ESTÁCIO DE SÁ

Sylvio Cunha

Engasgada com a inesperada queda para o Grupo de Acesso B, a Estácio de Sá tem como trunfo para iniciar seu processo de recuperação a manutenção do carnavalesco Sylvio Cunha, talvez um dos nomes que mais entenda a alma estaciana. O renomado artista recebeu a reportagem de OBatuque.com para contar um pouco de sua história no carnaval e conversar sobre escolas de samba, aproveitando para lamentar a incoerência dos jurados dos desfiles.

OBatuque.com - Nome completo, idade, onde nasceu. Sylvio Cunha - Sylvio Cunha, 48 anos. Carioca da Gema.

OBatuque.com – Formação?
Sylvio Cunha - Artista plástico.

OBatuque.com - Trabalho fora das escolas de samba?
Sylvio Cunha - Cenógrafo e figurinista. Trabalho com teatro, cinema e TV, decorações de shoppings...

OBatuque.com - Como foi o caminho até o mundo do samba?
Sylvio Cunha - Minha escola de origem é Portela. Meu pai era compositor de um bloco no Engenho de Dentro. Estudei e morei no Engenho de Dentro e fui um dos fundadores da Arranco. Então comecei no carnaval. Depois fui pra Vila. Trabalhei aqui quando era São Carlos. Unidos da Tijuca, Portela. Passei por várias escolas como carnavalesco.

OBatuque.com - Já gostava de escolas de samba antes? Acompanhava?
Sylvio Cunha - Sempre acompanhei. Sempre gostei. A minha visão é a visão de sambista.

OBatuque.com - O que mais o atraiu como profissional nos desfiles de escolas de samba?
Sylvio Cunha - Fantasia, alegoria. Desde criança eu ficava impressionado com os personagens de capa e espada da TV e do cinema. Chegava o carnaval e estes personagens eram representado nas escolas de samba. Então, era uma forma de estar próximo deles.

OBatuque.com - Como você definiria seu estilo de trabalho, em relação a enredos, materiais e concepção de fantasias e adereços?
Sylvio Cunha - Meu estilo é o estilo da escola. O que eu faria aqui na Estácio de Sá, eu não faria em outra escola. Respeitando suas características e sua formação.

OBatuque.com - Perguntamos a um carnavalesco e ficamos curiosos em saber a opinião e preferências de outros carnavalescos: luz natural ou luz artificial, você, como carnavalesco, tem preferência pelo horário que sua escola desfile, manhã ou noite?
Sylvio Cunha - O carnaval vem mudando muito nos últimos anos. Hoje é mais interessante abrir desfile do que fechar.

OBatuque.com - Houve influência do trabalho de algum colega em sua formação, alguém que admirasse e cuja obra servisse de exemplo, espelho ou inspiração?
Sylvio Cunha - O grande “papa do carnaval” chama-se Arlindo Rodrigues, o maior carnavalesco de todos os tempos.

OBatuque.com - O que você mais pensa quando está elaborando um enredo? Na receptividade junto ao público, na satisfação de desenvolver um projeto pessoal, divulgar idéias ou assuntos que gostaria de compartilhar com as comunidades das escolas ou as pessoas em geral...?
Sylvio Cunha - Eu procuro conciliar todos esses itens, mas tenho consciência que é muito difícil. Na elaboração do enredo, a adequação é o mais importante, e o agrado ao público.

OBatuque.com - É difícil passar uma idéia do papel para o barracão? Qual é seu processo de trabalho?
Sylvio Cunha - Hoje para mim é mais fácil. Depois de tantos anos, eu já consigo dominar bem esse lado da criação. O desenvolvimento é o mais difícil, pois depende de todos.

OBatuque.com - Por quais escolas já trabalhou?
Sylvio Cunha - Fiz quatro carnavais na Arranco. Na Vila Isabel, fiz quatro carnavais. Fui o último carnavalesco da antiga São Carlos e primeiro da atual Estácio. Cinco carnavais na Estácio alternados, este vai ser meu sexto carnaval aqui. Cinco na Portela. Dois na Império Serrano. Um na Ilha e quatro na Unidos da Tijuca.

OBatuque.com - Poderia recordar alguns de seus enredos?
Sylvio Cunha - Na Vila, “Sonho de Um Sonho” (1980), que foi um grande sucesso de um samba do Martinho da Vila. Na Portela, eu destacaria “Todo o azul que o azul tem” (1992). Na União da Ilha eu fiz “Os maiores espetáculos da Terra” (1993). Na Unidos da Tijuca, fiz “Bar Brasil” (1988). Aqui na Estácio, eu fiz “Teleporto” (“De um novo mundo eu sou e uma nova cidade será”, 1996).

OBatuque.com - Como sente-se ao ver um enredo desenvolvido por você ser bem recebido no Sambódromo?
Sylvio Cunha - É uma sensação indescritível, né? Não tem palavras que definam isso. É um momento mágico.

OBatuque.com - Qual foi seu momento mais marcante na Avenida?
Sylvio Cunha - Eu não lembro muito o passado. Cada carnaval é muito especial pra mim. O último foi maravilhoso.

OBatuque.com - Já houve enredo que você desenvolveu e achou que faltou algo, que poderia ter feito mais, ou diferente?
Sylvio Cunha - Nenhum carnaval você consegue realizar cem por cento. Reviver na Avenida não chega a setenta por cento de um carnavalesco.

OBatuque.com - Qual de seus enredos lhe deu mais satisfação desenvolver?
Sylvio Cunha - Eu gostei muito dos enredos desenvolvidos aqui na Estácio. Quando ainda era Unidos de São Carlos eu fiz o seu último carnaval “Orfeu do Carnaval” (1983). E depois que virou Estácio de Sá eu fiz “Quem é você (Vem de lá)” (1984), que também foi muito bom.

OBatuque.com - E há algum enredo que preferiria esquecer de ter trabalhado?
Sylvio Cunha - Sempre o último. O último a gente quer esquecer. Porque a gente já fica pensando no próximo, na Quarta-Feira de Cinzas.

OBatuque.com - Dos enredos que já passaram na Avenida, qual gostaria de ter podido desenvolver?
Sylvio Cunha - É tanta coisa boa! Agora você me pegou. “O segredo das minas do Rei Salomão”, de Joãosinho Trinta, no Salgueiro. Aquele enredo revolucionou o carnaval. Mexeu com a cabeça de todos os carnavalescos.

OBatuque.com - Existe algum enredo, ou tema, que o faça pensar: “um dia levo isso para a Avenida”?
Sylvio Cunha - Nós temos sempre uma caixinha de surpresas, mas ficamos aguardando o momento certo para lançar.

OBatuque.com - Você pode revelar?
Sylvio Cunha - É surpresa. (risos)

OBatuque.com - Como avalia o Carnaval 2004, em relação ao seu trabalho na Estácio e ao desfile em geral?
Sylvio Cunha - Foi um carnaval de sacrifícios. A escola passou por uma mudança de direção, mas a Estácio é uma escola muito viva, pulsante e de garra. Ela é muito surpreendente em qualquer grupo que ela esteja. Ela foi muito prejudicada. Mas continua sendo a velha Estácio de Sá, cada vez mais nova.

OBatuque.com - Como você vê as notas dos jurados no carnaval deste ano (2004)?
Sylvio Cunha - Eles eram divididos em quatro módulos. Cada módulo com um julgador de cada quesito. Tinha um módulo que todos os jurados disseram que não conseguiam nem ver e nem ouvir. Quem não consegue ver e nem ouvir não pode julgar. Tinha jurado que não sabia escrever. Teve justificativa do tipo: “Eu tiro seis décimos da Estácio porque tinha um objeto estranho na alegoria”. Para outra escola: “Retiro um décimo porque tinha vários objetos estranhos na alegoria”. Quer dizer: se um tira seis décimos, vários só tiram um décimo. São coisas que nem Freud explica.

OBatuque.com - E como será o carnaval da Estácio em 2005?
Sylvio Cunha - Com muita revolta. Respeitando todas as escolas que estão neste grupo, mas foi acidente de percurso.

OBatuque.com - Um enredo?
Sylvio Cunha - “Arte negra na legendária Bahia” É uma reedição de 1976, muito bem desenvolvido, com leitura e de uma época muito gostosa. Onde baiana é baiana. Orixá é Orixá. Artesanato é artesanato. Hoje, os enredos são apocalípticos. Tudo é monstro e ninguém entende nada.

OBatuque.com - Você é a favor da reedição?
Sylvio Cunha - Numa situação em que a Estácio se encontra, com certeza. Mas no Grupo Especial sou contra. Se os sambas hoje estão ruins é porque os enredos estão ruins.

OBatuque.com - Um samba-enredo?
Sylvio Cunha - O samba-enredo é noventa e nove vírgula nove por cento do desfile. Se não tiver um bom samba-enredo não se faz um grande carnaval.

OBatuque.com - Um carnavalesco?
Sylvio Cunha - O saudoso Arlindo Rodrigues.

OBatuque.com - Uma escola?
Sylvio Cunha - Estácio de Sá.

Clique aqui e leia a sinopse e a letra do samba da Estácio de Sá para o Carnaval 2005!





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