EM CIMA DA HORA
Entrevista
Edeor de Paula
__ Compositor __
 
Por Wellington Lopes

Edeor José de Paula, 72 anos, mecânico, botafoguense, carioca nascido na rua Marquês de São Vicente, na Gávea, em 16 de dezembro de 1932. Filho de Francisco José de Paula e Dona Carmem Diniz de Paula. Hoje, morador da Freguesia, em Jacarepaguá, casado com a Dona Iandir da Silva, pai de duas filhas, a Juciara e a Jupiara. Você sabe de quem estamos falando? Possivelmente, não. Mas com certeza o samba dele você conhece. Também não? Duvidamos. Vamos cantar um pouquinho para você:

"Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh, solitário sertão
De sofrimento e solidão..."

Vamos esperar você acabar de cantar para continuar. Só não pode fazer várias passagens do samba!

Podemos ir adiante agora? Estamos falando de Edeor de Paula, o compositor Estandarte de Ouro de 1976 da obra que é considerada por muitos como o melhor samba-enredo de todos os tempos, "Os Sertões", da Em Cima da Hora. Conheça um pouco da vida deste grande personagem da história das escolas de samba.

*** *** ***

OBatuque.com – Por que o senhor parou de trabalhar como mecânico?
Edeor de Paula
– Quase morri. O metanol quase me derrubou. Fiquei seis meses em tratamento. As veias ficaram entupidas. Numa madrugada, procurei o chão e não encontrei.  Mas graças a Deus estou vivo.

OBatuque.com - Seus primeiros passos no carnaval?
Edeor de Paula
– Tinha mais ou menos 11 anos. E fizemos um bloco que começou a despertar no bairro, Os Cubanos da Gávea. Por que Cubanos? Porque com este mesmo grupo nós formávamos um grupo de mambo. Fomos campeões, na Rádio Tupi, do concurso o Dia do Mambo. E de lá pra cá, o bloco cresceu. Eu passei a ser compositor do bloco, diretor de bateria e depois gravei a minha primeira música com a rainha do cinema Marli Sorel, "Sofrer como Eu": 

"Sofrer como eu
No mundo ainda não nasceu
Somente eu neste mundo de Deus..."

Gravei muito com Orlando Dias, Fernando Corrêa, Heleninha Costa, Blecaute. Gravei com Ari Cordovil, Marlene... Só que não botei o meu nome. Tem uma música em que eu fiz uma troca com um amigo meu e ele depois me perguntou se não ia colocar meu nome. Eu lhe respondi que não. A troca estava feita. Quando tem seu nome escrito, você tem como provar, quando não tem... A vida continua. Agora estou escrevendo umas músicas para um CD. A Alcione tá gravando, Fafá de Belém, tô aguardando. Exaltasamba, também.

Ele olhou para o presidente e falou: "É, presidente. Esse samba vai sair daqui e vai correr o mundo."

OBatuque.com - Rola um boato na quadra da Em Cima da Hora que o samba caiu. É verdade isso?
Edeor de Paula
– Não, não. Posso até falar com você. Quando chegou a semifinal, caíam dois sambas. E ficariam três para a grande final. Era por pontos corridos. A diferença entre um samba e outro chegava a dois ou três pontos. Os que caíram antes estavam muito distante disso. Quando meu samba foi pra final, não sei o que arrumaram. Fiquei a 20 pontos do Baianinho. Era muita coisa, não dava para recuperar. Eu ia perder. Cheguei a falar com vice-presidente na época: "Ô, Zeca, quer saber de uma coisa? Eu vou embora. Pode retirar meu samba, porque eu vou embora". Ele falou: "Pelo amor de Deus, não faça isso! Houve um problema, eu não sei o que é, mas eu vou saber". Respeitando o Baianinho, o samba passou bem pra caramba para ficar uma diferença daquela. Não dava. Na sexta-feira fui comunicado que tinha que conversar com o pessoal da Academia de Letras. Fomos nós quatro. Os quatro não formavam parceria única, não. Era um de cada samba. Só tinha um samba que tinha dois compositores. Quando eu cheguei pra conversar com o presidente da ABL, o Dirceu Quintanilha, ele me pediu pra cantar todos os sambas que havia ganho, o samba de terreiro, o samba de quadra e o samba-enredo. Eu falei que não era cantor, mas mesmo assim ele pediu pra cantar. Depois que eu cantei "Os Sertões", ele olhou para o presidente e falou: "É, presidente. Só se houver eclipse! Esse samba vai sair daqui e vai correr o mundo." E meu Pai Maior falou amém! O mundo pode não conhecer o Edeor de Paula, mas conhece a minha obra.

OBatuque.com - Quantos cantores já regravaram este samba?
Edeor de Paula
– Olha... Honestamente, foram muitos. A mais recente regravação é do Raimundo Fagner, que nunca cantou samba.

OBatuque.com - E depois de "Os Sertões"?
Edeor de Paula
– Eu fui para a Caprichosos de Pilares. Fui a três finais, mas não ganhei nada. Fui para o Império Serrano, também fui a duas finais e não ganhei nada. Voltei para a Caprichosos. Perdi um samba lá porque não quis assinar 60% pra escola com os direitos autorais. Me chamaram no canto e falaram: "O samba é campeão, mas você tem que dar 60% pra escola". Foram honestos, mas eu e meus parceiros não quisemos dar. Então, perdemos. Aí, em 1993, fui ganhar na Beija-Flor de Nilópolis, com o enredo "Uni-duni-tê, a Beija-flor escolheu: é você!", com Wilson Bombeiro e Sérgio Fonseca. Lá, recebi integral. Disputei mais dois carnavais e não ganhei.

Hoje eu não posso escrever samba-enredo. Não vou tirar dinheiro da minha casa pra botar na quadra. Eu parei foi na Portela. Fui cortado na fita.

 

OBatuque.com - Como você vê os concursos de hoje? Vários compositores para fazer um samba muitas vezes de qualidade discutível?

Edeor de Paula – Quando o poder aquisitivo é maior, maior é o volume de pessoas por esse objetivo. Hoje eu não posso escrever samba-enredo. Não vou tirar dinheiro da minha casa pra botar na quadra. Minha esposa já chorou na quadra. Sambista não chora, chora em casa. Minha esposa fazia salgadinho. Enchia bola. Eu parei foi na Portela. Escuta só:

 

"Na mistura de gente

Sonho e sabores

E muitos amores por este caminho

Um papo gostoso

Um chope gelado

Nas mesas do Amarelinho..."

 

OBatuque.com - Chegou em que lugar?

Edeor de Paula – Fui cortado na fita. Uma falta de respeito. Se fosse um trabalho ruim, eu até aceitaria, mas não era. Nunca botei um trabalho ruim na quadra. Quando o prêmio era só uma taça, ganhava o melhor. Hoje, ganha qualquer porcaria, basta ter dinheiro. Eu só vou pra lá pra tomar cerveja. Parei no auge. Vou a várias escolas e sou muito bem recebido. A Imperatriz aprontou uma comigo, que me fez chorar na quadra.

Foi num domingo. Tinha corte de samba e eu fui lá só pra tomar uma cerveja, de bermuda e camiseta. Toda hora o locutor falava que tinha uma novidade na quadra. E eu tô lá tomando minha cerveja geladinha e comendo um tira-gosto. De repente, o locutor anuncia mais uma vez: "Está presente em nossa quadra uma atração internacional". Ficou aquele mistério. Eu nem me liguei. Aí veio a surpresa: "Edeor de Paula, compositor de 'Os Sertões'", da Em Cima da Hora". A quadra começou a cantar: "Marcado pela própria natureza..."

Nesse momento, Edeor de Paula começa a chorar recordando a homenagem que a Imperatriz Leopoldinense lhe fizera. Sua filha mais velha, a Jupiara, comentou no momento da emoção do pai, que foi a uma quadra outro dia e quando tocaram "Os Sertões", o namorado disse: "Este samba é lindo!". Jupiara falou: "É do meu pai". O rapaz ficou surpreso e demorou muito a acreditar na história de que estava namorando a filha do compositor de "Os Sertões".

Edeor de Paula – Voltando ao assunto do dinheiro para compor... A minha esposa. além dos salgadinhos e das bolinhas, picava papel. Quando eu ganhei o "Uni-duni-tê...", na Beija-Flor, dei sorte em gastar pouco. O saudoso Jackson Martins foi meu intérprete no samba. Depois levei ele pra Caprichosos. Ele me agradeceu muito. Não tenho mais condições de gastar dinheiro com uma disputa. A sua vida muda toda. Toda semana é aquele desespero. Você sai fora do seu normal. Cada corte de samba, a tua pressão vai lá em cima. E quando você é cortado, você sente que ficou coisa muito pior. Este ano, tem uma turma aqui no bairro que ganhou o samba na Curicica. Me chamaram, mas eu não quis participar.

 

OBatuque.com - Quanto o senhor recebe do ECAD?

Edeor de Paula – Músicas que estão estourando nas paradas de sucesso já não ganham muito. Com a pirataria, piorou. Quando não tinha pirataria, dava pra comprar um quilo de castanha no Natal. Esquece isso!

 

OBatuque.com - O senhor está fazendo shows?

Edeor de Paula – Tenho viajado, não muito, mas tenho viajado. Canto Nelson Cavaquinho, Ataulfo Alves... Nesse show que eu tenho de uma hora, eu começo com "Eu nunca vi fazer tanta exigência...". Depois eu brinco com o pessoal. Graças a Deus, estou indo bem. Depois de velho, tô igual a vinho (risos). Estou com uma música chamada "Fim de Amor". Essa música é uma coisa tão bonita, sobre o que nós estamos passando aqui na Terra... Quem gravar essa música vai ser sucesso o resto da vida. "Os Sertões" foi tudo na minha vida, mas essa música eu acho que meu Pai Maior mandou em boa hora. Quando terminou a gravação no estúdio, todo mundo chorou. Na primeira oportunidade vou te dar um CD gravado com ela.

 

OBatuque.com – Vou cobrar.

Edeor de Paula – Pode cobrar.

 

OBatuque.com - Como foi o anúncio de "Os Sertões" como samba campeão?

Edeor de Paula – O presidente Chiquinho, que ainda está vivo, chamou os três concorrentes e fomos os quatro até a secretaria.

 

O locutor anunciou: "O samba que a Em Cima da Hora vai levar para a Avenida tem o refrão: 'Os jagunços lutaram até o final, defendendo Canudos naquela guerra fatal'". Chorei muito. Ainda fico emocionado

 

OBatuque.com - Quatro?

Edeor de Paula – É. Três sambas na final, cada samba com apenas um compositor. Só tinha um samba com dois parceiros.

 

OBatuque.com - Se fosse hoje...

Edeor de Paula - Se fosse hoje, não daria tanta gente na secretaria. Teriam mais de 20 pessoas (risos). Aí, o presidente falou: "Já tem o resultado, já tem o ganhador". Tinha uísque e cerveja à vontade. "Vamos fazer primeiro nossa festinha aqui". A quadra tava cheia. Foi um ano inesquecível da Em Cima da Hora, embora a quadra não fosse coberta. Chiquinho veio e anunciou entre os compositores: "O samba que a escola vai levar para a Avenida é o de Edeor de Paula". Foi uma alegria só. Todos nós nos abraçamos. O presidente pediu pra nos apresentarmos de novo, sem ninguém poder falar quem ganhou. Mas já tinha um ganhador. Tivemos que disfarçar tanto, que um colega meu já falecido, o Cabrinha, me perguntou como é que a gente está. Eu falei: "Estamos bem, nada foi resolvido ainda". Mentira: eu já era o vencedor. Depois de todas as apresentações, o locutor anunciou: "O samba que a Em Cima da Hora vai levar para a Avenida tem o seguinte refrão: 'Os jagunços lutaram até o final, defendendo Canudos naquela guerra fatal'". Chorei muito. E me desculpa, ainda fico emocionado. De alegria também se chora. Depois me carregaram, me jogaram pro alto. Na hora tava me machucando. Cheguei a falar com um cara lá: "Ô meu irmãozinho, dá um jeito aí. Tá brabo. Tá me machucando", mas ele tava muito doido cantando meu samba, nem ouviu (risos).

 

OBatuque.com - Como foi o desfile?

Edeor de Paula – Foi um desfile triste. Foi uma tempestade. Antes do carnaval, o barracão mais bonito era o nosso. A imprensa comentava que a escola estava entre as três primeiras colocadas. O desastre começou na saída do primeiro carro do barracão. Não sei quem foi o gênio que projetou aquele carro. Pra sair do barracão, tiveram que serrar o carro. É brincadeira? Chegou na Avenida, caiu uma tempestade. O carro de Canudos não desfilou. Os adereços se estragaram, um desastre que marcou a escola. Depois disso, a escola nunca mais subiu. A única coisa boa para a escola foi eu ter ganho o Estandarte de Ouro de Melhor Samba.

 

OBatuque.com - A queda da escola teve alguma relação com a política, já que era um samba considerado revolucionário e vivíamos a ditadura militar?

Edeor de Paula – Alguns jornais comentaram isso na época, mas eu não acredito. A escola não tinha estrutura. Passou. Eu continuo Em Cima da Hora. Já fiz samba em outras escolas, mas continuo Em Cima da Hora.

 

OBatuque.com - Hélio Turco, compositor consagrado da Mangueira, em entrevista ao Jornal do Brasil, comentou que os sambas estão marcheados e a tendência é piorar. O senhor concorda com ele?

Edeor de Paula – No tempo que eu fazia samba, era samba-enredo e dos bons. Eram sambas clássicos, era uma história. Agora, com a cronometragem e o aumento de escolas, os sambas passaram a ser mais rápidos. Aí passou a ser marcha mesmo. Eu já fui muito prejudicado por isso em competições de samba-enredo. Meu estilo é samba. Samba mesmo. Aí me cortaram várias vezes. O próprio "Os Sertões" já não era tanto tradicional assim, como "Heróis da Liberdade" e "Os Cinco Bailes da História do Rio".

 

Você pode ver, estão rimando piche com maxixe. Aí fica difícil

 

OBatuque.com – "Os Sertões", se estivesse concorrendo hoje, venceria?

Edeor de Paula – Não. E não mesmo. Hoje tá tudo mudado. Não sei se pra melhor ou pra pior. A começar pela bateria. Tá parecendo corrida de cavalo. "Foi dada a largada!" Aquela correria (risos). Ainda restavam três escolas que mantinham essa linha: Mangueira, Império Serrano e Unidos da Tijuca, mas hoje já mudaram tudo. Quem tá voltando com isso, ultimamente, é a Beija-Flor. Lá o negócio é sério. Tem que saber fazer samba. Lá não entra marcha.  A prova taí, tricampeã do carnaval. O povo não quer correria, ele quer escutar uma boa música, um bom trabalho e uma boa poesia. Você pode ver, estão rimando piche com maxixe, aí fica difícil.

 

OBatuque.com - Na sua opinião, o melhor samba de todos os tempos é "Os Sertões"?

Edeor de Paula – Não. Império Serrano, 1965, "Os Cinco Bailes da História do Rio", de Silas de Oliveira, Ivone Lara e Bacalhau. Embora, pela mídia, "Heróis da Liberdade seja considerado o melhor e depois "Os Sertões". Você viu aí no jornal que eu guardei.

 

OBatuque.com - Um compositor?

Edeor de Paula – Eu diria vários compositores: Toco da Mocidade; Baianinho, da Em Cima da Hora; Wilson Bombeiro; Sérgio Fonseca, um bom letrista; Noel Rosa; Zuzuca foi muito bom... Temos um celeiro. O próprio Neguinho da Beija-Flor.

 

OBatuque.com – Foi uma honra conhecê-lo. Muito obrigado pela entrevista e parabéns pela belíssima obra que é "Os Sertões".

Edeor de Paula – Eu que agradeço. Foi um prazer pra mim também. Parabéns pelo excelente trabalho.

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Edeor de Paula e o Estandarte de Ouro de Melhor Samba-Enredo" recebido por "Os Sertões",
 em 1976

 


Os jornais repercutiram a importância histórica do
 enredo e a qualidade do samba, mas também
o desapontamento com o desfile :
"O samba é um primor, já o desfile..."

 


Abre-alas da Em Cima da hora em 1976,
em foto do jornal O Globo

 


Edeor de Paula foi agraciado pela Beija_Flor
com o troféu Expresso do Samba

 

   
Moção recebida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro como reconhecimento por ter sido o compositor do melhor samba-enredo de
 todos os tempos

 


Edeor de Paula e as filhas Jupiara e Juciana

 


Jornal do bairro de Jacarepaguá
contou um pouco da vida de Edeor de Paula

 


A Beija-Flor também homenageou
Edeor de Paula em sua revista

 

  
Em enquete promovida pelo jornal OGlobo,
 "Os Sertões" ficou em segundo lugar,
perdendo para "Heróis da Liberdade",
de Silas de Oliveira
 

 

"Os Sertões"


Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh, solitário sertão
De sofrimento e solidão
A terra é seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida é triste nesse lugar

Sertanejo é forte
Supera a miséria sem fim (bis)
Sertanejo homem forte
Dizia o Poeta assim

Foi no século passado
No interior da Bahia
O Homem revoltado com a sorte
Do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
Espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
Que a sociedade oferecia

Os Jagunços lutaram
Ate o final (bis)
Defendendo Canudos
Naquela guerra fatal

 

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EM CIMA DA HORA