08-07-2004


Maurício Maia
Cantor, compositor e músico conta sua história no mundo do samba

Na manhã do dia 19 de maio, na comunidade da Prefeitura, Ilha do Governador, OBatuque.com entrevistou o intérprete Maurício Maia (anteriormente chamado de Maurício 100), 33 anos, e conferiu momentos marcantes dos campos de pelada a passagens por escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo.

OBatuque.com – Você tem alguma outra profissão fora dos palcos?
Maurício Maia – Não, eu sempre cantei. Comecei a cantar com nove anos, aos 11 dei uma paradinha e fui tentar o futebol. Jogava muita pelada aqui no campinho e joguei um certo tempo pelo Bonsucesso, disputei dois campeonatos carioca e com 15 anos saí e fiquei direto na música. Mas já fazia um pagode ainda moleque, comecei a tocar com 14 anos, já arranhava no cavaco e participava de umas rodas de samba, mas nada de compromisso. Por causa do futebol, não podia ficar muito tempo na noite.

OBatuque.com – Como você explica esse interesse pelo mundo do samba? Quando foi isso? Teve algum lance de família?
Maurício Maia – Eu fui primeiro para o Boi da Ilha, que ainda era o bloco Boi da Freguesia. O Carlinhos Fuzil, meu cunhado, era compositor do bloco na época e me levou pra lá. Cheguei a cantar um samba lá, meio envergonhado, ainda era moleque. Depois saí carregando estandarte na Avenida Rio Branco, comecei a pegar o gosto pela coisa e fui ficando. Tinha muita dificuldade pelo lance da timidez, até hoje eu tenho, mas na época era mais e com o tempo fui me soltando.

OBatuque.com – Como foram suas participações em escolas de samba? Desfilou em ala, passista, ritimista…
Maurício Maia – Não, ritimista só em bloco mesmo, na época do Brasinha, mas escola de samba não. Já tive a oportunidade de sair na bateria, mas eu já estava cantando e não queria misturar uma coisa com a outra, aí fiquei direto cantando.

OBatuque.com – Quando você começou a se firmar como intérprete, você buscou se espelhar em alguém?
Maurício Maia – Eu escutava o disco das escolas e só repetia duas faixas. Era a União da Ilha com o Aroldo Melodia e a Beija-Flor com o Neguinho. Então ficava ali comparando... O próprio Neguinho dava entrevistas comentando que se espelhava muito no Aroldo e eu me espelhava nos dois. Tinha o lance do timbre de voz, aquela coisa de cantor de escola de samba mesmo e como eu já estava cantando samba-enredo buscava o mesmo caminho. Com o tempo tive uma experiência na Ilha de 88 a 90, cantando com o Quinho, que me ajudou muito, principalmente na descontração. Depois em 91, “De Bar em Bar, Didi um Poeta” ao lado do Aroldo, aquele que há tempos eu escutava e de repente estava ao lado, o que me ajudou muito no desenvolvimento do canto e no meu jeito de cantar. Com o Neguinho não cheguei a ir para a Avenida, mas em 94 estava defendendo um samba na Beija-Flor, “Margareth Mee - a Dama das Bromélias”, e a gente se esbarrava e ele elogiava o samba. O samba acabou vencendo e eu fiz a base na gravação do disco oficial e a gente acabou tendo mais contato, ele elogiou a base que eu tinha feito e me incentivou, falava “...continua assim…”. Recentemente, na festa dos campeões na Ilha, eu tive o privilégio de entregar o troféu em homenagem a ele e a gente bateu um papo rápido, ele lembrou dessa passagem. Essas coisas são muito importante pra gente. É uma pena que não tenhamos muito contato, mas é um cara muito legal e muito gente boa.

OBatuque.com
– Você falou do Boi da Ilha. Quando foi isso e por quais outras escolas passou?
Maurício Maia
– A primeira vez que cantei no Boi tinha uns 10 anos e depois eu voltei em 84, 85, quando já estava largando o negócio do futebol e fiquei por lá. Em 88 virou escola de samba, passei a ser cantor oficial, fiquei de 1988 a 2000 como cantor oficial da escola. Em 90 comecei a compor samba na União da Ilha, onde venci a disputa pela primeira vez em 92, junto com o Carlinhos Fuzil e o Marquinhos do Banjo e em 93 cantei como intérprete oficial “Os Maiores Espetáculos da Terra”, ano que inclusive nos apresentamos na cidade argentina de Mar Del Plata, num belo desfile que a Ilha fez lá. Em 94 passei pela Imperatriz no carro de som, quando a escola foi campeã com o enredo “Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambós e Tabajeres”, quando cantei com o Preto Jóia na Avenida. Fizemos uma dupla perfeita, tudo correu bem, fui muito bem tratado lá na Imperatriz, escola que tenho o maior carinho. Passei pela Beija-Flor em 94 e em 96 dei uma passada por São Paulo, na Pérola Negra, cujo samba fiz com Carlinhos e Marquinhos. Mas o foco mesmo foi no Boi da Ilha, onde também venci a disputa, também com o Carlinhos e o Marquinhos, de seis sambas-enredos - “Seis hinos”, manda lá de dentro Carlinhos Fuzil - e na União da Ilha, onde venci três disputas.

OBatuque.com – A gente tem muito a imagem do Maurício ligada ao canto e a gente percebe esse lado também de compositor. O fato de ser cantor ajuda na hora de compor?
Maurício Maia – De uma certa forma, sim. Você esta defendendo o seu samba e acaba saindo na frente com isso. Mas não é o que define pra ganhar o samba-enredo.Um bom intérprete ajuda, mas a qualidade do samba tende a prevalecer.

OBatuque.com
– O que você mas gosta de fazer? De cantar, compor ou tocar um cavaco?
Maurício Maia
– Eu gosto do geral. Acho que a gente tem de pegar um pouco de cada coisa pra sair uma grande obra e um bom trabalho.

OBatuque.com
– Qual o seu momento mais marcante entre essas suas passagens por grandes escolas de samba?
Maurício Maia
– Bem, teve uma vez no carnaval de 1989 que foi aquele lindo desfile da Ilha, e em 1988 com “Aquarilha do Brasil”, que foi meu 1º ano no carro de som. Eu já vinha fazendo um trabalho na quadra da escola desde 86 e surgiu a oportunidade, de 87 para 88, de cantar na Avenida. Num primeiro momento eu fiquei um pouco assustado, mas depois me soltei e até hoje canto na Avenida e me sinto ainda mais preparado para assumir uma escola de samba.  

OBatuque.com
– Como foi assumir a escola em 1999, após a saída do Rixxa antes do carnaval?
Maurício Maia – Bom, aquilo ali me pegou um pouco de surpresa. Eu estava passando por alguns problemas particulares e não estava muito indo na escola por causa de problemas de saúde do meu filho. De repente surgiu o telefonema do Peixe me chamando para assumir a escola. Eu comentei que a escola tinha o Rixxa e ele me disse que o Rixxa estava saindo, que na escola estavam falando muito do meu nome e o do Roger Linhares e que queria que a gente segurasse a escola. Então eu fui pra escola, mesmo com os problemas particulares, o Roger foi um grande parceiro, me ajudou muito e na época a gente fez um bom trabalho. Teve também o lance do barracão que incendiou, foi mais um problema na cabeça, mas a gente conseguiu superar esses obstáculos, me ajudou muito também com meus problemas, ajudou a abrir um pouco a mente. Foi uma experiência muito boa e complicada também, porque tinha o lance da imprensa, o pessoal em cima, a gente tinha que explicar tudo várias vezes. Mas graças a Deus tudo deu certo.

OBatuque.com – Como é a sensação de ir para a Avenida cantar junto com a comunidade e a arquibancada um samba que você mesmo compôs? Maurício Maia – O melhor disso tudo é a aceitação quando você ganha o samba-enredo e vê todo mundo cantando. Na hora da escolha ele é bem aceito na quadra e você redobra o prazer de ir pra Avenida. E graças a Deus esses sambas do Boi, da Ilha, da Pérola Negra, foram bem aceitos pelo público e pela escola.

OBatuque.com – E como foi essa passagem em São Paulo?
Maurício Maia
– Foi muito boa, fiz muitos amigos por lá, como os irmãos Flávio Carioca e Fernando e muitos outros. O carnavalesco era o Vany Araújo e a escola infelizmente não teve uma boa colocação, mas a amizade, o trabalho, a minha projeção também, repercutiu bem em São Paulo e isso também ajudou muito.

OBatuque.com
– Falamos de bons momentos e tudo, mas e aquele momento que não deixou saudades? Aquele para deixar guardado na gaveta?
Maurício Maia
– Com certeza, se você for perguntar pra qualquer componente ou diretor da União, foi a queda para o Grupo de Acesso A. Isso é uma coisa que a gente não consegue se conformar, vai marcar pela vida inteira, meu filho vai falar para o filho dele, que vai falar para o neto. Isso vai ficar marcado na História e na nossa mente também.  

OBatuque.com
– O trabalho como cantor é desvinculado das escolas de samba. Isso de certa forma o afasta das escolas, da Avenida, ou consegue conciliar isso tudo?
Maurício Maia
– Dá pra conciliar, sim. Até pelo lado profissional, você com esse trabalho paralelo está elevando o nome da sua escola. Então acho que até ajuda mutuamente.  

OBatuque.com
– Como foram suas primeiras experiências em grupos de pagode e em quais grupos você cantou?
Maurício Maia
– Cara, foram vários. Essa luta a gente continua até hoje correndo atrás. Começou há muito tempo na Freguesia. Tinha o Marquinhos do Banjo, parceiro de muitos sambas, começamos com Os Intocáveis, depois passou para Ninho de Cobra, Talento, Planeta Samba, Voz Ativa, que era um grupo que tinha os dois irmãos aqui do Dendê, o Ouro e Prata, eram vários grupos. Tinha também o Mandinga, que era um grupo de muito prestígio aqui na Ilha, onde toquei pouco tempo, mas foi legal também, foi uma experiência muito boa com o Sapo, o Cabeça, o Pelé, Zé Henrique, Kleber Rodrigues... Era uma turma muito boa, muitos grupos que tocavam em barzinhos na Ilha. Até chegar hoje e atingirmos nosso objetivo, que era chegar até uma gravadora, como na época do Planeta Samba, que tínhamos um CD demo e o negócio começou a ficar sério. A gravadora tinha que olhar melhor pela gente, fazíamos shows de abertura de vários conjuntos famosos e a coisa foi fluindo. Mas tivemos um problema quando surgiu um outro grupo lá de Goiânia, se não me engano, com o mesmo nome e com esse problema o pessoal foi assumindo outros compromissos. E eu, com o CD demo debaixo do braço, segui a carreira e consegui atingir o primeiro objetivo que era a gravadora, já como Maurício Maia. Agora quero é tentar divulgar o trabalho para o país todo. E essas pessoas todas com quem eu trabalhei tiveram essa contribuição com tudo isso que está acontecendo hoje comigo.

OBatuque.com
– Quando você começou já tinha esse sonho de ser cantor? E se tinha, você já se sente realizado ou no caminho para isso?
Maurício Maia
– Eu acho que estou no caminho. A minha vontade era de ser jogador, mas não deu certo e eu vi que tinha um dom para cantar. O pessoal incentivava e eu estou galgando degrau por degrau, aos poucos. A gente sabe que demora, mas é como eu falei: você tem que acreditar sempre.

OBatuque.com – Como é o nome do CD? E quais seus principais trabalhos de divulgação?
Maurício Maia – O nome do CD é “Maurício Maia: que saudade amor”, é a música que estamos trabalhando, uma composição romântica do Delson Luís e do Ronaldo Barcelos e estamos fazendo muita divulgação nas rádios, na Região dos Lagos e aos poucos a gente vai chegando aqui também. Tá surtindo efeito, o pessoal tem gostado. Onde a gente pára o CD toca e tem sido bem aceito. Quem quiser ouvir também um bom pagode, pode dar uma passada na quadra da União da Ilha, às quintas, a partir das 20h, onde estamos com o pagode Maurício Maia e Cia., e aos sábados à noite na casa noturna Farol da Ilha.

OBatuque.com – E o Carnaval 2005? Você vai compor samba-enredo, vai defender samba por aí, vai para a Avenida ou vai ficar de fora só admirando?
Maurício Maia
– Como você sabe, eu gosto de compor, de concorrer, de ajudar a União da Ilha de alguma forma, e a grande contribuição que eu acho que a gente pode dar é chegar lá e tentar fazer um grande samba para que a escola sempre saia ganhando. E este ano estarei novamente concorrendo com minha parceria com o Carlinhos Fuzil, o Muca e o Ricardo, que é um compositor novo, muito bom, que está chegando agora, tentando fazer um grande trabalho, pra tentar ajudar a União sempre, que é o grande artista: a escola. A gente só está ali para tentar dar a nossa pequena contribuição para elevar o nome da escola cada vez mais.

OBatuque.com – Legal, Maurício. OBatuque.com deseja sucesso para sua carreira e que o mundo do samba abra as portas para o seu talento.
Maurício Maia
– Obrigado pela oportunidade. São espaços assim que eu te falo que são importantes e vão aparecendo aos poucos, as coisas vão fluindo e a gente sempre agradecido por esse canal que vocês estão abrindo para o mundo do samba.


“Maurício Maia: que saudade amor” é a música de trabalho que dá nome ao CD


O "V" de vitória e a confiança em uma carreira
de sucesso no mundo do samba


Mauríco Maia e amigos em apresentação na quadra da escola de samba União da Ilha do Governador


O campinho de pelada da comunidade da
prefeitura, na Ilha, continua sendo ponto de
lazer do cantor e compositor Maurício Maia