28-01-2005
Entrevista
Jaçanã
Uma
das mais talentosas e graciosas
porta-bandeiras de sua geração,
Jaçanã recebeu a reportagem de
OBatuque.com para contar um
pouco de sua caminhada até o
pavilhão número 1 da Alegria da
Zona Sul.
OBatuque.com
- Nome, naturalidade e filiação?
Jaçanã - Jaçanã
Oliveira Ribeiro da Silva, tenho 25
anos, 23-09-1979. Nasci no
Flamengo, aqui no Rio de Janeiro.
Luiz Ribeiro da Silva e Marly
Oliveira da Silva.
OBatuque.com
- Fale um pouco do seu trabalho e
sua formação?
Jaçanã - Trabalho
atualmente em um escritório de
advocacia. Trabalhei como produtora
do grupo Kid Abelha. Lá trabalhava
de secretária à figurinista. A
gente fazia um pouco de cada coisa.
Era muito legal. A Paula dizia que
eu era um colinho pra ela. Tudo que
ela me pedia, falava dessa maneira:
“Vem Naninha, faz isso pra mim”.
Agora, no estudo, eu parei no
terceiro período de Jornalismo,
devido ao trabalho e ao nascimento
da minha filha. Pretendo retornar,
mas quero fazer Direito. Eu acho
assim: eu tenho um nome no samba.
Uma porta-bandeira é uma
profissional. Agora, não pode achar
que vai viver disso. Tem que pensar
além. E é pra isso que eu estudo,
pra mais tarde uma porta-bandeira
não dar “bandeira”. (risos)
OBatuque.com
– Por que o nome de Jaçanã?
Jaçanã - Minha mãe
diz que foi uma peça que minha tia
foi assistir que era baseada no
enredo da Portela de 1970, “Lendas
e mistérios da Amazônia”. O trecho
do samba diz:
“E diz então que Jaçanã, Era como
uma flor...”.
OBatuque.com
– Como foi sua infância?
Jaçanã - Minha
infância foi bem legal. Uma
infância normal. Igual a qualquer
outra. Mas aos 12 anos aconteceu o
pior momento da minha vida. Perdi
meu pai em um acidente de
automóvel, em frente à Rodoviária.
A partir daí comecei a ver o mundo
com outros olhos. A
responsabilidade aumenta. Só ficou
eu e minha mãe. Aos 2 anos, eu
participava do extinto bloco
carnavalesco Embalo do Catete. Lá
passaram Nêgo, Neguinho da
Beija-Flor e várias pessoas do
mundo do samba. Esse bloco ficava
na esquina da rua onde eu morava,
na Correia Dutra, no Flamengo.
Minha tia me levava e eu ficava
apaixonada. Via as mulatas. Aí
comecei a ensaiar os primeiros
passos. Depois, com 8 anos, saí na
Canários das Laranjeiras e fui
madrinha da bateria.
OBatuque.com
– Conta essa história de madrinha
da bateria da Canários à
porta-bandeira da Alegria da Zona
Sul.
Jaçanã - Os grandes
culpados por isso tudo foram a
Isaura e o Carlinhos, que na época
era mestre-sala da Canários. Um dia
ele falou pra mim para largar o
posto de madrinha e tentar
porta-bandeira. Ele achava que eu
tinha porte. Ainda comentou comigo:
“Eu te ensaio. Em uma semana você
tá pronta”. Aí eu respondi que não
era assim.
OBatuque.com
– Em uma semana se aprende os
passos de uma porta-bandeira?
Jaçanã - Pra mim,
não. Demorou um pouquinho. Eu levei
3 semanas pra pegar uma rodada
reta.
OBatuque.com
– O que é uma rodada reta?
Jaçanã - Você marca
um ponto e vai rodando até aquele
ponto, em uma linha reta. Tem o
360, que é uma rodada completa em
torno do seu mestre-sala. Tem o
beija-flor, que é o mestre-sala te
cortejando.
OBatuque.com
– Em três semanas você aprendeu
tudo?
Jaçanã - Não, foi só
a rodada reta. Eu quebrei quase
todos os objetos de casa, porque o
Carlinhos colocava um cabo de
vassoura com um toalha molhada,
para simular uma bandeira. Só que a
toalha molhada respingava o chão
todo. Aí eu escorregava, quebrava
tudo e a mãe reclamava. Minha mãe é
minha fã nº 0. Ela não só elogiava.
No início, ela me criticou muito:
“Tá horrível, desiste, assim não
dá”. Quando também eu comecei a
acertar, ela falou: “Agora sim,
vamos acertar e levar isso a
sério”. Aí, depois de vários
treinos, ele achou que eu estava
pronta. Combinou comigo de ir a uma
festa na Paraíso do Tuiuti, porque
era importante, pois um casal iria
me emprestar a bandeira. Ninguém
empresta bandeira pra ninguém. Eu
coloquei um vestido preto com
dourado e fui. Chegando lá,
comentei com ele que não iria
entrar, pois não me achava
preparada. Rolou uma resistência da
minha parte e uma insistência por
parte dele. Acabei entrando. Eu
tinha levado dentro da bolsa uma
calça jeans e um top. Eu não iria
ficar com aquele vestido pagando um
mico e sem bandeira. Todos me
olhavam com uma interrogação: “Quem
é essa mulher com esse vestido
preto e dourado?”. Vi que minha mãe
e o Carlinhos estavam distraídos,
fui ao banheiro e troquei a roupa e
caí no samba. Quando voltei,
Carlinhos e minha mãe ficaram
surpresos: “Que isso menina?”. Eu
não estava preparada pra ser
porta-bandeira. Depois que eu tirei
o vestido, foi um alívio.
Realmente, eu não estava preparada.
Duas semanas depois ele me levou
para a Unidos do Cabral. Foi a
primeira escola que eu saí como
porta-bandeira. Graças ao
presidente na época, Jorge Cirielo,
a quem agradeço muito a ele. Quando
cheguei lá, ele falou: “Nossa! Que
porta-bandeira bonita!”. Fiquei
toda boba. Pelo menos isso, né?
(risos)
Saí no primeiro ano como primeira
porta-bandeira. Fiquei desesperada.
Tinha que tirar nota 10, mas tirei.
No meu primeiro ano, sem passar
pela mão do Manoel Dionísio, foi
uma glória pra mim. Eu sou um das
poucas que não passou pela mão
dele, no início. Depois eu fui me
aperfeiçoar com ele. Saí da Cabral
e o próprio Manoel me indicou à
Alegria da Zona Sul. Na mesma
semana recebi o convite do
presidente da Em Cima da Hora, o
Osmar, mas optei pela Alegria. Eu
fiquei sem mestre-sala, porque o
Carlinhos não foi bem aceito na
Alegria. Fiquei de molho por alguns
dias, até que o falecido Maninho
contratou o Dionísio Mendes. Falou
com a esposa do Manoel Dionísio, a
Neli, que também é minha comadre.
No primeiro ano ganhamos 10 e 9,9.
Justificativa do jurado: “A
porta-bandeira não introduziu a
bandeira”. Eu queria entender essa
justificativa, pois não existe
isso. Introduzir a bandeira? Fiquei
arrasada por causa desse um décimo.
Toda porta-bandeira passa por isso.
Depois eu comecei achar de 9 a 10
uma ótima nota. 2003 foi um ano de
glória: o Dionísio Mendes optou
pelo Salgueiro. Aí eu fique sem
mestre-sala. Um dia estava em casa,
sentada, aí o telefone tocou, era o
Maninho, que conseguiu um
mestre-sala pra mim, Mosquitinho.
Eu me perguntei: Mosquitinho? Que
Mosquitinho é esse? Ele leva esse
nome por ser muito rápido.
Teve uma festa na Império Serrano,
eis que entra um garotinho
magrinho, com a calça vermelha e a
camisa branca. Eu perguntei: “O que
é aquilo, meu Deus?”. Aí me
apresentaram, eu gostei dele, mas
só dançamos juntos na Unidos do
Jacarezinho, no Clube Magnatas. Foi
uma dança perfeita, apesar de não
termos ensaiado, e para o desfile
também não deu tempo pra ensaiar
muito. E mesmo assim ganhamos a
nota máxima e o S@mba-Net de 2003.
Pra mim foi um coisa muito forte.
Era meu 3º ano como porta-bandeira.
Depois desse ano recebi várias
propostas, mas preferi continuar na
Alegria.
OBatuque.com
– Vamos ter surpresas na sua
coreografia?
Jaçanã - Nem a minha
mãe sabe e vocês podem colocar no
site. O nome da minha mãe é Marly
Oliveira “Samba”, e não Silva, pois
ela sabe de todas as notícias
relacionadas ao samba. Esse apelido
foi o Mosquito que deu. Nós vamos
fazer uma coreografia baseada no
enredo, que eu considero um dos
melhores enredos do ano, pois
envolve uma essência cultural
grandiosa. Ângela Leal é uma pessoa
maravilhosa. Sua produção também.
Eles estão dando um apoio muito
grande pra gente. Nossa coreografia
será uma encenação. O resto não
posso contar.
OBatuque.com
– Os jurados podem interpretar mal
essa coreografia. Vocês têm medo?
Jaçanã – Para os
jurados será o básico. Não podemos
inventar.
OBatuque.com
– Vocês dão muito opinião de como
vai ser a roupa?
Jaçanã – Eu não
costumava dar opinião, mas a partir
de 2004 passei a dar. Em 2003,
nossa fantasia era uma coisa no
papel, mas quando foi confeccionada
saiu completamente diferente. Este
ano nós vamos representar um casal
que um filósofo sonhou no século
XVII, que passou a ser uma gravura
do Teatro de Revista. Essa vai ser
nossa fantasia. Abolimos uma
máscara, que atrapalha na evolução.
A máscara vai ser pintada.
OBatuque.com
– Você se espelha em alguém?
Jaçanã – Pra ser
sincera, não. Eu aprendi com um
mestre-sala, o Carlinhos, que é
bailarino afro da academia da
Mercedes Batista. Mas admiro muito
Selminha Sorriso (Beija-Flor) e
Lucinha Nobre (Unidos da Tijuca).
Sem desmerecer nenhuma
porta-bandeira, que inclusive eu me
dou muito bem com quase todas.
OBatuque.com
– Um mestre-sala?
Jaçanã – Ronaldinho
(Salgueiro).
OBatuque.com
– Um samba que você gostaria de ter
sido a porta-bandeira?
Jaçanã – “Peguei um
Ita no Norte”, Salgueiro 1993.
OBatuque.com
– Uma bateria?
Jaçanã – Império
Serrano.
OBatuque.com
– Um desfile?
Jaçanã – O meu com o
Mosquito na Alegria da Zona Sul, em
2003.
OBatuque.com
– Que mensagem você daria às
candidatas à porta-bandeira?
Jaçanã – Que se elas têm
um sonho de ser porta-bandeira, que
levem isso adiante, não desistam.
Que ultrapassem todos os
obstáculos.
Clique
aqui e leia a sinopse e a letra do samba da Alegria da Zona Sul para o Carnaval 2005
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Jaçanã e o pavilhão da Alegria da Zona Sul

A pórta-bandeira posa ao lado
S@mba-Net recebido pelo desfile de 2003

Jaçanã ao lado da avó Maria Henrique Oliveira,
da mãe Marly Oliveira Silva e da filha Victoria Ferreira

Com o mestre-sala Mosquito no desfile
da Alegria da Zona Sul de 2004

Com o parceiro Mosquito e a fantasia do desfile de 2003 da Alegria da Zona
Sul, durante o lançamento
do CD do Grupo de Acesso A de 2004 |