CARNAVAL VIRTUAL

23-11-2007

Que monstruosidade!

Artigo de Ricardo Delezcluze

Não faz muito tempo, acredito que nos idos de 2004, meu contato com sambas-enredos que concorriam nas quadras se dava única e exclusivamente pelo rádio ou nas quadras de fato. Pois o tempo passou e a internet incrementou esse contato. Na grande rede é possível ouvir uma infinidade de sambas concorrentes, de todos os grupos.

Mesmo com o avanço da internet e boa parte das escolas aderindo às novidades tecnológicas, muito ainda se perdia, coisa de dois anos atrás, muitos puristas poderiam pregar que sentir o samba era possível na quadra. De fato, gravações de estúdio não eram parâmetro para medir a empolgação dos componentes com a obra apresentada ou a afinidade da mesma com a bateria, entre outros fatores. O tempo passou voando como um cometa e eis que esse argumento cai por terra. As gravações ao vivo das quadras durante as apresentações de samba desmascaram falhas muitas vezes mascaradas por arranjos e tratamentos feitos em estúdio.

Não era o ideal ainda. Muitas vezes, os sambas podem evoluir ou se transformar durante a disputa. Uma correção de andamento aqui, abaixa meio tom ali, bota uma palavrinha acolá... e pronto: o samba cresce durante o concurso e se você quiser acompanhar esse crescimento tem que ir à quadra.

O
ano de 2007 trouxe outra novidade. Hoje, cada apresentação, uma após a outra, é filmada, registrada de todas as formas. É possível ver e rever durante a semana cada apresentação. É possível saber qual samba leva torcida, qual é cantado por membros da comunidade, qual atravessou na 4ª eliminatória, enfim, basta uma câmera digital ou um celular para que tudo corra o mundo através do Youtube. E agora é preciso ir à quadra acompanhar eliminatória? Eu recomendo que vá, mas se você quiser mentir dizendo que foi, mas não foi nada, ficou mais fácil.

Aprofundando o assunto, faço a pergunta: “Que monstro nos tornamos?” Nenhum CD de samba-enredo está à venda. No entanto, ouvi milhares de vezes até mesmo as gravações do CD das escolas mirins, que ainda será lançado. Consegui todas as gravações sem entrar em contato com ninguém envolvido na produção de CD. Todas as faixas estão disponíveis para quem quiser baixar em uma ferramenta de armazenamento de arquivos chamada 4Shared. As mesmas foram propaladas pelos fóruns e listas de discussão na internet.

Que monstro nos tornamos? Que monstros nos tornaram! Até pouco tempo, a ansiedade por conferir a performance do cantor tal da escola “x” fazia parte do nosso ritual carnavalesco. Aguardar que novidades trariam as gravações, que talvez escondessem a tentativa de padronização de outrora e facilmente constatada nos dias de hoje.

Os “bafafás” e boatos das escolas não correm mais à boca pequena para estourar um mês ou dois depois. Agora, as notícias correm na velocidade da luz, não apenas por sites e blogs especializados em carnaval, mas principalmente nos fóruns. Ano passado, um boato sobre a saída de um integrante de determinada escola era desmentido em um fórum de carnaval por um membro do mesmo que sequer morava no Rio de Janeiro.

Nem os barracões são segredos após o advento da Cidade do Samba. Para o bem ou para o mal, os carnavalescos são constantemente vigiados pelo grande público interessado no assunto, que faz seu passatempo observar qual escola está com o barracão atrasado. Vale para a Cidade do Samba o mesmo que para as quadras. Você pode saber o que as escolas preparam para a Avenida através dos fotologs de foliões que clandestinamente batem fotos da preparação dos carros - na Cidade do Samba não é permitido tirar fotos do mezanino, que visão para o interior dos barracões.

M
eu “tostines” carnavalesco não lanço em forma de sentença. Não é condenação nem aclamação. Meu “tostines” é dialética. É para refletir: afinal, o carnaval fica chato porque não tem segredo? Ou não tem mais segredo porque estava ficando chato Eu penso que nem um nem outro. O que acontece é que precisamos conter nossa ansiedade. Saber tudo antes da hora pode ser legal, nas conversas entre amigos, mas é sempre bom guardar um pouquinho para o final, porque carnaval acontece mesmo na Avenida.

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Ricardo Delezcluze
Mestrando em Antropologia do PPGSA/UFRJ
delezcluze@gmail.com

 

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