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18-09-2007

Afinal, a cultura é de quem?

Secretaria Municipal das Culturas incentiva enredos sobre a cultura "dos outros"

O assunto é passado mas vai repercutir até o momento do desfile - e, quem sabe, até na apuração do resultado. E, de tão descabido, não pode deixar de ser comentado.


Deu no O Dia na Folia em 6 de julho, matéria de Raphael Azevedo:

Um dia depois de alguns presidentes do Grupo de Acesso A criticarem a demora da Prefeitura quanto à definição da verba destinada ao carnaval temático, o secretário municipal das culturas, Ricardo Macieira, afirmou que a idéia faz parte das comemorações pelo bicentenário da chegada da família real ao Brasil e que o projeto vem sendo elaborado há um ano e dois meses. "A idéia de contemplar os Grupos de Acesso com essa verba foi pensada como uma forma de continuar a homenagem do carnaval à data histórica. Fiz o anúncio a partir do momento em que vimos que seria viável", explicou.

Ao saber que a idéia do carnaval temático não foi aceito por algumas agremiações e que muitas já tinham definido seus enredos, Macieira disse que ainda não recebeu nenhum comunicado oficial da Associação com o resultado da reunião que houve nesta quinta entre os dez presidentes do Grupo A.

Perguntado se a verba disponibilizada poderia ser dividida somente entre as escolas que se interessassem pelo carnaval temático, o secretário revelou que "não há nenhuma orientação nesse sentido". "Não sei nada sobre desistência de escolas. Mas caso uma ou outra não queira participar do projeto, o dinheiro continuará no Tesouro Municipal e será revertido no bem-estar do cidadão carioca. É uma conta muito simples. Cada escola vai receber R$ 200 mil reais para desenvolver um enredo histórico", completou.

Estácio de Sá, Caprichosos de Pilares, Acadêmicos da Rocinha e Império Serrano disseram não à idéia da Prefeitura e vão manter seus enredos. Santa Cruz, Lins Imperial, Renascer e Cubango toparam. Faltam agora as respostas de União da Ilha e Império da Tijuca.


Ponto inicial: carnaval temático só é válido como opção, não como obrigação. Salvo raríssimas exceções, como ocorreu em 1965 e 2000.

A
parte por nós negritada faz tristemente parecer chantagem para que todas se submetam à vontade da secretaria. Ou "incentivo" para que as escolas façam de enredo o que o órgão quer divulgar. Ou, ainda, prática ditatorial, dando aos que colaboram tudo e aos que resistem, nada. Ou...

Pois é, parece um monte de coisas. E todas ruins.

Inclusive, parece mais um exemplo da falta de respeito dos órgãos governamentais com as escolas de samba, que entram nesse enredo como marionetes ou vaquinhas de tetas de ouro, com todo mundo mamando mas cobrando até na hora de dar o de comer.

Vale lembrar que D. João VI foi dos governantes que mais tomou iniciativas que colaboraram para um mais rápido progresso desta colônia, embora saibamos, também, que ele não veio para cá de livre e espontânea inspiração, por despertar em um belo dia, suspirar e pensar: "Puxa, acho que vou passar uns tempos na paradisíaca terra brasilis". D. João veio por absoluta necessidade "napoleônica", por assim dizer, e tratou de melhorar as condições de seu exílio.

Uma discussão maior passaria até pela definição de "enredo histórico". Cartola não é História, com 'h' maiúsculo, em nossa cultura? Carmen Miranda não é História? Por que, então, não incentivar enredos históricos assim, calcados em nossa arte popular, na arte do povo brasileiro mesmo, não em nossas elites governantes?

Por alto, entre outras datas, apenas no âmbito centenário, 2008 marca os 100 anos de nascimento do nosso grande intérprete Sílvio Caldas e do nosso escritor Guimarães Rosa. 2008 ainda marca o centenário de morte de outro nosso consagrado escritor, Machado de Assis, e - ora vejam só! - os 100 anos de nascimento de Angenor de Oliveira, o nosso Cartola, lembrado com muito carinho pela Mocidade Unida de Jacarepaguá e pela Canários de Laranjeiras lá no popular desfile do Grupo de Acesso E.

Mas deuses do carnaval: por que a Secretaria das Culturas decidi celebrar, num desfile de escolas de samba, os 200 anos da chegada da família real, ignorando os 100 anos de nascimento de Cartola???

Em vez de se preocupar em incentivar as escolas a investirem na NOSSA história ou simplesmente incentivá-las com todo o suporte necessário para fazerem o que entenderem ser o melhor para o seu carnaval, "nossas" autoridades optam por uma adaptação da velha prática política do toma-lá-dá-cá: "Te dou mais dinheiro, mas farás o que quero."

Enfim, isso tudo lembra tempos ditatoriais de nosso país, quando as escolas de samba eram coagidas a desfilar com enredos exaltando isso, aquilo, Marinha, Aeronáutica, Exército, marechal daqui, general de lá, batalhas de tudo o que é lado... Nada que, historicamente, não pudesse resultar em bons enredos e bons desfiles, mas que, sendo imposto, não passava de propaganda oficial maquiada de arte pelo talento do povo que faz o carnaval. Como vai acontecer agora.
 

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Trilha-enredo da coluna

Ei, você aí
Me dá um dinheiro aí
Me dá um dinheiro aí

Não vai dar
Não vai dar não
Você vai ver
A grande confusão

("Me dá um dinheiro aí",
Ivan Ferreira)

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Mas tem mais!

Estava com a coluna pronta quando bati os olhos nessa chamada da capa do O Dia Online de 20 de setembro:

"Polêmica real no Carnaval - Cesar Maia manda secretário fiscalizar a São Clemente, patrocinada pelo Município. Ele não quer deboche no enredo sobre 200 anos da vinda de Dom João VI."

Censura nas escolas de samba? Coisa bem democrata, hein? Não que, a essa altura dos acontecimentos, seja exatamente uma surpresa, mas... E o argumento deve ser naquela base do "não podemos denegrir a imagem do homenageado".

Tudo bem, não se deve mesmo fazer isso, denegrir a imagem de um homenageado. O errado é a existência da "homenagem" patrocinada, o que compromete a escola com quem está investindo, tira a liberdade do artista e faz a homenagem ganhar aquelas aspas usadas ali atrás.

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Nota 10
Para as escolas que puderam resistir e manter seus enredos originais. Já pensaram que derrota para o carnaval se a Império Serrano trocasse Carmen Miranda por D. João VI? A Pequena Notável que, curiosamente, viveu seus primeiros 10 meses de vida em terras lusitanas...

Nota 7
Para a Secretaria Municipal das Culturas, que em vez de incentivar a nossa cultura de verdade, muito bem representada pelas escolas de sambas, tenta submetê-las a interesses que tratam mais de outras culturas. Ou de outros interesses. É o caso de perguntar: a secretaria é das culturas de quem?

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David Telio Duarte
davidelias@globo.com

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