NA SOCIAL DO SAMBA

28-01-2010

Na social do samba

*Daniel Duarte

Pensando muito em como introduzir uma coluna sobre responsabilidade social em nosso site, percebi que nada seria melhor que exemplificar atitudes pessoais que dão luz à arte e à respectiva aproximação com o samba carioca.

Já se tem como notório o valor atribuído aos projetos sociais desenvolvidos, por exemplo, nas vilas olímpicas da Mangueira e do Salgueiro, mas também nos damos conta de que muito ainda pode e deve ser explorado nesse campo. As principais consequências de ações sociais nas escolas, seja com atividades esportivas e culturais, ou mesmo nas tão importantes escolinhas de ritmistas e mestres-salas e porta-bandeiras, são a renovação do sambista e a preservação da história do samba.

Eventualmente nos deparamos com a constatação de que algumas escolas de samba não conseguem manter um contingente permanente, da sua própria comunidade, em setores como bateria, crianças e baianas. Como se ritmistas, crianças e senhoras do samba não existissem mais nos nossos morros. Sabemos que o funk tem sido grande atrativo para os jovens que eventualmente seriam os ritmistas.

Da mesma forma, a questão da religiosidade vai dando nova direção às senhoras baianas das escolas. Já as crianças, ficam em meio a isso tudo, talvez conduzidas pelos responsáveis, sambistas que talvez não queiram ver interrompida a linhagem do samba que seus antepassados construíram, levando-as meio que forçando a barra para horas de espera em concentrações sem segurança e ambiência apenas razoável, muitas vezes submetidas a indumentárias pesadas e desconfortáveis, sem contar o avançar da hora da realização dos desfiles.

Bom, sei que essa discussão pode dar pano pra manga, então vamos abordá-la ao longo de nossos encontros, ok? Vale como introdução da diretriz que pretendemos dar a este espaço.

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Betho do AfroReggae

Margeando toda a louca movimentação de pessoas que participam do carnaval carioca, personagens do mundo artístico que durante todo o ano realizam atribuições de elevado cunho social se deixam absorver por completo quando da aproximação da folia de Momo. Esse é o nosso tema neste post.

Assim, nada mais oportuno do que a criação desse espaço, onde ocasionalmente traremos para nossa tela de navegação alguns desses personagens que em muito representam o que de mais autêntico temos na nossa cultura popular. Vamos buscar sempre realizar entrevistas que exemplifiquem os caminhos do samba para cada um desses personagens.

Desta vez, o nosso bate-papo é com um paulistano, isso mesmo! Um paulistano radicado e “misturado” com o Rio de Janeiro através das atividades artísticas que realiza profissionalmente, bem como com o papel de coordenador de projetos especiais do AfroReggae. Seu nome é José Roberto Pacheco, no meio artístico comumente chamado de Betho Pacheco.

Esse cara simpático, com formação em diferentes ritmos de dança e que atua como professor para
crianças e adolescentes em comunidades historicamente atravessadas pelo processo de exclusão social, é ainda responsável pela estratégia de ação de sua instituição com adolescentes em situação de conflito com a lei e os que estudam em escolas localizadas em áreas de risco. Betho é fã do samba, tem sua escola de coração e vai nos contar um pouco dessa sua relação com a juventude e o carnaval carioca.

OBatuque.com – Como foi sua vinda para o Rio de Janeiro?
Betho – Cheguei no Rio de Janeiro em 1991, como bailarino do espetáculo da Claudia Raia “Não Fuja da Raia”, que ficou em cartaz em São Paulo por um ano e aqui por mais dois anos e meio, no Teatro Ginástico.

OBatuque.com E essa natureza artística? Foi uma opção natural ou seguiu os passos ou orientação de alguém em especial?
Betho – Foi natural. Com as influências e orientações que tive, era para ser um administrador de empresas. Fui até funcionário publico da prefeitura de São Paulo. Mas a arte falou mais alto e mesmo trabalhando para ter minha renda, já fazia teatro e dança e não tive como evitar a força do destino.

OBatuque.com O gosto pelo carnaval e as escolas de samba vem de onde?
Betho – Desde criança já curtia carnaval. No meu bairro havia duas escolas de samba. Uma mais famosa, chamada Unidos do Peruche, e a outra na qual sambei muito no barro do terreiro do samba que se chamava Acadêmicos do Peruche, foi lá onde tudo começou. Mas meu pai me contou uma historia muito interessante que acho que justifica tudo que sou agora. Ele sempre levou minha irmã e eu, os mais novos da família, para ver carnaval de rua na Lapa. Uma vez, eu estava do lado de dentro das cordas vendo o desfile quando uma baiana chegou e me colocou um colar. Eu saí sambando com a escola e ele ficou assustado pensando que a baiana tivesse feito alguma coisa de “feitiço” ou “magia”. De alguma forma ela contribuiu positivamente, adoro o que faço, adoro escola de samba e me emociono toda vez que vejo a ala das baianas. É tudo de bom!  

OBatuque.com – Fale um pouco mais de seu trabalho social atualmente. Quais são suas principais ações?
Betho - Hoje, dentro do AfroReggae, sou coordenador de Projetos Especiais, que são os vários projetos que não acontecem dentro dos nossos núcleos comunitários: Vigário Geral, Parada de Lucas, Cantagalo, Alemão e Nova Era, em Nova Iguaçu. Um é a parceria com a Seeduc (Secretaria de Estado de Educação), com os projetos Oficinas Culturais do AfroReggae no Degase e o Escolando a Galera. O primeiro é voltado para a comunidade jovem do Rio de Janeiro que estuda nas unidades do sistema de medidas socioeducativas (adolescentes infratores). O segundo é com jovens das escolas da perifieria do Rio, onde sofrem com constantes influências do tráfico.

Outro projeto é com a Policia Militar de Minas Gerais, chamado Juventude e Polícia, que basicamente trata da aproximação do jovem dos aglomerados de Belo Horizonte com os policiais. Todas essas ações têm por objetivo estimular e oportunizar aos jovens em situação de risco as alternativas artísticas e esportivas, desvirtuando do caminho do tráfico e da violência. 

Por úlitmo, um projeto de grande potência exterior, em que trabalhamos na Inglaterra promovendo intercâmbio cultural entre jovens de várias cidades, como Manchester, Newcastle, Liverpool e Londres, incentivando a serem guerreiros culturais e produzir atividades nas suas cidades, onde podem causar maior aproximação entre as diferentes culturas sociais e raciais. O projeto se chama Control Warriors.

Além desses projetos, coordeno também dois grupos artísticos do AfroReggae: Makala Musica & Dança (percussão e dança) e a Banda Akoni(percussão, dança e canto afro-brasileiro formado só por meninas), ambos na favela de Vigário Geral.

OBatuque.com Como você consegue perceber o êxito de uma determinada ação social na qual esteja inserido?
Betho
 - Quando você planeja, organiza e executa uma ação com sabedoria e perseverança e quando você tem a resposta e vê o desenvolvimento do jovem que é nosso público alvo.

OBatuque.com
Quais são os limites e as possibilidades para a entrada de crianças e adolescentes no mundo artístico?
Betho
Limites e possibilidades são palavras bem menos pesadas que falamos hoje com nossos jovens. Hoje as condições são inúmeras, os meios que apresentamos para esses jovens desenvolverem suas habilidades e qualidades artísticas vêm com muito menos preconceito e com muito mais possibilidades. Disciplina e estudo são ferramentas fundamentais para os jovens ultrapassarem seus limites e possibilidades. É a filosofia do meu ensino, principalmente na arte.  

OBatuque.com
O que mais facilita e o que mais atrapalha essa aproximação no seu trabalho?
Betho – Não tenho obstáculos que me impeçam ultrapassá-los. Por mais que sejam difíceis, procuro a melhor forma, como um rio que procura o caminho do mar. Ser negro, para mim, já facilita tudo.     

OBatuque.com O que você destaca como de maior relevância no trabalho social com crianças e adolescentes?
Betho – É dar um papo “reto”, ser verdadeiro, respeitar e ser respeitado.

OBatuque.com O crime e as drogas concorrem com a vinculação dessas crianças e adolescentes com ações culturais?
Betho – Infelizmente, sim, mas já vejo uma luz bem mais brilhante no fim do túnel. Acredito sempre!

OBatuque.com Quais as principais atividades culturais que mais atraem os jovens hoje?
Betho – Hoje há várias atividades que se misturam e não se pode especificar uma só com uma juventude tão informatizada como a de hoje. O funk é unânime.

OBatuque.com O samba ainda tem seu espaço com o público do morro? E do asfalto?
Betho – Sempre tem. Sofre modificações, viram blocos, pagodes, está na comemoração de aniversário, casamento, partida de futebol, churrascada, enfim, tá no sangue do brasileiro, no asfalto ou no morro.  

OBatuque.com E as escolas de samba, por quais já desfilou?
Betho – Ah... Já fui campeão várias vezes pela minha escola do coração, que é a Mocidade Alegre. Desfilei pela Camisa Verde de São Paulo, pela minha escola do Rio, o Salgueiro, Beija flor, Mangueira, desfilei na Viradouro, Grande Rio, Mocidade de Padre Miguel, Jacarezinho, Unidos da Ponte, Unidos de Lucas, União da Ilha, Boi da Ilha, Santa Cruz, Tuiuti, Vila Rica, Inocentes de Belford Roxo, São Clemente, Alegria Zona Sul, Vila Isabel, Portela e no Bloco AfroReggae, todo ano. Vale a pena lembrar que hoje elas são empresas que empregam centenas de profissionais, isso é muito bacana.

OBatuque.com Em alguma dessas ocasiões a relação se deu pela repercussão de seu trabalho social?
Betho – Salgueiro e Portela, com o AfroReggae, e pela relação artística, a maioria delas, sempre com trabalho coreografado.

OBatuque.com Vamos para um bate-bola. Qual sua escola de coração?
Betho – Mocidade Alegre.

OBatuque.com Qual o desfile mais fantástico?
Betho – Tenho muitos desfiles fantásticos, mas o melhor foi no meu terceiro ano no Rio, quando desfilei na Unidos da Ponte como pivô da comissão de frente. Foi em 1994 e o enredo foi “Marrom da cor do samba”, em homenagem à Alcione.

OBatuque.com E o momento de mais emoção?
Betho – São dois: quando rolou o campeonato da Camisa Verde e Branco, no início dos anos 90, que foi decidido na minha coreografia de comissão de frente, e desfilar no topo do carro alegórico do Tambor Contemporâneo do Salgueiro, no carnaval de 2009.

OBatuque.com Um samba inesquecível?
Betho – “Ilu Ayê”, da Portela, 1972.

OBatuque.com E um enredo que valeu a pena ser abordado?
Betho – “Kizomba, festa da raça”, da Vila Isabel em 1988.

OBatuque.com Um intérprete?
Betho – Neguinho da Beija Flor.

OBatuque – Uma bateria?
Betho – A Furiosa! Salgueiro.

OBatuque.com Uma personalidade do mundo do samba?
Betho – Aí são duas também: Dodô da Portela e Beth Andrade. Lindas!

OBatuque.com Você acha legal a reedição de enredos ou sambas? Qual gostaria de desfilar?
Betho – Acho que sim, temos a possibilidade de cantar samba de verdade. Imagina, com a era Avatar, “Ziriguidum 2001” da Padre Miguel seria um luxo.

OBatuque.com Qual sua escola no Rio de Janeiro?
Betho – Salgueiro.

OBatuque.com Time de futebol?
Betho – Flamengo.

OBatuque.com Um recanto no Rio de Janeiro?
Betho – O pôr do sol nas pedras do Arpoador.

OBatuque.com O que o mundo precisa para ser melhor?
Betho – Haver tolerância às diferenças.

OBatuque.com A equipe do OBatuque.com agradece sua atenção e deseja sucesso na carreira profissional e nos desfiles do Carnaval 2010.
Betho –
Valeu! Muita Luz para todos!  

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*Daniel Duarte é assistente social, sambista e criador do site OBatuque.com

 

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