COLUNA DO RICARDO

17-12-2008

Escultor misterioso

Artigo de Ricardo Delezcluze


O carnaval se aproxima e as escolas continuam vivendo o impasse acerca do repasse das verbas pela Prefeitura. É muito triste que isso aconteça, prejudicando o trabalho de diversas escolas. Quem sofre, no entanto, com maior proporção neste momento são as pequenas escolas.

A situação me chamou a atenção ao notar que a movimentação no Carandiru tem sido pequena, mesmo com a aproximação do carnaval. Trata-se de algo bem diferente do observado no ano anterior, onde as escolas se preparavam a todo vapor nesta época do ano. Uma pena que o poder público deixe as escolas nesta situação, mais desamparadas do que já são.

Aqueles que questionam ainda a capacidade de planejamento das pequenas escolas em comparação com as grandes que desfilam na Sapucaí, têm seus argumentos completamente aniquilados quando constatam que o mesmo se estende ao grupo de elite do carnaval carioca. Outra faceta emerge deste quadro caótico que se desenha. Num momento como este, a criatividade desponta das mãos do povo. As escolas que ao menos contam com mão-de-obra para trabalhar no difícil período, encontram o alento do artesão que tira soluções do lixo para suas obras.
 
Recordo-me então do escultor que até então trabalhava no barracão do Acadêmicos do Dendê. Quem primeiro me contou essa história foi um dos coordenadores do OBatuque.com, Daniel Duarte. Em uma matéria que o mesmo fez no barracão do Dendê, conheceu um senhor que moldava suas esculturas de restos de isopor recolhidos entre o amontoado de lixo do Carandiru. Após recolher os pedaços de isopor, ele montava um grande cubo de isopor a partir da colagem dos restos. Com esse cubo, esculpia novas esculturas, que pareciam ter sido confeccionadas em isopor novinho em folha.

Algum tempo depois, o presidente do Dendê, Macalé, confirmou a história. Revelou ainda que nunca mais ouviu falar do misterioso escultor. Macalé o encontrara entre os vários sem-teto que perambulam pelo Carandiru diariamente. Um dia, quando passava em frente ao barracão, ele se ofereceu para fazer uma escultura. O talento impressionou o presidente, que passou a pagar regularmente pelos serviços do artista. Mas outro dia, sem nada informar, o escultor sumiu.

A história se repete e a cultura popular, feita de heróis anônimos e talentos nunca reconhecidos, transforma a vida de milhares de pessoas pelo mundo inteiro. As soluções para os pequeno-grandes obstáculos do cotidiano dadas por esses artistas merecem ao menos esta humilde homenagem aqui prestada. O que eles desejam, no entanto, é que o público pague seu tributo comparecendo aos desfiles, aplaudindo e admirando suas obras.

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Ricardo Delezcluze
Mestrando em Antropologia do PPGSA/UFRJ
delezcluze@gmail.com

 

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