Totalmente
imerso no livro maravilhoso de João do Rio "A Alma
Encantadora das Ruas" tive essa vontade. Digo vontade,
pois não considero algo novo. Não é uma idéia minha,
portanto. Considero algo tão interessante que não é
possível que ninguém tenha deixado de pensar em algo do
gênero antes.
É
o seguinte: partindo do princípio de que as escolas de
samba são uma das mais interessantes manifestações do
carnaval no mundo inteiro e tomando a importância das
escolas no cotidiano das comunidades pobres do Rio de
Janeiro e em diversos outros lugares do Brasil,
poderíamos utilizá-las como objeto de contemplação como
fez João do Rio.
Fundamentalmente,
partiremos das escolas como objeto de contemplação, não
de estudos, de pesquisa. As formalidades implícitas em
uma pesquisa e seus métodos rigorosos podem tirar o
brilho e o sentimento do projeto.
Funcionaria
assim: visitas por todas as quadras do Rio de Janeiro no
período pré-carnavalesco, privilegiando as escolas dos
grupos de Acesso, especialmente as menores e mais
pobres. São poucas as matérias, inclusive em veículos
especializados em carnaval, sobre escolas como Rosa de
Ouro e Corações Unidos do Amarelinho. O mesmo ocorre com
escolas outrora badaladas como Acadêmicos do Engenho da
Rainha e Unidos da Ponte. Dessa forma, a ascensão ou
recuperação e até mesmo a decadência dessas escolas são
ignoradas, posto que acontecem quando estão nos grupos
de baixo.
Estas
visitas devem ser mais do que meros contatos
etnográficos de campo, onde o observador busca
distanciar-se do objeto. Ser repórter, procurar o furo
do carnaval nessas quadras, será infrutífero e tampouco
alcançará o objetivo que desejo. Para tal projeto é
necessário ter o espírito do "flaneur". O mesmo
“flaneur” apresentado por João do Rio na "Alma
Encantadora das ruas". Aquele que sabe "perambular com
inteligência". Deve-se flanar para sentir todo turbilhão
de emoções que emana das quadras, para encarnar e
interagir com cada elemento que batalha por um pavilhão.
Sentindo a alma pulsante dos ensaios à relva e encravado
no cume do morro. Circular por receptivas senhoras
cozinheiras, comer suas sopas de ervilha; beber com os
compositores; ouvir as reclamações dos oposicionistas da
direção atual no botequim ao lado; não considerar
perdidos os dias sem ensaio; constatar a convivência com
o narcotráfico; a presença maciça de crianças nas
baterias... Tudo isso sem gravadores, câmeras ou bloco
de notas. As únicas ferramentas serão seus olhos e todos
os registros na mente e no coração. No final do dia, tal
qual um diário, tudo anotado com carregada carga
expressiva. Acho que posso fazer uma concessão para uma
câmera fotográfica desde que seja utilizada para guardar
essa alma pulsante.
Um
projeto ambicioso desses não requer anos de estudo, mas
anos de dedicação. Quem quiser tocar o mesmo não precisa
ter milhares de contatos, mas vontade de tê-los. Coragem
para tal é fundamental. Finalmente deve o “flaneur” ter
sensibilidade de poeta. Eu queria ser esse “flaneur”,
queria ser o cara que tocaria esse projeto, queria
“perambular com inteligência” pela cidade. Não tenho
nada que me qualifique como tal “flaneur” a não ser a
vontade de sê-lo.
Ricardo Delezcluze
delezcluze@gmail.com