Preocupa muito imaginar que pessoas que
estejam gerindo os desfiles das escolas de samba possam
realmente acreditar em declarações como essa e assim se
achar mais importantes para as escolas do que as escolas
são para elas.
Há
declarações vindas da Liesa que decepcionam pela
prepotência, pela falta de humildade, mas preferimos
crer que apenas foram mal colocadas. Quando o prefeito
diz que abrirá licitação para definir a quem caberá a
administração dos desfiles, a Liesa não pode nem tem o
direito de dar chilique e ameaçar levar os desfiles das
escolas pra lá ou pra cá ou dizer que elas não
desfilarão. Por que ser contra e não participar de tal
licitação?
A
prefeitura está certa e qualquer medida de fiscalização
sobre um evento que gere tanto dinheiro e que serve-se
de dinheiro público é bem-vinda. Qualquer desfile de
escolas de samba, seja lá onde for realizado, tem
chancela municipal, utilizando policiamento, bombeiros,
órgãos de trânsito, infraestrutura... Tudo pago com o
dinheiro dos nossos impostos. Então cabe, sim, à
prefeitura fiscalizar sua organização, como ocorre com
diversos eventos que fazem uso de seus serviços. Deve
mesmo abrir licitação e que a melhor proposta vença.
O que não faz sentido é a
revolta da Liesa. Nessa suposta licitação, como em
qualquer outra, deve vencer a melhor proposta, aquela
que apresente melhores condições de gerenciamento do
desfile. E há dúvidas de que a Liesa é o grupo melhor
preparado para isso? Que tem
know-how
amplamente reconhecido e que trouxe organização a um
desfile que, apesar de maravilhoso, beirava o caos?
Eu,
por exemplo, sou do tempo em que a polícia jogava os
cavalos no povo que aguardava horas e horas, com muitos
chegando na véspera, para conseguir comprar ingressos no
Pavilhão de São Cristóvão. Do tempo em que o intervalo
entre as escolas beirava o tempo de um desfile inteiro,
coisa muitas vezes de uma hora ou mais. Chegava-se à uma
da tarde para garantir lugar na arquibancada e só ia-se
embora quase 24 horas depois, quando passava a última
agremiação.
Tudo
isso acabou com a boa organização da Liesa. Agora o
desfile tem hora para começar e para terminar. Um bem
tão grande que espalhou-se para além do grupo principal.
Hoje você vai à Intendente Magalhães assistir aos
últimos grupos das escolas e também vê os desfiles
respeitando religiosamente os horários, sem atrasos.
O
modelo da Liesa tem falhas, sim, algumas já criticadas
aqui – e que em breve voltarão a ser, como insano
julgamento através de agora 20 notas decimais e o
injusto e elitista critério de subir apenas uma escola
de samba do grupo de Acesso. Mas a Liesa não tem o que
temer. Deve participar normalmente de tal licitação - se
ela sair do papel - e assim legitimar ainda mais não só
seus diretos como seus méritos em relação à
administração dos desfiles.
O
que não deve nunca ser colocado de lado é a relevância
histórica e cultural das escolas de samba, que estão
muito, mas muito acima mesmo de Liesas e prefeituras.
Nem devemos esquecer quanto dinheiro gira em torno do
desfile do grupo Especial. É muito dinheiro. Muito
mesmo. E quantas instituições, quantas empresas, quanta
gente fatura em cima de um evento desse porte na cidade.
Um evento estritamente popular em sua origem e sua
forma, mas que parece cada vez mais direcionado para os
bacanas.
A
Liesa já escreveu seu nome na história de nossos
carnavais e sua importância não pode ser jamais
posta em cheque. Mas vamos colocar assim: se amanhã
o mundo amanhecesse sem a Liesa, as escolas de samba
não deixariam de existir nem de desfilar. Mas se
amanhã o mundo amanhecesse sem as escolas de samba,
a Liesa deixaria de existir. A Liesa, a Lesga, a
AESCRJ, os sites de escolas de samba...
E aí recorremos a Nelson Rodrigues para
definir nossa opinião: “Tudo é escola de samba. O
resto é paisagem.”
*** *** *** *** *** Trilha-enredo da coluna
Enfeitei meu coração "Bumbum
Paticumbum Prugurundum" *** *** *** *** ***
Nota
10
Nota 5 *As notas da Liesa passaram a ser de 8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de OBatuque.com decidiu voltar aos tempos simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto. *** *** *** *** *** David Telio Duarte |
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