Fernando Pamplona
Mestre de uma geração de
carnavalescos que mudou a história dos desfiles das
escolas de samba, Fernando Pamplona dispensa maiores
apresentações. Após mais um dia de trabalho na TV
Educativa do Rio de Janeiro, onde apresenta o programa "A
Verdade", o ex-carnavalesco recebeu com simpatia a
reportagem de OBatuque.com numa mesa do tradicional
Salsa & Cebolinha para um descontraído bate-papo sobre
escolas de samba e cultura popular.
OBatuque.com - Quando e onde
nasceu?
Fernando Pamplona - No
Rio de Janeiro, dia 21 de setembro, Dia do Ventre Livre,
em 1926, há 78 anos.
OBatuque.com
- Formação profissional?
Fernando Pamplona -
Escola de Belas Artes, onde virei professor.
OBatuque.com
- Atividades atuais. Ainda está trabalhando em alguma
ligada ao carnaval?
Fernando Pamplona - O
último elo que tinha com o carnaval eu cortei ano passado.
Eu fiz mais ou menos uns 20 anos o “Estandarte de Ouro” do
jornal O Globo. Há três anos que estava querendo cair
fora. No ano passado eu consegui. Fiz uma carta que era
irreversível. O presidente Carlos Lemos, aposentado do O
Globo, aproveitou a chance e disse: “Eu também vou
embora”. Esse ano o Estandarte vai ser renovado. Já tem
uns garotos bons aí, que estão fazendo um grande trabalho
de renovação no carnaval do O Globo: o Marcelo de Mello e o Aloy Jupiara.
Ano que vem você não vai me ver no carnaval do Rio de
Janeiro.
Trabalho na TV Educativa (RJ), mas se pudessem me
mandariam embora. Entraram duas mulheres estranhas aí. Uma
gaúcha e a outra paulista. Têm nada a ver com a gente. E
nos congelaram, por exemplo: mandaram um cara de 40 anos
de cenografia embora, pra contratar uma amadora.
Congelaram todos aqueles que fazem parte do esquema do
Barbosa Lima. Não me mandaram embora porque sou diretor do
sindicato e a lei não permite.
Só estou fazendo alguma coisa aí porque meu amigo
Sargentelli morreu. E como já o havia substituído duas
vezes, o Fernando me pediu para substituir o Sargento
quando ele foi hospitalizado. Ele morreu e o Fernando
pediu para que eu continuasse. Eu falei: “Não sei fazer
pausa, não sei ler texto direito, minha dicção é ruim”.
Fernando pediu para tentar umas três vezes: “Se não quiser
a gente tenta outro”. Carioca chia e eu não sabia direito
ler. Inflexão, intenção e pausa são fundamentais, mas eu
banquei o estudante de novo e fiz um esforço para tentar
substituir o Sargento. Não com a qualidade que ele tinha,
pois era um profissional excelente. Poderiam chamar o
filho dele que a voz é igualzinha. Mas eles queriam uma
pessoa mais velha, que ajudasse a trazer gente. Tem muito
convidado que veio para o programa, chamado “A Verdade”,
porque o Sargento fazia. Ele fez mais de 700 em casa. Eu
já fiz mais de 140 depois que ele morreu. Sei que eles me
usam para poder chamar gente, mas se eu for falar, só
acabo amanhã pela manhã.
|
"Diferente do capa-e-espada, o enredo foi Debret. Não
tinha alegoria, a alegoria era viva. Eles repetiam as
gravuras do artista. Achei aquilo a melhor idéia do
mundo" |
 |
OBatuque.com
- Como se aproximou do mundo do samba?
Fernando Pamplona - O
único interesse que eu tenho de conhecimento é cultura
popular. Meu curso primário foi feito no Acre, quando
ainda era território e a única comunicação com o mundo era
por meio de telégrafo. Não havia televisão e nem telefone.
Se o governador quisesse falar com o presidente da
república, era por meio de telégrafo. Quando voltei ao
Acre, pedi para tombar onde era o telégrafo. Era uma das
poucas coisas que restou do meu tempo. Navio lá, só de
seis em seis meses. Tinha enchente e navio não entrava.
Navio que falo era aquela barca de São Francisco que a
gente chamava de chatinha. Era chatinha por que tinha um
fundo chato. E tinha que ser dessa maneira, senão entrava
nos rios rasos da Amazônia, nos igarapés. Se entrasse,
eles encalhariam.
Eu sempre me interessei pela cultura popular. Primeira
coisa que eu fiz lá além dos desafios: “Capivara correu /
No buraco se meteu / Esse bicho corre mais / Do que o
vapor Minas Gerais”. Vapor Minas Gerais era um
ferro-velho, um couraçado inglês da 2ª Guerra que nós
compramos. Era capitânia da esquadra do Brasil.
Eu vi um boi e me encantei pelo boi. Daí em diante, mesmo
adulto e já no Rio, quando eu viajava queria ver o
maracatu, entrava em Minas e queria saber o que era uma
congada. Via tudo que era atividade popular.
A mesma coisa era o carnaval. Carnaval não era meu
interesse fundamental e nunca foi. Era uma expressão
cultural, popular e autêntica. Uma vez, estava conversando
no Vermelhinho, que naquela época era o ponto de reunião
do Rio de Janeiro, pois não havia teatro e nem galeria na
Zona Sul. Quem trabalhava com arte se reunia no
Vermelhinho, na Araújo Porto Alegre, em frente à ABI, onde
todos os grandes nomes da época se reuniam. Do Di
Cavalcanti ao Pancetti ao Augusto Rodrigues, Mário
Pedrosa, Mário Barata e vai por aí. E um dia, um sujeito
chamado Miécio Tati, que era o copydesk do Jorge Amado,
trabalhava no Departamento de Turismo e Certames, que hoje
é a Riotur, e que comandava todas as festividades no Rio,
me convidou para ser jurado e fui júri do carnaval de
1959.
Eu fui criado com conto de fadas, não foi com super-herói,
não. Eu gostava muito do Império Serrano. Eu achava que
Império Serrano era uma serra onde tinha castelo, onde
havia uma princesa. Como eu comecei a freqüentar a UNE,
mesmo antes de começar minha vida universitária, fui
influenciado por um sujeito chamado Rogê Ferreira, que
morreu em São Paulo e foi fundador do partido Socialista.
Entrei pro partido e virei um revolucionário chinfrim. Eu
adorava o nome Mocidade Independente. Eu queria ser
mocidade e ser independente. Era uma escola pequena. Mas
quando eu vi o Salgueiro entrar pela primeira vez - e eu
era Rio Branco, no Acre, que era vermelho-e-branco também
- virei Salgueiro. O presidente me convidou para fazer o
primeiro enredo. Eu fiz, juntamente com Arlindo Rodrigues
e Nilton Sá, que desapareceu no mercado. Ele mesmo renegou
depois. O resto, vocês sabem, é história.
OBatuque.com
- De jurado a carnavalesco, definição que nem existia na
época, da Acadêmicos do Salgueiro. Como foi esse trajeto?
Em uma entrevista você disse que o que o impressionou vendo o
Salgueiro foi o enredo, que era Debret.
Fernando Pamplona - O
enredo, diferentemente de capa-e-espada, foi o Debret, que
era artista. Então, quando vi uma escola que tinha um
artista e era vermelho-e-branco... Não tinha alegoria. A
alegoria era viva. Não era proibido. Eles repetiam as
gravuras do Debret. Achei aquilo a melhor idéia do mundo.
Eu dei 8. Aí a Portela passou tão bem... E a Portela
ganhou por um ponto. Nelson de Andrade (então diretor de
Carnaval da Salgueiro) viu. O Edson Carneiro me chamou pra
defender o voto. Todo mundo dava o voto e fugia, pro pau
não comer depois em cima dos jurados. Eu fui lá para
defender o voto junto com o Edson Carneiro. Eles ficaram
muito admirados. O Salgueiro perdeu por causa de um ponto.
Depois o presidente me convidou para fazer o Salgueiro. Eu
falei pra ele: “Só se for uma coisa que está na minha
cuca, que é o Quilombo dos Palmares”. Eu tinha colaborado
com Abdias Nascimento vendendo ingresso pro Teatro
Experimental do Negro, com Solano Trindade. Fotografei
tudo de graça. Trabalhei com a Mercedes Batista, com o
maestro Abigail Moura, que fazia a Orquestra
Afro-Brasileira. Eu quis fazer uma homenagem ao maior
negro. Eu li um livro que era proibido na época e que hoje
não está mais proibido, mas foi editado pela Biblioteca do
Exército. Eles começaram a estudar guerrilha. Dois
oficiais foram pra Portugal para ver a documentação, pois
Rui Barbosa queimou toda documentação que tínhamos no
Brasil. O que era desonra pra pátria ele queimava. Ele
queimou a memória do Brasil, ainda bem que houve Pierre
Verger, que fez a documentação do fluxo e do refluxo do
movimento negro no Brasil. Bem, tivemos que pegar em
Portugal, pois lá eles guardam documentos. Aqui, a gente
queimava a documentação, porque Rui Barbosa tinha vergonha
da escravidão.
Aí eu fiz o primeiro enredo. Depois fiz Aleijadinho. Eu
briguei lá, o Arlindo fez “Descobrimento do Brasil”. Eu
estava na Alemanha e mandei o enredo todo de “Chico Rei”.
Depois “Dona Beija”...
 |
"Quando eu cheguei com Chico Rei no Salgueiro, uma ala
não podia ter o figurino da outra. Hoje tem até
desfile de protótipos" |
OBatuque.com
- Foi difícil convencer a escola, tanto direção como
componentes, a desenvolver esse novo conceito de enredo,
fugindo àquela linha predominantemente patriota da época?
Fernando Pamplona -
Quando eu cheguei com Chico Rei no Salgueiro, uma ala não
podia ter o figurino da outra. Hoje tem até desfile de
protótipos. Naquela época eu fazia o risco. Chamávamos de
“esbolceto” ou croqui. Mas o povo do morro falava risco.
Eles sabiam português mais do que a gente. Eles
perguntavam se podiam mudar. “Posso mudar aqui e ali?”. Eu
tive muita colaboração. Eu aprendi mais com o morro do que
o morro comigo. Ficamos no Salgueiro e começamos a dar
vitórias, mas quando cheguei com um figurino negro,
ninguém quis botar, pois estavam acostumados a colocar
Napoleão... Nós chamávamos genericamente a indumentária
barroca de Luís XV.
OBatuque.com
- Muitos falaram que era uma revolução e você disse que
era uma involução.
Fernando Pamplona -
Meu amigo Sérgio Cabral disse que os intelectuais estavam
se metendo no samba. Eu escrevi uma carta pra ele para
dizer que nós estávamos voltando com o tradicional. As
baianas já estavam com barriga de fora. Nós vestimos as
baianas. Nós voltamos com tradição e eles disseram que era
uma revolução. Voltamos com a raiz básica de como se
formaram as escolas de samba.
OBatuque.com
- Quais apontaria como suas principais contribuições ao
desenvolvimento do desfile das escolas de samba?
Fernando Pamplona -
Tema e os maravilhosos figurinos do Arlindo Rodrigues.
Foram duas coisas que caracterizaram os Acadêmicos do
Salgueiro. Hoje, o único que mantém a linha Salgueiro
chama-se Max Lopes, que foi criado na turma que ajudou a
gente a fazer o Salgueiro. O Joãosinho, com sua
genialidade, pegou caminho próprio. Inventou cangalha e “ombrite”.
A Maria Augusta inventou aquela coisa linda que a União da
Ilha largou. Foi o primitivismo da Ilha. Escola ingênua,
pura, com pranchas, bandeirinhas. A Rosa (Magalhães) pegou
seu próprio caminho teatral. O Renato Lage, que também
começou ajudando a gente, optou pela linha da tecnologia.
Esses principais carnavalescos saíram da corriola que nós
fizemos no Salgueiro. Tudo era decidido na gestão final,
mas a elaboração era feita por todo mundo. Muda aqui, muda
ali: “Posso fazer isso?”. Pode.
|
"Nossa maior contribuição talvez tenha sido a
modificação do enredo: demos uma de Shakespeare e fizemos o carnaval
dentro do carnaval. Di Cavalcanti quase desmaiou de
tanto aplaudir" |
 |
OBatuque.com
- Antes de desenvolver seu próprio enredo, tinha alguma
referência entre artistas que desenvolviam os enredos das
escolas?
Fernando Pamplona -
Havia uma francesa, que chegou no Brasil com o Teatro
Montepellier da Universidade de Paris. Ficou, casou-se,
fez a Portela umas três vezes. Teve um filho em cada ano
com um crioulo diferente. Depois sumiu no Nordeste, onde
ela fez uma casa de cultura popular. Tinha o Julinho, que
era muito primitivo, mas tinha uma fábrica. Ele fabricava
alegoria para 10 escolas de sambas do Brasil. Eles eram
profissionais. Nós, no Salgueiro, inclusive os que me
referi, éramos amadores. Depois que saímos do Salgueiro,
sim. O Arlindo se tornou profissional, a Rosa comprou a
casa que foi do Oscarito. O Renato Lage vive muito bem,
cobra U$ 100 mil por cada carnaval. Venderam a qualidade
que têm. Como eu nunca dependi do samba, resolvi não fazer
mais carnaval. Apenas pelo sorriso, pela simplicidade e
pelo caráter que era o Jamil Cheiroso da Império Serrano,
eu dei cinco enredos para ele. Mas é aquele enredo de
botequim. Na mesa você passa uns riscos e diz o que tem
que fazer. O primeiro que dei foi o último campeonato da
Império, “Bumbum-paticumbum-prugurundum”, invenção
onomatopaica da Rosa, porque eu tinha dado “Onze
Candelárias Sapecaí”, que era uma gozação às três fases
das escolas de samba. Era baseado um pouco no livro da
Marília Barbosa, “Fala Mangueira”, que ela fez sobre o
Carlos Cachaça. Depois dei dois para o Renato, “Malandro
é” e depois “Mãe Baiana Mãe”. Depois ele disse: “Quero
fazer os meus”. Aí ele virou “o” Renato. Ainda dei mais
dois sobre a história da comunicação no Brasil e que o
carnavalesco, infelizmente, não tinha o talento. Ele
morreu, coitado. Era o Ney Ayan, que esculhambou a guerra.
Mas a Império não desceu (1991) por causa disso, nem
interessa especular.
OBatuque.com
- Qual foi o seu trabalho preferido como carnavalesco?
Fernando Pamplona -
Não é o preferido, não. Mas o maior impacto talvez tenha
sido “Quilombo dos Palmares”. Nós demos uma visão nova.
Nós não inventamos modernização nenhuma. Está no artigo
que tem no livro do Haroldo Costa (“Salgueiro, Academia do
Samba”), que eu mandei para o Sérgio Cabral escrevendo da
Europa para ele. A maior contribuição nossa talvez tenha
sido a modificação do enredo: o negro; a mulher, com Dona
Beija; o local, com Praça XI, depois a Lapa; a história da
liberdade no Brasil, que era revolucionária. Fomos
perseguidos pela ditadura. Depois a Império fez “Heróis da
Liberdade”, que era o mesmo enredo do Salgueiro. Era
baseado no livro do Viriato Correa. Foi uma pressão muito
grande que nós sofremos da ditadura. Nossa maior
contribuição foi essa, mudar a linha dos enredos, pois
acabou aquele negócio de capa e espada, Tuiuti, Tamandaré,
Riachuelo e Pantheon de Glória. Demos uma de Shakespeare,
que fez o teatro dentro do teatro. Nós fizemos o carnaval
dentro do carnaval. Di Cavalcanti quase desmaiou de tanto
aplaudir.
 |
"O carnavalesco não interfere mais porra nenhuma. Ao
mesmo tempo que é um ditador na hora da realização,
fica nas mãos do patrocinador" |
OBatuque.com
- Hoje há muitas críticas aos poderes dados ao
carnavalesco de uma escola de samba. A Beija-Flor criou a
comissão de carnaval e acabou seguida por outras coirmãs,
seja por convicção ou necessidade financeira mesmo. Como
vê esse quadro?
Fernando Pamplona - O
carnavalesco não interfere mais porra nenhuma. Para
liquidar rapidamente essa pergunta, eles viraram realmente
ditadores e os babacas pagam a eles uma fortuna e obedecem
o que eles inventam, como juntar três alas numa só pra
poder atingir cem e fazer aquela massa. Aí o Candeia tinha
razão quando fez um samba dizendo que “depois que visual
virou quesito na concepção desses sambeiros...”.
Uma vez, viajando com o Joãosinho Trinta, perguntei a ele
sobre a idéia que ele tinha pra Grande Rio. Ele respondeu:
“Eu não tenho ainda, Fernando. Estou esperando a escola
vender”. Então o carnavalesco, ao mesmo tempo que é um
ditador na hora da realização, quase um ditador dependendo
do presidente da escola, fica nas mãos do patrocinador.
No Salgueiro, o Maninho é quem mandava nos carnavalescos.
Eu sou muito amigo do Miro e o amo (nota da redação: a
entrevista foi realizada antes do falecimento de Miro
Garcia). O Miro é um cara maravilhoso e o filho tinha o
maior respeito pelo pai, pedia a benção quando chegava.
Hoje, os carnavalescos aguardam as escolas venderem o
enredo e os marqueteiros descobriram que as escolas são o
veículo mais barato para anunciar. Com R$ 4 milhões você
compra uma escola. Durante uma hora vai desfilar falando
de você. E você vai ficar conhecido por 40 milhões de
pessoas. Você com R$ 4 milhões anuncia no O Globo, na Veja
ou na Isto É e só dão quatro páginas e não vai ter o mesmo
público que assiste aos desfiles das escolas de samba.
Veja Campos: vem lá o prefeito e dá para a Imperatriz e
depois não quer pagar, porque a Rosa pesquisou outras
coisas. Cabo Frio foi lá, vendeu e ela inventou o Pau
Brasil. Ela é muito inteligente. Hoje, o carnavalesco não
pode usar a sua criatividade, tem que esperar o enredo
patrocinado. Esse foi um dos motivos porque larguei essa
merda.
OBatuque.com
- Como viu a liberdade dada pelo regulamento atual dos
desfiles, que não limita mais os enredos das escolas a
temas nacionais?
Fernando Pamplona-
Isso ai era uma bobagem, bobagem fácil, porque quando o
João inventou de fazer o futebol, ele botou a China pra
jogar futebol, botou a Grécia, botou o Egito jogando
futebol, ou seja, o João inventa muito e diz que é
verdade, jura que ele que é o vivo. Aí o pessoal acaba
acreditando. Ele foi o primeiro a botar uma bola da
Adidas, só não tinha escrito Adidas, a bola do campeonato
do mundo. Ele também fez a história do carnaval, e não se
limitou, como nós, à história do carnaval carioca, que ele
ajudou a fazer, ajudou muito bem, criou a beça. Seja qual
for o enredo, ele já inventa um mundo todo, então pra que
fazer uma lei que você praticamente não obedece e tem como
não obedecer?
Foi muito bom eles terem tirado isso fora, e ter deixado a
criação dele, do artista. Leia o livro da Eneida
(“História do Carnaval Carioca”), que ela pode dizer isso;
se não ler esse, leia outros que eu posso indicar para
fazer uma ligeira bibliografia sobre o carnaval. As
grandes sociedades, por exemplo, faziam enredos e usavam
para decorar a própria sede o tema do enredo, mas isso é
coisa muito antiga que a temática da escola de samba
herdou das grandes sociedades e dos ranchos, que também
tinham temas semelhantes e com formas diferentes de
mostrar.
|
"Ano passado, quando visitei a Mangueira, fiquei muito
admirado, porque vi que a Mangueira tem um lugar onde
estão lançando de novo os sambas de quadra" |
 |
OBatuque.com
- Como muitos, o sr. critica a qualidade atual dos
sambas-enredos. Há uma causa para isso?
Fernando Pamplona -
Você pode fazer uma tese de doutorado para descobrir qual
é a causa. Para mim, a causa primeira foi transformar em
marchinha, porque a briga começou com Zuzuca, que ganhou
dinheiro com dois sambas no Salgueiro, que não são sambas.
“O-lê-lê / ô-lá-lá / Pega no ganzê / Pega no ganzá”, que é
“Festa para um rei negro (Pega no Ganzê)”, de 1971. Isso é
divino, ele botou batida e “o-lê-lê” e “o-lá-lá”... E
virou samba e ganhou o carnaval.
Depois o Zuzuca fez “Tengo-Tengo / Santo Antônio e Chalé /
Minha gente é muito samba no pé” (“Mangueira, Minha
Querida Madrinha”, 1972). Isso ai é quadrilha de São João,
foi o Salgueiro que fez e eu não posso criticar.
A maravilhosa marchinha da Ilha, que tem uma frase
maravilhosa que merece ser enciclopédica, antológica. “Eu
vou tomar um porre de felicidade!” (“Festa Profana”,
1989). Isso é marchinha, e as escolas praticamente
começaram a fazer marcha, aceleraram a batida e o
andamento ficou rápido, igual ao frevo. E quando começa
bater lá embaixo você vê uma porção de garotas na
arquibancada dançando frevo. Acabou a síncope, acabou o
balanço e hoje é muito difícil fazer um samba.
Este ano, felizmente, a Beija-Flor ganhou e fez um samba
de verdade. É muito difícil você fazer samba hoje em dia
no carnaval brasileiro. Ano passado, quando sem querer
visitei a Mangueira, eu fiquei muito admirado, porque eu
não vou mais em escola de samba e vi que a Mangueira tem
um lugar onde eles estão lançando de novo os sambas de
quadra. No carnaval que eu peguei você cantava o samba de
quadra até a véspera. Não tem mais o samba de quadra, eles
proibiram o samba de quadra. Era um exercício para que o
compositor se inspirasse e depois fizesse a melodia, já
que não precisava ter o samba pronto em outubro, para ser
gravado em novembro e ser vendido em dezembro. E vendia 2
milhões, batia Roberto Carlos, e hoje está vendendo 80
mil.
Eu já fiz uma aposta com todas as escolas de samba
reunidas. Disse que dava uma garrafa de uísque para quem
me cantasse um samba dos últimos cinco anos, e não valia
ser da própria escola. Um garoto disse que sabia, e me
cantou um samba de oito anos atrás. Ninguém lembra nada.
OBatuque.com
- Será que enredo atrapalha o compositor?
Fernando Pamplona -
Não, não. O samba do Djalma Sabiá é lindo: “Obras de vulto
e encantos mil / legou Debret / às nossas belas-artes, ao
Brasil / Pintou / com genial saber / para sua era reviver!
/ Foi na verdade um grande artista / primaz documentarista
/ do Brasil colonial” (“Viagem pitoresca e histórica ao
Brasil”, 1959). Esse samba que cantaram neste ano, e
que ainda estão cantando, e que agora voltou de repente
todo mundo a cantar. Eu viajei lá para o Sul, e cantaram o
samba do Silas, “Aquarela do Brasil”, que ele gravou para
o Sul e foi parar lá em São Paulo. Canta aquela obra-prima
da Portela (“Lendas e Mistérios da Amazônia”). Aí o cara
falou assim: “O samba é tão bom que resiste ao
ritmo-metralhadora". Mas a Portela diminuiu o andamento,
respeitando a Amazônia.
Uma vez eu disse para eles: "Vocês têm dinheiro e eu não
tenho, mas eu trabalho de graça para vocês até o fim da
minha vida se perder uma aposta: eu passo cinco mil
pessoas naquele sambódromo lá, em ritmo de marcha-rancho.
Eu passo cinco mil pessoas em 80 minutos. Quanto vocês
querem para passar rápido?". Tem sempre aquele cara que
fica olhando no relógio, segurando a escola, segurando a
escola, para depois sair correndo. Eles são uns merdas,
acabou o diretor de Harmonia.
OBatuque.com
- Ainda nos anos 80 você criticava o marcheamento dos
sambas. Muita gente justificava isso argumentando que as
escolas hoje são muito grandes, se passarem cadenciadas
estouram o tempo de desfile. Aí vem a Império Serrano com
um clássico de 40 anos, seis mil componentes e passa
daquele jeito que emocionou toda a Avenida. Como viu a
volta de sambas antigos aos desfiles?
Fernando Pamplona - Eu
gostei, porque os compositores tomaram vergonha. E a única
que se salvou, felizmente, foi a Beija-flor, ela tem uma
qualidade. Antigamente, o futebol tinha uma Taça
Eficiência. Nem sempre o campeão do Rio de Janeiro ganhava
a taça eficiência. Uma escola que tem quatro vices e um
campeonato pode ser mais eficiente que outra que tenha
ganho mais. Mesmo que ela tivesse cinco vices, eu daria a
taça para a Beija-Flor.
 |
"Escravidão não é uma condição étnica, é uma condição
sócio-econômica. Negro não é ex-escravo, não. Negro é
homem, e merece ser respeitado como o homem que ele é" |
OBatuque.com
- Contrário à reserva de vagas para negros nas
universidades, você sugeriu meio na brincadeira que a
Liesa garantisse uma cota mínima de 40% nos desfiles,
idéia logo encampada por gente como Carlos Heitor Cony,
que critica a mercantilização do carnaval atual. A
descaracterização das escolas teria chegado a esse ponto
mesmo? E isso tem volta?
Fernando Pamplona -
Aquilo é o tipo de provocação que é feita contra o
racismo. Agora, que há preconceito, há, e não é só contra
negro. É contra judeu, árabe, pobre etc. A humanidade é
cheia de preconceitos e nós, inclusive, somos
preconceituosos. “Não fala mais de carnaval comigo, porque
eu tô com preconceito com carnaval, tá me escutando?”
(risos). E agora não vem com frescura de privilegiar
etnia, seja ela qual for, independente das outras, que
isso não é democracia étnica, isso é racismo, não tem
outro apelido.
Outro dia, um cara estava montando meu programa. Aí, todo
negro que ia lá eu perguntava: “Você conhece um negro
racista?” E o cara cortava na edição dizendo que era para
me proteger. Eu não pedi proteção para ele e falei para
ele sair do meu programa.
O Vovô da Bahia: no Ilê dele não pode entrar branco, isso
é racismo. Racismo tem duas mãos, não tem uma mão só, não.
Haja visto lá na América com o Malcon X, que foi visitar,
cumprir a coisa de maometano. Ele parou com o racismo dele
e foi assassinado pelos negros racistas americanos. Tem
racismo negro americano, tem racismo negro no brasileiro.
Eu não quero comprar brigas, mas se vocês procurarem bem
vão encontrar aqui. Só falei do Vovô porque ele sabe que
discuti com ele, eu gosto muito dele e ele foi o
responsável pelo surgimento do carnaval negro. Ele é
maravilhoso, porém é racista, não pode entrar branco no
bloco dele, de fato.
Vamos dar cota para o negro que foi escravo? Judeu foi
escravo do egípcio, o egípcio foi escravo dos gregos, os
gregos foram escravos dos romanos, os romanos foram
escravos dos bárbaros... Escravidão não é uma condição
étnica, é uma condição sócio-econômica. Negro não é
ex-escravo, não. Negro é homem, e merece ser respeitado
como homem que ele é. Não tem favorzinho para o negro,
não, ele não precisa disso, precisa é de atenção, educação
básica, saúde. Aí sim, dê chance a eles de ser alguém, mas
por conta deles, não por favor.
OBatuque.com
- Como vê as escolas de samba hoje? Para onde evoluirão?
Fernando Pamplona -
Decadência das artes plásticas, da música. Vai chegar um
momento que isso vai saturar. O disco que vendia dois
milhões, só está vendendo oitenta mil, e alguma coisa que
eu não sei o que é vai substituir isso. Talvez o pobre do
samba que está renascendo nessa região toda e está sendo
respeitado. Os velhos sambistas que não tinham o direito
nem ao cachê das empresas e hoje estão sendo catados,
porque estão rendendo. Descobriram de repente que eles são
importantes.
OBatuque.com
- Qual vai ser a revolução que vai acabar com isso?
Fernando Pamplona - Eu
não sei, mas ainda bem que o Darcy botou umas escolas na
Marquês pra ter utilidade aquele prédio. Mas viva, viva a
Marquês de Sapucaí, que tirou o Rio de seis meses e seis
meses de montagem e desmontagem daquela quitanda, que
impedia a cidade de viver. Descobriu-se um lugar que não
atrapalhava o Rio e foi feito um projeto original que era
muito bom. A Praça da Apoteose não tem nada a ver com o
desfile, aquilo ali, é do Darcy Ribeiro.
|
"Quando você pede o julgamento estético de um
indivíduo, ele julga primeiro a sua formação, depois
sua observação, seguindo tudo aquilo que já qualificou
de bom e de ruim. 90% do julgamento é subjetivo" |
 |
OBatuque.com
- Nos conte um pouco de sua experiência como jurado de
desfile de escola de samba. O José Carlos Rego disse que
não é fácil.
Fernando Pamplona - Eu
já julguei tudo, já julguei até aqueles caras que limpam.
Eu já julguei festival de música nativa. Não é difícil
você julgar, você só não pode é dar nota cada vez que
passa uma coisa. Fiz assim, mas contestei. Porque ser
jurado é você comparar. Se a Liesa tivesse coragem, não
teria nota, teria que classificar: primeiro, segundo,
terceiro, quarto, quinto, sexto... Aí, você que é
Mangueira botaria em segundo lugar quem você botaria
direto 9 na ordem de classificação. Aí eu sou Salgueiro,
boto primeiro lugar Salgueiro...O segundo lugar ganhava.
Depois se dava nota para o vigésimo, décimo, nono,
décimo-oitavo etc. E assim nunca iria dar empate, ou até
poderia haver, mas seria um julgamento muito mais justo,
porque tem juiz que tem medo de dar nota e sai dando 10
para todo mundo e 9 e 8 para duas escolas.
OBatuque.com
- No mapa de apuração do desfile do Grupo Especial de
2000, um jurado de um determinado quesito justificou a
nota para uma grande escola falando em "próximo à
perfeição". O mesmo jurado, na avaliação de uma escola de
menor porte escreveu "próximo à grande perfeição". Esse
jurado deu nota 9,5 para a grande, e 8 para a de menor
porte. Há esperanças que um dia esse tipo de distorção
possa acabar?
Fernando Pamplona -
Não, porque aí o maior cara que houve no século passado
vai classificar a cuca da gente. Pablo (Neruda) diz
que cada indivíduo é um indivíduo condicionado. Não é
aquela experiência boboca do reflexo condicionado, é o
pensamento dele. Dois gêmeos: um pode namorar uma garota
que é Fluminense, e outro, uma garota que é Flamengo. Cada
indivíduo é formado por todos os fenômenos em torno dele,
nosso mundo é muito pequeno é individual. Dando o
relacionamento que você tem na sua formação. Mas eu li um
negócio muito sério: o homem mais bem informado não
consegue saber nem 3% do que se passa no mundo, eu li em
uma pesquisa. A verdade é que toda a estética do mundo se
resume em gostou e não gostou. O mundo se auto-influencia.
Quando você pede o julgamento estético de um indivíduo, ou
o seu, por exemplo, você vai julgar primeiro a sua
formação, depois sua observação, seguindo tudo aquilo que
você já qualificou de bom e já qualificou de ruim. Então
90% do seu julgamento são subjetivos. Apenas 10% de
objetividade. Não há porque duvidar de um juiz. Uma vez o
Laíla me trazia a relação dos jurados, quando eu fiz a
Praça Onze (1970). Aí perdemos porque um juiz deu
nota baixa. “Vamos lá quebrar ele agora”, e eu disse:
“Não, Laíla. É que ele é um instrutor acadêmico e nós
estamos fazendo um manequim no lugar de escultura, nós
estamos fazendo caras vestidos com roupas da Lapa, com
short da Praça Onze, com o botequim da Praça Onze, com
material da Praça Onze. Deu 7,5 para a gente, e deu
justamente, porque no julgamento dele não podia ter
manequim”. O escultor teria que trabalhar com a mão e ele
é um acadêmico babaca, mas era o julgamento dele. Então o
julgamento, pra mim, é 90% subjetivo e 10% objetivo.
OBatuque.com
- E neste ano de 2004 um jurado deu 7 ao samba-enredo da
Acadêmicos do Dendê. Com as notas fracionadíssimas de
hoje, equivale a um zero e acabou rebaixando a escola
(decisão essa depois revogada). Como vê essas notas
fracionadas em um décimo?
Fernando Pamplona - É
que o pobre do Hiram Araújo, que é um dos sujeitos mais
maravilhosos que eu conheci, pela dedicação dele, quer
fazer mil experiências de julgamento para torná-lo isento.
Tira a menor nota, tira a maior nota, tira do sorteio cada
juiz, só para ficar livre. Sempre que saía o resultado da
escola de samba diziam que a Riotur armava. Aí um sujeito
que tinha na Riotur, chamado Vitor Pinheiro, disse assim:
“A Riotur não escolhe mais juiz, as escolas de samba é que
vão escolher”. Cada presidente tem poder de voto, se um
presidente me indicar como juiz vão ter doze presidentes
para negar. Então, quando aquele grupo de juizes que você
não sabe nem quem são, e de onde são, julga o carnaval
hoje, eles já estão aprovados pelo mero poder do voto.
Caramba, eles aprovaram o voto do juiz, que pode se dar
como você referiu agora pouco. Pode ter feito uma merda
qualquer, eles é que julgaram, então eles é que decidem.
Isso foi a melhor coisa que Vitor Pinheiro fez através da
Riotur, e, aliás, foi um ótimo presidente da Riotur. Eu me
acostumei com esse negócio de julgar, você adquire uma
certa sabedoria do mecanismo de julgamento.
Uma vez julguei um festival de música, em Santa Catarina,
e colei com um garoto lá e nós tivemos uma excelente
influência no resultado do julgamento musical, em um
povoado com amadores maravilhosamente bons. Umas senhoras
alemãs que cantam lindo. Voltamos lá, voltamos no júri, o
Sérgio Cabral foi e lançou o livro do Ary Barroso lá, em
Santa Catarina. O Albino Pinheiro foi, Marcos Carvalho foi
e eu fui. Na seleção ficaram doze finalistas e o garoto
lá, com o qual eu tinha me afinado, deu 2, 3, 2, 3, 2, 3 e
10 para o conjunto de ópera. Aí, no botequim, eu falei
assim: “Vou ferrar esse garoto, eu vou anular o voto dele,
intencionalmente”. Veio o julgamento final, eu repeti mais
ou menos a dose e dei 9, 10, 9, 10, e para a música dele
eu dei 1, anulei o voto dele e venceu quem tinha que
vencer. Nesse negócio você tem que saber da intenção
escrota que, às vezes, está por trás. Se o jurado, mesmo
dizendo o que ele acha de verdade e que é o julgamento
subjetivo dele, fizer armações, já era.
OBatuque.com
- Ainda há espaço para o passista nas escolas de samba?
Tem muita ala de passo marcado passando pela passarela...
Fernando Pamplona - Na
verdade, nunca houve muito espaço, não. Teve escola que,
para não prejudicar o desfile, juntou todos os passistas
como se fosse um naipe. Só porque o passista gosta muito
de se exibir para uma câmera. Aí a câmera pega ali no meio
e vai para lá, vem pra cá e todo mundo vendo. Aí o
passista atrapalhava a escola, mas não por ser passista,
porque eles são maravilhosos, mas é porque atrapalhava a
evolução. Então eles resolveram juntar tudo. Lá na hora do
júri (Estandarte de Ouro), sempre tem o julgamento
de passista e geralmente quem faz é o José Carlos Rego.
Ele tem até livro sobre isso, mas hoje não interfere mais
no julgamento. Ninguém dá uma nota maior ou menor porque o
Gargalhada deu um show na Mangueira, ele que foi do
Salgueiro, assim como podia ter falado do Vitamina, que
foi um dos maiores passistas que vi. Mas o fato é que o
passista, mesmo ele não desfilando, mesmo num canto do
ensaio de escola de samba, desenvolve coisas que você tem
vontade de aplaudir dez vezes, mesmo que o povo não esteja
vendo. Passista é uma condição natural, de um cara que
nasceu para isso e que faz coisas maravilhosas e não conta
para o júri.
OBatuque.com
- O passo marcado atrapalha a escola?
Fernando Pamplona - O
passo marcado atrapalha sim. Acusaram a Mercedes Batista
por ter marcado o passo - muito bem - no minueto da Chica
da Silva. Na verdade, passo marcado sempre existiu na
escola de samba. Em 1958, 59, tinha uns caras da Mangueira
que dançavam assim. Mas quem inventou passo marcado foi o
Salgueiro. Mercedes Batista passava com passo marcado
quarenta caras, quatro filas de dez com passo marcado como
nesses showzinhos que tem aí hoje, de vez em quando, nos
clubes ou nos shows. Eu não gosto.
 |
"Para mim o maior carnaval de todos os tempos foi o
'Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia', que eu chamo
de 'Cristo Proibido'" |
OBatuque.com
- Poderia contar algum fato curioso que ocorria em
desfiles?
Fernando Pamplona -
Antigamente as escolas entravam bem ou mal dependendo dos
quinze minutos que tinham para a armação. Se armasse bem,
entrava bem; se armasse mal, entrava mal. Hoje a coisa
está organizada por computador, tem cara com telefone,
cronômetro, etc. Hoje não tem mais diretor de Harmonia,
hoje tem tenente, sargento, soldado... A coisa virou muito
mecânica.
Há uma curiosidade com o Alcir Pimentel, que era quem
armava o Império Serrano. Ele era um cara dedicado,
maravilhoso. A escola foi sempre a mais rica e tinha
setenta destaques grandes. E eu estava vendo o Alcir botar
os destaques no carro, o que foi uma grande invenção, ao
contrário do que todo mundo diz, que atrapalha o samba. O
carro abriu passagem, deu espaço para o samba no pé. O
famoso samba no pé, que ninguém sabe especificar direito o
que seja. Ele tirou setenta destaques maravilhosos do
chão. E os destaques ocupavam uma área de dez metros que
vinha protegida. E setenta por dez é uma área de
setecentos metros de desfile. Até que o João botou tudo em
cima do carro e todos querem ser destaques, artistas da
Globo etc. Aí, vinha todo mundo lá em cima do carro, e
como a TV só transmitia do lado esquerdo, elas pagavam
para vir do lado esquerdo, para poder aparecer na TV.
Agora, como a TV está dos dois lados, eles não sabem para
onde vão, ficam no meio. Ficou uma merda.
Destaque
antigamente era Tiradentes, destaque era personagem, e
Tiradentes era destaque porque ele era o enredo, ele com a
camisola e com a corda pendurada no pescoço com barba
grande. Como nós fizemos a visita ao Rei Negro, quando
Mauricio de Nassau foi um destaque. O destaque mudou o
sentido, o destaque passou a ser a mulher que mais tem
penas na bunda e que venha mais nua. Inventaram uma pena
lá, que é para fingir que aquilo é dela, mas não é, e
chamam aquilo de destaque. Uma vez eu neguei para o
Salgueiro um destaque que vinha de São Paulo, porque a
roupa dela era que nem de caminhão. E o Djalma Preto da
Mangueira aceitou, eu não gostei. A Mangueira é pura, e
aceitou um negócio desse para atrapalhar seu desfile, e
atrapalhou.
OBatuque.com
- De todos os desfiles que presenciou, quais considera os
mais marcantes?
Fernando Pamplona - O
melhor de todos, que vai ser insuperável - e eu disse para
o autor: “Você nunca vai fazer coisa semelhante”. “Mas vê
o ano que vem”, ele disse, mas “o ano que vem” foi uma
coisa horrível - foi “Ratos e Urubus”, de João Trinta, que
foi maravilhoso, com o Cristo proibido. O juiz mandou me
prender porque eu disse que toda a censura é burra,
independente de quem a exerça, e esse juiz merecia ser
preso. Aí pegaram todas as fitas da Manchete e o juiz de
lá, na congregação dos juizes, me acusou de ter ofendido a
Justiça. O Bloch fechou o rabo e mandaram as fitas para
bandas internacionais. Aí os juizes devolveram e disseram
que o juiz ofendido me processasse, porque eu tinha
reclamado contra o juiz e que não tinha falado contra a
Justiça.
Todas as vezes que transmitimos o carnaval, assim como na
imprensa escrita, onde todos os artigos assinados não são
responsabilidades do veículo, e sim de quem assina, tudo
que nós dizíamos era responsabilidade exclusivamente
nossa, não do veículo, que era a Manchete. Isso eu dizia
permanentemente em todos os programas que fizemos, porque
a gente estava ali e não queríamos ferrar a Manchete.
Quando dizia alguma coisa tinha que assumir a
responsabilidade e enfrentaria com maior prazer a Justiça,
se fosse processado, por causa da censura que eles
estabeleceram. Mas para mim foi o maior carnaval de todos
os tempos, não tem nenhum parecido até hoje, nem tão
empolgante, quanto aquele “Ratos e Urubus”, que eu chamo
de “Cristo Proibido”.
OBatuque.com
- Um samba-enredo?
Fernando Pamplona -
“Heróis da Liberdade”, “Monteiro Lobato”, a melodia
extraordinária. Depois tem a Amazônia que foi cantada
neste ano pela Portela (“Lendas e Mistérios da Amazônia”),
é maravilhosa. Martinho da Vila é fogo. Aquele samba sem
rima...
OBatuque.com
- “Raízes”, 1987, no qual os compositores podiam se
inspirar para desenvolver melodia.
Fernando Pamplona - É
isso mesmo, você falou certo. A melodia supera a rima. Eu
tenho um samba de Orlando Silva inteirinho sem nenhuma
rima.
|
"Ai daquele que não ficasse de pau duro quando Narcisa
passasse. Só se o cara fosse brocha, porque até
meio-homem ficava assim quando ela passava com aquele
rebolado mais maravilhoso do mundo" |
 |
OBatuque.com
- Um compositor?
Fernando Pamplona -
Silas de Oliveira, indiscutivelmente acima de todos os
outros. Mas tem Geraldo Babão, Geraldo Pereira, Carlos
Cachaça, Noel Rosa de Oliveira, Zuzuca...
OBatuque.com
- Um mestre-sala?
Fernando Pamplona -
Difícil, são todos parecidos. Delegado... Mas eu sou mais
o Canelinha, do Império Serrano. Era tão magro e tão
habilidoso quanto o Delegado. Mas tinha um cara que tinha
sido mestre-sala de rancho que herdou a elegância do
rancho, que eu não lembro o nome dele, não.
OBatuque.com
- Uma porta-bandeira?
Fernando Pamplona -
Depois da Wilma Nascimento, a Rita (Salgueiro) e fim de
papo.
OBatuque.com
- Um mestre de bateria?
Fernando Pamplona - Um
nome que vocês não conhecem, que armou a bateria do
Salgueiro. Uma vez saiu no Salgueiro. Ele armou a bateria
da Vila, ganhou a beça, se chamava Branco Ernesto, era
batedor de surdo. Se você chegar na Vila Isabel e
perguntar quem foi Branco Ernesto eles vão se ajoelhar no
chão, inclusive o Martinho, e vão falar assim: “ex-grande
mestre de bateria do Salgueiro”.
OBatuque.com
- Uma passista?
Fernando Pamplona -
Uma mulher chamada Narcisa. Ela passava pelo meio do
desfile sozinha, não tinha nenhum homem que não ficasse de
pau duro, é sério. Ai daquele que não ficasse assim quando
ela passasse, só se o cara fosse brocha, porque até
meio-homem ficava quando Narcisa passava com aquele
rebolado mais maravilhoso e gostoso do mundo. Tem a
Roxinha do Salgueiro, mas a diferença é que ela era uma
passista maravilhosa, mas não era tão boa quanto a Narcisa.
OBatuque.com
- Um passista?
Fernando Pamplona - O
saudoso Gargalhada, o Serrinha, mas o melhor é o Vitamina.
|
 |
"Muitos dizem que o carnaval existiu antes e depois de
mim, e isso é um absurdo. O carnaval existiu antes e
depois de Nelson de Andrade" |
OBatuque.com
- Uma personalidade?
Fernando Pamplona -
Nelson de Andrade, acima de todos. Muitos dizem que o
carnaval existiu antes e depois de mim, e isso é um
absurdo. O carnaval existiu antes de Nelson de Andrade e
depois dele. Foi ele quem me colocou no samba e adivinhou
que produto que o Arlindo e eu poderíamos dar, foi quem me
ensinou tudo. Não era bicheiro, era peixeiro, e mais do
que Natal ele contribuiu com tudo e todos, ajudou a quem
precisasse no tempo em que ele tinha dinheiro. Depois
ficou tão duro que teve que trabalhar pra mim, com diária.
Mas ele era de uma generosidade e compreensão que
verdadeiramente todos deveriam ter assim no samba. Ele
topou fazer o “Debret”, só isso já vale uma medalha de
ouro enorme para ele. Obviamente, ele foi um cara
indiscutivelmente maravilhoso. E ele era paulista.
Aliás, eu fiz um artigo uma vez, chamado “Os Cariocas.
Carioca é todo aquele que contribui para ajudar na cultura
do Rio de Janeiro, para a formação do espírito carioca. O
maior que eu conheci na minha vida, e até hoje eu afirmo
isso, foi João Saldanha. Natal era paulista. A maior
música sobre o Rio de Janeiro foi composta por um
pernambucano, Antônio Maria, “Rio de Janeiro / gosto de
você...” (“Valsa de uma Cidade”). O maior cliente do Rio
de Janeiro era o Rubem Braga, ele era do Espírito Santo.
Um dos maiores poetas do Rio se chama Carlos Drummond de
Andrade. E aí eu fiz todos os caras que fizeram o Rio, e
obviamente não citei Albino Pinheiro, Beth Carvalho,
Martinho... Não citei os cariocas, citei os caras que
fizeram o Rio de Janeiro e não eram daqui e citei mais de
cinqüenta nomes. Ainda tem o Joel Silveira, o maior
repórter do Rio, hoje com 90 anos de idade.
|
"Meu irmão Joãosinho que me perdoe, mas o melhor
carnavalesco hoje, pra mim, é a Rosa Magalhães, que
criou uma linha e é fiel a ela" |
 |
OBatuque.com
- Um carnavalesco?
Fernando Pamplona - O
melhor carnavalesco hoje, pra mim, é a Rosa Magalhães, que
criou uma linha e é fiel a ela. E se houvesse a tal Taça
Eficiência que tinha no futebol carioca que eu falei,
depois da Beija-Flor, viria a Imperatriz Leopoldinense,
com a assinatura da Rosa. Ela foi minha aluna de verdade,
é aquela que trabalhou comigo. Eu fui paraninfo da turma
dela na escola de Belas Artes e era amigo do pai e da mãe,
duas das pessoas mais maravilhosas que já houve na cultura
do Rio de Janeiro, Magalhães Junior e Lúcia Bernadete.
Para mim, a Rosinha é a mais inteligente, culta e mais
criativa de todos os carnavalescos, meus amigos existentes
hoje. Inclusive mais que meu irmão querido Joãosinho
Trinta, irmão que nossas famílias se uniram, e minha filha
quando vai ao Maranhão se hospeda na casa dele, quando eu
vou ao Maranhão a irmã dele me dá carro com motorista, é
amor, e o irmão que ainda tenho no meio do samba. Tinha o
Arlindo, que já morreu, e tem o João Trinta. Foram os dois
caras mais maravilhosos que eu já vi criar o carnaval.
Hoje o João está meio perdido, haja visto a apelação que
ele fez neste ano na Grande Rio. Para mim ele extrapolou,
inclusive ele ainda não me ligou, porque sabe que vai
levar um esporro. Eu acho que ele está meio com vergonha,
porque ele nunca foi dependente, pelo contrário, ele foi
sempre independente. João é gênio demais, pela
continuidade e criatividade maravilhosa. Mas em primeiro
lugar, pra mim, hoje, que meu irmão me perdoe, é a Rosa
Magalhães. E junto com o João tem o Renato Lage, e como
continuidade do Salgueiro tem o Max, que continua fiel ao
Salgueiro. Fora isso é muito difícil você encontrar um
carnavalesco absolutamente top.
OBatuque.com
- E um que é de uma geração mais recente e
apareceu numa entrevista que você gostava muito dele, e
infelizmente faleceu ano passado, que foi o Osvaldo
Jardim?
Fernando Pamplona - Pô,
você falou em um cara maravilhoso, que não teve a chance
de pegar uma escola grande, mas mesmo pegando escolas
pequenas mostrou ser de uma criatividade maravilhosa, foi
um grande artista. E tem aquele garoto, que uma vez me
perguntou no programa que ele tinha o que fazer no Barbosa
Lima, o Milton Cunha, gosto muito dele, inteligentíssimo.
Começou na Beija-flor com o “Margareth Mee, a dama das
bromélias”. Acredito que o Milton Cunha esteja muito mais
maduro hoje. Falei pra ele: “Você ainda não sabe, garoto,
você fez coreografia para a bateria. A bateria tem que
tocar, não tem que colar em cores diferentes, nem
coreografar para fazer milagre visual, que você esperava
fazer com a Ilha”. Ele é um sujeito, fabuloso,
extraordinário e espero que venha ser um top quando tiver
um discernimento estético mais comedido. Ele já não é mais
tão exibicionista, hoje está contido. É um homem muito
inteligente, homem de uma boa formação cultural, ele vai
amadurecer.
OBatuque.com
- O público sambista sente falta do Pamplona comentarista
dos desfiles das escolas de samba. Pamplona sente falta de
comentar os desfiles?
Fernando Pamplona -
Não há mais o que comentar. Já disse tudo que podia dizer
sobre as escolas de sambas hoje.
OBatuque.com
- Que mensagem deixaria para as comunidades que tanto se
esforçam para colocar o carnaval na Avenida e que, com seu
suor, produzem o mais fascinante espetáculo da Terra?
Fernando Pamplona - Eu
não falaria sobre carnaval na Avenida, eu volto para uma
coisa muito mais atrás, meio primitiva. Uma vez, o ensaio
do Salgueiro estava uma merda, um ensaio qualquer de
carnaval. Laíla ainda era do Salgueiro. Aí nós saímos de
lá e fomos bater papo na esquina. Eu tava tomando umas
cervejas com ele, junto com as canas, que o lugar era um
português que tinha as canas geladas, e tava vendo um
homem entrar por debaixo do balcão e o português sumiu.
Depois outro e mais outro. “Porra, Laíla o que tem aqui?”.
Ele disse: “Você não sabe? Quer ver?”. E eu falei “quero”.
Ele disse: “Seu Manoel, dá licença”.
Os portugueses foram os maiores empresários, o livro de
ouro de escola de samba quem garantia eram eles. As
escolas viviam não de entrada, mas de livro de ouro, eu
peguei essa época. O Salgueiro não tinha muro nem cobrava
a entrada. O Brasil não sabe quanto a cultura popular deve
a eles, e os portugueses aqui tinham que ser motivo de
respeito e de amor. Eu disse: “Seu Manoel, a gente pode ir
lá ver o que esses homens vão fazer?” Ele falou que
podíamos entrar. Nós entramos e tinha um terreno com
cinqüenta homens trabalhando com chapinhas de cerveja.
Eles estavam fazendo fantasias. Eu tenho lá em casa até
hoje uma camisa que eles me deram de presente, que era
verde e branca. O bloco era um bloco que se chamava “Faz
Vergonha”. O responsável veio falar comigo, a pedido do
Laíla: “Não, Pamplona, você não conhece a gente porque
nosso carnaval não é na cidade”. Todos os blocos se
reuniam no Rio de Janeiro na Avenida Rio Branco, na
Teça-Feira Gorda e era mais bonito que desfile de escola
de samba, era uma festa. O bloco Faz Vergonha era muito
bom, não saía na imprensa, e todo mundo se divertia. A
imprensa é uma das grandes culpadas de só dar espaço para
as escolas de samba. Mas as escolas do Rio são dez vezes
mais que isso. O carnaval de bairro é o carnaval do Faz
Vergonha, dos Clóvis. É um carnaval que existe, mas não
aparece no estampado, que existe e resiste
maravilhosamente bem.