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13-06-2007

De escolas
de samba e de $amba

Escolas de samba...

Campinho foi, mais uma vez, um grande carnaval de escolas de samba e foliões, incluindo-se muitas e muitas famílias, crianças e grupos fantasiados como manda ou mandava -  a melhor tradição do carnaval de rua carioca. E principalmente, graças a Deus, um carnaval de muita paz e tranqüilidade, como desejamos que continue nos próximos anos e sonhamos para toda a cidade – e não apenas nos quatro dias de festejos de Momo.

Nós, aqui em nosso canto da rede, defendemos muito o carnaval feito pelas escolas de samba que desfilam na Intendente Magalhães. Isso porque entendemos que, hoje, o verdadeiro desfile de escolas de samba como cultura popular (popular mesmo, representando o povo, feito pelo povo, transmitido pelo povo e para o povo) encontra-se em Campinho, no esforço para superar a falta de grana com criatividade, dedicação e paixão, e não no luxuoso desfile do Grupo Especial da Marquês de Sapucaí.

... e escolas de $amba

O desfile do Grupo Especial é um dos mais belos espetáculos da Terra. Lindo, fantástico, maravilhoso. E com aquele quê a mais que é o fato de, ao contrário do que é comum em qualquer grande espetáculo artístico, não haver ensaio com todos os figurinos e cenários, tendo a sua forma final conferida no momento mágico do desfile.

Esses desfiles de domingo e segunda estão cada vez mais próximos da grande ópera preconizada por Joãosinho Trinta décadas atrás. Uma ópera, porém, mais e mais afastada do popular. Da concepção do carnaval às dependência para o público, o que não é considerado no Sambódromo é o popular.

Um bom exemplo de como o povo na Avenida é algo dispensável para os desfiles atuais é o excesso de coreografias e cenas desenvolvidas no alto dos carros alegóricos – absolutamente impossíveis de serem devidamente percebidas por alguém que não esteja no alto das arquibancadas, pois são criações feitas principalmente para a torre de TV e os milhões de telespectadores que assistem ao evento em todo o mundo. Como um cidadão numa frisa, na maior parte das arquibancadas ou mesmo nos camarotes pode perceber inteiramente a formação no alto de uma alegoria, bem acima do campo de visão dele?

Aliás, como pode um jurado julgar algo que ele também não vê a contento, em sua integralidade? Até bateria passou em cima de carro. Foi lindo. Vendo pela TV achei impressionante, inclusive a representação fake da bateria na ala a seguir. Mas quem estava embaixo não viu. E por mais lindo que tenha sido, bateria em cima de carro nada acrescenta ao desfile de escola de SAMBA. Os ritmistas deixam de evoluir, característica do desfile de uma escola. Passam a parecer mais músicos de uma orquestra. E músicos em cima de carro Dodô e Osmar puseram com incrível sucesso na Bahia há muitas décadas: são os trios elétricos que arrastam multidões. Vejam bem: "arrastam", não são "assistidos por".

É o carnaval das escolas de samba enveredando por errados caminhos percorridos pela ópera, que em sua origem foi popular e hoje tem um conceito de lazer elitista. Ou o povo pode pagar quase mil reais para desfilar numa dita grande escola? Duzentos, trezentos, quatrocentos... para assistir ao desfile? Pagar cinco por um refrigerante ou outro valor exorbitante por um sanduíche qualquer? Fora aquele total desrespeito à idéia de Oscar Niemeyer na concepção do Sambódromo, algo a que nos referimos neste espaço. Em troca da criação e comercialização das frisas, o povo foi tirado da Avenida e jogado no Mangue – e as autoridades ainda divulgam isso com orgulho...

Menos expressão de cultura popular do que nunca, essa ópera do carnaval do Grupo Especial agora está mais para um grande evento publicitário que outra coisa, expondo uma empresa, uma cidade, uma festa... Afinal, pagou, levou. Lendo as manchetes da mídia, podemos bem ver isso na redundância com que nos deparamos com o verbo 'acertar': "escola e estado fecham acerto"; "escola e prefeitura acertam enredo de 2008"; "escola e companhia não-sei-de-quê acertam enredo"... E por vai. Hoje, os enredos são "acertados" – o que em muitas conotações não soa bem. Foi-se o tempo em que o enredo era representação de um sonho genial do artista.

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Pagar por quê?

Essa excessiva comercialização das superescolas de $amba S/A é vista em todos os setores e estamos carecas de ouvir e comentar. São carnavais de milhões de reais, com as agremiações recebendo de diversas fontes. Nesse comércio todo, sequer faz sentido o componente da escola pagar para desfilar. Se a escola vai ganhar tanto com o desfile, ela deveria "contratar" o componente, até porque o componente de uma escola do Grupo Especial está cada vez mais enquadrado numa marcha de desfile, com os movimentos cerceados e direcionados a coreografias planejadas. Samba no ? Quê isso!? Pode não...

A
ssim, os componentes passaram de protagonistas a simples figurantes. E figurantes não pagam para aparecer em filmes ou novelas. Ao menos lanche eles ganham. Por isso, sempre merecem maior simpatia aquelas escolas que mais vestem seus componentes. Elas sabem que podem e reconhecem que precisam mais de seus componentes, de sua comunidade, do que os componentes precisam delas. Afinal, uma comunidade pode levar sua escola para a Avenida mesmo sem luxo, mas, por mais luxo e magnitude que ostente, uma escola de samba não pode desfilar sem sua comunidade. Não mesmo.

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A Cesar o que é de Cesar

Na coluna passada, filosofávamos, em relação ao rebaixamento da Estácio, se havia algo mais entre a pista de desfile e os mapas dos jurados do que nossa filosofia consegue imaginar. Hoje, os resultados dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial foram parar nas páginas policiais e devem acabar em CPI.

Bem, para muitos, a credibilidade ou o pouco que restava dela – dos resultados, por motivos diversos (e não especificamente os que levaram o Carnaval 2007 às manchetes) foi para o espaço no ano em que a grande Portela não foi rebaixada mesmo não desfilando, uma afronta à própria história da tradicionalíssima agremiação.

A devido a essas perenes discussões e tititis sobre notas, OBatuque.com sempre valorizou cada desfile de cada escola que desfila na Marquês de Sapucaí ou na Intendente Magalhães. Todas igualmente campeãs perante nossos olhos, principalmente suas comunidades, por ainda conseguirem se fazer representar e levar seu sonho de carnaval para a Avenida.

Quanto ao Carnaval 2007, especificamente, que agora sob suspeita, acredito que a Beija-Flor reúna dois méritos incontestes, que justificam seu título – e quantos mais vierem: primeiro, como dito no tópico anterior, a Beija-Flor é uma escola que mais procura vestir toda a comunidade; segundo, a Beija-Flor é provavelmente a única escola que você pode reconhecer na Avenida: daqui a dois, três ou quatro anos, salvo algum imprevisto realmente imprevisto, sabemos que Neguinho estará puxando o carro de som, Selminha será a porta-bandeira, Raísa, a rainha de bateria... e por vai.

Nesses tempos de comercialização e profissionalismo explícitos do desfile dito principal, é extremamente salutar que uma escola ainda se faça reconhecer assim, mantendo uma identidade.

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Trilha-enredo da coluna

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
"Rambo-sitores", mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão
E o samba vai perdendo a tradição

("E o Samba Sambou",
Helinho 107, Mais Velho, Chocolate e Nino)

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Nota 10
Para todas as comunidades que levaram suas escolas para as passarelas da Sapucaí e de Campinho. Todas grandes e igualmente campeãs do carnaval carioca.

Nota 7
Para o exacerbado troca-troca nas escolas. Lamentável que ao fim de cada carnaval o mundo do samba seja bombardeado com tantas trocas e contratações. Quem acredita em amor se o que vale é quem paga mais? Há a dedicação profissional, mas apenas isso, sem qualquer identificação com a escola. Quem está aqui hoje, amanhã estará . E tudo baseado em quê? Nas notas dos jurados? Salvo exceções que comprovem a regra, falta competência e personalidade às escolas para julgar o trabalho de seus componentes e diversos setores independente de avaliações muitas vezes inconsistentes.

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David Telio Duarte
davidelias@globo.com

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