25-01-2010
Vila se destaca em mais um decepcionante CD de
escolas
de samba
Costume com o medíocre é pedra no
sapato dos atuais
sambas-enredos
Me perguntaram se não escreveria sobre o CD com os
sambas-enredos do Grupo Especial deste ano. Sempre que
penso nisso rola um grande desânimo. É chato falar de algo
que você gosta tanto mas que percebe que patina ano após
ano em uma espécie de areia movediça da qual não consegue
escapar. Para piorar, ainda tenho o hábito de ouvir grandes sambas antes
de conhecer os atuais, para não perder a referência, o que
torna mais complicada a avaliação.
Partindo do básico, acho que um bom samba
deve descrever o enredo com MELODIA. Inclusive, deve
dispensar a leitura da sinopse. Afinal, o povo, quem
gosta e acompanha escola de samba, compra CDs e vai à Avenida,
raramente lê a sinopse, até por falta de oportunidade. Quem deve
ler sinopse de enredo, mesmo, é jurado.
A
maioria dos amantes de escolas de samba faz como o colunista
fez em muitos carnavais: lê o enredo através da
descrição feita pelo samba e pelo trabalho de fantasias
e alegorias do carnavalesco. Se não houver entendimento,
mau sinal para a escola.
Cabe
a um bom samba-enredo, então, descrever com a maior
qualidade possível a mensagem que a escola quer
transmitir, aliando para isso letra e MELODIA. E é aí
que a porca torce o rabo: parece que perdeu-se essa
palavra MELODIA no dicionário das escolas de samba.
Não
sou compositor, não sou músico nem tenho qualquer
talento musical. Mas, como milhões de brasileiros, sou
apaixonado por sambas-enredos e, até pela idade,
acostumei-me com coisa boa, sambas que 10, 20, 30, 50
anos depois cantamos naturalmente após apenas uma
passagem - quando não as recordamos desde os primeiros
versos.
Quando
criança, lá pelos anos 70, esperava ansiosamente que meu
pai comprasse o disco das escolas para ouvi-lo sem
parar, até decorar todos os sambas - todos mesmo. O que
levava um dia, no máximo dois. Falo do disco inteiro.
Hoje, não desafio nenhum amigo a cantar dois sambas do ano
passado porque ninguém aceita. E digo "dois sambas"
porque acredito que haja aqueles que ao menos o samba de
sua escola de coração ainda guarde fresco na memória.
Mas da minha escola, por exemplo, o último samba que
recordo é do século passado. Literalmente.
Felizmente,
aquele blablablá sem sentido de dizer que
"samba-antigo-não-dá-para-desfilar-hoje-porque-isso-porque-aquilo-etc"
acabou após aquelas belezas de desfiles em matéria de
harmonia, evolução e emoção que Império Serrano e
Portela nos proporcionaram com as releituras de
"Aquarela Brasileira" e "Lendas e Mistérios da
Amazônia". O tal blablablá sempre me pareceu uma
desculpa das mais tolas para a falta de qualidade dos
sambas atuais - e olhem que esse "atuais" já dura
bastante tempo, hein? Sofremos há mais de duas décadas
com uma enxurrada de sambas descartáveis.
Dei-me
o direito desse chororô todo para compensar a tristeza
de ouvir mais uma fraca safra de sambas-enredos das
escolas do principal grupo de desfile do carnaval do Rio
de Janeiro. Na economia, há a pobreza e a miséria, que
fica abaixo da linha da pobreza. Apenas mal comparando,
sem querer ofender, diria que
temos sofrido com sambas pobres de letra e miseráveis de
MELODIA.
Mas
ouvi com atenção e, juro, boa vontade. Até porque há um
Martinho da Vila no meio. Costumo dizer que, no cinema, um filme
menor de Woody Allen, por mais caído que seja, é melhor
que 99% das mais badaladas produções o ano inteiro. Pois bastam 30
segundos para perceber que um samba-enredo médio de
Martinho, mesmo que não esteja nem entre suas 20
melhores composições, é bem superior aos demais.
Além
de letras que costumam fugir ao lugar comum dos clichês e rimas
fáceis, Martinho é um mestre em MELODIA. Os
versos fluem, não parecem forçados. Por isso é fácil
destacar o samba da Vila Isabel - que, de quebra,
homenageia ninguém menos que Noel Rosa. Tudo para dar
certo.
Abaixo
da Vila, cito o samba da Ilha. A MELODIA é bem razoável, com uma empolgação no estilo da escola. Mas
destaco principalmente a letra, que descreve muito bem o
enredo, o que até surpreende quando sabemos que surgiu
da união de
sambas de duas parcerias. Dá até vontade de ler "Dom Quixote de La
Mancha". O personagem é muito conhecido, mas o livro
talvez não seja lido tanto quanto merece.
Também
com uma MELODIA razoável, ressalto ainda o trabalho dos
compositores da Unidos da Tijuca. Eles foram muito
felizes, conseguindo desenvolver com competência na
letra do samba um tipo de enredo muito fácil de se
perder.
Três é um bom número para destacar.
Há sambas com MELODIAS razoáveis e letras idem, que podem
até funcionar bem na Avenida. E há sambas sem qualquer
trabalho melódico, nos quais cantar a letra original ou
a constituição brasileira não faz a menor diferença. Há
samba com palavras e versos forçados, samba com palavras
com sílabas engolidas até pelo intérprete, já que
simplesmente não encaixam na MELODIA,
samba com jabá explícito... Triste.
Vivemos
a era do samba de resultados: o que importa é garantir o
10 do jurado. Parece até que os compositores seguem uma
espécie de fórmula que agrada às diretorias das escolas
- ou que é recomendada por elas. E que seriam do gosto
de quem julga samba-enredo, basta olhar as notas altas
distribuídas pelos jurados. Acaba tudo muito parecido:
melodias, batidas, letras... E, pela falta de hábito de
ouvir coisa diferente, há quem naturalmente ainda ache
bons os CDs de sambas-enredos das escolas de samba do
Grupo Especial.
O
que mais preocupa nisso tudo é o risco de uma geração
inteira ser formada sem parâmetro do que seja um bom
samba-enredo. Claro que há gente nova que curte,
pesquisa, ouve os antigos mestres e sabe de cor
clássicos de todas as épocas. Mas creio que muita gente
só tem como parâmetro o que é (mal)feito hoje - até por
causa da
patética chuva de notas 10 para
sambas-enredos dos quais ninguém se lembra um mês depois.
De tanto conviver com o medíocre e se
habituar ao medíocre, o medíocre passa a ser o
parâmetro, e assim parece não haver mais incentivo pela busca
do bom, pela busca da excelência. Isso acontece em
muitas áreas. Infelizmente, o samba é uma delas.
A
dúvida que fica em minha cabeça é essa: há realmente
interesse na produção de grandes sambas-enredos hoje em
dia? As escolas se preocupam com isso na hora de
escolher seus hinos? Ou basta apenas mandar para a pista aquele samba
de resultados, que
"serve-pra-desfilar", tradicional boi-com-abóbora,
fraco melodicamente e com
letra forçada, mas que contará com a incrível simpatia dos
jurados, que parecem achar tudo incrível, fantástico e
extraordinário no mundo dos sambas-enredos?
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A
palavra MELODIA aparece assim, toda em caixa alta, ao
longo do texto porque acredito que aí esteja o principal
problema dos sambas-enredos de hoje. É o que mais me
incomoda.
Se fosse compositor, escutaria à exaustão a pequena obra-prima
"Raízes", samba que Martinho da Vila, Ovídio Bessa e Azo
compuseram para a Vila Isabel em 1987. Sem rimas, sem
clichês, sem soluções fáceis... apenas MELODIA.
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Trilha-enredo da
coluna
A Vila Isabel, incorporada de Maíra
Se transforma
em deus supremo
Dos povos de raiz
Da terra Kaapor
O deus morava nas montanhas
E fez filhos do chão
Mas
só deu vida para um
No templo de Maíra
Sete deusas de pedra
Mas vida só
para uma
Destinada a Arapiá
Querubim Tapixi guardava
a deusa para ele
Que sonhava conhecer a natureza
Então ele fugiu
Da serra, buscando emoções
E se
encontrou com a mãe dos peixes Numiá
Por ela, Arapiá
sentiu paixão
E quatro filhos Numiá gerou
Verão, calor e luz
Outono, muita fartura
Inverno, beleza fria
Primavera, cores e
flores
Para enfeitar o paraíso
Mas
eclodiu a luta entre os dois amantes
Pelo poder
universal
Vovô Maíra interferiu na luta
E atirou os
dois para o ar
Para lá no céu jamais poderem se
envolver
Arapiá, Guaraci, bola de fogo
E Numiá,
é Jaci, bola de prata
E fez dos quatro netos,
governantes magistrais
Surgindo, assim, as estações dos
anos
A Vila Isabel...
"Raízes"
Martinho da Vila, Ovídio Bessa e Azo
Vila Isabel
1987
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Mas como
assim?
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19/01/2010
TV Globo faz
escola de samba mexer em samba-enredo
Publicado no site VOOZ (http://www.vooz.com.br/noticias/tv-globo-faz-escola-de-samba-mexer-em-samba-enredo-27461.html)
A menos de um mês do Carnaval, a
escola de samba de São Paulo Rosas de Ouro teve de
mexer em seu samba-enredo. A agremiação, que mostrará
a história do cacau, precisou substituir do refrão a
frase "o cacau é show" para "o cacau chegou" por
pressão da Globo, detentora exclusiva dos direitos do Carnaval para a TV.
A Rosas de Ouro é
apoiada pela marca de chocolates Cacau Show. "Não era
propaganda, mas resolvi mexer na letra depois de
conversar com algumas pessoas da Globo e da Liga [das
Escolas de Samba]. Fiquei com medo de criarem caso",
disse Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro.
Procurada, a Globo falou que está previsto no contrato
mantido com a Liga das Escolas de Samba de São Paulo
que não é permitido a realização de propaganda e de
ações de merchandising disfarçado, durante os
desfiles. coluna.
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Nota
10

Há bons enredos no carnaval deste ano, mas "João das ruas do
Rio", do Império Serrano, é meu predileto. João do Rio foi
um cronista que deixou um vasto legado sobre o Rio de
Janeiro de seu tempo e poderá propiciar um grande carnaval
à escola da Serrinha.
Nota 7
A
AESCRJ decidiu voltar a transformar em quesito as alas das
baianas. Será que não dava para deixar o que ainda resta
de mais tradicional nas escolas de samba em paz? Já não
basta ver diretores "tocando" as velhas baianas para a
frente como se fossem gado, como às vezes vemos na
Sapucaí?
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David Telio Duarte
davidelias@obatuque.com