UNIDOS DO VIRADOURO


"Vamos eliminar o preconceito
da Igreja em relação ao carnaval.
Eu mesmo já fiz minha
promessa à Santa"
Mauro Quintaes

Mauro Quintaes é carioca, tem 46 anos de idade e 20 de carnaval. Curiosamente, diz que antes de começar a trabalhar nas escolas de samba nunca se interessou por carnaval. Atualmente, o carnavalesco dedica todo seu tempo à Unidos do Viradouro e diz que consegue aplicar em seus enredos o que aprendeu no curso de Arquitetura que não pôde terminar. Acompanhe a seguir a entrevista que o talentoso Mauro concedeu ao OBatuque.com contando um pouco de sua história e do carnaval que a Viradouro levará para a Avenida.

OBatuque.com - Como você chegou no mundo do samba?
Mauro Quintaes - Na verdade, eu nunca me interessei por carnaval. Comecei a trabalhar na Vila Isabel na parte artística da coisa, como, por exemplo, produção, cenografia e figurinos.

OBatuque.com - Como você definiria seu estilo de trabalho em relação a enredos, materiais e concepção de fantasias e adereços?
Mauro Quintaes - Sempre buscando novidades e ouvindo as críticas. Ano passado, por exemplo, eu acho que as alegorias deixaram a desejar; este ano estamos trabalhando para corrigir isso, que na minha opinião foi o grande defeito da escola em 2003.

OBatuque.com - Quais as suas preferências em relação à luz? Prefere natural ou artificial? Prefere que a sua escola desfile pela manhã ou à noite?
Mauro Quintaes - A luz não importa muito, mas para mim o ideal é que a escola seja a 4ª de segunda, entrando pelo lado dos Correios. É tecnicamente melhor.

"Se o público entender o enredo,
já é meio caminho andado "

OBatuque.com - Quando você começa a bolar um enredo você se preocupa com a receptividade do público, em passar uma mensagem a sociedade, em apresentar um projeto pessoal...Como funciona isso?
Mauro Quintaes - Eu acho que o principal é a identificação com o público. Se ele entender o enredo, já é meio caminho andado. O lado social também é importante, mas não é o principal.

OBatuque.com - Por quais escolas já trabalhou?
Mauro Quintaes - Como carnavalesco? Na Caprichosos, Porto da Pedra, Salgueiro e Viradouro.

OBatuque.com - Você já desenvolveu algum enredo do qual tenha se arrependido depois? Ou que achou que tenha faltado algo ou poderia ter feito diferente?
Mauro Quintaes - Não, nunca me arrependi. Também não acho que tenha faltado algo. Acho, sim, que você aprende com os erros. Como no caso das alegorias da Viradouro no ano passado. Este ano vão ser melhores. Mas, na verdade, teve um enredo que eu queria que tivesse sido diferente, mas não pela maneira de ter sido desenvolvido, e sim pela aceitação das pessoas.

OBatuque.com - Que enredo e por quê?
Mauro Quintaes - O enredo era “Samba no pé e mãos ao alto, isso é um assalto”, da Porto da Pedra em 1997. Eu acho que houve um entendimento errado por parte das pessoas, o que acabou prejudicando a escola, por ter sido um enredo que desagradou os jurados. Na verdade, só um jurado me deu nota 10. Talvez, só ele tenha entendido a mensagem. E também porque não houve uma aceitação por parte das pessoas.

OBatuque.com - E qual dos seus enredos você teve mais satisfação ao desenvolver?
Mauro Quintaes - Sem dúvida, foi o de 96, também na Porto da Pedra, o enredo “No reino da alegria, cada louco com sua mania”. Nesse ano eu ganhei o Estandarte de Ouro de melhor enredo.

OBatuque.com - Então você considera que viveu na Porto da Pedra seus melhores e piores momentos?
Mauro Quintaes - Em partes. O pior momento não foi a má aceitação em relação ao enredo de 97, e sim quando eu caí com a escola em 98. Só que no mesmo ano eu tive o reconhecimento do meu trabalho, quando fui contratado pelo Salgueiro pra fazer o carnaval de 99 e acabei ficando lá por quatro anos.

OBatuque.com - E qual foi o momento que você considera como mais marcante na Avenida?
Mauro Quintaes - O desfile de 2000 pelo Salgueiro. O enredo era “Sou rei, sou Salgueiro, meu reinado é brasileiro”.

"Com o Joãosinho aprendi a conhecer
a verdadeira magia do carnaval"

OBatuque.com - Dos enredos que já passaram pela Avenida, qual você gostaria de ter podido desenvolver?
Mauro Quintaes - Todos do Joãosinho Trinta, em especial “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. Eu trabalhei um ano com o João e foi o suficiente. Aprendi mais com ele nesse período do que em nove anos com o Max Lopes. Com o João eu aprendi muito, conheci a verdadeira magia do carnaval, do inusitado, sem limitações. Ao contrário do Max, que continua fazendo aquela coisa quadrada e repetitiva.

OBatuque.com - Existe algum tema ou enredo que o faça pensar: “um dia levo isso para a Avenida”?
Mauro Quintaes - Tem sim, mas é segredo. Seria uma trilogia em cima de loucos, ladrões e uma terceira “lacuna” ainda em aberto. Mas vocês ainda vão ver.

OBatuque.com - E como será o Carnaval 2004 da Viradouro?
Mauro Quintaes - Vai ser o carnaval da quebra de tabus, eliminando o preconceito da Igreja em relação ao carnaval. Vai haver um estreitamento entre o “sagrado e o profano”, vai ser o carnaval da fé. Muitos católicos estão procurando a escola para participar da romaria que faremos na Avenida. Eu mesmo já fiz a minha promessa à Santa. Mas na escola em si, quem promete dar um show é a comissão de frente. A roupa é teatral e foi desenvolvida pelo Gabriel Vilela e a coreografia esta a cargo da Débora, que está fazendo um belo trabalho. Nós vamos entrar com tudo para trazer o título para Niterói.

OBatuque.com - Você falou em eliminar um tabu. Disse também que queria ter trabalhado com o enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. O que você acha da reação da Igreja na época?
Mauro Quintaes - Eu acho que a Igreja ajudou a escola, já que o Cristo coberto causou muito mais impacto. O Cristo é muito mais um símbolo do Rio do que da Igreja, portanto acho que não teria nada demais.

OBatuque.com - Um enredo?
Mauro Quintaes - “No reino da alegria, cada louco com sua mania”, da Porto da Pedra, em 96.

OBatuque.com - Um samba enredo?
Mauro Quintaes - “A Festa do Círio de Nazaré”.

OBatuque.com - Um carnavalesco?
Mauro Quintaes - Renato Lage, Rosa Magalhães e Joãosinho Trinta. Seria uma síntese dos três, com uma pitada da irreverência do Milton Cunha. Dos que já se foram, eu fico com Arlindo Rodrigues, pelo tradicional, e com Fernando Pinto, pelo radical, inovador.

OBatuque.com - Uma escola de samba?
Mauro Quintaes - Unidos do Viradouro. Foi a escola que mais me projetou.


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