Entrevista
Selmynha,
um sorriso estampado no nome
Por
Wellington Lopes
Selmynha
Sorriso: o nome dispensa qualquer apresentação. Para
alguns, passou a ser uma marca do carnaval carioca.
Para outros, o apelido justifica a personalidade. Em
tempos de troca-trocas constantes no carnaval carioca,
ela é sinônimo de fidelidade e identificação a uma
escola de samba.
Em conversa descontraída no estacionamento da
corporação no Centro do cidade, a soldado Selma de
Matos Rocha, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro,
conta sua trajetória no mundo do samba, suas
dificuldades na vida particular e como chegou a
responsabilidade de carregar o pavilhão da Beija-Flor
de Nilópolis. Fique com um pouco da história da
porta-bandeira Selmynha Sorriso Z.
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Selmynha - Antes de começar a responder às
perguntas, vocês não têm idéia... Estamos no
estacionamento do Quartel Central do Corpo de
Bombeiros, encostados num carro que pode ser de um
coronel, que, sei lá, pode ser todo certinho e não
gostar de me ver aqui dando esta entrevista.
OBatuque.com – Onde você mora?
Selmynha
- Em Vila Valqueire. Adoro o bairro. É muito
tranqüilo. Parece cidade do interior.
OBatuque.com - Quando você nasceu?
Selmynha - Aí você está querendo me
entregar. Vamos pular esta parte. Eu não nasci antes
de 70, não, tá gente? Eu sou do ano de mil novecentos
e alguma coisa.
OBatuque.com – Além de soldado do Corpo de
Bombeiros, você é advogada?
Selmynha - Eu sou formada em Direito,
mas não exerço a profissão, estou me preparando para
concurso público, embora seja do Corpo de Bombeiros.
Mesmo que eu consiga a carteira da OAB, que a prova
está perto, eu ainda não vou exercer a profissão.
OBatuque.com – Como você divide seu tempo entre a
soldado Selma e a porta-bandeira da Beija-Flor de
Nilópolis Selmynha Sorriso Z?
Selmynha - Noutro dia, fazendo uma
entrevista para o “Bom dia, Rio”... Você sabe que
entrevista ao vivo é muito difícil, principalmente
quando você está acostumada a dar entrevista
totalmente solta. É completamente diferente da
entrevista quando você está no quartel. Aquele negócio
da hierarquia e a disciplina militar que tem que ter.
Eu estava fardada, juntamente com o Claudinho, e
naquele momento eu tinha que ser a soldado Selma. E eu
desde pequena dando entrevista como Selminha,
porta-bandeira da Beija-Flor. De repente, eu me vejo
fardada, representando toda a corporação. Fomos
escolhidos para falar sobre o evento que teve semanas
atrás no Teatro João Caetano. Foi muito difícil,
porque o sorriso teve que ser dosado. A postura era de
militar. Aí ela entrou no assunto de carnaval. Ela me
perguntou qual bandeira eu gostava mais. Foi difícil,
pois uma era um sonho desde pequena, que era ser
porta-bandeira, onde eu me vesti de corpo de alma. E
principalmente pela Beija-Flor. Com o respeito também
pela Estácio, que foi a escola que me revelou, e pela
Império Serrano, onde foi-me dada a primeira
oportunidade. A gente não pode esquecer nosso passado.
Quem esquece seu passado, acaba naquele momento com
sua trajetória. Porque é muito importante lembrar o
seu começo, mesmo que tenha sido triste, com alguns
tropeços. Hoje, o Corpo de Bombeiros me abraçou, as
pessoas me respeitam. Porque no começo as pessoas
perguntavam o que eu estava fazendo aqui. Achavam que
eu era uma pessoa famosa. Achavam que eu era rica. "O
que essa mulher está fazendo aqui?" As pessoas não
sabem, mas tem toda uma história: eu fui salva por um
bombeiro quando sofri um acidente na Suécia, em 1992.
Quebrei a vértebra. Usei platina. Corri o risco de não
andar. Eu fui fazer um trabalho pelo carnaval, quando
o ônibus que eu estava colidiu com um caminhão de
cerveja. Eu fui a única pessoa que ficou presa, quando
fui socorrida por um bombeiro. Na corporação, tem a
segurança de ser funcionário público. O meu filho Igor
tem essa segurança familiar. Qualquer coisa que me
acontecer, ele não fica desamparado. As oportunidades
para as sambistas estão aparecendo. Antigamente era
mais restrito. As mulheres eram vistas no carnaval
como aquelas que colocavam o bumbum de fora e
porta-bandeira só rodava. Hoje não, as sambistas estão
estudando, têm oportunidades. Então, eu digo que eu
amo as duas bandeiras. Tanto a bandeira do Corpo de
Bombeiros, quanto a bandeira do carnaval.
OBatuque.com – Como foi seu início no mundo do
samba?
Selmynha - Eu era pequenininha e ia com
minha mãe à Unidos de Lucas, como passista mirim. Mas
sempre com o sonho de ser porta-bandeira da Unidos de
Lucas. Não foi lá, mas foi na Império Serrano, mais ou
menos com 14 anos.
OBatuque.com – Daqui a pouco você vai revelar a
idade...
Selmynha - É, você não acha que eu estou
pensando nisso. Mas na verdade, comecei na Império.
Comecei como passista. A Neide Coimbra era presidente
da ala de destaque. Ai comecei com o filho dela, o
Claudinho, que me ensinou muita coisa do casal.
OBatuque.com – Você é bailarina?
Selmynha - Não. Eu fiz jazz, quando
adolescente. Na verdade, o casal não precisa ser
dançarino ou formado em alguma dança.
OBatuque.com – Perguntar o porquê do apelido é
desnecessário, mas tenho que perguntar. Por que o
apelido e quem foi que o deu a você?
Selmynha - Eu sempre ri muito. Eu
gostaria, inclusive, de não fazer injustiça com
ninguém, já que vão ler essa entrevista em que você
está me dando oportunidade de falar de minha vida, mas
todas moram no meu coração. Mas a pessoa que me deu
este apelido, eu tenho muito amor e respeito por ela.
Dizem que é uma marca o “Selmynha Sorriso Z”, né?
Agradeço a José Carlos Netto. Foi em 1992. Agradeço a
ele por tudo.
OBatuque.com – Qual foi o motivo do "Y" e do “Z”
no seu nome?
Selmynha - Numerologia. A Maria Augusta
é minha madrinha. Ela me indicou uma senhora. Como eu
acredito em tudo que pode ser bom pra mim... Eu
acreditei no que essa senhora me disse na mudança do
“I”, que, segundo ela, acabava diminuindo minha força.
O “Y” era muito mais componente e o “Z” no final
fortalecia essa marca, esse nome “Selminha Sorriso”.
Eu acreditei e assino todos os autógrafos como
Selmynha Sorriso Z.
OBatuque.com – No que mudou na sua vida com a
numerologia?
Selmynha - Tudo é um somatório de
coisas. Tudo de ruim que acontece eu procuro superar e
aprender com os erros. Lógico, aconteceram coisas
ruins, mas, no geral, coisas muito boas. Quando você é
do Bem, a vitória é sua.
OBatuque.com – Qual é sua religião?
Selmynha - Como todo brasileiro, eu sou
católica. Todos os caminhos levam a Deus, mas eu sou,
na verdade, espírita. Meu Deus é universal. Sou filha
de Oxum, e tenho o maior respeito por minha mãe e
sempre acredito nela, mesmo nos momentos ruins.
OBatuque.com – Você tem alguma prece antes de
entrar na Avenida?
Selmynha - Sempre faço. Peço muito ao
meu santo que proteja o carnaval. Peço muito para o
carnaval também, não só pra mim. Quando ameaça chover
antes do carnaval, eu peço para que não chova, pois
vai estragar o espetáculo. A Beija-Flor já foi campeã
debaixo de chuva, em 2004, eu estava presente. A prece
também é para que entre mim e o Claudinho dê tudo
certo. Muitas pessoas acham que somos namorados. Nunca
troquei um beijinho com ele. É a coisa do respeito.
São 15 anos dançando juntos.
OBatuque.com – Você começou na Beija-Flor em
que ano?
Selmynha - Em 1996. Em 89, eu comecei na
Império Serrano. Em 91 eu fui para a Estácio.
OBatuque.com – Você passou pela escola do
Mestre Dionísio?
Selmynha - Diretamente, não. Tinha a
escola de samba do CIEP. O Machine era coordenador do
projeto. Eu era passista de lá. Mas eu dizia que
queria ser porta-bandeira e ele me ajudou muito. Eu
tive os ensinamentos teóricos com o Mestre Dionísio.
Porque a dança não é só a prática, envolve também a
teoria. Muita coisa eu aprendo quando converso com
ele.
OBatuque.com – Como você vê a dificuldade que
ele passa para manter o projeto?
Selmynha - Com uma tristeza muito
grande. Porque é cultura. Ele não deixou a História
morrer. Ele tem meu apoio e de toda a classe. Esse
projeto faz com que mestres-sala e porta-bandeiras
antigos continuem trabalhando. É chato eu falar isso,
mas muitas pessoas falam que o povo brasileiro tem
memória curta. Quando a gente está na ativa, tudo bem.
Depois que você pára, as pessoas esquecem de você.
Isso acontece até no futebol. Ele sabe que tem meu
apoio, apesar de ter meu projeto na Beija-Flor. Eu
estou realizando um sonho. É legal pra mim e pro
Claudinho, pois vamos deixar uma sementinha. Eu, por
exemplo, não danço pra eles quando estou ensinando.
Isso para que eles criem o seu próprio estilo .
OBatuque.com – O Manuel Dionísio, em entrevista
ao nosso site, comentou que um helicóptero fez a
bandeira enrolar na apresentação da Ruth, da Vila
Isabel, e o jurado tirou 3 décimos. Já houve algum
contratempo desse tipo com você?
Selmynha - A escola perder o campeonato
por isso, é justo? A culpa foi do helicóptero. Esse
helicóptero estava sobrevoando bem em cima de mim, na
minha apresentação, próximo ao recuo da bateria. Quer
dizer tinha mais um jurado pra me apresentar. Eu
fiquei desesperada. Eu perguntei aos meus condutores:
“Que vento é esse?”. “De onde está vindo este vento?”
Aí, me falaram que era um helicóptero. “O que ele está
fazendo aqui?” Eu acredito que essas coisas serão
corrigidas para o Carnaval 2007. Em 1995, pela Estácio
de Sá, o salto do meu sapato quebrou. Na época,
fizeram várias matérias sobre isso. Desfilei sem os
sapatos, tive cãibras, pois desfilei na ponta do pé.
Ganhei nota máxima, e ainda o troféu Papa-Tudo da
extinta TV Manchete. Naquele ano me superei, nem o
Claudinho sabia que eu estava desfilando descalça. Em
92, a minha roupa chegou quando a escola já estava no
esquenta. Não tinha colocado o copinho do talabarte.
Mesmo assim, sem muita experiência, eu tive a malícia
de colocar o talabarte na minha nécessaire. No
ano passado, minha mãe faleceu na Quarta-feira de
Cinzas, eu a internei no domingo de carnaval. Quer
dizer, eu estava com a cabeça toda voltada para ela.
Esse foi o maior contratempo que eu tive. Eu tinha que
ser profissional porque além do amor que ela tinha por
mim, ela torcia para o meu sucesso profissional. Eu
tinha que honrar meus compromissos com a Beija-Flor,
com o tio Anísio, que é um paizão pra gente, com todos
os segmentos da escola e o próprio carnaval em si. Eu
estava com o corpo todo debilitado. Estava sem comer,
sem beber água. Senti muito o peso da roupa. Eu nunca
torci tanto pra que o carnaval acabasse logo, pois,
por mim, o carnaval tinha que ser em duas semanas, mas
no ano passado, eu torci pra que acabasse logo. Ainda
conseguimos o Estandarte de Ouro de melhor casal. As
pessoas entenderam que estava ali por amor e respeito.
Isso não tem preço.
OBatuque.com – "Família Beija-Flor" passou a
ser um nome muito usado na escola. Como você vê esse
fato?
Selmynha - Porque é uma família
realmente. Eu e o Neguinho, por exemplo, nos chamamos
de brother e sister. Ele mesmo fala que
além do papai, que é o Anísio, ele fala sempre no meu
nome. É uma honra pra mim trabalhar com um grande
profissional como ele. Uma pessoa que já passou por
várias dificuldades na Avenida, apesar de todo carinho
e apoio que ele tem da escola, nesses trinta e poucos
anos, nossa... Ele é um mito pra gente, é uma história
viva, na verdade.
OBatuque.com – O que é mais difícil: apagar um
incêndio ou garantir os 40 pontos para a escola?
Selmynha - Dependendo do incêndio... É
uma coisa muito rápida, que você tem que estar
preparado. Um incêndio pode acabar com vidas e nós
temos que ser muito mais ágeis para enfrentar as
chamas. Já os 40 pontos não é fácil, mas você tem o
ano inteiro para se preparar. Ninguém torce para que
aconteça um incêndio. Agora, o aprendizado no Corpo de
Bombeiro para a coragem... Te dá muita força pro
dia-a-dia na sua vida pessoal. Noutro dia, uma senhora
entrou na minha sala e me mostrou as fotos de um
parente bombeiro, que está enfermo numa cadeira de
rodas. Ela está correndo atrás dos direitos dele. É
uma coisa assim que choca, pois você não imagina como
é ver essas cenas que a gente só pensa que acontece
com os outros. Nessas horas é que a força vem e a
gente reverencia muito mais a Deus. Quem me conhece
sabe o quanto eu sou assim. Nunca fui assim o tempo
todo. Já tive meus momentos de estrelismo, mas
amadureci. Às vezes eu erro e falo “puxa, errei”. Só
esse arrependimento Deus já entende e te conforta.
OBatuque.com – Quando a escola escolhe o
enredo, você e o Claudinho já começam a ensaiar os
passos ou você prefere mesmo o passo tradicional?
Selmynha - Eu espero escolher o samba e
depois faço a coreografia em cima da letra. Eu e
Claudinho já fazemos isso desde 2002. Nós começamos
com a idéia de vir logo atrás da comissão de frente,
então, o espaço fica muito maior, e a responsabilidade
também, porque se acontecer alguma coisa na cabeça da
escola, atrasa os quatro mil e tantos componentes que
vêm lá atrás.
OBatuque.com – Dos títulos que a Beija
conquistou nos últimos anos, qual o que mais a marcou?
Selmynha – 2005, com o enredo "O vento
corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Guarani, sete povos na fé e na dor... Sete
missões de amor". Nesse ano, a morte da minha mãe foi
muito marcante para mim.
OBatuque.com – Um samba?
Selmynha - “Tupinicópolis”, da Mocidade,
e “Manoa, Manaus, Amazonas - Alimenta o corpo,
equilibra a alma e transmite a paz”, da Beija-Flor.
OBatuque.com – Um intérprete?
Selmynha - Neguinho da Beija-Flor e
Dominguinhos do Estácio.
OBatuque.com – Um mestre-sala?
Selmynha - O Claudinho é hors-concours
pra mim, mas eu me dou bem com todos eles. E tenho
certeza que eles gostam de mim. Prefiro não fazer
nenhuma injustiça.
OBatuque.com – Uma porta-bandeira?
Selmynha - Maria Helena, ela é
excelente. Igual a ela não vi. Tem garra, força de
vontade e determinação. Agora, também eu gosto de
todas, e também não quero fazer injustiça com ninguém,
caos esqueça de citar alguém.
OBatuque.com – O que você diria para as novas
porta-bandeiras?
Selmynha - Primeiro, fazer por amor. Eu
me lembro de um aluno que me perguntou quando que ele
ia fazer show para ganhar dinheiro. Eu respondi:
“Nunca. Vocês farão vários shows, mas para ganhar
dinheiro, nunca”. Perguntei se ele estava estudando
direitinho e disse que queria ver as notas de todo
mundo. “Quem não estiver estudando, não estuda com tia
Selmynha e tio Claudinho”.
OBatuque.com – Selmynha, muito obrigado pela
gentileza em falar conosco. Foi uma honra
entrevistá-la e que você continue com essa
simplicidade e essa simpatia.
Selmynha - Eu que agradeço.
OBatuque.com tem sido muito legal comigo. Tenho
que agradecer a vocês por estar falando da minha vida,
das pessoas que a gente ama e do meu aprendizado. Eu
guardo com carinho todas as matérias que fazem comigo,
pois quando eu estiver velhinha, quero lembrar dessa
conversa que nós tivemos no estacionamento do Corpo de
Bombeiros.