COLUNA DO RICARDO

08-05-2009

Manifesto pela alvorada

Artigo de Ricardo Delezcluze


O carnaval 2009 ficará para sempre guardado na minha memória. Quando pensava ter visto de tudo. Quando pensava que a sensação que se repete a cada carnaval, uma sensação que me leva a pressentir o último como o melhor carnaval da minha vida, não mais se repetiria. Quando tudo indicava ser este o ano da entressafra, já aguardada há algum tempo... eis que ele surge.

Foi um ano de crise. Boa parte das escolas reclamava que o pouco que receberam não cobria a carestia dos produtos. Os antigos investidores e mecenas minguavam suas ofertas tendo que priorizar oportunidades de retorno imediato em seus negócios.

Muitas escolas afundadas em dívidas privilegiaram desafogar sua situação e pensar no carnaval seguinte. Finalizando essa mistura indigesta, o dinheiro de eventos nas quadras não supriu o atraso na liberação da subvenção.

A fórmula perfeita do fracasso se completou com um racha nas entidades que organizam os desfiles. Das disputas fratricidas por minguados, surge a Lesga, controlando o grupo A através da organização dos dirigentes das escolas desse desfile. Agora a AESCRJ ficaria com o grupo B para baixo e resolveu inovar no vazio mudando o nome dos grupos inferiores. Em vão, todos chamam tudo pelo alfabeto, exceto o Especial. Aliás, um Especial cada dia mais distante dos demais, mais distante também da realidade do carioca. Um modelo que diz muito pouco do que pensa o citadino. A ópera-processional em cena finalmente numa “caixa escura”, espetáculo para a TV.

Um herói entra em cena nessa ópera, herói indigesto. Talvez caso a vontade da mídia fosse feita, esse herói cessaria com a ordem do diretor de corte ao apertar um botão na ilha de edição. Ele, que foi evocado apenas no domingo com a Vizinha Faladeira, já fulgurava na cidade na sexta das crianças. Uma tarde linda, de se aplaudir contente. No dia seguinte, as trapalhadas dos dirigentes o convidaram a ser protagonista e trouxe então um quê de nostalgia ao desfile da Caprichosos, onde brilhou com toda força possível. Em 2009 apareceu até na Intendente, não apenas como enredo, porém como componente da Mocidade Vicentina. Junto com ela voltou à Sapucaí na terça gorda com grandes escolas desfilando. como o Arranco. O mais legal foi saber que sabotou a transmissão da toda poderosa e não houve caixa-escura que bastasse para obscurecer o Sambódromo.

Estava lá brilhando meu herói. Herói dos sambistas, que coroou a batucada, que fez nosso dia tão lindo e o carnaval o mais gostoso de todos os tempos. O Sol, personagem principal da festa ao lado do sambista, que, como sempre quis, sambou até o amanhecer.   

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Ricardo Delezcluze
Mestrando em Antropologia do PPGSA/UFRJ
delezcluze@gmail.com

 

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