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o Carnaval 2003
Ricardo Stypurski Pereira Junior

Você deve estar pensando que se trata, mais uma vez, daqueles gringos
poloneses que estão passando as férias aqui no Rio. Mas você está
completamente enganado. O Ricardo Stypurski é carioca, tem 26 anos e, além
de professor de matemática, é diretor de tamborins da Unidos da Tijuca. Ele
nos conta, nesta entrevista, sua caminhada no mundo do samba.

O batuque.com - Quando começou no carnaval ?
Ricardo - Comecei em 1995 pela Lins Imperial e pela Vila Isabel .

O batuque.com - Desfilando como ritmista ou em ala?
Ricardo - Na bateria. Nunca desfilei em ala.

O batuque.com - Alguém o ensinou a bater ?
Ricardo - Não, aprendi sozinho. Ganhei meu primeiro tamborim com 17 anos,
do meu tio. Comecei a tocar em casa. Botava fita para ouvir e acompanhava,
tirava som e, depois de certo tempo, comecei a freqüentar os ensaios da
Vila Isabel, onde aprendi a tocar mesmo.

O batuque.com - O que é mais fácil: dar aula de matemática ou ensinar tamborim?
Ricardo - Igualmente difícil. Não é fácil, não. É fundamental que a pessoa
esteja disposta a aprender e tenha dom para a matemática, assim como para
tamborim. Tem gente que não tem ritmo. Tem gente que vem para a escolinha e
não consegue aprender porque não tem ritmo.

O batuque.com - Você ensina o básico ou a pessoa tem que ter o dom?
Ricardo - Temos uma turma de encontros onde as pessoas aprendem uma
formação de bateria, como é, como funciona o compasso, primeira, segunda,
como se segura o tamborim , afinação...E aí começamos o básico. Nosso curso
se divide em quatro etapas: afoxé, terecoteco, subidas e, por último, o
carreteiro, já na turma avançada.

O batuque.com - O que vem a ser o carreteiro ?
Ricardo - É a batida de tamborim rápida.

O batuque.com - Existe alguma cadência para o carreteiro? Por exemplo: dois
embaixo, um em cima.
Ricardo - Tem escolas que batem no 2-1, como a Unidos da Tijuca. Tem
escolas que batem no 3-1, como a Grande Rio e a União da Ilha. Na verdade,
não tem grande diferença. Quando assistimos a um desfile, parece que os
tamborins são todos iguais, no ritmo carreteiro.

O batuque.com - O que difere, por exemplo, numa bateria como a do Império
Serrano e a da União da Ilha?
Ricardo - A diferença é muito grande. O Império utiliza muito o tamborim e
o agogô em grande quantidade. A cozinha é pequena. O ritmo é cadenciado ,
não é um ritmo acelerado. A bateria da Ilha já é mais acelerada. O naipe de
tamborins é menor, mas é compacto, é mais preciso.

O batuque.com - Como e quando você começou a se destacar para chegar a
diretor de tamborim da Unidos da Tijuca?
Ricardo - Comecei a me destacar em 95, na Vila Isabel. Em 96 recebi convite
da Lins Imperial. A escola ficava próximo à minha casa . Eu morava no Méier
à época, e lá fiquei em 96, 97, 98, 99, 2000 e 2001. Mesmo em outras
escolas, eu continuava na Lins. Em 99 o Ciça me convidou para assumir a
Estácio. Fiquei em 2000, 2001 e 2002. Em 2000, o Celinho me convidou pra
fazer um trabalho e eu aceitei.

O batuque.com - Como um diretor de bateria jovem consegue lembrar das
variações de tamborim de sambas antigos , como "Macobeba" e "Lima Barreto"?
Ricardo - Os tamborins evoluíram bastante desde a década de 90. Antes
disso, não havia batida de tamborim elaborada. Acho até que nós somos
culpados por isso, devido à competitividade das baterias. O pessoal da
Mocidade faz um desenho super elaborado, a Unidos da Tijuca faz um desenho
super-elaborado, a Viradouro também. A partir de 86, aqui na Tijuca, nós
estamos fazendo na íntegra, porque, antes disso, não se tem registro. Eu
gravo os sambas ao vivo. Eu sou fanático por isso, na hora, a gente passa
para os componentes um pouco sobre aquele samba.

O batuque.com - Quem dá as idéias das variações de tamborim aqui na Unidos
da Tijuca? Ou surge naturalmente?
Ricardo - Eu procuro fazer a primeira idéia, baseada mais ou menos em cima
do samba que a gente acha que vai ganhar. Aqui na Tijuca somos muitos
democráticos quanto a isso. Então, a gente começa a trabalhar antes da
final do samba-enredo, para dois ou três sambas. Depois o pessoal vai
sugerindo para melhorar alguma coisa. Tem variações em algumas escolas que
nada têm a ver com o samba, e isso é muito importante. O jurado adora tirar
pontos.

O batuque.com - As baterias estão cada vez mais ensaiadas. Na sua opinião,
qual o motivo para que isso ocorra?
Ricardo - A competição natural. Antigamente, as baterias passavam retas.
Aí, as baterias começaram a fazer paradinhas. Primeiro foi a Mocidade,
depois a União da Ilha. Agora, todo mundo está fazendo e querendo fazer
melhor. Na verdade, não existe um marco, e sim uma competição. Acho até que
vai haver uma volta ao simples, até porque o simples pode ser bom. Depende
da maneira que você coloca no samba. Pode muito bem ficar bonito num samba
de hoje em dia.

O batuque.com - As paradinhas atrapalham o andamento do desfile? Ou isso é
papo dos saudosistas?
Ricardo - Você tem razão. Tem paradinha desnecessária, tem paradinha que
não tem nada a ver com o samba. E paradinhas que são gratuitas, aí sim, com
certeza, atrapalham. Agora, tem paradinha que é muito bem feita e pode
servir de estímulo para a escola. Tem bateria que faz paradinha para
aparecer, e aí realmente fica feio.

O batuque.com - Quando um integrante erra, ele é desligado automaticamente
ou se dá uma nova oportunidade?
Ricardo - Varia de diretor para diretor. Aqui na Tijuca eu tenho amigos
que, quando um componente erra, dão esporro, xingam. Eu já sou diferente.
Eu olho para a cara da pessoa e ela já sabe que errou e se corrige. O
tamborim da Unidos da Tijuca é escolhido a dedo. Eu tenho carta do Celinho
para escolher os 50 que vão para a avenida.

O batuque.com - O termo "tem português no samba" significa que alguém está
batendo errado ou não sabe bater, mas isso é uma brincadeira, até porque
existem gringos que batem melhor que um carioca. A Unidos da Tijuca, nos
últimos anos, vem falando de temas portugueses. Na bateria da escola tem
algum português devido a esta influência?
Ricardo - Não tem nenhum português na bateria, pelo menos nos tamborins.
Damos muito valor àqueles que vêm ao nosso ensaio. Se hoje nós temos um
tamborim competente no Rio, isso se deve a muito trabalho. O cara que não
sabe bater muito bem eu não vou esculachar. Até porque o cara que não bate
muito bem daqui a um ano pode muito bem aprender a tocar direito, e esse
cara pode, no futuro, vir a ser um integrante da bateria. Não desprezamos
ninguém, nós somos uma família. Quem chegar para somar é bem-vindo. A
pessoa também tem que ter parâmetro. Se não sabe tocar, tem que se tocar.
Eu vou de uma maneira calma colocar isso para ela.

O batuque.com - Quantos integrantes irão sair na Sapucaí?
Ricardo - Serão duzentos e oitenta.

O batuque.com - Quem determina a quantidade de ritmistas?
Ricardo - A diretoria, em conversa com o diretor de bateria. Mas a Tijuca
sai com 280 desde 2001.

O batuque.com - Você não interfere nisso? Por exemplo: gostaria de aumentar
o naipe de tamborins?
Ricardo - Estou satisfeito com meus componentes, mas se achar que está ruim
eu tenho acesso livre ao Celinho para solicitar mais componentes, se for o
caso.

O batuque.com - A Padre Miguel e União da Ilha, em outras décadas, foram
eleitas por integrantes de outras escolas, como a melhor bateria. Na sua
opinião, qual é a melhor atualmente?
Ricardo - Destaco as baterias da Estácio, Unidos da Tijuca e União da Ilha,
nos velhos tempos do Paulão.

O batuque.com - Você sai em outra escola?
Ricardo - Saio como primeiro-diretor na Tuiuti.

O batuque.com - Qual o nome do seu projeto de aulas grátis?
Ricardo - Tamborim Sensação. Aqui na Tijuca ficou atrelado com este nome,
mas também temos outros projetos, como, por exemplo, shows por aí afora. No
Dia das Crianças distribuímos brinquedos no Borel.

O batuque.com - Você pensou em ganhar dinheiro, já que a procura nessa
época é grande devido à aproximidade do carnaval?
Ricardo - Não. O projeto é gratuito e nós fazemos isso por prazer. Já me
ofereceram dinheiro, aulas particulares de tamborim. Não quero dinheiro.
Aos poucos estou fazendo meu nome. Hoje já sou primeiro-diretor na Tuiuti.

O batuque.com - O que o fez dar aulas gratuitas?
Ricardo - Eu sou professor de Matemática e já tenho o dom de ensinar. E até
porque eu fico preocupado em manter a qualidade de minha ala. Temos que
resgatar um ritmista que está por aí e às vezes não sabe que tem esse dom.
Em todas as baterias, nunca a ala de tamborim é completa, tem sempre que
ser completada com amigos de outras escolas. A intenção é formar um grupo
sem precisar de ritmistas de outras escolas. A Tijuca já teve quatro ou
cinco tamborins por ensaio. Hoje em dia, quando dá pouco, temos pelo menos
de 25 a 30 tamborins. É um trabalho sólido que temos hoje aqui, graças a Deus.

O batuque.com - Um momento marcante na Avenida?
Ricardo - Oitenta desfiles nas costas. É difícil lembrar um, mas a
Viradouro em 1998, "Orfeu do Carnaval", foi um momento fantástico,
fabuloso. "Nelson Rodrigues", aqui na Tijuca. A bateria deu um show. Nós
saímos da avenida felizes.

O batuque.com - Parabéns pela sua iniciativa, sucesso no seu projeto e que
a bateria da Unidos da Tijuca faça tão bonito na avenida como está fazendo
nos ensaios.


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