*Daniel
Duarte
Pensando
muito em como introduzir uma coluna sobre
responsabilidade social em nosso site, percebi que nada
seria melhor que exemplificar atitudes pessoais que dão
luz à arte e à respectiva aproximação com o samba
carioca.
Já se tem como notório o valor atribuído aos projetos
sociais desenvolvidos, por exemplo, nas vilas olímpicas
da Mangueira e do Salgueiro, mas também nos damos conta
de que muito ainda pode e deve ser explorado nesse
campo. As principais consequências de ações sociais nas
escolas, seja com atividades esportivas e culturais, ou
mesmo nas tão importantes escolinhas de ritmistas e
mestres-salas e porta-bandeiras, são a renovação do
sambista e a preservação da história do samba.
Eventualmente nos deparamos com a constatação de que
algumas escolas de samba não conseguem manter um
contingente permanente, da sua própria comunidade, em
setores como bateria, crianças e baianas. Como se
ritmistas, crianças e senhoras do samba não existissem
mais nos nossos morros. Sabemos que o funk tem sido
grande atrativo para os jovens que eventualmente seriam
os ritmistas.
Da mesma forma, a questão da
religiosidade vai dando nova direção às senhoras baianas
das escolas. Já as crianças, ficam em meio a isso tudo,
talvez conduzidas pelos responsáveis, sambistas que
talvez não queiram ver interrompida a linhagem do samba
que seus antepassados construíram, levando-as meio que
forçando a barra para horas de espera em concentrações
sem segurança e
ambiência
apenas razoável, muitas vezes submetidas a
indumentárias pesadas e desconfortáveis, sem contar o
avançar da hora da realização dos desfiles.
Bom,
sei que essa discussão pode dar pano pra manga, então
vamos abordá-la ao longo de nossos encontros, ok? Vale
como introdução da diretriz que pretendemos dar a este
espaço.
*** *** ***
Margeando toda a louca movimentação de pessoas que
participam do carnaval carioca, personagens do mundo
artístico que durante todo o ano realizam atribuições de
elevado cunho social se deixam absorver por completo
quando da aproximação da folia de Momo. Esse é o nosso
tema neste post.
Assim, nada mais oportuno do que
a criação desse espaço, onde ocasionalmente traremos
para nossa tela de navegação alguns desses personagens
que em muito representam o que de mais autêntico temos
na nossa cultura popular. Vamos buscar sempre realizar
entrevistas que exemplifiquem os caminhos do samba para
cada um desses personagens.
Desta vez, o nosso bate-papo é com um paulistano, isso
mesmo! Um paulistano radicado e “misturado” com o Rio de
Janeiro através das atividades artísticas que realiza
profissionalmente, bem como com o papel de coordenador
de projetos especiais do AfroReggae. Seu nome é José
Roberto Pacheco, no meio artístico comumente chamado de
Betho Pacheco.
Esse cara simpático, com formação em
diferentes ritmos de dança e que atua como professor
para
crianças e adolescentes
em comunidades
historicamente atravessadas pelo processo
de exclusão
social, é ainda responsável
pela estratégia de ação de
sua instituição com adolescentes em situação de conflito
com a lei e os que estudam em escolas localizadas em
áreas de risco. Betho é fã do samba, tem sua escola de
coração e vai nos contar um pouco dessa sua relação com
a juventude e o carnaval carioca.
OBatuque.com –
Como foi sua vinda para o Rio de Janeiro?
Betho –
Cheguei no Rio de Janeiro em
1991, como bailarino do espetáculo da Claudia Raia “Não
Fuja da Raia”, que ficou em cartaz em São Paulo por um
ano e aqui por mais dois anos e meio, no Teatro
Ginástico.
OBatuque.com
–
E essa natureza artística? Foi uma opção natural ou
seguiu os passos ou orientação de alguém em especial?
Betho –
Foi natural. Com as influências
e orientações que tive, era para ser um administrador de
empresas. Fui até funcionário publico da prefeitura de
São Paulo. Mas a arte falou mais alto e mesmo
trabalhando para ter minha renda, já fazia teatro e
dança e não tive como evitar a força do destino.
OBatuque.com
–
O gosto pelo carnaval e as escolas de samba vem de onde?
Betho –
Desde criança já curtia carnaval. No meu bairro havia
duas escolas de samba. Uma mais famosa, chamada Unidos
do Peruche, e a outra na qual sambei muito no barro do
terreiro do samba que se chamava Acadêmicos do Peruche,
foi lá onde tudo começou. Mas meu pai me contou uma
historia muito interessante que acho que justifica tudo
que sou agora. Ele sempre levou minha irmã e eu, os mais
novos da família, para ver carnaval de rua na Lapa. Uma
vez, eu estava do lado de dentro das cordas vendo o
desfile quando uma baiana chegou e me colocou um colar.
Eu saí sambando com a escola e ele ficou assustado
pensando que a baiana tivesse feito alguma coisa de
“feitiço” ou “magia”. De alguma forma ela contribuiu
positivamente, adoro o que faço, adoro escola de samba e
me emociono toda vez que vejo a ala das baianas. É tudo
de bom!
OBatuque.com
–
Fale um pouco mais de seu trabalho social atualmente.
Quais são suas principais ações?
Betho
- Hoje,
dentro do AfroReggae, sou coordenador de Projetos
Especiais, que são os vários projetos que não acontecem
dentro dos nossos núcleos comunitários: Vigário Geral,
Parada de Lucas, Cantagalo, Alemão e Nova Era, em Nova
Iguaçu. Um é a parceria com a Seeduc (Secretaria de
Estado de Educação), com os projetos Oficinas
Culturais do AfroReggae no Degase e
o Escolando
a Galera. O primeiro é voltado para a comunidade
jovem do Rio de Janeiro que estuda nas unidades do
sistema de medidas socioeducativas (adolescentes
infratores). O segundo é com jovens das escolas da
perifieria do Rio, onde sofrem com constantes
influências do tráfico.
Outro
projeto é com a Policia Militar de Minas Gerais, chamado Juventude
e Polícia, que basicamente trata da aproximação do
jovem dos aglomerados de Belo Horizonte com os
policiais. Todas essas ações têm por objetivo estimular
e oportunizar aos jovens em situação de risco as
alternativas artísticas e esportivas, desvirtuando do
caminho do tráfico e da violência.
Por úlitmo,
um projeto de grande potência exterior, em que
trabalhamos na Inglaterra promovendo intercâmbio
cultural entre jovens de várias cidades, como
Manchester, Newcastle, Liverpool e Londres, incentivando
a serem guerreiros culturais e produzir atividades nas
suas cidades, onde podem causar maior aproximação entre
as diferentes culturas sociais e raciais. O projeto se
chama Control
Warriors.
Além desses projetos, coordeno
também dois grupos artísticos do AfroReggae:
o Makala
Musica & Dança (percussão
e dança) e a Banda
Akoni(percussão, dança e canto afro-brasileiro
formado só por meninas), ambos na favela de Vigário
Geral.
OBatuque.com
–
Como você consegue perceber o êxito de uma
determinada ação social na qual esteja inserido?
Betho - Quando
você planeja, organiza e executa uma ação com sabedoria
e perseverança e quando você
tem a resposta e vê o desenvolvimento do jovem que é
nosso público alvo.
OBatuque.com
–
Quais são os limites e as
possibilidades para a entrada de crianças e adolescentes
no mundo artístico?
Betho
–
Limites e possibilidades são palavras bem menos pesadas
que falamos hoje com nossos jovens. Hoje as condições
são inúmeras, os meios que apresentamos para esses
jovens desenvolverem suas habilidades e qualidades
artísticas vêm com muito menos preconceito e com muito
mais possibilidades. Disciplina e estudo são ferramentas
fundamentais para os jovens ultrapassarem seus limites e
possibilidades. É a filosofia do meu ensino,
principalmente na arte.
OBatuque.com
–
O que mais facilita e o que mais atrapalha essa
aproximação no seu trabalho?
Betho –
Não tenho obstáculos que me impeçam ultrapassá-los. Por
mais que sejam difíceis, procuro a melhor forma, como um
rio que procura o caminho do mar. Ser
negro,
para mim, já facilita tudo.
OBatuque.com
–
O que você destaca como de maior relevância no trabalho
social com crianças e adolescentes?
Betho –
É dar um papo “reto”, ser verdadeiro, respeitar e ser
respeitado.
OBatuque.com
–
O crime e as drogas concorrem com a vinculação dessas
crianças e adolescentes com ações culturais?
Betho –
Infelizmente, sim, mas já vejo uma luz bem mais
brilhante no fim do túnel. Acredito sempre!
OBatuque.com
–
Quais as principais atividades culturais que mais atraem
os jovens hoje?
Betho –
Hoje há várias atividades que se misturam e não se pode
especificar uma só com uma juventude tão informatizada
como a de hoje. O funk é unânime.
OBatuque.com
–
O samba ainda tem seu espaço com o público do morro? E
do asfalto?
Betho –
Sempre tem. Sofre modificações, viram blocos, pagodes,
está na comemoração de aniversário, casamento, partida
de futebol, churrascada, enfim, tá no sangue do
brasileiro, no asfalto ou no morro.
OBatuque.com
–
E as escolas de samba, por quais já desfilou?
Betho –
Ah... Já fui campeão várias vezes pela minha escola do
coração, que é a Mocidade Alegre. Desfilei pela Camisa
Verde de São Paulo, pela minha escola do Rio, o
Salgueiro, Beija flor, Mangueira, desfilei na Viradouro,
Grande Rio, Mocidade de Padre Miguel, Jacarezinho,
Unidos da Ponte, Unidos de Lucas, União da Ilha, Boi da
Ilha, Santa Cruz, Tuiuti, Vila Rica, Inocentes de
Belford Roxo, São Clemente, Alegria Zona Sul, Vila
Isabel, Portela e no Bloco AfroReggae, todo ano. Vale a
pena lembrar que hoje elas são empresas que empregam
centenas de profissionais, isso é muito bacana.
OBatuque.com
–
Em alguma dessas ocasiões a relação se deu pela
repercussão de seu trabalho social?
Betho –
Salgueiro e Portela, com o AfroReggae, e pela relação
artística, a maioria delas, sempre com trabalho
coreografado.
OBatuque.com
–
Vamos para um bate-bola. Qual sua escola de coração?
Betho –
Mocidade Alegre.
OBatuque.com
–
Qual o desfile mais fantástico?
Betho –
Tenho muitos desfiles fantásticos, mas o melhor foi no
meu terceiro ano no Rio, quando desfilei na Unidos da
Ponte como pivô da comissão de frente. Foi em 1994 e o
enredo foi “Marrom da cor do samba”, em homenagem à
Alcione.
OBatuque.com
–
E o momento de mais emoção?
Betho – São dois: quando rolou o campeonato da
Camisa Verde e
Branco, no início dos anos 90, que foi decidido na minha coreografia
de comissão de frente, e desfilar no topo do carro
alegórico do Tambor Contemporâneo do Salgueiro, no
carnaval de 2009.
OBatuque.com
–
Um samba inesquecível?
Betho –
“Ilu Ayê”, da Portela, 1972.
OBatuque.com
–
E um enredo que valeu a pena ser abordado?
Betho –
“Kizomba, festa da raça”, da Vila Isabel em 1988.
OBatuque.com
– Um
intérprete?
Betho –
Neguinho da Beija
Flor.
OBatuque –
Uma bateria?
Betho –
A Furiosa!
Salgueiro.
OBatuque.com
–
Uma personalidade do mundo do samba?
Betho –
Aí são duas também: Dodô da Portela e Beth Andrade.
Lindas!
OBatuque.com
–
Você acha legal a reedição de enredos ou sambas? Qual
gostaria de desfilar?
Betho –
Acho que sim, temos a possibilidade de cantar samba de
verdade. Imagina, com a era Avatar, “Ziriguidum 2001” da
Padre Miguel seria um luxo.
OBatuque.com
–
Qual sua escola no Rio de Janeiro?
Betho –
Salgueiro.
OBatuque.com
–
Time de futebol?
Betho –
Flamengo.
OBatuque.com
–
Um recanto no Rio de Janeiro?
Betho –
O pôr do sol nas pedras do Arpoador.
OBatuque.com
–
O que o mundo precisa para ser melhor?
Betho –
Haver tolerância às diferenças.
OBatuque.com
–
A equipe do OBatuque.com
agradece sua atenção e deseja sucesso na carreira
profissional e nos desfiles do Carnaval 2010.
Betho –
Valeu! Muita Luz para todos!
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|
*Daniel Duarte é assistente social, sambista e
criador do site OBatuque.com |