Não faz
muito
tempo,
acredito
que
nos
idos de 2004,
meu
contato
com sambas-enredos
que
concorriam nas
quadras
se dava
única e
exclusivamente
pelo
rádio
ou nas
quadras
de
fato.
Pois
o
tempo
passou e a
internet
incrementou
esse
contato.
Na
grande
rede é
possível
ouvir
uma
infinidade de
sambas
concorrentes,
de
todos
os
grupos.
Mesmo
com
o
avanço
da
internet e boa
parte
das
escolas
aderindo às
novidades
tecnológicas,
muito
ainda
se perdia,
coisa de
dois
anos
atrás,
muitos
puristas poderiam
pregar
que
sentir
o
samba
só
era
possível na
quadra.
De
fato,
gravações
de
estúdio
não eram
parâmetro
para
medir
a
empolgação dos
componentes
com a
obra apresentada
ou
a
afinidade da
mesma
com
a bateria,
entre
outros
fatores. O
tempo passou voando
como
um
cometa
e
eis
que
esse
argumento cai
por
terra.
As
gravações ao
vivo das
quadras
durante as
apresentações
de
samba
desmascaram
falhas
muitas
vezes mascaradas
por
arranjos e
tratamentos
feitos
em
estúdio.
Não
era
o
ideal
ainda. Muitas
vezes,
os
sambas podem
evoluir
ou
se
transformar
durante a
disputa.
Uma
correção de
andamento
aqui,
abaixa
meio
tom
ali,
bota uma
palavrinha
acolá...
e
pronto: o
samba cresce
durante
o
concurso
e se
você
quiser
acompanhar
esse
crescimento
tem
que
ir
à
quadra.
O
ano de 2007
trouxe
outra
novidade.
Hoje,
cada
apresentação,
uma
após
a
outra, é
filmada, registrada de todas as
formas. É
possível
ver
e
rever
durante a
semana
cada
apresentação.
É
possível
saber
qual
samba
leva
torcida,
qual é cantado
por
membros da
comunidade,
qual
atravessou na 4ª
eliminatória,
enfim,
basta uma
câmera
digital
ou
um
celular
para
que
tudo corra o
mundo
através do
Youtube. E
agora
é
preciso
ir
à
quadra
acompanhar
eliminatória?
Eu
recomendo
que vá,
mas
se
você
quiser
mentir dizendo
que foi,
mas
não foi
nada, ficou
mais
fácil.
Aprofundando
o
assunto,
faço a
pergunta: “Que
monstro
nos tornamos?”
Nenhum
CD de samba-enredo
já está à
venda.
No
entanto,
já ouvi
milhares
de
vezes
até
mesmo
as
gravações do
CD das
escolas
mirins,
que
ainda
será lançado. Consegui todas as
gravações
sem
entrar
em
contato
com
ninguém
envolvido na
produção de CD. Todas as
faixas
estão
disponíveis
para
quem
quiser
baixar
em uma
ferramenta
de armazenamento de
arquivos
chamada
4Shared. As mesmas foram propaladas
pelos
fóruns
e
listas de
discussão na
internet.
Que
monstro
nos tornamos?
Que
monstros
nos tornaram!
Até
pouco
tempo, a
ansiedade
por
conferir a
performance
do
cantor
tal da
escola
“x” fazia
parte do
nosso
ritual
carnavalesco.
Aguardar
que
novidades
trariam as
gravações,
que
talvez
escondessem a
tentativa de
padronização
de
outrora e
facilmente constatada
nos
dias de
hoje.
Os
“bafafás” e
boatos
das
escolas
já
não
correm
mais à
boca
pequena
para
estourar
um
mês
ou
dois
depois.
Agora, as
notícias
correm na
velocidade da
luz,
não
apenas
por
sites
e blogs especializados
em
carnaval,
mas
principalmente
nos
fóruns.
Ano
passado,
um
boato
sobre
a
saída de
um
integrante
de
determinada
escola
era
desmentido
em
um
fórum
de
carnaval
por
um
membro do
mesmo
que
sequer morava
no
Rio
de
Janeiro.
Nem os
barracões
são
segredos
após
o
advento da
Cidade
do
Samba.
Para
o
bem
ou
para
o
mal,
os
carnavalescos
são
constantemente
vigiados
pelo
grande
público
interessado no
assunto,
que faz
seu
passatempo
observar
qual
escola
está
com o
barracão
atrasado.
Vale
para
a
Cidade
do
Samba o
mesmo
que
para
as
quadras.
Você
pode
saber
o
que as
escolas
preparam
para a
Avenida
através dos
fotologs de
foliões
que
clandestinamente
batem
fotos da
preparação
dos
carros - na
Cidade
do
Samba
não é
permitido
tirar
fotos do
mezanino,
que dá
visão
para
o
interior dos
barracões.
Meu
“tostines”
carnavalesco
não
lanço
em
forma
de
sentença.
Não
é
condenação
nem
aclamação.
Meu
“tostines” é
dialética.
É
para
refletir:
afinal,
o
carnaval
fica
chato
porque
não
tem
segredo?
Ou
não
tem
mais
segredo
porque
estava ficando
chato?
Eu
penso
que
nem
um
nem
outro.
O
que
acontece é
que
precisamos
conter
nossa
ansiedade.
Saber
tudo
antes
da
hora
pode
ser
legal,
nas
conversas
entre
amigos,
mas
é
sempre
bom
guardar
um
pouquinho
para
o
final,
porque
carnaval
só
acontece
mesmo
na
Avenida.
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Ricardo Delezcluze
Mestrando em Antropologia do PPGSA/UFRJ
delezcluze@gmail.com