Encontro de Gerações

Na apresentação do enredo aos compositores da União da Ilha, OBatuque.com reuniu para um bate-papo um veterano e um calouro da ala de compositores insulana. O veterano é Franco, vencedor de vários carnavais, como o clássico “1910: Deu Burro na Cabeça”, de 1981. O calouro é Ciraninho, recém-premiado com o S@mba-Net do Grupo de Acesso B, com o samba que fez para a Acadêmicos da Barra da Tijuca, “É Arte, É Carnaval – a Barra da Tijuca Apresenta o Teatro do Oprimido na Vida Real!”. Cirano Maciel de Castro é universitário do 3º período de Jornalismo na Estácio de Sá e trabalha com o pai na construção civil. O médico José Franco Lattari é clínico-geral.

OBatuque.com - Ciraninho, como jovem compositor, o que espera dessa apresentação de enredo aqui na União da Ilha?
Ciraninho – Eu estou chegando agora na escola. Minha família toda é daqui da Ilha do Governador e eu estou realizando um sonho em poder estar compondo na União da Ilha. Pelo o que converso com o presidente da ala de compositores, o Carlinhos Fuzil, já vou ficando mais a par do que está acontecendo na escola, já que não a conheço tanto, e a gente vai percebendo que o carnavalesco está fazendo enredos leves, com a cara da Ilha e eu acho que a escola promete muito. Eu venho com sangue novo, com vontade de compor, com vontade de fazer coisas bacanas com a cara da União, tentar dar um toque do nosso trabalho na tricolor. A minha expectativa este ano é de conhecer as pessoas e fazer um samba bonito, talvez um pouco aquém do que o Dr. Franco aspira, já que é um excelente compositor, fera na União da Ilha, um cara que dispensa comentários… A gente estava até batendo um papo sobre isso e a admiração é muito grande. Então a minha expectativa é de compor um grande samba, estou buscando minha parceria e acho que vou passar de folião a compositor este ano.

OBatuque.com – Franco tem mais de 20 anos de União da Ilha. Mais um enredo vai ser apresentado e aquela frase muito popular aqui na Ilha volta a ser falada: “a União precisa de um samba e um enredo que sejam ‘A cara da Ilha’”. Isso funciona mesmo? Como você está recebendo o novo enredo?
Franco – Eu sou meio suspeito pra falar, porque todos os anos se fala a mesma coisa e acaba se escolhendo um samba totalmente ao avesso. A minha expectativa é a mesma de vinte e tantos anos atrás, continuo com a sensação, o mesmo frio na barriga, porém com menos pureza. Eu cheguei com a mesma pureza, com o mesmo amor, a mesma ternura, o mesmo acalanto, a mesma vontade de pegar no colo que o Ciraninho tá chegando e queria que a escola me pegasse também no colo pra fazer naná. Hoje, eu continuo com a mesma expectativa do enredo, tô ansioso, pedindo a Deus pra me iluminar, pra dar certo, entender bem o que o carnavalesco tá querendo, pra poder na hora sentar, sozinho, com Deus, com meu parceiro e meter bronca. Mas não tenho mais a pureza e aquela limpidez no coração. Eu sou um cara assim. O compositor é movido pela emoção, então, minha emoção era totalmente deturpada e eu não consigo mais ver pureza em todas as coisas. Não que eu não vá tentar pegar um espanador e tentar tirar essa poeira pra poder botar pra fora a cara da Ilha do Governador. A escola está mudando e eles querem mudar, só tenho medo que o carnaval carioca se torne como o campeonato carioca de futebol. Eu tenho muito medo disso, e não é culpa dos compositores, não. São dirigentes que dão mole pra certos compositores e as escolas acabam indo pro buraco.

OBatuque.com – E bem amplo em termos de carnaval carioca.
Franco – Claro, são várias escolas. Aqui também já teve essa fase, mas é um acontecimento que engloba outras escolas. Eu tenho minha vivência aqui na Ilha e tenho muitos amigos em várias outras escolas do Rio. Eu ainda acho que o samba é fundamental e a disputa é muito importante, não é qualquer samba que pode ir pra Avenida, levar um “… lalaiá….ôôô,” e ninguém agüenta, com 10 minutos já foi embora. Eu acho que o compositor tem que ser mais respeitado. Não que as baianas não tenham que ser, a Velha Guarda, a Harmonia, a bateria, as crianças, a comunidade... Mas o compositor é o palhaço do circo, tudo começa com ele e tem escolas que até juntam samba, o que acho um absurdo. Acham que a emoção de um é a mesma do outro, então vão e recortam um pedaço, aí vai no cuspe e cola. Não é bem assim, a escola de samba tem um ano pra isso, então vai e fala: “Não tá bom meu filho, vai lá e tenta melhorar…”. Aí o cara diz: “Mas o meu samba é bom demais!” Aí a escola diz: “O seu samba é bom, mas não falou no tijolo; você falou na tinta, no cimento, na brocha, mas não falou no tijolo. Volta pra casa e fala no tijolo.” Não dá é pra chegar e juntar o samba do Ciraninho que falou no tijolo, o do fulano que falou na tinta e achar que vai ficar bacana. Não pode ser assim. O cara não pode pensar que ele está bem porque tem alguém na diretoria, porque a Harmonia está com ele, tem mais torcida... E o samba? O samba deixa pra lá. Parar com esse negócio de que tem que fazer esquema e ter um cara pra gastar. O dirigente fica alimentando isso e, quando vê, criou um monstro.

OBatuque.com – Franco, o que um compositor experiente, com décadas de participação em disputadas de samba, pode transmitir para quem está começando, como o próprio Ciraninho?
Franco – O samba precisa de caráter, de personalidades positivas. Estou conversando com o Ciraninho há meia hora e percebo uma pessoa maravilhosa. Um rapaz com inspiração e com vontade de vencer e dar amor para a agremiação dele. Isso é fundamental. Ser compositor é ter muita emoção. Eu vim assim décadas atrás e desejo que ele mantenha a humildade, que seja vencedor e que a União da Ilha o aproveite e o mantenha por aqui - não fazer o contrário e querer o vencedor longe. Torço pra que continue assim e não seja tão amargo quanto eu. Que suas vitórias surjam com mérito, com honestidade, como foram as minhas, mas sem peso de responsabilidade e sem maldade humana pra atrapalhar os caminhos dos outros. Se você atrapalha uma benção de Deus, você atrapalha o sucesso da escola.

OBatuque.com – Ciraninho, o que você espera nesses seus primeiros anos como compositor no mundo samba?
Ciraninho – As palavras do Franco são inspiradoras. Falar de nó na garganta, lágrimas nos olhos e de arrepios é o começo de tudo. Eu sou um compositor que aprendi a admirar a figura do Dr. Franco, não só pelos sambas, pelas disputas, mas também pelos posicionamentos e pelas histórias que meus familiares contavam, a forma como se entregava e evoluía no palco na hora de defender o samba. Pra mim é um privilégio ouvi-lo falar de mim e isso me dá muita vontade de tentar também, com muita humildade, dar uma espanada nessa poeira que tá encobrindo seu coração. Eu estou chegando com muita vontade, muita garra e com essa pureza da qual ele tá falando. É como eu disse, estou passando de folião a compositor. Este ano sou novo na escola, mas vou tentar espanar essa poeira não só do coração do Franco mas também do coração de outras pessoas, de outras escolas, já que mesmo com pouco tempo de samba, a gente vai ouvindo que algumas pessoas estão tristes, decepcionadas com o samba, principalmente nos grupos de baixo, onde já disputei sambas. Onde a disputa é um pouco mais pura, mas que as vezes acontecem coisas tristes. O meu primeiro objetivo estou conseguindo agora e ter um samba campeão no Grupo de Acesso A é um outro sonho. Eu quero agora, vocês podem ter certeza disso, é poder aos pouquinhos ir espanando a poeira do coração de quem estiver próximo, passando um pouco da minha vontade, do meu samba e da minha pureza com o samba.


Bate-papo