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07-02-2010

Parafraseando Nelson Rodrigues: “Tudo é escola de samba.
O resto é paisagem.

 

A edição 24 da “Ensaio Geral”, publicação oficial da Liesa, traz uma entrevista com Boni, o empresário de televisão ex-diretor da Rede Globo, recentemente homenageado pela Liesa. A entrevista parece mais uma sequência dessa homenagem. Mas chama a atenção a declaração de Boni dizendo que sem a Liesa o desfile das escolas de samba já teria morrido. Ora, bolas, escola de samba não é mercadoria ou serviço que aparece e desaparece do mercado conforme circunstâncias econômicas ou climáticas, é cultura popular. Será que a Liesa também pensa isso?

As escolas de samba são parte da cultura popular. E cultura popular é algo que ofende certos segmentos privilegiados de nossa sociedade, até porque esse tipo de cultura existe – e resiste - à revelia deles, de seu poder e sua influência. Por isso que esses segmentos não estão nem aí para coisas populares – ou pior: só estão aí para lucrar em cima. Preocupa muito imaginar que pessoas que estejam gerindo os desfiles das escolas de samba possam realmente acreditar em declarações como essa e assim se achar mais importantes para as escolas do que as escolas são para elas.

Há declarações vindas da Liesa que decepcionam pela prepotência, pela falta de humildade, mas preferimos crer que apenas foram mal colocadas. Quando o prefeito diz que abrirá licitação para definir a quem caberá a administração dos desfiles, a Liesa não pode nem tem o direito de dar chilique e ameaçar levar os desfiles das escolas pra lá ou pra cá ou dizer que elas não desfilarão. Por que ser contra e não participar de tal licitação?

A prefeitura está certa e qualquer medida de fiscalização sobre um evento que gere tanto dinheiro e que serve-se de dinheiro público é bem-vinda. Qualquer desfile de escolas de samba, seja lá onde for realizado, tem chancela municipal, utilizando policiamento, bombeiros, órgãos de trânsito, infraestrutura... Tudo pago com o dinheiro dos nossos impostos. Então cabe, sim, à prefeitura fiscalizar sua organização, como ocorre com diversos eventos que fazem uso de seus serviços. Deve mesmo abrir licitação e que a melhor proposta vença.

O que não faz sentido é a revolta da Liesa. Nessa suposta licitação, como em qualquer outra, deve vencer a melhor proposta, aquela que apresente melhores condições de gerenciamento do desfile. E há dúvidas de que a Liesa é o grupo melhor preparado para isso? Que tem know-how amplamente reconhecido e que trouxe organização a um desfile que, apesar de maravilhoso, beirava o caos?

Eu, por exemplo, sou do tempo em que a polícia jogava os cavalos no povo que aguardava horas e horas, com muitos chegando na véspera, para conseguir comprar ingressos no Pavilhão de São Cristóvão. Do tempo em que o intervalo entre as escolas beirava o tempo de um desfile inteiro, coisa muitas vezes de uma hora ou mais. Chegava-se à uma da tarde para garantir lugar na arquibancada e só ia-se embora quase 24 horas depois, quando passava a última agremiação.

Tudo isso acabou com a boa organização da Liesa. Agora o desfile tem hora para começar e para terminar. Um bem tão grande que espalhou-se para além do grupo principal. Hoje você vai à Intendente Magalhães assistir aos últimos grupos das escolas e também vê os desfiles respeitando religiosamente os horários, sem atrasos.

O modelo da Liesa tem falhas, sim, algumas já criticadas aqui – e que em breve voltarão a ser, como insano julgamento através de agora 20 notas decimais e o injusto e elitista critério de subir apenas uma escola de samba do grupo de Acesso. Mas a Liesa não tem o que temer. Deve participar normalmente de tal licitação - se ela sair do papel - e assim legitimar ainda mais não só seus diretos como seus méritos em relação à administração dos desfiles. 

O que não deve nunca ser colocado de lado é a relevância histórica e cultural das escolas de samba, que estão muito, mas muito acima mesmo de Liesas e prefeituras. Nem devemos esquecer quanto dinheiro gira em torno do desfile do grupo Especial. É muito dinheiro. Muito mesmo. E quantas instituições, quantas empresas, quanta gente fatura em cima de um evento desse porte na cidade. Um evento estritamente popular em sua origem e sua forma, mas que parece cada vez mais direcionado para os bacanas.

A Liesa já escreveu seu nome na história de nossos carnavais e sua importância não pode ser jamais posta em cheque. Mas vamos colocar assim: se amanhã o mundo amanhecesse sem a Liesa, as escolas de samba não deixariam de existir nem de desfilar. Mas se amanhã o mundo amanhecesse sem as escolas de samba, a Liesa deixaria de existir. A Liesa, a Lesga, a AESCRJ, os sites de escolas de samba...  E aí recorremos a Nelson Rodrigues para definir nossa opinião: “Tudo é escola de samba. O resto é paisagem.”

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Trilha-enredo da coluna

Enfeitei meu coração
De confete e serpentina
Minha mente se fez menina
Num mundo de recordação
Abracei a Coroa Imperial
Fiz meu Carnaval
Extravasando toda minha emoção
Oh! Praça Onze, tu és imortal
Teus braços embalaram o samba
A sua apoteose é triunfal
De uma barrica se fez uma cuíca
De outra barrica um surdo de marcação

Com reco-reco, pandeiro e tamborim
E lindas baianas
O samba ficou assim


E passo a passo no compasso
O samba cresceu
Na Candelária construiu seu apogeu
As burrinhas que imagem, para os olhos um prazer
Pedem passagem pros Moleques de Debret
"As Africanas", que quadro original
Yemanjá, Yemanjá enriquecendo o visual

(Vem meu amor...)
Vem meu amor
Manda a tristeza embora
É carnaval, é folia
Neste dia ninguém chora


Super Escolas de Samba S/A
Super-alegorias
Escondendo gente bamba
 
Que covardia!

Bumbum Paticumbum Prugurundum
O nosso samba minha gente é isso aí
Bumbum Paticumbum Prugurundum
Contagiando a Marquês de Sapucaí

"Bumbum Paticumbum Prugurundum"
Beto Sem Braço e Aluísio Machado
Império Serrano
198
2

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Nota 10
Para o Canal Brasil, que sempre celebra o carnaval com uma ótima mostra de documentários referentes à nossa maior festa popular. Entre os destaques deste ano, “O Mistério do Samba”, sobre a Velha Guarda da Portela.

Nota 5
Para a declaração de Boni, o empresário de televisão e ex-diretor da Rede Globo, à revista "Ensaio Geral", publicação oficial da Liesa: “Sem a Liesa o desfile das escolas de samba teria morrido.” Fala sério...

*As notas da Liesa passaram a ser de 8 a 10, com variação de um décimo. A coluna Opinião de OBatuque.com decidiu voltar aos tempos simples do 5 ao 10, com variação de meio ponto.

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David Telio Duarte
davidelias@obatuque.com

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