23-11-2004

Fernando Pamplona

Mestre de uma geração de carnavalescos que mudou a história dos desfiles das escolas de samba, Fernando Pamplona dispensa maiores apresentações. Após mais um dia de trabalho na TV Educativa do Rio de Janeiro, onde apresenta o programa "A Verdade", o ex-carnavalesco recebeu com simpatia a reportagem de OBatuque.com numa mesa do tradicional Salsa & Cebolinha para um descontraído bate-papo sobre escolas de samba e cultura popular.

OBatuque.com - Quando e onde nasceu?
Fernando Pamplona - No Rio de Janeiro, dia 21 de setembro, Dia do Ventre Livre, em 1926, há 78 anos.

OBatuque.com - Formação profissional?
Fernando Pamplona - Escola de Belas Artes, onde virei professor.

OBatuque.com - Atividades atuais. Ainda está trabalhando em alguma ligada ao carnaval?
Fernando Pamplona - O último elo que tinha com o carnaval eu cortei ano passado. Eu fiz mais ou menos uns 20 anos o “Estandarte de Ouro” do jornal O Globo. Há três anos que estava querendo cair fora. No ano passado eu consegui. Fiz uma carta que era irreversível. O presidente Carlos Lemos, aposentado do O Globo, aproveitou a chance e disse: “Eu também vou embora”. Esse ano o Estandarte vai ser renovado. Já tem uns garotos bons aí, que estão fazendo um grande trabalho de renovação no carnaval do O Globo: o Marcelo de Mello e o Aloy Jupiara. Ano que vem você não vai me ver no carnaval do Rio de Janeiro.
Trabalho na TV Educativa (RJ), mas se pudessem me mandariam embora. Entraram duas mulheres estranhas aí. Uma gaúcha e a outra paulista. Têm nada a ver com a gente. E nos congelaram, por exemplo: mandaram um cara de 40 anos de cenografia embora, pra contratar uma amadora. Congelaram todos aqueles que fazem parte do esquema do Barbosa Lima. Não me mandaram embora porque sou diretor do sindicato e a lei não permite.
Só estou fazendo alguma coisa aí porque meu amigo Sargentelli morreu. E como já o havia substituído duas vezes, o Fernando me pediu para substituir o Sargento quando ele foi hospitalizado. Ele morreu e o Fernando pediu para que eu continuasse. Eu falei: “Não sei fazer pausa, não sei ler texto direito, minha dicção é ruim”. Fernando pediu para tentar umas três vezes: “Se não quiser a gente tenta outro”. Carioca chia e eu não sabia direito ler. Inflexão, intenção e pausa são fundamentais, mas eu banquei o estudante de novo e fiz um esforço para tentar substituir o Sargento. Não com a qualidade que ele tinha, pois era um profissional excelente. Poderiam chamar o filho dele que a voz é igualzinha. Mas eles queriam uma pessoa mais velha, que ajudasse a trazer gente. Tem muito convidado que veio para o programa, chamado “A Verdade”, porque o Sargento fazia. Ele fez mais de 700 em casa. Eu já fiz mais de 140 depois que ele morreu. Sei que eles me usam para poder chamar gente, mas se eu for falar, só acabo amanhã pela manhã.

"Diferente do capa-e-espada, o enredo foi Debret. Não tinha alegoria, a alegoria era viva. Eles repetiam as gravuras do artista. Achei aquilo a melhor idéia do mundo"

OBatuque.com - Como se aproximou do mundo do samba?
Fernando Pamplona - O único interesse que eu tenho de conhecimento é cultura popular. Meu curso primário foi feito no Acre, quando ainda era território e a única comunicação com o mundo era por meio de telégrafo. Não havia televisão e nem telefone. Se o governador quisesse falar com o presidente da república, era por meio de telégrafo. Quando voltei ao Acre, pedi para tombar onde era o telégrafo. Era uma das poucas coisas que restou do meu tempo. Navio lá, só de seis em seis meses. Tinha enchente e navio não entrava. Navio que falo era aquela barca de São Francisco que a gente chamava de chatinha. Era chatinha por que tinha um fundo chato. E tinha que ser dessa maneira, senão entrava nos rios rasos da Amazônia, nos igarapés. Se entrasse, eles encalhariam.
Eu sempre me interessei pela cultura popular. Primeira coisa que eu fiz lá além dos desafios: “Capivara correu / No buraco se meteu / Esse bicho corre mais / Do que o vapor Minas Gerais”. Vapor Minas Gerais era um ferro-velho, um couraçado inglês da 2ª Guerra que nós compramos. Era capitânia da esquadra do Brasil.
Eu vi um boi e me encantei pelo boi. Daí em diante, mesmo adulto e já no Rio, quando eu viajava queria ver o maracatu, entrava em Minas e queria saber o que era uma congada. Via tudo que era atividade popular.
A mesma coisa era o carnaval. Carnaval não era meu interesse fundamental e nunca foi. Era uma expressão cultural, popular e autêntica. Uma vez, estava conversando no Vermelhinho, que naquela época era o ponto de reunião do Rio de Janeiro, pois não havia teatro e nem galeria na Zona Sul. Quem trabalhava com arte se reunia no Vermelhinho, na Araújo Porto Alegre, em frente à ABI, onde todos os grandes nomes da época se reuniam. Do Di Cavalcanti ao Pancetti ao Augusto Rodrigues, Mário Pedrosa, Mário Barata e vai por aí. E um dia, um sujeito chamado Miécio Tati, que era o copydesk do Jorge Amado, trabalhava no Departamento de Turismo e Certames, que hoje é a Riotur, e que comandava todas as festividades no Rio, me convidou para ser jurado e fui júri do carnaval de 1959.
Eu fui criado com conto de fadas, não foi com super-herói, não. Eu gostava muito do Império Serrano. Eu achava que Império Serrano era uma serra onde tinha castelo, onde havia uma princesa. Como eu comecei a freqüentar a UNE, mesmo antes de começar minha vida universitária, fui influenciado por um sujeito chamado Rogê Ferreira, que morreu em São Paulo e foi fundador do partido Socialista. Entrei pro partido e virei um revolucionário chinfrim. Eu adorava o nome Mocidade Independente. Eu queria ser mocidade e ser independente. Era uma escola pequena. Mas quando eu vi o Salgueiro entrar pela primeira vez - e eu era Rio Branco, no Acre, que era vermelho-e-branco também - virei Salgueiro. O presidente me convidou para fazer o primeiro enredo. Eu fiz, juntamente com Arlindo Rodrigues e Nilton Sá, que desapareceu no mercado. Ele mesmo renegou depois. O resto, vocês sabem, é história.

OBatuque.com - De jurado a carnavalesco, definição que nem existia na época, da Acadêmicos do Salgueiro. Como foi esse trajeto? Em uma entrevista você disse que o que o impressionou vendo o Salgueiro foi o enredo, que era Debret.
Fernando Pamplona - O enredo, diferentemente de capa-e-espada, foi o Debret, que era artista. Então, quando vi uma escola que tinha um artista e era vermelho-e-branco... Não tinha alegoria. A alegoria era viva. Não era proibido. Eles repetiam as gravuras do Debret. Achei aquilo a melhor idéia do mundo. Eu dei 8. Aí a Portela passou tão bem... E a Portela ganhou por um ponto. Nelson de Andrade (então diretor de Carnaval da Salgueiro) viu. O Edson Carneiro me chamou pra defender o voto. Todo mundo dava o voto e fugia, pro pau não comer depois em cima dos jurados. Eu fui lá para defender o voto junto com o Edson Carneiro. Eles ficaram muito admirados. O Salgueiro perdeu por causa de um ponto.
Depois o presidente me convidou para fazer o Salgueiro. Eu falei pra ele: “Só se for uma coisa que está na minha cuca, que é o Quilombo dos Palmares”. Eu tinha colaborado com Abdias Nascimento vendendo ingresso pro Teatro Experimental do Negro, com Solano Trindade. Fotografei tudo de graça. Trabalhei com a Mercedes Batista, com o maestro Abigail Moura, que fazia a Orquestra Afro-Brasileira. Eu quis fazer uma homenagem ao maior negro. Eu li um livro que era proibido na época e que hoje não está mais proibido, mas foi editado pela Biblioteca do Exército. Eles começaram a estudar guerrilha. Dois oficiais foram pra Portugal para ver a documentação, pois Rui Barbosa queimou toda documentação que tínhamos no Brasil. O que era desonra pra pátria ele queimava. Ele queimou a memória do Brasil, ainda bem que houve Pierre Verger, que fez a documentação do fluxo e do refluxo do movimento negro no Brasil. Bem, tivemos que pegar em Portugal, pois lá eles guardam documentos. Aqui, a gente queimava a documentação, porque Rui Barbosa tinha vergonha da escravidão.
Aí eu fiz o primeiro enredo. Depois fiz Aleijadinho. Eu briguei lá, o Arlindo fez “Descobrimento do Brasil”. Eu estava na Alemanha e mandei o enredo todo de “Chico Rei”. Depois “Dona Beija”...

"Quando eu cheguei com Chico Rei no Salgueiro, uma ala não podia ter o figurino da outra. Hoje tem até desfile de protótipos"

OBatuque.com - Foi difícil convencer a escola, tanto direção como componentes, a desenvolver esse novo conceito de enredo, fugindo àquela linha predominantemente patriota da época?
Fernando Pamplona - Quando eu cheguei com Chico Rei no Salgueiro, uma ala não podia ter o figurino da outra. Hoje tem até desfile de protótipos. Naquela época eu fazia o risco. Chamávamos de “esbolceto” ou croqui. Mas o povo do morro falava risco. Eles sabiam português mais do que a gente. Eles perguntavam se podiam mudar. “Posso mudar aqui e ali?”. Eu tive muita colaboração. Eu aprendi mais com o morro do que o morro comigo. Ficamos no Salgueiro e começamos a dar vitórias, mas quando cheguei com um figurino negro, ninguém quis botar, pois estavam acostumados a colocar Napoleão... Nós chamávamos genericamente a indumentária barroca de Luís XV.

OBatuque.com - Muitos falaram que era uma revolução e você disse que era uma involução.
Fernando Pamplona - Meu amigo Sérgio Cabral disse que os intelectuais estavam se metendo no samba. Eu escrevi uma carta pra ele para dizer que nós estávamos voltando com o tradicional. As baianas já estavam com barriga de fora. Nós vestimos as baianas. Nós voltamos com tradição e eles disseram que era uma revolução. Voltamos com a raiz básica de como se formaram as escolas de samba.

OBatuque.com - Quais apontaria como suas principais contribuições ao desenvolvimento do desfile das escolas de samba?
Fernando Pamplona - Tema e os maravilhosos figurinos do Arlindo Rodrigues. Foram duas coisas que caracterizaram os Acadêmicos do Salgueiro. Hoje, o único que mantém a linha Salgueiro chama-se Max Lopes, que foi criado na turma que ajudou a gente a fazer o Salgueiro. O Joãosinho, com sua genialidade, pegou caminho próprio. Inventou cangalha e “ombrite”. A Maria Augusta inventou aquela coisa linda que a União da Ilha largou. Foi o primitivismo da Ilha. Escola ingênua, pura, com pranchas, bandeirinhas. A Rosa (Magalhães) pegou seu próprio caminho teatral. O Renato Lage, que também começou ajudando a gente, optou pela linha da tecnologia. Esses principais carnavalescos saíram da corriola que nós fizemos no Salgueiro. Tudo era decidido na gestão final, mas a elaboração era feita por todo mundo. Muda aqui, muda ali: “Posso fazer isso?”. Pode.

"Nossa maior contribuição talvez tenha sido a modificação do enredo: demos uma de Shakespeare e fizemos o carnaval dentro do carnaval. Di Cavalcanti quase desmaiou de tanto aplaudir"

OBatuque.com - Antes de desenvolver seu próprio enredo, tinha alguma referência entre artistas que desenvolviam os enredos das escolas?
Fernando Pamplona - Havia uma francesa, que chegou no Brasil com o Teatro Montepellier da Universidade de Paris. Ficou, casou-se, fez a Portela umas três vezes. Teve um filho em cada ano com um crioulo diferente. Depois sumiu no Nordeste, onde ela fez uma casa de cultura popular. Tinha o Julinho, que era muito primitivo, mas tinha uma fábrica. Ele fabricava alegoria para 10 escolas de sambas do Brasil. Eles eram profissionais. Nós, no Salgueiro, inclusive os que me referi, éramos amadores. Depois que saímos do Salgueiro, sim. O Arlindo se tornou profissional, a Rosa comprou a casa que foi do Oscarito. O Renato Lage vive muito bem, cobra U$ 100 mil por cada carnaval. Venderam a qualidade que têm. Como eu nunca dependi do samba, resolvi não fazer mais carnaval. Apenas pelo sorriso, pela simplicidade e pelo caráter que era o Jamil Cheiroso da Império Serrano, eu dei cinco enredos para ele. Mas é aquele enredo de botequim. Na mesa você passa uns riscos e diz o que tem que fazer. O primeiro que dei foi o último campeonato da Império, “Bumbum-paticumbum-prugurundum”, invenção onomatopaica da Rosa, porque eu tinha dado “Onze Candelárias Sapecaí”, que era uma gozação às três fases das escolas de samba. Era baseado um pouco no livro da Marília Barbosa, “Fala Mangueira”, que ela fez sobre o Carlos Cachaça. Depois dei dois para o Renato, “Malandro é” e depois “Mãe Baiana Mãe”. Depois ele disse: “Quero fazer os meus”. Aí ele virou “o” Renato. Ainda dei mais dois sobre a história da comunicação no Brasil e que o carnavalesco, infelizmente, não tinha o talento. Ele morreu, coitado. Era o Ney Ayan, que esculhambou a guerra. Mas a Império não desceu (1991) por causa disso, nem interessa especular.

OBatuque.com - Qual foi o seu trabalho preferido como carnavalesco?
Fernando Pamplona - Não é o preferido, não. Mas o maior impacto talvez tenha sido “Quilombo dos Palmares”. Nós demos uma visão nova. Nós não inventamos modernização nenhuma. Está no artigo que tem no livro do Haroldo Costa (“Salgueiro, Academia do Samba”), que eu mandei para o Sérgio Cabral escrevendo da Europa para ele. A maior contribuição nossa talvez tenha sido a modificação do enredo: o negro; a mulher, com Dona Beija; o local, com Praça XI, depois a Lapa; a história da liberdade no Brasil, que era revolucionária. Fomos perseguidos pela ditadura. Depois a Império fez “Heróis da Liberdade”, que era o mesmo enredo do Salgueiro. Era baseado no livro do Viriato Correa. Foi uma pressão muito grande que nós sofremos da ditadura. Nossa maior contribuição foi essa, mudar a linha dos enredos, pois acabou aquele negócio de capa e espada, Tuiuti, Tamandaré, Riachuelo e Pantheon de Glória. Demos uma de Shakespeare, que fez o teatro dentro do teatro. Nós fizemos o carnaval dentro do carnaval. Di Cavalcanti quase desmaiou de tanto aplaudir.

"O carnavalesco não interfere mais porra nenhuma. Ao mesmo tempo que é um ditador na hora da realização, fica nas mãos do patrocinador"

OBatuque.com - Hoje há muitas críticas aos poderes dados ao carnavalesco de uma escola de samba. A Beija-Flor criou a comissão de carnaval e acabou seguida por outras coirmãs, seja por convicção ou necessidade financeira mesmo. Como vê esse quadro?
Fernando Pamplona - O carnavalesco não interfere mais porra nenhuma. Para liquidar rapidamente essa pergunta, eles viraram realmente ditadores e os babacas pagam a eles uma fortuna e obedecem o que eles inventam, como juntar três alas numa só pra poder atingir cem e fazer aquela massa. Aí o Candeia tinha razão quando fez um samba dizendo que “depois que visual virou quesito na concepção desses sambeiros...”.
Uma vez, viajando com o Joãosinho Trinta, perguntei a ele sobre a idéia que ele tinha pra Grande Rio. Ele respondeu: “Eu não tenho ainda, Fernando. Estou esperando a escola vender”. Então o carnavalesco, ao mesmo tempo que é um ditador na hora da realização, quase um ditador dependendo do presidente da escola, fica nas mãos do patrocinador.
No Salgueiro, o Maninho é quem mandava nos carnavalescos. Eu sou muito amigo do Miro e o amo (nota da redação: a entrevista foi realizada antes do falecimento de Miro Garcia). O Miro é um cara maravilhoso e o filho tinha o maior respeito pelo pai, pedia a benção quando chegava. Hoje, os carnavalescos aguardam as escolas venderem o enredo e os marqueteiros descobriram que as escolas são o veículo mais barato para anunciar. Com R$ 4 milhões você compra uma escola. Durante uma hora vai desfilar falando de você. E você vai ficar conhecido por 40 milhões de pessoas. Você com R$ 4 milhões anuncia no O Globo, na Veja ou na Isto É e só dão quatro páginas e não vai ter o mesmo público que assiste aos desfiles das escolas de samba.
Veja Campos: vem lá o prefeito e dá para a Imperatriz e depois não quer pagar, porque a Rosa pesquisou outras coisas. Cabo Frio foi lá, vendeu e ela inventou o Pau Brasil. Ela é muito inteligente. Hoje, o carnavalesco não pode usar a sua criatividade, tem que esperar o enredo patrocinado. Esse foi um dos motivos porque larguei essa merda.


OBatuque.com - Como viu a liberdade dada pelo regulamento atual dos desfiles, que não limita mais os enredos das escolas a temas nacionais?
Fernando Pamplona- Isso ai era uma bobagem, bobagem fácil, porque quando o João inventou de fazer o futebol, ele botou a China pra jogar futebol, botou a Grécia, botou o Egito jogando futebol, ou seja, o João inventa muito e diz que é verdade, jura que ele que é o vivo. Aí o pessoal acaba acreditando. Ele foi o primeiro a botar uma bola da Adidas, só não tinha escrito Adidas, a bola do campeonato do mundo. Ele também fez a história do carnaval, e não se limitou, como nós, à história do carnaval carioca, que ele ajudou a fazer, ajudou muito bem, criou a beça. Seja qual for o enredo, ele já inventa um mundo todo, então pra que fazer uma lei que você praticamente não obedece e tem como não obedecer?
Foi muito bom eles terem tirado isso fora, e ter deixado a criação dele, do artista. Leia o livro da Eneida (“História do Carnaval Carioca”), que ela pode dizer isso; se não ler esse, leia outros que eu posso indicar para fazer uma ligeira bibliografia sobre o carnaval. As grandes sociedades, por exemplo, faziam enredos e usavam para decorar a própria sede o tema do enredo, mas isso é coisa muito antiga que a temática da escola de samba herdou das grandes sociedades e dos ranchos, que também tinham temas semelhantes e com formas diferentes de mostrar.

"Ano passado, quando visitei a Mangueira, fiquei muito admirado, porque vi que a Mangueira tem um lugar onde estão lançando de novo os sambas de quadra"

OBatuque.com - Como muitos, o sr. critica a qualidade atual dos sambas-enredos. Há uma causa para isso?
Fernando Pamplona - Você pode fazer uma tese de doutorado para descobrir qual é a causa. Para mim, a causa primeira foi transformar em marchinha, porque a briga começou com Zuzuca, que ganhou dinheiro com dois sambas no Salgueiro, que não são sambas. “O-lê-lê / ô-lá-lá / Pega no ganzê / Pega no ganzá”, que é “Festa para um rei negro (Pega no Ganzê)”, de 1971. Isso é divino, ele botou batida e “o-lê-lê” e “o-lá-lá”... E virou samba e ganhou o carnaval.
Depois o Zuzuca fez “Tengo-Tengo / Santo Antônio e Chalé / Minha gente é muito samba no pé” (“Mangueira, Minha Querida Madrinha”, 1972). Isso ai é quadrilha de São João, foi o Salgueiro que fez e eu não posso criticar.
A maravilhosa marchinha da Ilha, que tem uma frase maravilhosa que merece ser enciclopédica, antológica. “Eu vou tomar um porre de felicidade!” (“Festa Profana”, 1989). Isso é marchinha, e as escolas praticamente começaram a fazer marcha, aceleraram a batida e o andamento ficou rápido, igual ao frevo. E quando começa bater lá embaixo você vê uma porção de garotas na arquibancada dançando frevo. Acabou a síncope, acabou o balanço e hoje é muito difícil fazer um samba.
Este ano, felizmente, a Beija-Flor ganhou e fez um samba de verdade. É muito difícil você fazer samba hoje em dia no carnaval brasileiro. Ano passado, quando sem querer visitei a Mangueira, eu fiquei muito admirado, porque eu não vou mais em escola de samba e vi que a Mangueira tem um lugar onde eles estão lançando de novo os sambas de quadra. No carnaval que eu peguei você cantava o samba de quadra até a véspera. Não tem mais o samba de quadra, eles proibiram o samba de quadra. Era um exercício para que o compositor se inspirasse e depois fizesse a melodia, já que não precisava ter o samba pronto em outubro, para ser gravado em novembro e ser vendido em dezembro. E vendia 2 milhões, batia Roberto Carlos, e hoje está vendendo 80 mil.
Eu já fiz uma aposta com todas as escolas de samba reunidas. Disse que dava uma garrafa de uísque para quem me cantasse um samba dos últimos cinco anos, e não valia ser da própria escola. Um garoto disse que sabia, e me cantou um samba de oito anos atrás. Ninguém lembra nada.


OBatuque.com - Será que enredo atrapalha o compositor?
Fernando Pamplona - Não, não. O samba do Djalma Sabiá é lindo: “Obras de vulto e encantos mil / legou Debret / às nossas belas-artes, ao Brasil / Pintou / com genial saber / para sua era reviver! / Foi na verdade um grande artista / primaz documentarista / do Brasil colonial” (“Viagem pitoresca e histórica ao Brasil”, 1959). Esse samba que cantaram neste ano, e que ainda estão cantando, e que agora voltou de repente todo mundo a cantar. Eu viajei lá para o Sul, e cantaram o samba do Silas, “Aquarela do Brasil”, que ele gravou para o Sul e foi parar lá em São Paulo. Canta aquela obra-prima da Portela (“Lendas e Mistérios da Amazônia”). Aí o cara falou assim: “O samba é tão bom que resiste ao ritmo-metralhadora". Mas a Portela diminuiu o andamento, respeitando a Amazônia.
Uma vez eu disse para eles: "Vocês têm dinheiro e eu não tenho, mas eu trabalho de graça para vocês até o fim da minha vida se perder uma aposta: eu passo cinco mil pessoas naquele sambódromo lá, em ritmo de marcha-rancho. Eu passo cinco mil pessoas em 80 minutos. Quanto vocês querem para passar rápido?". Tem sempre aquele cara que fica olhando no relógio, segurando a escola, segurando a escola, para depois sair correndo. Eles são uns merdas, acabou o diretor de Harmonia.


OBatuque.com - Ainda nos anos 80 você criticava o marcheamento dos sambas. Muita gente justificava isso argumentando que as escolas hoje são muito grandes, se passarem cadenciadas estouram o tempo de desfile. Aí vem a Império Serrano com um clássico de 40 anos, seis mil componentes e passa daquele jeito que emocionou toda a Avenida. Como viu a volta de sambas antigos aos desfiles?
Fernando Pamplona - Eu gostei, porque os compositores tomaram vergonha. E a única que se salvou, felizmente, foi a Beija-flor, ela tem uma qualidade. Antigamente, o futebol tinha uma Taça Eficiência. Nem sempre o campeão do Rio de Janeiro ganhava a taça eficiência. Uma escola que tem quatro vices e um campeonato pode ser mais eficiente que outra que tenha ganho mais. Mesmo que ela tivesse cinco vices, eu daria a taça para a Beija-Flor.

"Escravidão não é uma condição étnica, é uma condição sócio-econômica. Negro não é ex-escravo, não. Negro é homem, e merece ser respeitado como o homem que ele é"

OBatuque.com - Contrário à reserva de vagas para negros nas universidades, você sugeriu meio na brincadeira que a Liesa garantisse uma cota mínima de 40% nos desfiles, idéia logo encampada por gente como Carlos Heitor Cony, que critica a mercantilização do carnaval atual. A descaracterização das escolas teria chegado a esse ponto mesmo? E isso tem volta?
Fernando Pamplona - Aquilo é o tipo de provocação que é feita contra o racismo. Agora, que há preconceito, há, e não é só contra negro. É contra judeu, árabe, pobre etc. A humanidade é cheia de preconceitos e nós, inclusive, somos preconceituosos. “Não fala mais de carnaval comigo, porque eu tô com preconceito com carnaval, tá me escutando?” (risos). E agora não vem com frescura de privilegiar etnia, seja ela qual for, independente das outras, que isso não é democracia étnica, isso é racismo, não tem outro apelido.
Outro dia, um cara estava montando meu programa. Aí, todo negro que ia lá eu perguntava: “Você conhece um negro racista?” E o cara cortava na edição dizendo que era para me proteger. Eu não pedi proteção para ele e falei para ele sair do meu programa.
O Vovô da Bahia: no Ilê dele não pode entrar branco, isso é racismo. Racismo tem duas mãos, não tem uma mão só, não. Haja visto lá na América com o Malcon X, que foi visitar, cumprir a coisa de maometano. Ele parou com o racismo dele e foi assassinado pelos negros racistas americanos. Tem racismo negro americano, tem racismo negro no brasileiro. Eu não quero comprar brigas, mas se vocês procurarem bem vão encontrar aqui. Só falei do Vovô porque ele sabe que discuti com ele, eu gosto muito dele e ele foi o responsável pelo surgimento do carnaval negro. Ele é maravilhoso, porém é racista, não pode entrar branco no bloco dele, de fato.
Vamos dar cota para o negro que foi escravo? Judeu foi escravo do egípcio, o egípcio foi escravo dos gregos, os gregos foram escravos dos romanos, os romanos foram escravos dos bárbaros... Escravidão não é uma condição étnica, é uma condição sócio-econômica. Negro não é ex-escravo, não. Negro é homem, e merece ser respeitado como homem que ele é. Não tem favorzinho para o negro, não, ele não precisa disso, precisa é de atenção, educação básica, saúde. Aí sim, dê chance a eles de ser alguém, mas por conta deles, não por favor.


OBatuque.com - Como vê as escolas de samba hoje? Para onde evoluirão?
Fernando Pamplona - Decadência das artes plásticas, da música. Vai chegar um momento que isso vai saturar. O disco que vendia dois milhões, só está vendendo oitenta mil, e alguma coisa que eu não sei o que é vai substituir isso. Talvez o pobre do samba que está renascendo nessa região toda e está sendo respeitado. Os velhos sambistas que não tinham o direito nem ao cachê das empresas e hoje estão sendo catados, porque estão rendendo. Descobriram de repente que eles são importantes.

OBatuque.com - Qual vai ser a revolução que vai acabar com isso?
Fernando Pamplona - Eu não sei, mas ainda bem que o Darcy botou umas escolas na Marquês pra ter utilidade aquele prédio. Mas viva, viva a Marquês de Sapucaí, que tirou o Rio de seis meses e seis meses de montagem e desmontagem daquela quitanda, que impedia a cidade de viver. Descobriu-se um lugar que não atrapalhava o Rio e foi feito um projeto original que era muito bom. A Praça da Apoteose não tem nada a ver com o desfile, aquilo ali, é do Darcy Ribeiro.

"Quando você pede o julgamento estético de um indivíduo, ele julga primeiro a sua formação, depois sua observação, seguindo tudo aquilo que já qualificou de bom e de ruim. 90% do julgamento é subjetivo"

OBatuque.com - Nos conte um pouco de sua experiência como jurado de desfile de escola de samba. O José Carlos Rego disse que não é fácil.
Fernando Pamplona - Eu já julguei tudo, já julguei até aqueles caras que limpam. Eu já julguei festival de música nativa. Não é difícil você julgar, você só não pode é dar nota cada vez que passa uma coisa. Fiz assim, mas contestei. Porque ser jurado é você comparar. Se a Liesa tivesse coragem, não teria nota, teria que classificar: primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto... Aí, você que é Mangueira botaria em segundo lugar quem você botaria direto 9 na ordem de classificação. Aí eu sou Salgueiro, boto primeiro lugar Salgueiro...O segundo lugar ganhava. Depois se dava nota para o vigésimo, décimo, nono, décimo-oitavo etc. E assim nunca iria dar empate, ou até poderia haver, mas seria um julgamento muito mais justo, porque tem juiz que tem medo de dar nota e sai dando 10 para todo mundo e 9 e 8 para duas escolas.

OBatuque.com - No mapa de apuração do desfile do Grupo Especial de 2000, um jurado de um determinado quesito justificou a nota para uma grande escola falando em "próximo à perfeição". O mesmo jurado, na avaliação de uma escola de menor porte escreveu "próximo à grande perfeição". Esse jurado deu nota 9,5 para a grande, e 8 para a de menor porte. Há esperanças que um dia esse tipo de distorção possa acabar?
Fernando Pamplona - Não, porque aí o maior cara que houve no século passado vai classificar a cuca da gente. Pablo (Neruda) diz que cada indivíduo é um indivíduo condicionado. Não é aquela experiência boboca do reflexo condicionado, é o pensamento dele. Dois gêmeos: um pode namorar uma garota que é Fluminense, e outro, uma garota que é Flamengo. Cada indivíduo é formado por todos os fenômenos em torno dele, nosso mundo é muito pequeno é individual. Dando o relacionamento que você tem na sua formação. Mas eu li um negócio muito sério: o homem mais bem informado não consegue saber nem 3% do que se passa no mundo, eu li em uma pesquisa. A verdade é que toda a estética do mundo se resume em gostou e não gostou. O mundo se auto-influencia. Quando você pede o julgamento estético de um indivíduo, ou o seu, por exemplo, você vai julgar primeiro a sua formação, depois sua observação, seguindo tudo aquilo que você já qualificou de bom e já qualificou de ruim. Então 90% do seu julgamento são subjetivos. Apenas 10% de objetividade. Não há porque duvidar de um juiz. Uma vez o Laíla me trazia a relação dos jurados, quando eu fiz a Praça Onze (1970). Aí perdemos porque um juiz deu nota baixa. “Vamos lá quebrar ele agora”, e eu disse: “Não, Laíla. É que ele é um instrutor acadêmico e nós estamos fazendo um manequim no lugar de escultura, nós estamos fazendo caras vestidos com roupas da Lapa, com short da Praça Onze, com o botequim da Praça Onze, com material da Praça Onze. Deu 7,5 para a gente, e deu justamente, porque no julgamento dele não podia ter manequim”. O escultor teria que trabalhar com a mão e ele é um acadêmico babaca, mas era o julgamento dele. Então o julgamento, pra mim, é 90% subjetivo e 10% objetivo.

OBatuque.com - E neste ano de 2004 um jurado deu 7 ao samba-enredo da Acadêmicos do Dendê. Com as notas fracionadíssimas de hoje, equivale a um zero e acabou rebaixando a escola (decisão essa depois revogada). Como vê essas notas fracionadas em um décimo?
Fernando Pamplona - É que o pobre do Hiram Araújo, que é um dos sujeitos mais maravilhosos que eu conheci, pela dedicação dele, quer fazer mil experiências de julgamento para torná-lo isento. Tira a menor nota, tira a maior nota, tira do sorteio cada juiz, só para ficar livre. Sempre que saía o resultado da escola de samba diziam que a Riotur armava. Aí um sujeito que tinha na Riotur, chamado Vitor Pinheiro, disse assim: “A Riotur não escolhe mais juiz, as escolas de samba é que vão escolher”. Cada presidente tem poder de voto, se um presidente me indicar como juiz vão ter doze presidentes para negar. Então, quando aquele grupo de juizes que você não sabe nem quem são, e de onde são, julga o carnaval hoje, eles já estão aprovados pelo mero poder do voto. Caramba, eles aprovaram o voto do juiz, que pode se dar como você referiu agora pouco. Pode ter feito uma merda qualquer, eles é que julgaram, então eles é que decidem. Isso foi a melhor coisa que Vitor Pinheiro fez através da Riotur, e, aliás, foi um ótimo presidente da Riotur. Eu me acostumei com esse negócio de julgar, você adquire uma certa sabedoria do mecanismo de julgamento.
Uma vez julguei um festival de música, em Santa Catarina, e colei com um garoto lá e nós tivemos uma excelente influência no resultado do julgamento musical, em um povoado com amadores maravilhosamente bons. Umas senhoras alemãs que cantam lindo. Voltamos lá, voltamos no júri, o Sérgio Cabral foi e lançou o livro do Ary Barroso lá, em Santa Catarina. O Albino Pinheiro foi, Marcos Carvalho foi e eu fui. Na seleção ficaram doze finalistas e o garoto lá, com o qual eu tinha me afinado, deu 2, 3, 2, 3, 2, 3 e 10 para o conjunto de ópera. Aí, no botequim, eu falei assim: “Vou ferrar esse garoto, eu vou anular o voto dele, intencionalmente”. Veio o julgamento final, eu repeti mais ou menos a dose e dei 9, 10, 9, 10, e para a música dele eu dei 1, anulei o voto dele e venceu quem tinha que vencer. Nesse negócio você tem que saber da intenção escrota que, às vezes, está por trás. Se o jurado, mesmo dizendo o que ele acha de verdade e que é o julgamento subjetivo dele, fizer armações, já era.


OBatuque.com - Ainda há espaço para o passista nas escolas de samba? Tem muita ala de passo marcado passando pela passarela...
Fernando Pamplona - Na verdade, nunca houve muito espaço, não. Teve escola que, para não prejudicar o desfile, juntou todos os passistas como se fosse um naipe. Só porque o passista gosta muito de se exibir para uma câmera. Aí a câmera pega ali no meio e vai para lá, vem pra cá e todo mundo vendo. Aí o passista atrapalhava a escola, mas não por ser passista, porque eles são maravilhosos, mas é porque atrapalhava a evolução. Então eles resolveram juntar tudo. Lá na hora do júri (Estandarte de Ouro), sempre tem o julgamento de passista e geralmente quem faz é o José Carlos Rego. Ele tem até livro sobre isso, mas hoje não interfere mais no julgamento. Ninguém dá uma nota maior ou menor porque o Gargalhada deu um show na Mangueira, ele que foi do Salgueiro, assim como podia ter falado do Vitamina, que foi um dos maiores passistas que vi. Mas o fato é que o passista, mesmo ele não desfilando, mesmo num canto do ensaio de escola de samba, desenvolve coisas que você tem vontade de aplaudir dez vezes, mesmo que o povo não esteja vendo. Passista é uma condição natural, de um cara que nasceu para isso e que faz coisas maravilhosas e não conta para o júri.

OBatuque.com - O passo marcado atrapalha a escola?
Fernando Pamplona - O passo marcado atrapalha sim. Acusaram a Mercedes Batista por ter marcado o passo - muito bem - no minueto da Chica da Silva. Na verdade, passo marcado sempre existiu na escola de samba. Em 1958, 59, tinha uns caras da Mangueira que dançavam assim. Mas quem inventou passo marcado foi o Salgueiro. Mercedes Batista passava com passo marcado quarenta caras, quatro filas de dez com passo marcado como nesses showzinhos que tem aí hoje, de vez em quando, nos clubes ou nos shows. Eu não gosto.

"Para mim o maior carnaval de todos os tempos foi o 'Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia', que eu chamo de 'Cristo Proibido'"

OBatuque.com - Poderia contar algum fato curioso que ocorria em desfiles?
Fernando Pamplona - Antigamente as escolas entravam bem ou mal dependendo dos quinze minutos que tinham para a armação. Se armasse bem, entrava bem; se armasse mal, entrava mal. Hoje a coisa está organizada por computador, tem cara com telefone, cronômetro, etc. Hoje não tem mais diretor de Harmonia, hoje tem tenente, sargento, soldado... A coisa virou muito mecânica.
Há uma curiosidade com o Alcir Pimentel, que era quem armava o Império Serrano. Ele era um cara dedicado, maravilhoso. A escola foi sempre a mais rica e tinha setenta destaques grandes. E eu estava vendo o Alcir botar os destaques no carro, o que foi uma grande invenção, ao contrário do que todo mundo diz, que atrapalha o samba. O carro abriu passagem, deu espaço para o samba no pé. O famoso samba no pé, que ninguém sabe especificar direito o que seja. Ele tirou setenta destaques maravilhosos do chão. E os destaques ocupavam uma área de dez metros que vinha protegida. E setenta por dez é uma área de setecentos metros de desfile. Até que o João botou tudo em cima do carro e todos querem ser destaques, artistas da Globo etc. Aí, vinha todo mundo lá em cima do carro, e como a TV só transmitia do lado esquerdo, elas pagavam para vir do lado esquerdo, para poder aparecer na TV. Agora, como a TV está dos dois lados, eles não sabem para onde vão, ficam no meio. Ficou uma merda.
Destaque antigamente era Tiradentes, destaque era personagem, e Tiradentes era destaque porque ele era o enredo, ele com a camisola e com a corda pendurada no pescoço com barba grande. Como nós fizemos a visita ao Rei Negro, quando Mauricio de Nassau foi um destaque. O destaque mudou o sentido, o destaque passou a ser a mulher que mais tem penas na bunda e que venha mais nua. Inventaram uma pena lá, que é para fingir que aquilo é dela, mas não é, e chamam aquilo de destaque. Uma vez eu neguei para o Salgueiro um destaque que vinha de São Paulo, porque a roupa dela era que nem de caminhão. E o Djalma Preto da Mangueira aceitou, eu não gostei. A Mangueira é pura, e aceitou um negócio desse para atrapalhar seu desfile, e atrapalhou.


OBatuque.com - De todos os desfiles que presenciou, quais considera os mais marcantes?
Fernando Pamplona - O melhor de todos, que vai ser insuperável - e eu disse para o autor: “Você nunca vai fazer coisa semelhante”. “Mas vê o ano que vem”, ele disse, mas “o ano que vem” foi uma coisa horrível - foi “Ratos e Urubus”, de João Trinta, que foi maravilhoso, com o Cristo proibido. O juiz mandou me prender porque eu disse que toda a censura é burra, independente de quem a exerça, e esse juiz merecia ser preso. Aí pegaram todas as fitas da Manchete e o juiz de lá, na congregação dos juizes, me acusou de ter ofendido a Justiça. O Bloch fechou o rabo e mandaram as fitas para bandas internacionais. Aí os juizes devolveram e disseram que o juiz ofendido me processasse, porque eu tinha reclamado contra o juiz e que não tinha falado contra a Justiça.
Todas as vezes que transmitimos o carnaval, assim como na imprensa escrita, onde todos os artigos assinados não são responsabilidades do veículo, e sim de quem assina, tudo que nós dizíamos era responsabilidade exclusivamente nossa, não do veículo, que era a Manchete. Isso eu dizia permanentemente em todos os programas que fizemos, porque a gente estava ali e não queríamos ferrar a Manchete. Quando dizia alguma coisa tinha que assumir a responsabilidade e enfrentaria com maior prazer a Justiça, se fosse processado, por causa da censura que eles estabeleceram. Mas para mim foi o maior carnaval de todos os tempos, não tem nenhum parecido até hoje, nem tão empolgante, quanto aquele “Ratos e Urubus”, que eu chamo de “Cristo Proibido”.


OBatuque.com - Um samba-enredo?
Fernando Pamplona - “Heróis da Liberdade”, “Monteiro Lobato”, a melodia extraordinária. Depois tem a Amazônia que foi cantada neste ano pela Portela (“Lendas e Mistérios da Amazônia”), é maravilhosa. Martinho da Vila é fogo. Aquele samba sem rima...

OBatuque.com - “Raízes”, 1987, no qual os compositores podiam se inspirar para desenvolver melodia.
Fernando Pamplona - É isso mesmo, você falou certo. A melodia supera a rima. Eu tenho um samba de Orlando Silva inteirinho sem nenhuma rima.

"Ai daquele que não ficasse de pau duro quando Narcisa passasse. Só se o cara fosse brocha, porque até meio-homem ficava assim quando ela passava com aquele rebolado mais maravilhoso do mundo"

OBatuque.com - Um compositor?
Fernando Pamplona - Silas de Oliveira, indiscutivelmente acima de todos os outros. Mas tem Geraldo Babão, Geraldo Pereira, Carlos Cachaça, Noel Rosa de Oliveira, Zuzuca...

OBatuque.com - Um mestre-sala?
Fernando Pamplona - Difícil, são todos parecidos. Delegado... Mas eu sou mais o Canelinha, do Império Serrano. Era tão magro e tão habilidoso quanto o Delegado. Mas tinha um cara que tinha sido mestre-sala de rancho que herdou a elegância do rancho, que eu não lembro o nome dele, não.

OBatuque.com - Uma porta-bandeira?
Fernando Pamplona - Depois da Wilma Nascimento, a Rita (Salgueiro) e fim de papo.

OBatuque.com - Um mestre de bateria?
Fernando Pamplona - Um nome que vocês não conhecem, que armou a bateria do Salgueiro. Uma vez saiu no Salgueiro. Ele armou a bateria da Vila, ganhou a beça, se chamava Branco Ernesto, era batedor de surdo. Se você chegar na Vila Isabel e perguntar quem foi Branco Ernesto eles vão se ajoelhar no chão, inclusive o Martinho, e vão falar assim: “ex-grande mestre de bateria do Salgueiro”.

OBatuque.com - Uma passista?
Fernando Pamplona - Uma mulher chamada Narcisa. Ela passava pelo meio do desfile sozinha, não tinha nenhum homem que não ficasse de pau duro, é sério. Ai daquele que não ficasse assim quando ela passasse, só se o cara fosse brocha, porque até meio-homem ficava quando Narcisa passava com aquele rebolado mais maravilhoso e gostoso do mundo. Tem a Roxinha do Salgueiro, mas a diferença é que ela era uma passista maravilhosa, mas não era tão boa quanto a Narcisa.

OBatuque.com - Um passista?
Fernando Pamplona - O saudoso Gargalhada, o Serrinha, mas o melhor é o Vitamina.

"Muitos dizem que o carnaval existiu antes e depois de mim, e isso é um absurdo. O carnaval existiu antes e depois de Nelson de Andrade"

OBatuque.com - Uma personalidade?
Fernando Pamplona - Nelson de Andrade, acima de todos. Muitos dizem que o carnaval existiu antes e depois de mim, e isso é um absurdo. O carnaval existiu antes de Nelson de Andrade e depois dele. Foi ele quem me colocou no samba e adivinhou que produto que o Arlindo e eu poderíamos dar, foi quem me ensinou tudo. Não era bicheiro, era peixeiro, e mais do que Natal ele contribuiu com tudo e todos, ajudou a quem precisasse no tempo em que ele tinha dinheiro. Depois ficou tão duro que teve que trabalhar pra mim, com diária. Mas ele era de uma generosidade e compreensão que verdadeiramente todos deveriam ter assim no samba. Ele topou fazer o “Debret”, só isso já vale uma medalha de ouro enorme para ele. Obviamente, ele foi um cara indiscutivelmente maravilhoso. E ele era paulista.
Aliás, eu fiz um artigo uma vez, chamado “Os Cariocas. Carioca é todo aquele que contribui para ajudar na cultura do Rio de Janeiro, para a formação do espírito carioca. O maior que eu conheci na minha vida, e até hoje eu afirmo isso, foi João Saldanha. Natal era paulista. A maior música sobre o Rio de Janeiro foi composta por um pernambucano, Antônio Maria, “Rio de Janeiro / gosto de você...” (“Valsa de uma Cidade”). O maior cliente do Rio de Janeiro era o Rubem Braga, ele era do Espírito Santo. Um dos maiores poetas do Rio se chama Carlos Drummond de Andrade. E aí eu fiz todos os caras que fizeram o Rio, e obviamente não citei Albino Pinheiro, Beth Carvalho, Martinho... Não citei os cariocas, citei os caras que fizeram o Rio de Janeiro e não eram daqui e citei mais de cinqüenta nomes. Ainda tem o Joel Silveira, o maior repórter do Rio, hoje com 90 anos de idade.

"Meu irmão Joãosinho que me perdoe, mas o melhor carnavalesco hoje, pra mim, é a Rosa Magalhães, que criou uma linha e é fiel a ela"

OBatuque.com - Um carnavalesco?
Fernando Pamplona - O melhor carnavalesco hoje, pra mim, é a Rosa Magalhães, que criou uma linha e é fiel a ela. E se houvesse a tal Taça Eficiência que tinha no futebol carioca que eu falei, depois da Beija-Flor, viria a Imperatriz Leopoldinense, com a assinatura da Rosa. Ela foi minha aluna de verdade, é aquela que trabalhou comigo. Eu fui paraninfo da turma dela na escola de Belas Artes e era amigo do pai e da mãe, duas das pessoas mais maravilhosas que já houve na cultura do Rio de Janeiro, Magalhães Junior e Lúcia Bernadete. Para mim, a Rosinha é a mais inteligente, culta e mais criativa de todos os carnavalescos, meus amigos existentes hoje. Inclusive mais que meu irmão querido Joãosinho Trinta, irmão que nossas famílias se uniram, e minha filha quando vai ao Maranhão se hospeda na casa dele, quando eu vou ao Maranhão a irmã dele me dá carro com motorista, é amor, e o irmão que ainda tenho no meio do samba. Tinha o Arlindo, que já morreu, e tem o João Trinta. Foram os dois caras mais maravilhosos que eu já vi criar o carnaval.
Hoje o João está meio perdido, haja visto a apelação que ele fez neste ano na Grande Rio. Para mim ele extrapolou, inclusive ele ainda não me ligou, porque sabe que vai levar um esporro. Eu acho que ele está meio com vergonha, porque ele nunca foi dependente, pelo contrário, ele foi sempre independente. João é gênio demais, pela continuidade e criatividade maravilhosa. Mas em primeiro lugar, pra mim, hoje, que meu irmão me perdoe, é a Rosa Magalhães. E junto com o João tem o Renato Lage, e como continuidade do Salgueiro tem o Max, que continua fiel ao Salgueiro. Fora isso é muito difícil você encontrar um carnavalesco absolutamente top.


OBatuque.com - E um que é de uma geração mais recente e apareceu numa entrevista que você gostava muito dele, e infelizmente faleceu ano passado, que foi o Osvaldo Jardim?
Fernando Pamplona - Pô, você falou em um cara maravilhoso, que não teve a chance de pegar uma escola grande, mas mesmo pegando escolas pequenas mostrou ser de uma criatividade maravilhosa, foi um grande artista. E tem aquele garoto, que uma vez me perguntou no programa que ele tinha o que fazer no Barbosa Lima, o Milton Cunha, gosto muito dele, inteligentíssimo. Começou na Beija-flor com o “Margareth Mee, a dama das bromélias”. Acredito que o Milton Cunha esteja muito mais maduro hoje. Falei pra ele: “Você ainda não sabe, garoto, você fez coreografia para a bateria. A bateria tem que tocar, não tem que colar em cores diferentes, nem coreografar para fazer milagre visual, que você esperava fazer com a Ilha”. Ele é um sujeito, fabuloso, extraordinário e espero que venha ser um top quando tiver um discernimento estético mais comedido. Ele já não é mais tão exibicionista, hoje está contido. É um homem muito inteligente, homem de uma boa formação cultural, ele vai amadurecer.

OBatuque.com - O público sambista sente falta do Pamplona comentarista dos desfiles das escolas de samba. Pamplona sente falta de comentar os desfiles?
Fernando Pamplona - Não há mais o que comentar. Já disse tudo que podia dizer sobre as escolas de sambas hoje.

OBatuque.com - Que mensagem deixaria para as comunidades que tanto se esforçam para colocar o carnaval na Avenida e que, com seu suor, produzem o mais fascinante espetáculo da Terra?
Fernando Pamplona - Eu não falaria sobre carnaval na Avenida, eu volto para uma coisa muito mais atrás, meio primitiva. Uma vez, o ensaio do Salgueiro estava uma merda, um ensaio qualquer de carnaval. Laíla ainda era do Salgueiro. Aí nós saímos de lá e fomos bater papo na esquina. Eu tava tomando umas cervejas com ele, junto com as canas, que o lugar era um português que tinha as canas geladas, e tava vendo um homem entrar por debaixo do balcão e o português sumiu. Depois outro e mais outro. “Porra, Laíla o que tem aqui?”. Ele disse: “Você não sabe? Quer ver?”. E eu falei “quero”. Ele disse: “Seu Manoel, dá licença”.
Os portugueses foram os maiores empresários, o livro de ouro de escola de samba quem garantia eram eles. As escolas viviam não de entrada, mas de livro de ouro, eu peguei essa época. O Salgueiro não tinha muro nem cobrava a entrada. O Brasil não sabe quanto a cultura popular deve a eles, e os portugueses aqui tinham que ser motivo de respeito e de amor. Eu disse: “Seu Manoel, a gente pode ir lá ver o que esses homens vão fazer?” Ele falou que podíamos entrar. Nós entramos e tinha um terreno com cinqüenta homens trabalhando com chapinhas de cerveja. Eles estavam fazendo fantasias. Eu tenho lá em casa até hoje uma camisa que eles me deram de presente, que era verde e branca. O bloco era um bloco que se chamava “Faz Vergonha”. O responsável veio falar comigo, a pedido do Laíla: “Não, Pamplona, você não conhece a gente porque nosso carnaval não é na cidade”. Todos os blocos se reuniam no Rio de Janeiro na Avenida Rio Branco, na Teça-Feira Gorda e era mais bonito que desfile de escola de samba, era uma festa. O bloco Faz Vergonha era muito bom, não saía na imprensa, e todo mundo se divertia. A imprensa é uma das grandes culpadas de só dar espaço para as escolas de samba. Mas as escolas do Rio são dez vezes mais que isso. O carnaval de bairro é o carnaval do Faz Vergonha, dos Clóvis. É um carnaval que existe, mas não aparece no estampado, que existe e resiste maravilhosamente bem.

Fotos: OBatuque.com e reproduções do livro "Salgueiro: Academia do Samba", de Haroldo Costa - Editora Record - Edição: 1984


Fernando Pamplona

 


Fernando Pamplona no barracão do Salgueiro em 1977, ao lado de Maria José Cardoso e Walter Bacci

 


O legendário minueto coreografado por Mercedes Batista para o enredo Chica da Silva em 1963

 


Nelson de Andrade

 


Arlindo Rodrigues

 


Joãosinho Trinta

 


Narcisa, a passista

 


A União da Ilha de Maria Augusta

 


Rosa Magalhães