FINA BATUCADA

31-10-2005

Fina Batucada
O ritmo feminino chega à bateria
pelas mãos de Mestre Riko

No carnaval carioca - e mais precisamente nas escolas de samba que desfilam nos diversos grupos, seja na Marquês de Sapucaí ou mesmo na Intendente Magalhães -, podemos observar o crescente leque de responsabilidades que os departamentos femininos gradualmente assumem.

Tanto na organização dos eventos em quadra, no comando dos ateliês de confecção, como em departamentos mais tradicionais, como harmonia e bateria, os espaços estão aí para serem conquistados. Em muito menos se depende da capacidade da mulher do que oportunidades que são abertas. Não é raro o discurso das direções das agremiações que preterem a mulher com argumentos infundados e presos a um processo cultural já bem ultrapassado.

No último ano, a equipe de OBatuque.com teve a chance de acompanhar um pouco mais de perto o trabalho do grupo de percussão feminina Fina Batucada e testemunhar o talento, a vibração e a disciplina dessas mulheres de diferentes idades, que com muita ginga e competência mostram que o ritmo não depende do sexo, e sim da vontade e do dom pessoal de cada pessoa.

A seguir poderemos entender um pouco mais desse trabalho através das palavras de quem o construiu ao longo dos últimos cinco anos: seus professores e alunos. Comandando o Curso de Percussão Feminina desde 2001, Mestre Riko e suas alunas conversaram com nossa reportagem e explicaram como foi o desenvolvimento do projeto, que conta com a matricula de mais de 600 mulheres de todas as idades.

Localizado na Rua Sete de Setembro, nº 192, Centro do Rio de Janeiro, o Curso de Percussão Feminina atrai alunas dos 8 aos 80 anos e mostra aos marmanjos de plantão que mulher também sabe bater na cadência do samba de uma escola - e muito bem, por sinal.

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OBatuque.com – Riko, fala um pouco pra gente sobre você. Sua idade, onde foi criado, formação....
Riko – Bom, em relação à idade, posso te dizer que contei até os 15, depois não contei nunca mais. A minha formação foi o seguinte. O meu tio era clarinetista, percussionista e era mestre-sala da Unidos da Tijuca. Tudo começou por ali. O negócio do samba, ele botava pra tocar, enquanto ensaiava para os desfiles da Tijuca. Mas, infelizmente, depois ele casou, se afastou um pouco da família, mas aí eu já gostava da batucada. Lá onde eu moro, entre o morro do Borel e o morro da Casa Branca, toda época de Folia de Reis, a gente fazia, época de samba, a gente arrumava lá os latões e fazia o nosso batuque. Então, eu sempre gostei da percussão. Com o tempo, eu vim amadurecendo essa idéia e acabei procurando uma escola de música, sendo que, antes disso, passei pela ordem dos músicos, onde conheci uma moça, chamada Helen Soares, jornalista, que me apontou a escola de música, onde fiz uma avaliação e fui aprovado. Já tinha lá pelos 25, 28 anos, e com o tempo acabei ganhando o prêmio de melhor instrumentista do ano - não adianta que não lembro o ano - e lá ganhei uma bolsa pra estudar na Associação dos Músicos Militares do Brasil. A partir daí fui conseguindo ganhar vários prêmios.

OBatuque.com – E esse seu vínculo com as escolas de samba? Você foi criado ali perto de escolas de samba, onde começou, e hoje você pode dizer que tem uma escola de coração?
Riko – Salgueiro, né? Salgueiro até hoje, embora não consiga mais desfilar justamente devido aos trabalhos que a gente vem desempenhando com as meninas, com as crianças, com pessoas da terceira idade. Ou seja, tudo acabou tomando um pouco o meu tempo e não consigo mais desfilar. Mas quem sabe a gente não consegue recuperar isso?

OBatuque.com – e algum desfile que o tenha marcado mais?
Riko – Em escolas de samba foi no meu Salgueiro, minha escola de coração. Foi o "Explode Coração" em 93, quando fomos campeões do carnaval.

OBatuque.com – Trazendo nosso papo mais para próximo do trabalho do grupo Fina Batucada, como surgiu essa idéia? Como foi o início desse trabalho? E como ele funciona atualmente?
Riko – Olha só, eu sempre andando por aí, por várias escolas de samba, sempre vi que as mulheres são minoria, tipo 2 ou 5% no máximo. E os homens, os ritmistas das escolas, não deixam as mulheres tocarem caixas, surdos ou coisa parecida. Eu comecei um trabalho na escola de música com percussão. Só que estava acontecendo a mesma coisa. E um certo ano, acho que foi 2000, as meninas chegavam pra mim e falavam: "Professor, toda a vez que a gente monta uma bateria, nós não pegamos aquilo que a gente gostaria de pegar, que é o surdo, uma caixa, os meninos só colocam a gente no roncar, que é o chocalho, ou, às vezes, no tamborim". Eu então disse a elas que ia fazer um trabalho, acho que em 2001, por um ano, onde só as meninas iam tocar. Só que aí deu um boom, alguém descobriu, a mídia veio em cima. Cara, era pra ser uma coisa de só um ano e está aí até hoje. Quando eu abri inscrições pras meninas, em poucas semanas, tipo duas semanas, já tínhamos cerca de 200 meninas inscritas. Um mês depois, já eram 300. Aí eu falei: "Cara, o negócio está ficando sério". E não consegui mais reverter a situação. Depois, conversando com Marco Antônio, neto do Sérgio Cabral, pra quem eu dou aula, falei pra ele perguntar ao avô se já existia, ou se já existiu, alguma bateria que tenha desfilado na Marquês de Sapucaí formada só por mulheres. E ele disse que não. Que a única era a nossa. Então, sem querer a gente acabou entrando pra História como única bateria feminina a desfilar. Ano passado eu entrei com 250 meninas na Avenida, desfilando pela escola mirim Corações Unidos, na qual tenho muito a agradecer à diretora Marlene que acreditou no nosso trabalho e deu muito apoio mesmo. De lá pra cá, a gente faz um monte coisas, a gente não toca só samba. Tem o maracatu, o ylê aiê, toda a área folclórica, dança como o coco, e isso está crescendo a cada dia que passa.

OBatuque.com – E essa coisa da faixa etária? Como funciona?
Riko – Na percussão? Hoje vai de 8 a 80. São meninas de todas as idades e formações. São donas de casa, juízas, advogadas, secretárias...

OBatuque.com – O que a mulher que está interessada em aprender percussão hoje precisa fazer pra fazer parte do grupo?
Riko – De preferência, que ela não saiba nada. Aqui ela vai ter todos os instrumentos, não precisa trazer instrumento nenhum, é só ela chegar aqui na Sete de Setembro, 192, na quarta-feira, que é pra iniciantes, ou na quinta-feira, pra quem já está tocando. Agora as meninas abriram um espaçozinho para os meninos também poderem fazer. Só que aqui é o contrário: enquanto que na escola de samba os meninos são maioria, aqui a maioria são elas. Então, tem um pouco de meninos que é pra dar um molho aqui. E tem o ensaio de sábado. No sábado, tem o grupo de 13h à 14h para iniciantes e de 14 às 16h é o grupo avançado, que já faz shows, que toca mil coisas. O custo é mínimo. A menina paga apenas R$ 15,00 por mês, que é o preço da baqueta, do esparadrapo, do papel pra enxugar a mão e mais nada. E os meninos pagam um pouquinho mais, que são R$ 30,00, só isso.

OBatuque.com – Hoje a gente pode quantificar essa participação feminina nas baterias de escolas de samba?
Riko – O que eu posso dizer é que a mulher ainda é uma minoria na questão da bateria, a não ser nesta aqui, onde ela é a maioria absoluta. Mas em todo lugar, em São Paulo por exemplo, são pouquíssimas mulheres participando. A nossa percussão hoje tem cerca de 620 mulheres, eu não conheço outra no país assim. Nesse espaço aqui a gente só consegue pôr, no máximo, 100 pra tocar junto. São 100 num dia, no outro mais 100 e nós estamos querendo comprar mais instrumentos. Hoje mesmo chegaram mais. E a idéia dos ensaios aos sábados é justamente pra isso, pra levar o grupo pra rua e poder botar 300 meninas tocando junto.

OBatuque.com – Na questão das escolas de samba, existe o papel do diretor de bateria. Como você avalia a intervenção dessas pessoas no que diz respeito à participação da mulher?
Riko – Veja bem, tem escola, que eu não vou dizer o nome, que tem lá no estatuto, que é proibido ter mulher na bateria. Eu ouvi dizer que é o santo que não deixa, não sei qual é, mas tem essa justificativa. Eu conheço pelo menos duas baterias grandes onde a mulher não pode tocar. Teve uma época em que uma certa escola deixou um grupo maior de mulheres entrar. Mas aí eu te digo que as mulheres são pessoas mais decididas. Não que os homens não sejam, mas elas são mais. Se no nosso grupo você diz pra uma menina "você é feia" e a outra escuta e diz "eu vou sentar", ferrou, todas vão sentar e baixar os instrumentos. Nas escolas de samba, a gente não vê isso. Alguém ofende um ritmista e o resto vai dizer "deixa pra lá, azar o dele". Já vou responder sua pergunta, mas acho importante falar isso, existe um sacrifício muito grande do ritmista. O ritmista não é tão respeitado. Tem escola que a gente vê fechar o portão pra ele não descer porque ele tem que tocar a noite toda, por duas latinhas de cerveja. Brincadeira, né? E na hora de pegar a roupa, é aquele jogo de empurra, não tem roupa, o cara sofre, tem que ficar ali até o final e, de repente, nem pega a roupa pra desfilar. Quer dizer, o cara tocou o ano inteiro, perdeu noites de sono - e você perder noites de sono é perder saúde -, brigou em casa e, no final, não tem roupa pra desfilar. Se os ritmistas fossem unidos e dissessem "fulano não vai sair, então ninguém vai sair", muita coisa poderia ter mudado. Eu nunca mais vi ritmista receber aquele cartãozinho, pra dar pra família ir à Sapucaí assistir. Dizem que tem, mas eu nunca mais vi. Quanto à mulher na percussão, as mulheres estão cada vez mais procurando as baterias, mas não estão deixando ela entrar, ou então dizem: "você só vai até ali". Com certeza é o diretor, não seria o meu caso, eu colocaria todas lá dentro. Diria: "se você quer realmente sair, faça por onde, aprenda um pouco mais pra poder sair". É claro que uma mulher não vai tocar igual ao homem. O homem tem muito mais força. Não é que ela não consiga, com técnica, se sobrepor à força. Existem técnicas de baqueteamento na escola de música, que a gente faz, que os meninos não têm acesso, mas, graças a Deus, o ritmo é maravilhoso. No caso do Fina Batucada, 90% já lê música, onde se guarda muita coisa. Não quer dizer que o ritmista tenha que ler música. De repente, eles vão ler música e o swing vai ficar quadrado. Hoje já se tem um problema nas escolas de samba, que é a dificuldade de identificação do ritmo. As caixas das escolas estão todas com problemas. É difícil, com a exceção do meu amigo que chegou lá em Caxias e resolveu aquilo lá. Eu considero, hoje, o Odilon o Mestre André de nossos tempos. Que me perdoem os outros mestres. O cara tem uma mente pra fazer ritmo! Se Mestre André estivesse vivo, seriam os dois maiores hoje. Eu cheguei a ter aulas com o Marçal, outro cara maravilhoso, que sabia tudo. Mas eu vejo que não existe uma preocupação dos mais antigos em passar aos mais novos o ritmo. O cara chega lá, pega a caixa e "tatá, tatá e tá bom". Ninguém chega pra ele e diz "o nosso toque é esse aqui". Não sei se é falta de tempo, o que é, mas as baterias estão muito aceleradas. As mulatas não conseguem sambar, não há bunda que consiga acompanhar essa velocidade. Socorro! Não dá mais. Não sei se é porque as escolas cresceram. As escolas estão com seis, oito mil componentes, eles dizem que tem menos, eu duvido. Você vê escolas como o Salgueiro, já entraram tantos carros, e ainda faltam outros tantos pra entrar e cada vez o tempo é menor.

OBatuque.com – Quantas mulheres compõem, por exemplo, uma bateria de Grupo Especial?
Riko – No máximo, uns 2%, talvez 15 mulheres numa bateria. Sendo a maioria no chocalho.

OBatuque.com – Deixa então uma mensagem à todas a mulheres que são apaixonadas por samba, que freqüentam quadras e curtem a bateria.
Riko – Eu falo o seguinte: se não tiverem oportunidades em nenhuma escola de samba, podem vir pra cá. A Fina Batucada está de braços abertos pra todas as mulheres, de todas as idades, de todas as formações. Não tem discriminação. Preta, branca, mameluca, cafusa, aqui não tem esse problema. Com certeza vão existir barreiras, mas se realmente ela gostar e souber tocar, ela vai ter o lugar dela garantido. E nós estamos aqui pra ensinar. Eu não sei muito, não, mas a gente aprende junto. Com certeza.

OBatuque.com – Nossa equipe agradece a oportunidade desse bate-papo e deseja sucesso ao grupo Fina Batucada.
Riko – Nós é que agradecemos ao OBatuque.com.

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OBatuque.com – Bruna, fale pra gente a sua idade, onde mora e a primeira vez que você ouviu falar do grupo.
Bruna – Eu tenho 15 anos, moro no Flamengo e ouvi falar do grupo logo que ele surgiu. Eu já toco com o Riko há oito anos e praticamente fui criando junto com ele o grupo na escola Villa-Lobos.

OBatuque.com – E você já tinha gosto por escolas de samba? Gostava de alguma?
Bruna – Sempre tive, sempre achei lindo. Eu sou salgueirense. Inclusive desfilava, mas nunca na bateria.

OBatuque.com – E como foram as primeiras aulas no grupo e, depois, chegar a pegar instrumentos de percussão que também têm nas baterias das escolas de samba?
Bruna – Pô, pra mim foi perfeito, porque eu sempre tive o sonho de tocar percussão. Sempre foi aquela coisa do "eu quero tocar, eu quero tocar...", aí cheguei aqui e pude ver os instrumentos, muito legal.

OBatuque.com – Você já sabe tocar todos os instrumentos? Qual o que você prefere?
Bruna – Bom, todos não, até porque é meio impossível saber tocar todos. Mas eu domino bem o surdo, sei o tamborim, roncar, agogô, caixa mais ou menos...

OBatuque.com – Qual o que você mais gosta?
Bruna – O surdo, com certeza.

OBatuque.com – Tem as aulas no curso, os ensaios na rua e, inclusive, as apresentações que vocês já fazem. É diferente a aula da Avenida, por exemplo?
Bruna – É, sim, na Avenida é muita emoção. Você está desfilando, tocando na bateria, é perfeito, todo mundo te olhando, te filmando, é maravilhoso.

OBatuque.com – E você, sendo salgueirense, sabendo bater instrumentos de percussão que fazem parte da bateria da sua escola, o que falta pra desfilar na bateria do Salgueiro, por exemplo?
Bruna – esse é um sonho muito grande. Poder desfilar, ir aos ensaios, ficar lá direto. Acho que falta só um pouco mais de idade, acho que ainda estou um pouco nova pra enfrentar uma bateria daquela.

OBatuque.com – Qual é o principal desejo na mulher que motiva ao aprendizado da percussão? É poder competir com o sexo masculino? Ainda existe preconceito? Vocês encontram barreiras no cotidiano ou nas escolas de samba?
Bruna – Sim, ainda existe muito preconceito. Nas escolas de samba, por exemplo, os mestres de bateria acham que só os homens têm força suficiente para tocar um surdo e acabam discriminando as mulheres!

OBatuque.com – Como fica o cuidado pessoal, a feminilidade carregando instrumentos que exigem muito esforço físico, tanto pra tocar como pra carregar?
Bruna – Você continua feminina do mesmo jeito, apesar de tocar um instrumento pesado ou leve.

OBatuque.com – Como é a coisa da família? O pessoal apóia, acha legal ou acha que é só uma coisa passageira?
Bruna – Todo mundo apóia, é bem legal!

OBatuque.com – Deixa pra gente uma frase sobre o curso de percussão feminina.
Bruna – Apesar da fofoca que rola entre as meninas e a concorrência com os meninos, é legal porque nós aprendemos a tocar vários instrumentos!

OBatuque.com – Parabéns, Bruna, e que você consiga realizar seu sonho de desfilar na bateria do Salgueiro.
Bruna – Obrigada a vocês do OBatuque.com.

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OBatuque.com – Natália, qual a sua idade e como você veio participar do grupo Fina Batucada?
Natália – Eu tenho 9 anos e vim pra cá através de uma amiga, a Maria Luiza, que tinha aulas com o Riko lá na Villa-Lobos. Eu a via batendo e perguntava como ela tinha tanto braço pra tocar surdo. Aí ela disse: "Eu fui lá na Sete de Setembro, na Fina Batucada". Eu disse: "O que é isso?". "É um prédio aí que tem lá e onde o Riko toca com a gente."

OBatuque.com – o que você achou quando chegou aqui a primeira vez e viu um monte de meninas tocando bateria?
Natália – Na verdade, eu só ficava olhando. Depois é que comecei a ver o surdo, a caixa, tamborins, agogô... Depois o Riko veio apresentando o xequerê.

OBatuque.com – Qual o instrumento que você mais gosta?
Natália – O surdo, com certeza.

OBatuque.com – E o que você sente quando está batendo o surdo?
Natália – Olha, pra tocar surdo, você primeiro tem que ter raiva de alguém. Então, eu tenho mais ou menos todos os dias raiva de alguém. Aí é só lembrar dessa pessoa e bater à vontade.

OBatuque.com – Você gosta de escolas de samba? Você tem uma de coração?
Natália – Gosto muito, sempre tive o sonho de desfilar. Minha escola é a Beija-Flor. Sonho sempre um dia em poder tocar numa escola de samba, desfilar na bateria.

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OBatuque.com – Qual a sua idade e como você chegou ao grupo de percussão feminina?
Cristiane – Eu tenho 17 e a primeira vez que ouvi falar foi quando estava na 7ª série e teve uma visita à escola Villa-Lobos. Lá eu vi o Riko dando aula. Depois só fui ver novamente quando estava num projeto onde eu moro e o Riko ia lá dar aulas pra jovens de 14 a 18 anos. Depois acabei vindo pra cá e já estou aqui há sete meses.

OBatuque.com – Quando assistiu ao grupo pela primeira vez você já pensava em aprender música, tocar percussão?
Cristiane – Nada, não imaginava mesmo. Comecei a tocar um tamborim que nunca tinha pegado e achei muito legal mesmo.

OBatuque.com – E quando você veio pra cá, o que achou?
Cristiane – Eu vim junto com um amigo meu, já estava todo muito ensaiando. Foi meio estranho ver muita gente fazer um monte de coisas que eu não sabia. Tinha mulheres e já tinham algum homens também, sendo que muito mais mulher, claro. Foi muito legal.

OBatuque.com – Quais os instrumentos que você já sabe tocar?
Cristiane – Surdo, agogô e tamborim. São os que melhor aprendi.

OBatuque.com – você gosta de escolas de samba, já tem uma de coração?
Cristiane – Eu torço pro Salgueiro.

OBatuque.com – E você, já sabendo tocar e sabendo que na sua escola tem uma bateria com os mesmos instrumentos, sente vontade de ir lá tocar?
Cristiane – Eu não vou dizer que eu sonho com isso. Mas, se pintasse a chance, eu ia lá tocar e com certeza ia ser muito legal.

OBatuque.com – Deixa um recado então para outras meninas que às vezes querem fazer isso também mas falta um empurrãozinho.
Cristiane – O que eu posso dizer é que nada é impossível. Eu mesmo não sabia tocar nada e hoje já toco bastante coisa. Se a pessoa quiser, nós estamos aqui pra dar uma força.

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OBatuque.com – Felipe, como é participar de ensaio de bateria com um grupo só de meninas?
Felipe – Cara, é uma coisa de louco, né? Você fica aqui e, primeiro, você não entende nada, se sente meio fora da situação. Mas depois que você vai pegando a amizade delas, você consegue manter um relacionamento bem legal.

OBatuque.com – Desde quando que você está no grupo? Quantos ensaios?
Felipe – Estou aqui desde o início do ano.

OBatuque.com – Você percebe alguma diferença dessa coisa da mulher num grupo de ritmistas homens, e o contrário?
Felipe – Não, porque o primeiro grupo que participo é aqui. E por ser percussão feminina não vai fazer diferença, não.

OBatuque.com – Você acha que rola aquela coisa do não saber tocar e depois se surpreende?
Felipe – Pelo o que eu vi, não rola isso, não. De repente, aí fora, com o pessoal de shows, pode até ser que role esse preconceitozinho, mas com a gente aqui não rola, não. O pessoal se entende numa boa.

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OBatuque.com – Qual sua idade, profissão, bairro, escola de samba e instrumento predileto?
Cristiane - 31 anos, Servidor Público, Porto da Pedra (nascida e criada), Unidos do Porto da Pedra e pandeiro.

OBatuque.com – Qual é o principal desejo na mulher que motiva o aprendizado da percussão?
Cristiane - É interessante sentirmos o pulsar do coração e saber que dali vem a inspiração para condicionarmos um ritmo intrínseco que nos mobiliza, e assim poder mostrar a arte que existe dentro de você através da percussão.

OBatuque.com – Como é essa coisa do preconceito? Ainda existe? Vocês encontram barreiras no cotidiano ou nas escolas de samba?
Cristiane - Sim. O preconceito é existente em várias áreas de nossas vidas e, inclusive, dentro das escolas de samba, uma vez que essas não aceitam mulheres como ritmistas.

OBatuque.com – Como fica o cuidado pessoal, a feminilidade, carregando instrumentos que exigem muito esforço físico, tanto pra tocar como pra carregar?
Cristiane - É importante que a mulher pratique qualquer atividade física para manter uma boa saúde, e as percussionistas não fogem à regra. Há exercícios de alongamento que devemos praticar antes e após tocarmos o instrumento. Quanto à feminilidade, nunca será esquecida: algumas usam luvas para evitar calos nas mãos, outras, caneleiras para tocarem surdo e não se machucarem, outras usam bonés e batons para se proteger do sol.

OBatuque.com – Como é a coisa da família? O pessoal apóia, acha legal ou acha que é só uma coisa passageira?
Cristiane - Graças a Deus nasci em uma família que é um berço musical. Meu avô tocava trombone de vara e minha avó canta maravilhosamente. Meu padrinho aprendeu trombone com meu avô, meus pais tocam violão, meus primos e tios tocam vários instrumentos (bateria, contrabaixo, guitarra, cavaco, violão flauta transversa, saxofone...) e ainda cantam. Ou seja, pretendo me especializar para poder ser profissional, e recebo todo o apoio de minha família. Quando há um aniversário, fazemos disso uma verdadeira confraternização familiar e musical.

OBatuque.com – Deixe uma frase sobre o curso de percussão feminina:
Cristiane - Descobri que não tem preço obter satisfação pessoal fazendo a atividade que nos alegra. Tocar neste grupo está sendo uma verdadeira realização.


As aulas de Mestre Riko têm atraído
um número cada vez maior de alunas


Beatriz está no grupo desde 2003, gosta da
 caixa de guerra e diz que não tem escola
 de samba: "Talvez Imperatriz"


Bruna, de 15 anos, já é um talento
pronto na marcação do surdo de primeira


A tijucana Maria Zuleica, 59, a salgueirense  Rita, 52 e a jovem Joice, 15, nas primeiras
aulas de tamborim, em abril desde ano


Cristiane, de 31 anos, também
é aluna da Escola de Música Villa-Lobos


Flávia, que já desfilou na Arranco, está
 motivada com o grupo e gosta da
caixa e da marcação de 3ª


Camila, de apenas 10 anos, mora em Stª Tereza
 e já escolheu o tamborim como instrumento
 predileto. Está no grupo desde
fevereiro de 2005


Mariana soltando o braço na marcação


Cristiane se descobriu com as aulas de música


Célia Regina é mãe de Sabrina e auxilia
na organização do cadastro de
mais de 600 meninas


A pequena Natalia com o surdo.
Detalhe na proteção no tornozelo


Mestre Riko faz questão de iniciar sua aulas
 com o Hino Nacional e com a
Bandeira do Brasil ao fundo


Felipe não vê motivos para
preconceito com a mulher percussionista


Bruna no início do ano, sempre no surdão

FINA BATUCADA