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31-10-2005
Fina Batucada
O ritmo feminino
chega à bateria
pelas mãos de Mestre Riko
No carnaval carioca - e
mais precisamente nas escolas de samba que desfilam nos diversos grupos,
seja na Marquês de Sapucaí ou mesmo na Intendente Magalhães -, podemos
observar o crescente leque de responsabilidades que os departamentos
femininos gradualmente assumem.
Tanto na organização dos eventos em quadra, no comando dos ateliês de
confecção, como em departamentos mais tradicionais, como harmonia e
bateria, os espaços estão aí para serem conquistados. Em muito menos se
depende da capacidade da mulher do que oportunidades que são abertas.
Não é raro o discurso das direções das agremiações que preterem a mulher
com argumentos infundados e presos a um processo cultural já bem
ultrapassado.
No último ano, a equipe de OBatuque.com teve a chance de
acompanhar um pouco mais de perto o trabalho do grupo de percussão
feminina Fina Batucada e testemunhar o talento, a vibração e a
disciplina dessas mulheres de diferentes idades, que com muita ginga e
competência mostram que o ritmo não depende do sexo, e sim da vontade e
do dom pessoal de cada pessoa.
A seguir poderemos entender um pouco mais desse trabalho através das
palavras de quem o construiu ao longo dos últimos cinco anos: seus
professores e alunos. Comandando o Curso de Percussão Feminina desde
2001, Mestre Riko e suas alunas conversaram com nossa reportagem e
explicaram como foi o desenvolvimento do projeto, que conta com a
matricula de mais de 600 mulheres de todas as idades.
Localizado na Rua Sete de Setembro, nº 192, Centro do Rio de Janeiro, o
Curso de Percussão Feminina atrai alunas dos 8 aos 80 anos e mostra aos
marmanjos de plantão que mulher também sabe bater na cadência do samba
de uma escola - e muito bem, por sinal.
*** *** *** *** ***

OBatuque.com – Riko, fala um pouco pra gente sobre você. Sua
idade, onde foi criado, formação....
Riko –
Bom, em relação à idade, posso te dizer que contei até os 15, depois
não contei nunca mais. A minha formação foi o seguinte. O meu tio era
clarinetista, percussionista e era mestre-sala da Unidos da Tijuca. Tudo
começou por ali. O negócio do samba, ele botava pra tocar, enquanto
ensaiava para os desfiles da Tijuca. Mas, infelizmente, depois ele
casou, se afastou um pouco da família, mas aí eu já gostava da batucada.
Lá onde eu moro, entre o morro do Borel e o morro da Casa Branca, toda
época de Folia de Reis, a gente fazia, época de samba, a gente arrumava
lá os latões e fazia o nosso batuque. Então, eu sempre gostei da
percussão. Com o tempo, eu vim amadurecendo essa idéia e acabei
procurando uma escola de música, sendo que, antes disso, passei pela
ordem dos músicos, onde conheci uma moça, chamada Helen Soares,
jornalista, que me apontou a escola de música, onde fiz uma avaliação e
fui aprovado. Já tinha lá pelos 25, 28 anos, e com o tempo acabei
ganhando o prêmio de melhor instrumentista do ano - não adianta que não
lembro o ano - e lá ganhei
uma bolsa pra
estudar na Associação dos Músicos Militares do Brasil. A partir daí fui
conseguindo ganhar vários prêmios.
OBatuque.com – E esse seu vínculo com as escolas de samba? Você
foi criado ali perto de escolas de samba, onde começou, e hoje você pode
dizer que tem uma escola de coração?
Riko –
Salgueiro, né? Salgueiro até hoje, embora não consiga mais desfilar
justamente devido aos trabalhos que a gente vem desempenhando com as
meninas, com as crianças, com pessoas da terceira idade. Ou seja, tudo
acabou tomando um pouco o meu tempo e não consigo mais desfilar. Mas
quem sabe a gente não consegue recuperar isso?
OBatuque.com – e algum desfile que o tenha marcado mais?
Riko –
Em escolas de samba foi no meu Salgueiro, minha escola de coração.
Foi o "Explode Coração" em 93, quando fomos campeões do carnaval.
OBatuque.com – Trazendo nosso papo mais para próximo do trabalho
do grupo Fina Batucada, como surgiu essa idéia? Como foi o início desse
trabalho? E como ele funciona atualmente?
Riko –
Olha só, eu sempre andando por aí, por várias escolas de samba,
sempre vi que as mulheres são minoria, tipo 2 ou 5% no máximo. E os
homens, os ritmistas das escolas, não deixam as mulheres tocarem caixas,
surdos ou coisa parecida. Eu comecei um trabalho na escola de música com
percussão. Só que estava acontecendo a mesma coisa. E um certo ano, acho
que foi 2000, as meninas chegavam pra mim e falavam: "Professor, toda a
vez que a gente monta uma bateria, nós não pegamos aquilo que a gente
gostaria de pegar, que é o surdo, uma caixa, os meninos só colocam a
gente no roncar, que é o chocalho, ou, às vezes, no tamborim". Eu então
disse a elas que ia fazer um trabalho, acho que em 2001, por um ano,
onde só as meninas iam tocar. Só que aí deu um boom, alguém descobriu, a
mídia veio em cima. Cara, era pra ser uma coisa de só um ano e está aí
até hoje. Quando eu abri inscrições pras meninas, em poucas semanas,
tipo duas semanas, já tínhamos cerca de 200 meninas inscritas. Um mês
depois, já eram 300. Aí eu falei: "Cara, o negócio está ficando sério".
E não consegui mais reverter a situação. Depois, conversando com Marco
Antônio, neto do Sérgio
Cabral, pra quem eu
dou aula, falei pra ele perguntar ao avô se já existia, ou se já
existiu, alguma bateria que tenha desfilado na Marquês de Sapucaí
formada só por mulheres. E ele disse que não. Que a única era a nossa.
Então, sem querer a gente acabou entrando pra História como única
bateria feminina a desfilar. Ano passado eu entrei com 250 meninas na
Avenida, desfilando pela escola mirim Corações Unidos, na qual tenho
muito a agradecer à diretora Marlene que acreditou no nosso trabalho e
deu muito apoio mesmo. De lá pra cá, a gente faz um monte coisas, a
gente não toca só samba. Tem o maracatu, o ylê aiê, toda a área
folclórica, dança como o coco, e isso está crescendo a cada dia que
passa.
OBatuque.com – E essa coisa da faixa etária? Como funciona?
Riko –
Na percussão? Hoje vai de 8 a 80. São meninas de todas as idades e
formações. São donas de casa, juízas, advogadas, secretárias...
OBatuque.com – O que a mulher que está interessada em aprender
percussão hoje precisa fazer pra fazer parte do grupo?
Riko –
De preferência, que ela não saiba nada. Aqui ela vai ter todos os
instrumentos, não precisa trazer instrumento nenhum, é só ela chegar
aqui na Sete de Setembro, 192, na quarta-feira, que é pra iniciantes, ou
na quinta-feira, pra quem já está tocando. Agora as meninas abriram um
espaçozinho para os meninos também poderem fazer. Só que aqui é o
contrário: enquanto que na escola de samba os meninos são maioria, aqui
a maioria são elas. Então, tem um pouco de meninos que é pra dar um
molho aqui. E tem o ensaio de sábado. No sábado, tem o grupo de 13h à
14h para iniciantes e de 14 às 16h é o grupo avançado, que já faz shows,
que toca mil coisas. O custo é mínimo. A menina paga apenas R$ 15,00 por
mês, que é o preço da baqueta, do esparadrapo, do papel pra enxugar a
mão e mais nada. E os meninos pagam um pouquinho mais, que são R$ 30,00,
só isso.
OBatuque.com – Hoje a gente pode quantificar essa participação
feminina nas baterias de escolas de samba?
Riko –
O que eu posso dizer é que a mulher ainda é uma minoria na questão
da bateria, a não ser nesta aqui, onde ela é a maioria absoluta. Mas em
todo lugar, em São Paulo por exemplo, são pouquíssimas mulheres
participando. A nossa percussão hoje tem cerca de 620 mulheres, eu não
conheço outra no país assim. Nesse espaço aqui a gente só consegue pôr,
no máximo, 100 pra tocar junto. São 100 num dia, no outro mais 100 e nós
estamos querendo comprar mais instrumentos. Hoje mesmo chegaram mais. E
a idéia dos ensaios aos sábados é justamente pra isso, pra levar o grupo
pra rua e poder botar 300 meninas tocando junto.
OBatuque.com – Na questão das escolas de samba, existe o papel do
diretor de bateria. Como você avalia a intervenção dessas pessoas no que
diz respeito à participação da mulher?
Riko –
Veja bem, tem escola, que eu não vou dizer o nome, que tem lá no
estatuto, que é proibido ter mulher na bateria. Eu ouvi dizer que é o
santo que não deixa, não sei qual é, mas tem essa justificativa. Eu
conheço pelo menos duas baterias grandes onde a mulher não pode tocar.
Teve uma época em que uma certa escola deixou um grupo maior de mulheres
entrar. Mas aí eu te digo que as mulheres são pessoas mais decididas.
Não que os homens não sejam, mas elas são mais. Se no nosso grupo você
diz pra uma menina "você é feia" e a outra escuta e diz "eu vou sentar",
ferrou, todas vão sentar e baixar os instrumentos. Nas escolas de samba,
a gente não vê isso. Alguém ofende um ritmista e o resto vai dizer
"deixa pra lá, azar o dele". Já vou responder sua pergunta, mas acho
importante falar isso, existe um sacrifício muito grande do ritmista. O
ritmista não é tão respeitado. Tem escola que a gente vê fechar o portão
pra ele não descer porque ele tem que tocar a noite toda, por duas
latinhas de cerveja. Brincadeira, né? E na hora de pegar a roupa, é
aquele jogo de empurra, não tem roupa, o cara sofre, tem que ficar ali
até o final e, de repente, nem pega a roupa pra desfilar. Quer dizer, o
cara tocou o ano inteiro, perdeu noites de sono - e você perder noites
de sono é perder saúde -, brigou em casa e, no final, não tem roupa pra
desfilar. Se os ritmistas fossem unidos e dissessem "fulano não vai
sair, então ninguém vai sair", muita coisa poderia ter mudado. Eu nunca
mais vi ritmista receber aquele cartãozinho, pra dar pra família ir à
Sapucaí assistir. Dizem que tem, mas eu nunca mais vi. Quanto à mulher
na percussão, as mulheres estão cada vez mais procurando as baterias,
mas não estão deixando ela entrar, ou então dizem: "você só vai até
ali". Com certeza é o diretor, não seria o meu caso, eu colocaria todas
lá dentro. Diria: "se você quer realmente sair, faça por onde, aprenda
um pouco mais pra poder sair". É claro que uma mulher não vai tocar
igual ao homem. O homem tem muito mais força. Não é que ela não
consiga, com
técnica, se sobrepor à força. Existem técnicas de baqueteamento na
escola de música, que a gente faz, que os meninos não têm acesso, mas,
graças a Deus, o ritmo é maravilhoso. No caso do Fina Batucada, 90% já
lê música, onde se guarda muita coisa. Não quer dizer que o ritmista
tenha que ler música. De repente, eles vão ler música e o swing vai
ficar quadrado. Hoje já se tem um problema nas escolas de samba, que é a
dificuldade de identificação do ritmo. As caixas das escolas estão todas
com problemas. É difícil, com a exceção do meu amigo que chegou lá em
Caxias e resolveu aquilo lá. Eu considero, hoje, o Odilon o Mestre André
de nossos tempos. Que me perdoem os outros mestres. O cara tem uma mente
pra fazer ritmo! Se Mestre André estivesse vivo, seriam os dois maiores
hoje. Eu cheguei a ter aulas com o Marçal, outro cara maravilhoso, que
sabia tudo. Mas eu vejo que não existe uma preocupação dos mais antigos
em passar aos mais novos o ritmo. O cara
chega lá, pega a
caixa e "tatá, tatá e tá bom". Ninguém chega pra ele e diz "o nosso
toque é esse aqui". Não sei se é falta de tempo, o que é, mas as
baterias estão muito aceleradas. As mulatas não conseguem sambar, não há
bunda que consiga acompanhar essa velocidade. Socorro! Não dá mais. Não
sei se é porque as escolas cresceram. As escolas estão com seis, oito
mil componentes, eles dizem que tem menos, eu duvido. Você vê escolas
como o Salgueiro, já entraram tantos carros, e ainda faltam outros
tantos pra entrar e cada vez o tempo é menor.
OBatuque.com – Quantas mulheres compõem, por exemplo, uma bateria
de Grupo Especial?
Riko –
No máximo, uns 2%, talvez 15 mulheres numa bateria. Sendo a maioria
no chocalho.
OBatuque.com – Deixa então uma mensagem à todas a mulheres que
são apaixonadas por samba, que freqüentam quadras e curtem a bateria.
Riko –
Eu falo o seguinte: se não tiverem oportunidades em nenhuma escola
de samba, podem vir pra cá. A Fina Batucada está de braços abertos pra
todas as mulheres, de todas as idades, de todas as formações. Não tem
discriminação. Preta, branca, mameluca, cafusa, aqui não tem esse
problema. Com certeza vão existir barreiras, mas se realmente ela gostar
e souber tocar, ela vai ter o lugar dela garantido. E nós estamos aqui
pra ensinar. Eu não sei muito, não, mas a gente aprende junto. Com
certeza.
OBatuque.com – Nossa equipe agradece a oportunidade desse
bate-papo e deseja sucesso ao grupo Fina Batucada.
Riko –
Nós é que agradecemos ao OBatuque.com.
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*** *** *** ***

OBatuque.com –
Bruna, fale pra gente a sua idade, onde mora e a primeira vez que você
ouviu falar do grupo.
Bruna –
Eu tenho 15 anos, moro no Flamengo e ouvi falar do grupo logo que
ele surgiu. Eu já toco com o Riko há oito anos e praticamente fui
criando junto com ele o grupo na escola Villa-Lobos.
OBatuque.com – E você já tinha gosto por escolas de samba?
Gostava de alguma?
Bruna –
Sempre tive, sempre achei lindo. Eu sou salgueirense. Inclusive
desfilava, mas nunca na bateria.
OBatuque.com – E como foram as primeiras aulas no grupo e,
depois, chegar a pegar instrumentos de percussão que também têm nas
baterias das escolas de samba?
Bruna –
Pô, pra mim foi perfeito, porque eu sempre tive o sonho de tocar
percussão. Sempre foi aquela coisa do "eu quero tocar, eu quero
tocar...", aí cheguei aqui e pude ver os instrumentos, muito legal.
OBatuque.com – Você já sabe tocar todos os instrumentos? Qual o
que você prefere?
Bruna –
Bom, todos não, até porque é meio impossível saber tocar todos. Mas
eu domino bem o surdo, sei o tamborim, roncar, agogô, caixa mais ou
menos...
OBatuque.com – Qual o que você mais gosta?
Bruna –
O surdo, com certeza.
OBatuque.com – Tem as aulas no curso, os ensaios na rua e,
inclusive, as apresentações que vocês já fazem. É diferente a aula da
Avenida, por exemplo?
Bruna –
É, sim, na Avenida é muita emoção. Você está desfilando, tocando na
bateria, é perfeito, todo mundo te olhando, te filmando, é maravilhoso.
OBatuque.com – E você, sendo salgueirense, sabendo bater
instrumentos de percussão que fazem parte da bateria da sua escola, o
que falta pra desfilar na bateria do Salgueiro, por exemplo?
Bruna –
esse é um sonho muito grande. Poder desfilar, ir aos ensaios, ficar
lá direto. Acho que falta só um pouco mais de idade, acho que ainda
estou um pouco nova pra enfrentar uma bateria daquela.
OBatuque.com – Qual é o principal desejo na mulher que motiva ao
aprendizado da percussão? É poder competir com o sexo masculino? Ainda
existe preconceito? Vocês encontram barreiras no cotidiano ou nas
escolas de samba?
Bruna –
Sim, ainda existe muito preconceito. Nas escolas de samba, por
exemplo, os mestres de bateria acham que só os homens têm força
suficiente para tocar um surdo e acabam discriminando as mulheres!
OBatuque.com – Como fica o cuidado pessoal, a feminilidade
carregando instrumentos que exigem muito esforço físico, tanto pra tocar
como pra carregar?
Bruna –
Você continua feminina do mesmo jeito, apesar de tocar um
instrumento pesado ou leve.
OBatuque.com – Como é a coisa da família? O pessoal apóia, acha
legal ou acha que é só uma coisa passageira?
Bruna –
Todo mundo apóia, é bem legal!
OBatuque.com – Deixa pra gente uma frase sobre o curso de
percussão feminina.
Bruna –
Apesar da fofoca que rola entre as meninas e a concorrência com os
meninos, é legal porque nós aprendemos a tocar vários instrumentos!
OBatuque.com – Parabéns, Bruna, e que você consiga realizar seu
sonho de desfilar na bateria do Salgueiro.
Bruna –
Obrigada a vocês do OBatuque.com.
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*** *** *** ***

OBatuque.com –
Natália, qual a sua idade e como você veio participar do grupo Fina
Batucada?
Natália –
Eu tenho 9 anos e vim pra cá através de uma amiga, a Maria Luiza,
que tinha aulas com o Riko lá na Villa-Lobos. Eu a via batendo e
perguntava como ela tinha tanto braço pra tocar surdo. Aí ela disse: "Eu
fui lá na Sete de Setembro, na Fina Batucada". Eu disse: "O que é
isso?". "É um prédio aí que tem lá e onde o Riko toca com a gente."
OBatuque.com – o que você achou quando chegou aqui a primeira vez
e viu um monte de meninas tocando bateria?
Natália –
Na verdade, eu só ficava olhando. Depois é que comecei a ver o
surdo, a caixa, tamborins, agogô... Depois o Riko veio apresentando o
xequerê.
OBatuque.com – Qual o instrumento que você mais gosta?
Natália –
O surdo, com certeza.
OBatuque.com – E o que você sente quando está batendo o surdo?
Natália –
Olha, pra tocar surdo, você primeiro tem que ter raiva de alguém.
Então, eu tenho mais ou menos todos os dias raiva de alguém. Aí é só
lembrar dessa pessoa e bater à vontade.
OBatuque.com – Você gosta de escolas de samba? Você tem uma de
coração?
Natália –
Gosto muito, sempre tive o sonho de desfilar. Minha escola é a
Beija-Flor. Sonho sempre um dia em poder tocar numa escola de samba,
desfilar na bateria.
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OBatuque.com –
Qual a sua idade e como você chegou ao grupo de percussão feminina?
Cristiane –
Eu tenho 17 e a primeira vez que ouvi falar foi quando estava na
7ª série e teve uma visita à escola Villa-Lobos. Lá eu vi o Riko dando
aula. Depois só fui ver novamente quando estava num projeto onde eu moro
e o Riko ia lá dar aulas pra jovens de 14 a 18 anos. Depois acabei vindo
pra cá e já estou aqui há sete meses.
OBatuque.com – Quando assistiu ao grupo pela primeira vez você já
pensava em aprender música, tocar percussão?
Cristiane –
Nada, não imaginava mesmo. Comecei a tocar um tamborim que nunca
tinha pegado e achei muito legal mesmo.
OBatuque.com – E quando você veio pra cá, o que achou?
Cristiane –
Eu vim junto com um amigo meu, já estava todo muito ensaiando.
Foi meio estranho ver muita gente fazer um monte de coisas que eu não
sabia. Tinha mulheres e já tinham algum homens também, sendo que muito
mais mulher, claro. Foi muito legal.
OBatuque.com – Quais os instrumentos que você já sabe tocar?
Cristiane –
Surdo, agogô e tamborim. São os que melhor aprendi.
OBatuque.com – você gosta de escolas de samba, já tem uma de
coração?
Cristiane –
Eu torço pro Salgueiro.
OBatuque.com – E você, já sabendo tocar e sabendo que na sua
escola tem uma bateria com os mesmos instrumentos, sente vontade de ir
lá tocar?
Cristiane –
Eu não vou dizer que eu sonho com isso. Mas, se pintasse a
chance, eu ia lá tocar e com certeza ia ser muito legal.
OBatuque.com – Deixa um recado então para outras meninas que às
vezes querem fazer isso também mas falta um empurrãozinho.
Cristiane –
O que eu posso dizer é que nada é impossível. Eu mesmo não sabia
tocar nada e hoje já toco bastante coisa. Se a pessoa quiser, nós
estamos aqui pra dar uma força.
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*** *** *** ***

OBatuque.com –
Felipe, como é participar de ensaio de bateria com um grupo só de
meninas?
Felipe –
Cara, é uma coisa de louco, né? Você fica aqui e, primeiro, você não
entende nada, se sente meio fora da situação. Mas depois que você vai
pegando a amizade delas, você consegue manter um relacionamento bem
legal.
OBatuque.com – Desde quando que você está no grupo? Quantos
ensaios?
Felipe –
Estou aqui desde o início do ano.
OBatuque.com – Você percebe alguma diferença dessa coisa da
mulher num grupo de ritmistas homens, e o contrário?
Felipe –
Não, porque o primeiro grupo que participo é aqui. E por ser
percussão feminina não vai fazer diferença, não.
OBatuque.com – Você acha que rola aquela coisa do não saber tocar
e depois se surpreende?
Felipe –
Pelo o que eu vi, não rola isso, não. De repente, aí fora, com o
pessoal de shows, pode até ser que role esse preconceitozinho, mas com a
gente aqui não rola, não. O pessoal se entende numa boa.
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OBatuque.com –
Qual sua idade, profissão, bairro, escola de samba e instrumento
predileto?
Cristiane -
31 anos, Servidor Público, Porto da Pedra (nascida e criada),
Unidos do Porto da Pedra e pandeiro.
OBatuque.com – Qual é o principal desejo na mulher que motiva o
aprendizado da percussão?
Cristiane -
É interessante sentirmos o pulsar do coração e saber que dali
vem a inspiração para condicionarmos um ritmo intrínseco que nos
mobiliza, e assim poder mostrar a arte que existe dentro de você através
da percussão.
OBatuque.com – Como é essa coisa do preconceito? Ainda existe?
Vocês encontram barreiras no cotidiano ou nas escolas de samba?
Cristiane -
Sim. O preconceito é existente em várias áreas de nossas vidas
e, inclusive, dentro das escolas de samba, uma vez que essas não aceitam
mulheres como ritmistas.
OBatuque.com – Como fica o cuidado pessoal, a feminilidade,
carregando instrumentos que exigem muito esforço físico, tanto pra tocar
como pra carregar?
Cristiane -
É importante que a mulher pratique qualquer atividade física
para manter uma boa saúde, e as percussionistas não fogem à regra. Há
exercícios de alongamento que devemos praticar antes e após tocarmos o
instrumento. Quanto à feminilidade, nunca será esquecida: algumas usam
luvas para evitar calos nas mãos, outras, caneleiras para tocarem surdo
e não se machucarem, outras usam bonés e batons para se proteger do sol.
OBatuque.com – Como é a coisa da família? O pessoal apóia, acha
legal ou acha que é só uma coisa passageira?
Cristiane -
Graças a Deus nasci em uma família que é um berço musical. Meu
avô tocava trombone de vara e minha avó canta maravilhosamente. Meu
padrinho aprendeu trombone com meu avô, meus pais tocam violão, meus
primos e tios tocam vários instrumentos (bateria, contrabaixo, guitarra,
cavaco, violão flauta transversa, saxofone...) e ainda cantam. Ou seja,
pretendo me especializar para poder ser profissional, e recebo todo o
apoio de minha família. Quando há um aniversário, fazemos disso uma
verdadeira confraternização familiar e musical.
OBatuque.com – Deixe uma frase sobre o curso de percussão
feminina:
Cristiane -
Descobri que não tem preço obter satisfação pessoal fazendo a
atividade que nos alegra. Tocar neste grupo está sendo uma verdadeira
realização. |


As aulas de Mestre Riko têm atraído
um número cada vez maior de alunas

Beatriz
está no grupo desde 2003, gosta da
caixa de guerra e diz que não tem escola
de samba: "Talvez Imperatriz"


Bruna, de 15 anos, já é um talento
pronto na marcação do surdo de primeira

A tijucana
Maria Zuleica, 59, a salgueirense Rita, 52 e a jovem Joice,
15, nas primeiras
aulas de tamborim, em abril desde ano

Cristiane,
de 31 anos, também
é aluna da Escola de Música Villa-Lobos


Flávia, que
já desfilou na Arranco, está
motivada com o grupo e gosta da
caixa e da marcação de 3ª

Camila, de
apenas 10 anos, mora em Stª Tereza
e já escolheu o tamborim como instrumento
predileto. Está no grupo desde
fevereiro de 2005

Mariana
soltando o braço na marcação


Cristiane
se descobriu com as aulas de música

Célia
Regina é mãe de Sabrina e auxilia
na organização do cadastro de
mais de 600 meninas

A pequena
Natalia com o surdo.
Detalhe na proteção no tornozelo

Mestre Riko faz questão de iniciar sua aulas
com o Hino Nacional e com a
Bandeira do Brasil ao fundo



Felipe não
vê motivos para
preconceito com a mulher percussionista




Bruna no
início do ano, sempre no surdão
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