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Enredos: Carnaval 2006 Grupo de Acesso C
Unidos da Villa Rica
“Sapato brilhando, chapéu panamá, sorriso faceiro, dosagem
alcoólica controlada no nível da simpatia, um olho na
acompanhante, outro nas acompanhadas, os dois nas
cabrochas do recinto. Não é de hoje que a malandragem está associada ao Rio de Janeiro, berço do samba. Tanto que não foi por acaso o surgimento da primeira escola de samba carioca, a "Deixa Falar", no bairro do Estácio, tradicional reduto da massa de desocupados e trabalhadores informais, envolvidos com pequenos furtos, biscates, jogatina e exploração de mulheres. Assim como a malandragem, Ismael Silva, grande "bamba", também se criou no Estácio e foi um dos fundadores da “Deixa Falar” — que, no Carnaval de 1929, desfilou na Praça Onze em um espetáculo ainda bastante tímido, se comparado às proporções que alcançaria anos depois. O detalhe curioso — e malandro — é que grupo de foliões, grande parte formado por figuras bem manjadas, sobretudo nas delegacias, sambaram escoltados e protegidos justamente pela polícia.
Segundo o auto-denominado malandro Bezerra da Silva,
malandragem e ilegalidade não fazem parte da mesma moeda:
"Malandro é malandro, mané é mané". O que supostamente
tenta diferenciar, de forma curta e grossa, é o malandro
verdadeiro daquele (o tal mané) que extrapola na dose da
malandragem e, digamos, "atropela o samba". · Os “Guaiamus”: de tradição mestiça, eram ligados aos Republicanos do Partido Liberal. Absorveram intelectuais, crioulos, homens livres e imigrantes. Atuavam na região central. · Os “Nagoas”: de tradição escrava e africana, eram ligados aos monarquistas do Partido Conservador. Atuavam na periferia.
Os integrantes das “maltas” trajavam roupas brancas, calça
pantalona com boca de sino, camisa ou terno de linho com
sapato de bico fino. Usavam geralmente um lenço de seda no
pescoço, que funcionava como proteção aos golpes de
navalha. Um chapéu na cabeça e nas mãos uma faca, navalha
ou bengala para qualquer imprevisto. Ainda nesse período — e também no embalo da política de boa vizinhança implementada por Roosevelt —, o Bando da Lua acompanhava Carmem Miranda, vestido de chapéu e camisa listrada. Formado em 1931 no Rio de Janeiro, o Bando da Lua foi o primeiro no Brasil a harmonizar as vozes, seguindo a moda da época nos Estados Unidos, e com isso criou uma mania nacional. Gravaram vários discos com músicas de carnaval nos anos 1930. Ao todo, 38 discos, de 1931 até 1940. Com o sucesso, excursionaram pela Argentina. Os “malandros cariocas”, começaram a tocar com Carmem Miranda ainda nos anos 30. E, ao ser convidada para fazer uma turnê pelos Estados Unidos, a cantora exigiu que o grupo a acompanhasse. Resultado da parceria: diversos espetáculos e longas-metragens produzidos por Hollywood.
Nos anos 60, o malandro sofre nova transformação e
de novo desce para o asfalto. “Todo mundo podia ser
malandro, o comerciante, o político, o cara esperto na
esquina.” Fábula sobre um certo Malandro Pelintra “Aos 98 anos de idade, Moreira da Silva, internado e nas últimas para os homens — jamais para a espiritualidade! —, pede licença ao Pai Celestial e faz uma rápida visita à morada dos Anjos. Ao chegar no céu, fica estarrecido; não é nada daquilo que está escrito nos livros. Não existe paraíso, nem inferno, amarras, conceitos ou preconceitos humanos. A um só tempo, pessoas, lendas e personagens se misturam e se completam. Tudo é perfeição, amor e felicidade. Não há espaço para o sofrimento. Choro, só se for de alegria. O sambista é recebido com toda a pompa por uma comitiva de querubins. Lima Barreto pega o violão, Viriato Correa improvisa a letra e Cartola empresta sua voz para homenagear o ilustre visitante. Capoeiristas dão piruetas sobre as nuvens, agitando suas poderosas asas fosforescentes para iluminar a noite. As cabrochas, sempre muito perfumadas e sorridentes, balançam com tamanho entusiasmo e encanto as cadeiras, que Moreira da Silva já está a ponto de esquecer de sua última missão terrena e cair na farra. Wilson Batista e Noel Rosa fazem um brinde ao companheiro de copo, boemia e malandragem. Ceci, o motivo do antigo desafeto entre Rosa e Batista, puxa uma cadeira e a oferece a Moreira, que, ainda maravilhado com tudo aquilo, senta-se, agradece, enche o copo e bebe um longo gole. Sua hora está próxima, mas, antes, precisa fazer algo muito importante. Por isso, veio pedir ajuda aos verdadeiros malandros. — A noite não é mais a mesma — lamenta-se o compositor —, está cada vez mais triste. O bom malandro anda desasado, sem brilho, sem força. Gafieira, hoje é baile funk. Sapato lustrado, ninguém usa mais. Só andam de tênis. O terno de linho virou jeans e camiseta suja, rasgada. Agora, navalha cospe fogo, é metralhadora. O pileque se transformou em vício, ameaça, corrupção, seqüestro. Nem o lenço se salvou, saiu do pescoço e foi parar na cara, para esconder a identidade do sujeito. Tudo lá embaixo, é desespero e dor. — Tomou outro gole. Prosseguiu: — Quem vai mandar daqui pra frente nas calçadas do Rio? Daí, como já estou mais pra cá do que pra lá, me antecipei um pouco e vim pedir socorro, em nome dos velhos tempos. Abalados com as más notícias, todos perguntam em coro: — Como é que poderemos ajudar o amigo, se já não somos mais daquele mundo? — Arte não morre. Os compadres ainda são lembrados e festejados pelo tanto que fizeram para defender a boemia, o samba, as cabrochas, os menos favorecidos, enfim, por terem mostrado que malandro é malando, mané é mané. Aqui, surge o Zé Carioca, cheio de gingado e astúcia. E vem dele a idéia de pedirem ajuda ao Zé Pelintra. — Não é ele o valentão — joga —, o defensor dos injustiçados? Todos silenciam. Aos poucos, resolvem aceitar a proposta do aloprado Zé Carioca. Todos se ajoelham e invocam Zé Pelintra, que vem pendurado num rabo de um cometa. Mesmo já sabendo do que se trata, o caboclo os escuta com muita atenção. Mestre Zé Pilintra gosta muito de ser agradado com presentes, festas, ter sua roupa completa, é muito vaidoso e tem duas características marcantes: uma é de ser muito brincalhão, dançarino, mulherengo, outra é ficar mais sério, parado num canto assim como sua imagem observando o movimento ao seu redor, mas sem perder suas características. ele vem na linha de baianos e pretos velhos, fuma cigarro de palha, bebe batida de coco, pinga coquinhos ou simplesmente cachaça, sempre com sua tradicional vestimenta: calça branca, sapato branco (ou branco e vermelho), seu terno branco, sua gravata vermelha, seu chapéu branco com uma fita vermelha ou chapéu de palha e finalmente sua bengala. Depois de um bom gole de Jurema, acende um cigarro de palha, traga e, lançando a fumaça em círculos no rosto de Moreira da Silva, dá o veredicto: — Ajudarei vosmecê. Hoje à noite, vou me dividir em muitos e entrar nas garrafas de cerveja. Quando os arruaceiros estiverem reunidos, começarei meu trabalho. Dito e feito. Horas depois, os bares da Lapa começam a ser invadidos por todo tipo de gente da noite. — Malandro de verdade, não precisa de tiro, resolve as desavenças no trago e no gogó! Se vocês são, de fato, filhos legítimos da boemia, sentem-se e bebam sem medo e sem culpa! Lá pelas tantas, após um tal de encher e esvaziar copos, Zé Pelintra começa a agir. Nas garrafas dos verdadeiros malandros, o álcool se transforma rapidamente em força, gingado, virilidade, sedução. Tanto, que não demora nada para as cabrochas veteranas voltarem ao bar e se sentarem à mesa dos genuínos reis da noite. Em contrapartida, para os manés, a bebida vai caindo feito ácido no estômago dos invasores: dá enjôo, desmaio, trança as pernas e enrola a língua da rapaziada. Percebendo que seus namorados não passavam de manés metidos a besta, as cabrochas mais novas vão rapidamente mudando de time. Num piscar de olhos, todos já estão dançando e cantando em uma divertida roda de samba, que se arrastará até de manhãzinha. Entidade de palavra, Zé Pelintra separa o joio do trigo. A boemia está de volta, alegre e livre dos falsos malandros. De alto de uma nuvem dourada, o talentoso sambista Moreira da Silva, o mais malandro de todos, sorri feliz e em paz. Despede-se dos amigos eternos com um “até breve”, pois sabe que, antes das nove da manhã, estará de volta — só que na pele vaporosa e cintilante de um extraordinário Anjo.”
Com
a morte de Moreira da Silva, aos 98 anos de idade,
acredita-se que tenha ido embora o último malandro.
Malandro daqueles cantados por Jorge Benjor, que sabem que
é bom ser honesto e são honestos só por malandragem. No
idioma de Morengueira: "Se um vigarista soubesse quanto é
gostoso estar do lado da lei, se tornaria honesto só por
vigarismo". Este era o retrato fiel de Moreira. "A
malandragem nunca existiu para mim. Sou um bípede mamífero
que sempre trabalhou", pontificava.
A
Ópera do Malandro, de Chico Buarque de Holanda,
estreou em julho de 1978, no Rio de Janeiro. Mas a Ópera
continua absolutamente atual, se lembrarmos a crise de um
País entregue à falcatrua, ao comércio de bundas, ao
capital estrangeiro, à corrupção – questões prementes
desde o final dos anos 70, quando a peça foi escrita. BIBLIOGRAFIA ALENCAR, Edigar de. 1980. O carnaval carioca através da música. Rio de Janeiro/São Paulo, Freitas Bastos. ____. 1981. Nosso Sinhô do Samba. Rio de Janeiro, Funarte. BARBOSA, Orestes. (1993), Bambambã. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/DGDIC [Primeira edição: 1923]. BARRETO, Lima. (1948), Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Mérito [Primeira edição: 1923/24]. BRETAS, Marcos. (1991), "A queda do império da navalha e da rasteira: a República e os capoeiras". Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 20 / 239:255. CABRAL, Sérgio. 1996a. As escolas de samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Lumiar. ____. 1996b. A MPB na era do rádio. São Paulo, Moderna (Col. Polêmica). CANDIDO, Antonio. 1970. Dialética da malandragem. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, n. 8. CARVALHO, José Murilo. 1990. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras. ____. 1987. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo, Companhia das Letras. COSTALLAT, Benjamin. (1995), Mistérios do Rio. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/DGDIC [Primeira edição: 1922]. COX, Dilermando D. (1950), Os Párias da Cidade Maravilhosa. Rio de Janeiro: José Olympio. CUNHA, Maria Clementina Pereira. 2001. Ecos da folia: uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo, Companhia das Letras. DAMATTA, Roberto. (1979), Carnavais, Malandros e Heróis: para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar. DAMATTA, Roberto. (1993), Conta de Mentiroso: Sete Ensaios de Antropologia Brasileira. Rio de Janeiro, Rocco. EFEGÊ, Jota. 1985. Meninos, eu vi. Rio de Janeiro, Funarte/Instituto Nacional de Música. ____.1974. Maxixe, a dança excomungada. Rio de Janeiro, Conquista (Col. Temas Brasileiros). FILHO, Mello Moraes. 1979. Festas e tradições populares, São Paulo, EDUSP/Itatiaia (1.ed. 1890). HOBSBAWM, E. & RANGER, T. (1984). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra. MATOS, Cláudia. (1982), Acertei no Milhar: Samba e Malandragem no Tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra. MÁXIMO, João & DIDIER, Carlos. (1990), Noel Rosa: uma Biografia. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. MISSE, Michel (1999), Malandros, Marginais e Vagabundos & a Acumulação Social da Violência no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IUPERJ [Tese de Doutorado em Sociologia]. MORAES, Santos. (1959), Menino João. Rio de Janeiro: Livraria São José. NEDER, Gizlene. (1994), "Instituição policial e as estratégias de controle social no Rio de Janeiro". Arquivo & História. Niterói: n. 1/ 81:106. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. (1992), O Carnaval Brasileiro. São Paulo: Brasiliense. RIO, João do. (1987), A Alma Encantadora das Ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/DGDIC [Primeira edição: 1908]. SABÓIA LIMA, A. (1946), A Infância Desamparada. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. SALVADORI, Maria Ângela B. (1990), Capoeiras e Malandros: Pedaços de uma Sonora Tradição Popular - 1890-1950. Campinas: UNICAMP [Dissertação de Mestrado em História]. SHUTZ, Alfred. (1979), Fenomenologia e Relações Sociais. Organização e introdução de Helmut R. Wagner. Rio de Janeiro: Zahar. SOARES, Carlos Eugênio L. (1994), A Negregada Instituição: os Capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/DGDIC. VIANNA, Hermano. (1995), O Mistério do Samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Editora da UFRJ.
Notas do Carnavalesco: 1) Este enredo teve como inspiração a crônica “Malandragem, adeus”, publicada no Jornal do Brasil no dia 07 de Junho de 2000, como autores Renato Lemos e José Adilson Nunes (prêmio Esso de criação gráfica 2000). 2) A “Fábula sobre um certo Malandro Pelintra”, foi escrita por Felipe Greco especialmente para este enredo. O escritor foi o grande vencedor do prêmio Fiat de literatura brasileira em 1991 e tem dois roteiros filmados: Atração satânica (1987) e The ritual of death (1990). Em 2001, publicou o livro de contos Caçadores noturnos (Desatino, SP); em 2003, O coveiro, uma fábula marginal (Desatino, SP). Em 2004, graduado em Relações Internacionais, escreveu o artigo "Getúlio Vargas, um político camaleônico", o qual foi publicado na coletânea Política e conflitos internacionais (Revan, RJ). PEQUENO DICIONÁRIO DO MALANDRO CARIOCA Achacador – Pessoa acostumada a tomar dinheiro emprestado Água Pintada - Leite Amarra - Pulseira de relógio Araquiri - O mesmo que duvidoso. Se algo não é bom é de araquiri. Amplexo - Abraço Bife de padaria - Pão Boate de lona - Circo Buraco do Pano – Bolso da frente das calças Cabreiro - Desconfiado Calibrina - Cachaça Campanear - Olhar, observar Chá-de-urubu - Café Chave-de-cadeia - Sinônimo de problema, aborrecimento. "Aquele(a) ali é chave-de-cadeia." Chinfra - Pose Derrepenguente - De repente Desguiar - Desviar Esculachar - Desleixar Farol - Vigia/ou quando acende o farol!!! Fio de Antena - Macarrão Fritada - Tapa na cara Gordurame - Comida, refeição Igrisia - Rusga, problema, rixa Maracanã - Prato fundo Marola - Confusão Mina - Menina, garota Mixola, mixo - De pouco valor Neca - Nada, não Presepada - Zoeira Porão - Bolso de trás das calças Pichibéqui - Anel Queimar - Ficar irritado. O mesmo que "morder" (gíria) Sonar - Dormir
Vargulino -
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