Teteu
De Itaperuna ao
Rio de Janeiro, a história de um verdadeiro folião

Nascido na cidade de Itaperuna, no dia 29 de julho 1948, no Rio de Janeiro, morador de Copacabana, músico, produtor da Rede Globo, cantor, condutor de casais de porta-bandeira e mestre-sala, filho de seu Euclides e dona Julia, pai de 8 filhos e 8 netos. Esse é Alceu José da Silva, ou simplesmente Teteu.

OBatuque.com - Por que o apelido de Teteu?
Teteu - Vem de criança. Eu sou de Itaperuna e quando vim para o Rio, com 4 anos de idade, já vim com esse apelido. Podia ser Ceceu, mas ficou Teteu mesmo.

OBatuque.com - Você morou na Favela da Maré por quanto tempo?
Teteu - Antes eu morava na Favela da Maré. Fiquei lá por 52 anos. Sou cria da Baixa do Sapateiro.

OBatuque.com - Escola de coração?
Teteu - Unidos de Lucas, porque a minha escola de coração se extinguiu, a Unidos de Bonsucesso. Ainda muito jovem conheci a Aprendizes de Lucas (verde e branco) e, logo em seguida, a Unidos da Capela (azul e branco), que se fundiram e criaram a Unidos de Lucas, que fez um samba antológico, “Sublime Pergaminho” de Zeca Melodia, Carlinhos Madrugada e Nilton Russo, e que é considerado um dos 10 melhores sambas de todos os tempos. Eu tenho uma participação, pois um dos compositores desse samba, o Zeca Melodia, foi a pessoa que me pegou pelo braço e me carregou, porque eu era filho de um alcoólico e uma evangélica. Seu Euclides gostava de tomar “um grau”, já minha mãe gostava de ir à igreja.
O Zeca, quando ouviu isso, disse: “Pau que nasce torto não tem que crescer torto”. Eu fui cantando qualquer coisa, eu era criança, estava com 9 anos. “Sou da Bahia, comigo não tem horário; Não sou otário, você não pode zombar; Sou cabra-macho, sou baiano toda hora”. Mas não tinha nada a ver. Aí o Zeca disse que eu tinha que mudar o gênero, que eu podia cantar algumas coisinhas. E eu cantei assim, do Nelson Gonçalves: “Há muito tempo que eu estou amando você; Porém me falta coragem...”. Não tinha nada a ver também. Depois que veio o samba: “Timbó foi um grande feiticeiro; Vindo do solo africano...”. Foi um dos primeiros sambas que eu aprendi.

OBatuque.com - Quando você começou no carnaval?
Teteu - Aos 10 anos, na Acadêmicos de Bonsucesso, na bateria em um tablado na Praça Onze. Naquela época, a prefeitura dava um dinheiro, mas o presidente da escola, Tião Marechal, sumiu com o dinheiro. Resolvemos sair com o que tínhamos. Fizemos uma parte no barracão e não deu pra ir mais além. O nosso carnavalesco era o Coelho, que era muito disputado na época. Ele foi carnavalesco da Unidos de São Carlos (hoje Estácio de Sá). Os carnavalescos eram a própria comunidade, que ia pra lá com a goma e cola, batia aquilo tudo no jornal, fazia a alegoria e levava para a Avenida. Quando chovia era uma tragédia, despencava tudo. Depois, não. Com vários cursos de Belas Artes, surgiram vários alunos, entre eles Arlindo Rodrigues, Fernando Pamplona, Max Lopes, Rosa Magalhães, Maria Augusta e Joãosinho Trinta. No Salgueiro fizeram a famosa comissão de carnaval: Arlindo, Pamplona, Laíla e Joãosinho Trinta. Depois cada um foi para o seu lado. O Max foi parar na Unidos de Lucas, em 1976, com “Mar baiano em noite de gala”. Nós descemos. Mas dois anos antes, a Unidos de Lucas veio com a “A mulata maior é divina”. Eu era diretor de Harmonia. Inclusive eu gravei o samba naquela época. No LP eu era do coro, mas a voz base era minha, porque eu cantava no grupo Realidade. Naquela época, até o Laíla gravou o samba do Salgueiro. O Jamelão só veio a gravar em 84, por aí. Na Mangueira era Dirceu, Flavinho e Jurandir, que gravou bastante. Até o Elmo. Então, daquela época pra cá, vim fazendo várias coisas dentro do samba.
Comecei no grupo de pagode Realidade, criado pelo Luiz Carlos da Vila, pra cantar também. E ainda era locutor de quadra, mas quando eu pedia um tom, eu cantava o negocinho (risos). Tinha muito concurso de samba de quadra. Era muito legal. Antigamente era o contrário de hoje. Hoje, se ouve muito samba antigo nas quadras. Antigamente, não. Eram sambas feitos na hora, de um fato verídico ou sobre uma garota bonita, e as pastoras vinham pra cantar. A Mangueira tinha muito samba bonito. Tinha um assim: “O meu barracão de madeira, lá em Mangueira...”. A União da Ilha até hoje canta: “Se um dia... Eu deixar de desfilar (Papai do Céu), pela União da Ilha, vou chorar...”. Esses sambas não eram gravados, mas eram cantados em roda e todo mundo aprendia.

OBatuque.com - Você conhece algum samba feito por uma escola para responder a outra?
Teteu - Em 1968, depois de “Sublime Pergaminho”, os compositores dividiram. Ficaram de “salto alto”. Só Zeca Melodia ficou e me arrastava pra conhecer o mundo do samba e fez esse samba, “O Zeca não sai”, que é mais ou menos assim:

“Quem quiser pode ir, sair na Mangueira
Quem quiser pode ir, sair na Portela
Quem quiser pode ir, sair no Salgueiro e no Império Serrano
Carnaval é gostoso e também tem todo ano
Só Zeca não faz, só o Zeca não faz um idéia maluca
Melodia não sai, Melodia deixa a Parada de Lucas

Você não era bamba, não fazia samba, nunca se criou
Hoje vive com glória com nome na história de compositor
Mas se Lucas desceu amanhã pode subir
Sua vez de chorar de saudade será minha vez de sorrir
Quem quiser pode ir”.

Ele morreu na Unidos de Lucas. Para mim, foi o maior versador que conheci.
A mulher dele era espírita e ele batia tambor. Hoje, você quase não vê o batuque tocar. Tem igreja pra tudo que é lado. Ela fez uma reclamação e dessa reclamação ele fez um samba:
“Você tem que deixar dessa mania de trocar a noite pelo dia; Meu bem podes crer
que a boemia está acabando com você; O que ela diz quando chego em casa na alta madrugada...”. Então, tudo que eu sou em termos de samba, agradeço ao Zeca.
Ainda fez um samba para o seu dia final: “Aquelas flores, querida, que no fim de minha vida, vão meu corpo enfeitar...”. No enterro eu cantei esse samba e um pedaço do “Sublime Pergaminho”. Ele gravou muito samba. Ninguém acreditava. Um cara branco, alto, com cara de português, ninguém acreditava que ele era sambista. E que sambista, que versador!

OBatuque.com - Quando você começou na Rede Globo?
Teteu - Em 1978, com aquele grupo de pagode. Fui fazer uma cena para a novela “Sinal de Alerta”, mas estava no horário político e ela entrava no ar quase meia-noite, ninguém via. E ninguém me viu (risos). Depois, em 1979, o falecido Paulo Ubiratan e o Roberto Talma, fizeram “Pai Herói”, com Tony Ramos, que fazia o papel de André, e Elizabeth Savala, a Carina. André e Carina deu boneca, deu sandália. O que nasceu de criança com esses nomes! Foi demais, um sucesso. Tinha uma gafieira da Ana Preta (Glória Menezes), onde eu tocava. Em 80 fui convidado a fazer o carnaval da Globo.

OBatuque.com - Como funciona seu trabalho de produtor na Globo?
Teteu - Tínhamos uma equipe de nove pessoas. Ficava cada um com quatro escolas. Como eu tinha chegado primeiro à emissora, eu tinha prioridade em escolher e só escolhia agremiações de comunidade, que eram bem ligadas ao morro. Fiz em 2001 aquela produção onde só tinha o intérprete e o cavaquinista. Recebi muitas críticas, principalmente dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, pois eles não participaram do vídeo.

OBatuque.com - Você quase morreu ano passado devido a uma troca de tiros entre traficantes e policiais. Como foi o episódio?
Teteu - Eu estava no lançamento dos protótipos do Salgueiro, no dia 24 de novembro. Quando fui chegando em casa, na Favela da Maré, um tiroteio entre traficantes e policiais. Uma bala atingiu minha cabeça, mas graças a Deus, nada mais sério.

OBatuque.com - Você tem medo de sair nas noites do Rio de Janeiro devido à violência?
Teteu - Não. Tenho que fazer meu trabalho e amo o samba. As coisas boas acontecem de madrugada.

OBatuque.com - Você é muito bem relacionado no mundo do samba. A que se deve isso?
Teteu - Por ter vindo de uma escola pequena. Depois cheguei a uma escola grande, a Unidos de Lucas, mas ela caiu. Eu jogava bola, tocava tamborim, reco-reco e outros instrumentos; sambava um pouquinho. As pessoas gostam disso e, claro, o conhecimento, a bagagem que eu tenho. Faço condução de mestre-sala e porta-bandeira na Avenida. Então, gosto de todos e todos gostam de mim. Já fui locutor de quadra de improviso. Sou da época do improviso. Tem uma história interessante: em 1970, me deram um texto que eu tinha que falar 3 vezes na mesma noite. Eu decorei esee texto até hoje. O texto dizia assim:
“Meu nobre amigo, a Unidos de Lucas vive para servi-lo. Qualquer sugestão, reclamação ou idéia, deverá ser levada aos membros da nossa diretoria. Estamos imbuídos de um só objetivo, e só a união levará a ele. Colabore com a sua agremiação. G.R.E.S. Unidos de Lucas, onde o galo canta mais alto” (risos). O resto era tudo improviso.

OBatuque.com - Como estão os trabalhos na Mocidade?
Teteu - A escola passou por um processo de eleição. O trabalho fica um pouco difícil, porque muda tudo, mas aqui já está no esquema. Estamos fazendo um trabalho de renovação. Doamos todos os carros. Vamos criar novos carros.

OBatuque.com - Você está voltando à Mocidade?
Teteu - É, eu estive aqui em 1996, e, coincidentemente, foi o último título da escola. Naquele ano eu conduzi o casal Rogerinho e Lucinha, que foram nota 10. A escola está há um período sem receber nota máxima em mestre-sala e porta-bandeira. Agora estou voltando para realizar esse trabalho novamente.

OBatuque.com - Você também é produtor de eventos. Quais as casas que você tem seus shows?
Teteu - Meus eventos são todos de samba, mas também sou convidado a participar de eventos, palestras, debates como mediador etc. Gosto muito de samba do estilo antigo. Eu sou daquela época. Então, meus eventos são todos voltados para o samba. Em 1974, Albino Pinheiro e Sérgio Cabral queriam levar o samba até Ipanema e graças a Deus o grupo Realidade foi convidado. Posso dizer que fui responsável pelo fortalecimento do samba em Ipanema, já que era forte em Copacabana, no Teatro Opinião. Sempre fui do meio e luto muito pelo músico. Eu, por exemplo, acho que o ritmista de bateria deveria receber um dinheirinho. Os caras tocam de 11 da noite até 4 da manhã, às vezes, dependendo da escola, não ganham nem uma água, quanto mais uma cerveja. Em alguns eventos na Rede Globo, que eu organizo, sempre peço um dinheirinho bom pra rapaziada.

OBatuque.com - Você toca algum instrumento?
Teteu - Eu toco caixa, surdo de primeira e tamborim.

OBatuque.com - Como você vê o carnaval atual?
Teteu - O carnaval cresceu muito. O carnaval de 75, por exemplo: A Beija-Flor fez o desfile da Praça da Bandeira até o Balança Mas Não Cai e foi o primeiro ano que o Neguinho ganhava samba. O Joãosinho Trinta começou com aqueles esplendores grandes, carros alegóricos altos. Ela foi uma das responsáveis pelo crescimento do carnaval.

OBatuque.com - O que o Teteu como produtor faria para popularizar o carnaval?
Teteu - A popularidade vai aumentar com a Cidade do Samba. Como? Quando os barracões eram no Pavilhão de São Cristóvão, o carnaval era bem acirrado. Os carnavalescos estão ali perto. Os artistas também. Em 2006, escuta o que vou te dizer: vai ser o ano do sambista. Graças à Cidade do Samba. Em 1988, quando a Vila foi campeã, as pessoas comentavam quando viam os carros da escola, que a Vila não iria nem sair do Pavilhão. Saiu e foi campeã. Quer dizer, essa proximidade vai popularizar o carnaval. Na inauguração da Casa de Cultura da Liga, eu pedi ao Cesar Maia para fazer uns 10 barracões para as escolas de Acesso, próximo dali. Vocês vão ver que a popularidade vai aumentar. Acho também que a união entre as escolas também é fundamental. Acho que a interatividade na própria escola é muito importante. Tem que começar dentro da quadra essa harmonia. Chegar ao Setor 1 preparada para fazer um grande carnaval. Exemplos como da própria Vila, que eu já citei. A Estácio com “Paulicéia Desvairada”, e por aí vai.

(Fotos: OBatuque.com &
acervo pessoal de Teteu)



Teteu ao lado de um carro alegórico,
no barracão da Mocidade



Ao lado de Paulo do Ouro e Roger Linhares, intérprete da Mocidade


Recebendo homenagens do Capitão Guimarães, presidente da LIESA


Sempre rodeados de amigos da TV e personalidades do mundo do samba


O futebol também é sua paixão. Tricolor de coração, posando ao lado de Geninho, técnico do Vasco, Avelino da Grande Rio, Spinosa, ex-técnico do Fluminense e Paulo Angionni, supervisor do tricolor carioca


Com Débora Seco, momentos antes
do desfile da Grande Rio


Com Neguinho da Beija-Flor...



... o irrevente Milton Cunha e o
intérprete Anderson Paes


O amigo Dudu Nobre sempre
participando de seus eventos


Beth Carvalho e Alcione


A amiga e também produtora da Rede Globo Chaverinho


O saudoso Bira, ex-presidente da Mangueira


O abraço ao saudoso Jackson Martins