O carnaval se aproxima e as
escolas continuam vivendo o impasse acerca do repasse
das verbas pela Prefeitura. É muito triste que isso
aconteça, prejudicando o trabalho de diversas escolas.
Quem sofre, no entanto, com maior proporção neste
momento são as pequenas escolas.
A
situação me chamou a atenção ao notar que a movimentação
no Carandiru tem sido pequena, mesmo com a aproximação
do carnaval. Trata-se de algo bem diferente do observado
no ano anterior, onde as escolas se preparavam a todo
vapor nesta época do ano. Uma pena que o poder público
deixe as escolas nesta situação, mais desamparadas do
que já são.
Aqueles
que questionam ainda a capacidade de planejamento das
pequenas escolas em comparação com as grandes que
desfilam na Sapucaí, têm seus argumentos completamente
aniquilados quando constatam que o mesmo se estende ao
grupo de elite do carnaval carioca. Outra faceta emerge
deste quadro caótico que se desenha. Num momento como
este, a criatividade desponta das mãos do povo. As
escolas que ao menos contam com mão-de-obra para
trabalhar no difícil período, encontram o alento do
artesão que tira soluções do lixo para suas obras.
Recordo-me
então do escultor que até então trabalhava no barracão
do Acadêmicos do Dendê. Quem primeiro me contou essa
história foi um dos coordenadores do OBatuque.com,
Daniel Duarte. Em uma matéria que o mesmo fez no
barracão do Dendê, conheceu um senhor que moldava suas
esculturas de restos de isopor recolhidos entre o
amontoado de lixo do Carandiru. Após recolher os pedaços
de isopor, ele montava um grande cubo de isopor a partir
da colagem dos restos. Com esse cubo, esculpia novas
esculturas, que pareciam ter sido confeccionadas em
isopor novinho em folha.
Algum
tempo depois, o presidente do Dendê, Macalé, confirmou a
história. Revelou ainda que nunca mais ouviu falar do
misterioso escultor. Macalé o encontrara entre os vários
sem-teto que perambulam pelo Carandiru diariamente. Um
dia, quando passava em frente ao barracão, ele se
ofereceu para fazer uma escultura. O talento
impressionou o presidente, que passou a pagar
regularmente pelos serviços do artista. Mas outro dia,
sem nada informar, o escultor sumiu.
A
história se repete e a cultura popular, feita de heróis
anônimos e talentos nunca reconhecidos, transforma a
vida de milhares de pessoas pelo mundo inteiro. As
soluções para os pequeno-grandes obstáculos do cotidiano
dadas por esses artistas merecem ao menos esta humilde
homenagem aqui prestada. O que eles desejam, no entanto,
é que o público pague seu tributo comparecendo aos
desfiles, aplaudindo e admirando suas obras.
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Ricardo Delezcluze
Mestrando em Antropologia do PPGSA/UFRJ
delezcluze@gmail.com