Roger Linhares
De pai para filho, a herança do samba cantando a Mocidade
Certamente um dos mais promissores intérpretes de uma nova geração de sambistas, Roger Linhares vive a responsabilidade - e a emoção – de cantar na Avenida em 2005 o samba-enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de seu coração e onde o pai, Toco, escreveu seu nome na história. OBatuque.com conversou com o talentoso cantor e divide com os amigos do samba um pouco de sua história.
OBatuque.com – Nome, idade e bairro onde reside? Roger Linhares – Roger Linhares, tenho 32 anos e sou morador da Ilha do Governador.
OBatuque.com – Além de intérprete de samba, você tem alguma outra profissão fora do mundo do carnaval?
Roger Linhares – Atualmente eu só estou trabalhando como cantor de samba-enredo.
OBatuque.com – Fale um pouquinho pra gente como foi seu início no mundo do samba. Quais pessoas que o influenciaram e motivaram?
Roger Linhares – Na verdade, eu sempre fui fã do meu pai, o Toco, da Mocidade(*). Pra mim, ele é um grande cantor e compositor, e minha mãe, Dª Sonia, também uma grande cantora. Então isso me influenciou bastante. E minha vida com o samba começou com uma brincadeira do colégio Presidente Kennedy, onde estudava, quando teve um festival de música e eu inscrevi uma música do meu pai, sem ele saber. No dia do festival que eu comuniquei a eles e falei que ia ter um concurso e que tinha inscrito a música dele. E nesse festival fiquei em 2º lugar. Depois disso passei a freqüentar mais a quadra da Mocidade. Com isso, cantava um sambinha aqui, outro sambinha ali e acabei sendo convidado para ser o cantor oficial da escola mirim da escola. Isso foi em 1982 e eu tinha de 11 para 12 anos.
OBatuque.com – Por quais escolas você passou?
Roger Linhares – Estive na Mocidade na época de mirim, nos anos de 82 e 83. Depois, até 85 cantei na escola mirim do Salgueiro, a Alegria da Passarela. A partir daí, não me considerava mais tão mirim e voltei pra Mocidade para defender os sambas de meu pai e ajudá-lo. Lá eu fiquei até 97, quando tive minha primeira oportunidade de compor o carro de som, juntamente com o Wander Pires e o Paulo Henrique. Em 99 foi quando a União da Ilha entrou na minha vida. Eu fui defender o samba do meu compadre Djalma Falcão, do JR, do Bicudo e do Dito. O samba (“Barbosa Lima, 102 Anos do Sobrinho do Brasil”) acabou sendo campeão e o intérprete da Ilha era o Rixxa, que teve um problema com a direção e acabou saindo da escola. Eu então recebi o convite do Peixinho para assumir a Ilha junto com o Maurício Maia. Fizemos o nosso trabalho, foi um ano conturbado com o incêndio no barracão e depois a enchente, mas graças a Deus conseguimos o objetivo, que era de permanecer no Especial e fazer um bom trabalho. Demos o máximo da gente, dentro daquilo que nos propusemos a fazer, que era cantar o samba e conduzir bem a escola durante os 80 minutos na Avenida. Em 2000 voltei para a Mocidade, para auxiliar o Paulo Henrique. Em 2001 voltei pra Ilha, junto com o Wander Pires. E 2002 já fui puxador oficial do Boi da Ilha, e fui também um dos cantores da São Clemente. Em 2003 recebi um convite de São Paulo, onde fui o puxador oficial da Império da Casa Verde e em 2004 estive novamente na São Clemente, na União da Ilha, ao lado do Ito Melodia, e no Boi da Ilha, junto com meus companheiros Cadinho da Ilha e Nando Pessoa.
OBatuque.com – Como foi ficar durante alguns anos ao lado de grandes intérpretes aguardando a oportunidade de assumir uma grande escola? Como era isso na sua cabeça?
Roger Linhares – Na verdade foi um grande aprendizado. Cantar ao lado de Wander Pires, Paulo Henrique, Ito Melodia. Eu tive a oportunidade também de cantar, que Deus o tenha em bom lugar, com o Jackson Martins e vários nomes, mas sem grandes pretensões. Acho que tudo tem sua hora, seu momento certo e acho que agora chegou a hora e vou procurar dar o máximo de mim e fazer um bom trabalho pela Mocidade. A gente tem que estar preparado para assumir essa responsabilidade.
OBatuque.com – Assumir a Mocidade mexe com você? Até porque você tem um vinculo muito forte com a escola.
Roger Linhares – Na verdade, eu nasci ali. Meu pai é um compositor de longa data, que ganhou samba em 1958, então a responsabilidade torna-se maior ainda pelo fato de ter rodado por São Paulo, Ilha, São Clemente, Boi da Ilha e depois retornar à escola.
OBatuque.com – Qual sua expectativa para 2005? Roger Linhares – É de ser campeão pela Mocidade e fazer um bom trabalho por essa escola.
OBatuque.com – Qual sua escola de coração?
Roger Linhares – Mocidade Independente de Padre Miguel.
OBatuque.com – Qual seu time de futebol?
Roger Linhares – Sou Fluminense de coração.
OBatuque.com – Um samba-enredo inesquecível?
Roger Linhares – “Vira-Virou, a Mocidade Chegou”, 1990.
OBatuque.com – Um momento inesquecível que você vivenciou na Sapucaí?
Roger Linhares - Foi ter podido participar do título de 1997 da Mocidade, “Criador e criatura”. Ainda não estava no grupo de cantores, mas foi emocionante estar na ala de compositores e ver a Avenida cantando o samba com a gente.
OBatuque.com – Qual samba da história do carnaval que você gostaria de ter cantado na Avenida?
Roger Linhares – Acho que foi o “Vira Virou...” mesmo. Foi o ano que meu pai estava já há dez anos sem ganhar um samba, já que em 79 eu ainda era muito pequeno e em 90 eu pude ajudá-lo na disputa para ganhar o concurso, e ao mesmo tempo houve a frustração de não ter feito parte do grupo de cantores na Avenida.
OBatuque.com – Qual o grande intérprete de samba para você?
Roger Linhares – Com todo o respeito ao Jamelão, ao Aroldo Melodia, ao Neguinho da Beija-Flor, do qual eu sou fã, ao Nego, mas uma pessoa que me deu muita força, que eu admiro muito e aprecio muito seu trabalho é o Wander Pires.
OBatuque.com – Ao longo dos últimos anos você vem participando das disputas de samba em muitas escolas. Como é isso profissionalmente para você?
Roger Linhares – Na verdade, eu fico até doente. Por que eu faço com prazer, me entrego de corpo e alma, como se o samba tivesse sido feito por mim. E como profissional trabalho dessa forma. Sem dúvida é um trabalho muito importante, cantar na Mangueira, na Beija-Flor e em outras escolas. É uma oportunidade de demonstrar nosso trabalho, e quem sabe não é graças a esse trabalho, de ter cantado samba nessas escolas, no Boi, na Ilha, na Mangueira, na Grande Rio, e outras, que hoje estou aqui na Mocidade?
OBatuque.com – Deixa então uma mensagem de otimismo para os torcedores da Mocidade.
Roger Linhares – Firme e forte que a Mocidade vem pra abrir o desfile no primeiro dia e depois fechar o desfile no sábado das campeãs.
OBatuque.com – OBatuque.com o parabeniza pela brilhante ascensão como intérprete das escolas de samba do Rio de Janeiro e deseja sucesso no Carnaval 2005.
Roger Linhares – Eu é que agradeço o espaço que o OBatuque.com abre aos sambistas e desejo que continuem sempre mantendo esse canal de comunicação no mundo do samba.
(*) Nota do OBatuque.com: Toco, o pai de Roger Linhares, foi autor, entre outros, do samba-enredo que levou a Mocidade Independente de Padre Miguel a seu primeiro título no desfile principal, “O Descobrimento do Brasil”, em parceria com Djalma Cril, em 1979. Antes, em 1958, compusera ao lado de Cléber o hino que levou a escola a vencer o desfile do então Grupo 2 e ascender ao Grupo 1 (o equivalente ao Grupo Especial de hoje), de onde não mais saiu. Em 1990 a Mocidade também foi campeã com um samba de sua autoria, com os parceiros Jorginho Medeiros e Tiãozinho da Mocidade (“Vira, Virou, a Mocidade Chegou”). Com os mesmos parceiros, também compôs o samba campeão de 1991, "Chuê...Chuá...As Águas Vão Rolar”.