BEIJA-FLOR

14-08-2006

Entrevista
Selmynha, um sorriso estampado no nome

Por Wellington Lopes

Selmynha Sorriso: o nome dispensa qualquer apresentação. Para alguns, passou a ser uma marca do carnaval carioca. Para outros, o apelido justifica a personalidade. Em tempos de troca-trocas constantes no carnaval carioca, ela é sinônimo de fidelidade e identificação a uma escola de samba.

Em conversa descontraída no estacionamento da corporação no Centro do cidade, a soldado Selma de Matos Rocha, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, conta sua trajetória no mundo do samba, suas dificuldades na vida particular e como chegou a responsabilidade de carregar o pavilhão da Beija-Flor de Nilópolis. Fique com um pouco da história da porta-bandeira Selmynha Sorriso Z.

*** *** ***

Selmynha - Antes de começar a responder às perguntas, vocês não têm idéia... Estamos no estacionamento do Quartel Central do Corpo de Bombeiros, encostados num carro que pode ser de um coronel, que, sei lá, pode ser todo certinho e não gostar de me ver aqui dando esta entrevista.

OBatuque.com – Onde você mora?
Selmynha - Em Vila Valqueire. Adoro o bairro. É muito tranqüilo. Parece cidade do interior.

OBatuque.com -
Quando você nasceu?
Selmynha - Aí você está querendo me entregar. Vamos pular esta parte. Eu não nasci antes de 70, não, tá gente? Eu sou do ano de mil novecentos e alguma coisa.

OBatuque.com – Além de soldado do Corpo de Bombeiros, você é advogada?
Selmynha - Eu sou formada em Direito, mas não exerço a profissão, estou me preparando para concurso público, embora seja do Corpo de Bombeiros. Mesmo que eu consiga a carteira da OAB, que a prova está perto, eu ainda não vou exercer a profissão.

OBatuque.com –
Como você divide seu tempo entre a soldado Selma e a porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis Selmynha Sorriso Z?
Selmynha - Noutro dia, fazendo uma entrevista para o “Bom dia, Rio”... Você sabe que entrevista ao vivo é muito difícil, principalmente quando você está acostumada a dar entrevista totalmente solta. É completamente diferente da entrevista quando você está no quartel. Aquele negócio da hierarquia e a disciplina militar que tem que ter. Eu estava fardada, juntamente com o Claudinho, e naquele momento eu tinha que ser a soldado Selma. E eu desde pequena dando entrevista como Selminha, porta-bandeira da Beija-Flor. De repente, eu me vejo fardada, representando toda a corporação. Fomos escolhidos para falar sobre o evento que teve semanas atrás no Teatro João Caetano. Foi muito difícil, porque o sorriso teve que ser dosado. A postura era de militar. Aí ela entrou no assunto de carnaval. Ela me perguntou qual bandeira eu gostava mais. Foi difícil, pois uma era um sonho desde pequena, que era ser porta-bandeira, onde eu me vesti de corpo de alma. E principalmente pela Beija-Flor. Com o respeito também pela Estácio, que foi a escola que me revelou, e pela Império Serrano, onde foi-me dada a primeira oportunidade. A gente não pode esquecer nosso passado. Quem esquece seu passado, acaba naquele momento com sua trajetória. Porque é muito importante lembrar o seu começo, mesmo que tenha sido triste, com alguns tropeços. Hoje, o Corpo de Bombeiros me abraçou, as pessoas me respeitam. Porque no começo as pessoas perguntavam o que eu estava fazendo aqui. Achavam que eu era uma pessoa famosa.  Achavam que eu era rica. "O que essa mulher está fazendo aqui?" As pessoas não sabem, mas tem toda uma história: eu fui salva por um bombeiro quando sofri um acidente na Suécia, em 1992. Quebrei a vértebra. Usei platina. Corri o risco de não andar. Eu fui fazer um trabalho pelo carnaval, quando o ônibus que eu estava colidiu com um caminhão de cerveja. Eu fui a única pessoa que ficou presa, quando fui socorrida por um bombeiro. Na corporação, tem a segurança de ser funcionário público. O meu filho Igor tem essa segurança familiar. Qualquer coisa que me acontecer, ele não fica desamparado. As oportunidades para as sambistas estão aparecendo. Antigamente era mais restrito. As mulheres eram vistas no carnaval como aquelas que colocavam o bumbum de fora e porta-bandeira só rodava. Hoje não, as sambistas estão estudando, têm oportunidades. Então, eu digo que eu amo as duas bandeiras. Tanto a bandeira do Corpo de Bombeiros, quanto a bandeira do carnaval.

OBatuque.com – Como foi seu início no mundo do samba?
Selmynha - Eu era pequenininha e ia com minha mãe à Unidos de Lucas, como passista mirim. Mas sempre com o sonho de ser porta-bandeira da Unidos de Lucas. Não foi lá, mas foi na Império Serrano, mais ou menos com 14 anos.

OBatuque.com – Daqui a pouco você vai revelar a idade...
Selmynha - É, você não acha que eu estou pensando nisso. Mas na verdade, comecei na Império. Comecei como passista. A Neide Coimbra era presidente da ala de destaque. Ai comecei com o filho dela, o Claudinho, que me ensinou muita coisa do casal.

OBatuque.com – Você é bailarina?
Selmynha - Não. Eu fiz jazz, quando adolescente. Na verdade, o casal não precisa ser dançarino ou formado em alguma dança.

OBatuque.com – Perguntar o porquê do apelido é desnecessário, mas tenho que perguntar. Por que o apelido e quem foi que o deu a você?
Selmynha - Eu sempre ri muito. Eu gostaria, inclusive, de não fazer injustiça com ninguém, já que vão ler essa entrevista em que você está me dando oportunidade de falar de minha vida, mas todas moram no meu coração. Mas a pessoa que me deu este apelido, eu tenho muito amor e respeito por ela. Dizem que é uma marca o “Selmynha Sorriso Z”, né? Agradeço a José Carlos Netto. Foi em 1992. Agradeço a ele por tudo.

OBatuque.com –
Qual foi o motivo do "Y" e do “Z” no seu nome?
Selmynha - Numerologia. A Maria Augusta é minha madrinha. Ela me indicou uma senhora. Como eu acredito em tudo que pode ser bom pra mim... Eu acreditei no que essa senhora me disse na mudança do “I”, que, segundo ela, acabava diminuindo minha força. O “Y” era muito mais componente e o “Z” no final fortalecia essa marca, esse nome “Selminha Sorriso”. Eu acreditei e assino todos os autógrafos como Selmynha Sorriso Z.

OBatuque.com –
No que mudou na sua vida com a numerologia?
Selmynha - Tudo é um somatório de coisas. Tudo de ruim que acontece eu procuro superar e aprender com os erros. Lógico, aconteceram coisas ruins, mas, no geral, coisas muito boas. Quando você é do Bem, a vitória é sua.

OBatuque.com – Qual é sua religião?
Selmynha - Como todo brasileiro, eu sou católica. Todos os caminhos levam a Deus, mas eu sou, na verdade, espírita. Meu Deus é universal. Sou filha de Oxum, e tenho o maior respeito por minha mãe e sempre acredito nela, mesmo nos momentos ruins.

OBatuque.com – Você tem alguma prece antes de entrar na Avenida?
Selmynha - Sempre faço. Peço muito ao meu santo que proteja o carnaval. Peço muito para o carnaval também, não só pra mim. Quando ameaça chover antes do carnaval, eu peço para que não chova, pois vai estragar o espetáculo. A Beija-Flor já foi campeã debaixo de chuva, em 2004, eu estava presente. A prece também é para que entre mim e o Claudinho dê tudo certo. Muitas pessoas acham que somos namorados. Nunca troquei um beijinho com ele. É a coisa do respeito. São 15 anos dançando juntos.

OBatuque.com – Você começou na Beija-Flor em que ano?
Selmynha - Em 1996. Em 89, eu comecei na Império Serrano. Em 91 eu fui para a Estácio.

OBatuque.com – Você passou pela escola do Mestre Dionísio?
Selmynha - Diretamente, não. Tinha a escola de samba do CIEP. O Machine era coordenador do projeto. Eu era passista de lá. Mas eu dizia que queria ser porta-bandeira e ele me ajudou muito. Eu tive os ensinamentos teóricos com o Mestre Dionísio. Porque a dança não é só a prática, envolve também a teoria.  Muita coisa eu aprendo quando converso com ele.

OBatuque.com – Como você vê a dificuldade que ele passa para manter o projeto?
Selmynha - Com uma tristeza muito grande. Porque é cultura. Ele não deixou a História morrer. Ele tem meu apoio e de toda a classe. Esse projeto faz com que mestres-sala e porta-bandeiras antigos continuem trabalhando.  É chato eu falar isso, mas muitas pessoas falam que o povo brasileiro tem memória curta. Quando a gente está na ativa, tudo bem. Depois que você pára, as pessoas esquecem de você. Isso acontece até no futebol.  Ele sabe que tem meu apoio, apesar de ter meu projeto na Beija-Flor. Eu estou realizando um sonho. É legal pra mim e pro Claudinho, pois vamos deixar uma sementinha. Eu, por exemplo, não danço pra eles quando estou ensinando. Isso para que eles criem o seu próprio estilo .

OBatuque.com – O Manuel Dionísio, em entrevista ao nosso site, comentou que um helicóptero fez a bandeira enrolar na apresentação da Ruth, da Vila Isabel, e o jurado tirou 3 décimos. Já houve algum contratempo desse tipo com você?
Selmynha - A escola perder o campeonato por isso, é justo? A culpa foi do helicóptero. Esse helicóptero estava sobrevoando bem em cima de mim, na minha apresentação, próximo ao recuo da bateria. Quer dizer tinha mais um jurado pra me apresentar. Eu fiquei desesperada. Eu perguntei aos meus condutores: “Que vento é esse?”. “De onde está vindo este vento?” Aí, me falaram que era um helicóptero. “O que ele está fazendo aqui?” Eu acredito que essas coisas serão corrigidas para o Carnaval 2007. Em 1995, pela Estácio de Sá, o salto do meu sapato quebrou. Na época, fizeram várias matérias sobre isso. Desfilei sem os sapatos, tive cãibras, pois desfilei na ponta do pé. Ganhei nota máxima, e ainda o troféu Papa-Tudo da extinta TV Manchete. Naquele ano me superei, nem o Claudinho sabia que eu estava desfilando descalça. Em 92, a minha roupa chegou quando a escola já estava no esquenta. Não tinha colocado o copinho do talabarte. Mesmo assim, sem muita experiência, eu tive a malícia de colocar o talabarte na minha nécessaire. No ano passado, minha mãe faleceu na Quarta-feira de Cinzas, eu a internei no domingo de carnaval. Quer dizer, eu estava com a cabeça toda voltada para ela. Esse foi o maior contratempo que eu tive. Eu tinha que ser profissional porque além do amor que ela tinha por mim, ela torcia para o meu sucesso profissional. Eu tinha que honrar meus compromissos com a Beija-Flor, com o tio Anísio, que é um paizão pra gente, com todos os segmentos da escola e o próprio carnaval em si. Eu estava com o corpo todo debilitado. Estava sem comer, sem beber água. Senti muito o peso da roupa. Eu nunca torci tanto pra que o carnaval acabasse logo, pois, por mim, o carnaval tinha que ser em duas semanas, mas no ano passado, eu torci pra que acabasse logo. Ainda conseguimos o Estandarte de Ouro de melhor casal. As pessoas entenderam que estava ali por amor e respeito. Isso não tem preço.

OBatuque.com – "Família Beija-Flor" passou a ser um nome muito usado na escola. Como você vê esse fato?
Selmynha - Porque é uma família realmente. Eu e o Neguinho, por exemplo, nos chamamos de brother e sister. Ele mesmo fala que além do papai, que é o Anísio, ele fala sempre no meu nome. É uma honra pra mim trabalhar com um grande profissional como ele. Uma pessoa que já passou por várias dificuldades na Avenida, apesar de todo carinho e apoio que ele tem da escola, nesses trinta e poucos anos, nossa... Ele é um mito pra gente, é uma história viva, na verdade.

OBatuque.com – O que é mais difícil: apagar um incêndio ou garantir os 40 pontos para a escola?
Selmynha - Dependendo do incêndio... É uma coisa muito rápida, que você tem que estar preparado. Um incêndio pode acabar com vidas e nós temos que ser muito mais ágeis para enfrentar as chamas. Já os 40 pontos não é fácil, mas você tem o ano inteiro para se preparar. Ninguém torce para que aconteça um incêndio. Agora, o aprendizado no Corpo de Bombeiro para a coragem... Te dá muita força pro dia-a-dia na sua vida pessoal. Noutro dia, uma senhora entrou na minha sala e me mostrou as fotos de um parente bombeiro, que está enfermo numa cadeira de rodas. Ela está correndo atrás dos direitos dele. É uma coisa assim que choca, pois você não imagina como é ver essas cenas que a gente só pensa que acontece com os outros. Nessas horas é que a força vem e a gente reverencia muito mais a Deus. Quem me conhece sabe o quanto eu sou assim. Nunca fui assim o tempo todo. Já tive meus momentos de estrelismo, mas amadureci. Às vezes eu erro e falo “puxa, errei”. Só esse arrependimento Deus já entende e te conforta.

OBatuque.com – Quando a escola escolhe o enredo, você e o Claudinho já começam a ensaiar os passos ou você prefere mesmo o passo tradicional?
Selmynha - Eu espero escolher o samba e depois faço a coreografia em cima da letra. Eu e Claudinho já fazemos isso desde 2002. Nós começamos com a idéia de vir logo atrás da comissão de frente, então, o espaço fica muito maior, e a responsabilidade também, porque se acontecer alguma coisa na cabeça da escola, atrasa os quatro mil e tantos componentes que vêm lá atrás.

OBatuque.com – Dos títulos que a Beija conquistou nos últimos anos, qual o que mais a marcou?
Selmynha2005, com o enredo "O vento corta as terras dos Pampas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Guarani, sete povos na fé e na dor... Sete missões de amor". Nesse ano, a morte da minha mãe foi muito marcante para mim.

OBatuque.com – Um samba?
Selmynha - “Tupinicópolis”, da Mocidade, e “Manoa, Manaus, Amazonas - Alimenta o corpo, equilibra a alma e transmite a paz”, da Beija-Flor.

OBatuque.com – Um intérprete?
Selmynha - Neguinho da Beija-Flor e Dominguinhos do Estácio.

OBatuque.com – Um mestre-sala?
Selmynha - O Claudinho é hors-concours pra mim, mas eu me dou bem com todos eles. E tenho certeza que eles gostam de mim. Prefiro não fazer nenhuma injustiça.

OBatuque.com – Uma porta-bandeira?
Selmynha - Maria Helena, ela é excelente. Igual a ela não vi. Tem garra, força de vontade e determinação. Agora, também eu gosto de todas, e também não quero fazer injustiça com ninguém, caos esqueça de citar alguém.

OBatuque.com – O que você diria para as novas porta-bandeiras?
Selmynha - Primeiro, fazer por amor. Eu me lembro de um aluno que me perguntou quando que ele ia fazer show para ganhar dinheiro. Eu respondi: “Nunca. Vocês farão vários shows, mas para ganhar dinheiro, nunca”. Perguntei se ele estava estudando direitinho e disse que queria ver as notas de todo mundo. “Quem não estiver estudando, não estuda com tia Selmynha e tio Claudinho”.

OBatuque.com – Selmynha, muito obrigado pela gentileza em falar conosco. Foi uma honra entrevistá-la e que você continue com essa simplicidade e essa simpatia.
Selmynha - Eu que agradeço. OBatuque.com tem sido muito legal comigo. Tenho que agradecer a vocês por estar falando da minha vida, das pessoas que a gente ama e do meu aprendizado. Eu guardo com carinho todas as matérias que fazem comigo, pois quando eu estiver velhinha, quero lembrar dessa conversa que nós tivemos no estacionamento do Corpo de Bombeiros.

*** *** ***

Comente esta notícia no fórum: http://forum.infolink.com.br/obatuque.com


Selmynha brilhando no Carnaval 2006


A soldado Selma
no estacionamento de seu local de trabalho


No Carnaval 2005

 

 

BEIJA-FLOR