Enredos: Carnaval 2007
Grupo Especial
Acadêmicos do Salgueiro
Enredo: "Candaces"
Carnavalesco: Renato Lage e Márcia Lávia
SINOPSE
"Falar de Candace ... É
preciso olhar pra trás para ir pra frente. Porque
atrás de nós tem um espelho e é nele que está nossa
cara verdadeira. Nosso espelho é um espelho de
Rainhas. Rainhas-Mães, Rainhas Guerreiras. Candaces.
Somos herdeiros dessas Rainhas, temos a fala de nossos
ancestrais"
(Trecho da
peça Candaces – A Reconstrução do Fogo)
A partir desta inspiração inicial, o Salgueiro vem
desvendar em seu enredo a história das Candaces,
dinastia de rainhas da África Oriental que comandaram,
antes da era cristã, um dos mais prósperos impérios do
continente.
Mais do que uma linhagem de rainhas, Candace torna-se
um conceito, através do qual a força da mulher negra
se faz presente em lutas, conquistas e no legado
matriarcal que venceu o tempo e as distâncias.
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Baseados em mitos e episódios históricos, vimos
reverenciá-las na forma mais viva de manifestação
cultural do nosso país. Pedimos licença, bênção e
proteção para apresentar a saga de mulheres africanas
e afro-descendentes que mantêm em comum o laço de
soberania real e espiritual sobre seus povos,
estabelecendo um elo imaginário de ascendência e
descendência com as rainhas Candaces, personagens
centrais do nosso enredo.
As Mães Feiticeiras
Do grande continente africano trazemos não só a
origem, mas também toda uma crença ancestral que
exalta a figura feminina como a grande provedora que
principiou a vida do Homem.
Um desses mitos conta que no início de tudo, ligadas
às origens da Terra, havia as Mães Feiticeiras. Donas
do destino da humanidade, elas eram o ventre do mundo.
Conhecedoras dos segredos da vida, continham em si a
capacidade de manipular os opostos e, assim, manter o
equilíbrio do universo. Traziam consigo a força
criadora e criativa do planeta. Raízes de um
misticismo que abrigava em sua sabedoria a dualidade
do cosmos, detinham o poder sobre a vida e a morte, o
bem o mal, o amor e a cólera, o princípio e o fim.
As Ascendentes Candaces
Do mito à história, através do exemplo de duas grandes
rainhas da Antigüidade, exaltamos o comando de
mulheres negras sobre seus povos. Assim, evocamos a
primeira ascendente Candace: Mekeda, ou Rainha de Sabá.
Reino das mil fragrâncias, confluência das culturas
árabe e africana, Sabá era uma terra rica e mantinha
uma sociedade matrilinear, em que o poder era passado
aos descendentes pela via feminina. Ali viveu a
exuberante Rainha Negra. A traída pela fama de riqueza
e sabedoria que envolvia Salomão, o rei dos judeus,
Mekeda adentrou Jerusalém com uma comitiva de camelos,
levando uma infinidade de aromas e grande quantidade
de ouro e pedras preciosas. Desse encontro nasceu a
reverência à mulher que cativou com beleza,
inteligência e diplomacia um dos soberanos mais
importantes de sua época.
Do Oriente, rumo ao império dos faraós, surge mais um
exemplo do po der feminino negro. Nefertiti reinou no
Egito por mais de uma década durante o apogeu de uma
civilização que iria influenciar toda a humanidade.
Reverenciada por sua beleza, governou ao lado de
Amenófis IV (Akhenaton) com status equivalente ao
dele. Juntos, implementaram reformas culturais e
religiosas, dentre elas o culto ao Deus Sol Aton. Foi
imortalizada em templos mais do que qualquer outra
rainha egípcia.
Candaces
Ao sul do Egito, banhado pelo Nilo, havia o Império
Meroe. Era governado por uma dinastia de soberanas
negras que exerciam o poder civil e milit ar.
Imortalizadas pela história como Candaces, estas
bravas guerreiras nasceram sob o signo da coragem para
ocupar posição de poder e prestígio. Numa forma de
conexão com as tradições matriarcais da África,
reinavam sobre seu povo por direito próprio, e não na
qualidade de esposas.
Viviam o apogeu de uma era de esplendor e fartura,
abençoadas pelo grande rio e impulsionadas pelo
comércio com o Oriente Médio. A localização do império
permitia um intenso intercâmbio com outros povos -
hebreus, assírios, persas, gregos e indianos. Em suas
terras, ricas em ferro e metais preciosos, ergueram-se
pirâmides e fortalezas.
Seus exércitos usavam armas de ferro e cavalaria,
ferramentas e habilidades herdadas dos povos núbios,
que lhes davam vantagem no campo de batalha. A
idolatria daquela civilização pelos cavalos era tanta
que estes animais eram enterrados junto com seus
guerreiros, para servi-los por toda a eternidade. Esta
imagem, misto de homem e cavalo, alcançou a Grécia,
inspirando o surgimento da figura mitológica do
Centauro. Na religião, cultuavam Apedemek, Deus da
guerra e da vitória, representado por um homem com
cabeça de leão.
A prosperidade de Meroe, que deu prosseguimento ao
domínio Núbio na região, atraiu a ira dos senhores do
mundo, o Império Romano. Aqui tem início o episódio
que marcou a história das Candaces.
Líderes de um movimento de resistência contra o
poderio bélico dos invasores, enfrentaram o forte
exército, aliando técnicas de guerrilha e diplomacia.
Uniram seu povo na luta contra o jugo romano movidas
pela sede de justiça e liberdade.
Após a invasão de Petronius, a Rainha Candace esperou
que as tropas do general adormecessem e os surpreendeu
com um ataque. Este movimento abriu a possibilidade
para uma negociação diplomática, comandada pela
soberana negra. O resultado foi a retirada dos
soldados romanos e a demarcação do território de Meroe,
devolvendo a paz ao seu povo. Assim foi escrito o mais
importante episódio que marcou a nobre dinastia de
guerreiras naquele império africano.
Mas os exemplos de comando e resistência de bravas
negras continuaram a florescer por outras eras e
civilizações. Para além de seus próprios domínios,
emergiu a saga das Candaces, Rainhas Mães que se
fizeram deusas, reinando na crença de suas
descendentes espalhadas pela Terra, porta-vozes da sua
luta por toda a história.
As Descendentes
Várias luas se ergueram e se puseram no céu do
continente negro. Um dia, rainhas e princesas de
tribos e reinos se viram obrigadas ao trabalho forçado
no novo mundo. Mas foi ali que fizeram multiplicar o
sangue Candace. Em uma terra tão distante, ligadas ao
passado, mulheres negras geraram o valor da bravura
herdada de suas ancestrais.
A palavra liberdade ganhou um significado mítico no
Brasil, dando um novo sentido à vida levada entre a
clausura e o trabalho forçado. A bravura da dinastia
Candace foi eternizada pela tradição oral africana,
que tratou de espalhar aos quatro cantos os grandes
feitos das suas soberanas, inspirando a luta de
guerreiras que subverteram a força dos seus senhores e
lutaram pela liberdade.
Para elas, ser livre era também reverenciar seus
costumes, reviver o passado soberano, encenar a
memória dos seus antepassados. Em folguedos, foram
eternizadas na glória real da corte negra. No novo
continente, há o despertar para o misticismo trazido
do outro lado do Atlântico. A construção da identidade
africana no Brasil encontra nas celebrações e ritos
toda uma reverência à mulher como mediadora entre os
deuses e a humanidade.
Na Bahia, as escravas ganhadeiras vendiam o excedente
de produção em feiras e mercados como em sua terra
natal. O lucro era poupado para comprar suas alforrias
e a dos maridos, tornando-as mulheres com voz ativa.
No chão brasileiro, era revivida a tradição das feiras
iorubanas, um espaço não só para trocas de
mercadorias, mas também para trocas simbólicas. A
mulher concentrava o poder de fechar negócios,
disseminar notícias, modas, receitas, músicas, e,
sobretudo, aconselhar.
Assim, tornaram-se as grandes mães negras,
sacerdotisas que tiveram suprimido o poder real na
África, mas que passaram a exercer o poder espiritual
no novo mundo.
Os elos entre arte e religião se tornaram mais fortes.
As mães de santo se transformam em mães de samba. Tia
Ciata, a mais conhecida, era respeitada por sua
sabedoria religiosa. Celebrava os orixás em cerimônias
em sua própria casa, que sucediam festas regadas a
muita música, batuques e quitutes. Um misto de
consagração da música e dos deuses afro-brasileiros.
Salve as Candaces do Candomblé , evocadas na saudação
às entidades femininas.
Odoyá, Iemanjá!, rainha das águas do mar;
Saluba, Nanã!, deusa da Terra;
Eparrei, Iansã!, senhora dos raios;
Orayê-yê o, Oxum!, guardiã da beleza e do amor;
Oba-xi, Obá!, senhora das águas revoltas.
Celebração de religião e do puro prazer de dar ao
corpo o gingado malemolente, fruto da persistência
destas rainhas, sacerdotisas, baianas, pastoras, mães
negras do carnaval.
A Imortalidade
Mulher. Negra. Gênero e raça. São as Candaces dos
nossos dias, herdeiras do laço afro e da missão de
semear esperança na Terra. Provedoras da força que nos
acompanha desde os primeiros passos. Detentoras do
relicário da arte em prol do coletivo.
Majestade, soberana, guardiã da sagrada chama da vida,
dona do carnaval. Derrama teu talento ao interpretar a
história da raça; enfeitiça os sentidos com tua beleza
negra, libertando corpo e alma. Eleva-te ao panteon
das matriarcas ancestrais da África e invoca a Candace
dentro de ti. Resgata a força feminina das guerreiras
imortais, Rainhas Mães de todos os tempos, para
abençoar e iluminar teus filhos, emanando o Axé, poder
vital da bondade e do afeto, energia que comanda o
mundo.
Hoje, recontamos as glórias de quem um dia cumpriu seu
destino e fez história, revivida sempre que alguém
invocar teu nome. Salve as Candaces! Raça e gênero num
só coração.
Renato Lage, Márcia Lávia e Diretoria Cultural