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o Carnaval 2003

"Alô, povão! Agora é sério! Canta, Borel!" O responsável por este grito de guerra é o Nêgo, que além de grande puxador e compositor, também é irmão do seu próprio ídolo, Neguinho da Beija-Flor.

Obatuque - Nome completo?
Nêgo - Edson Feliciano Marcondes

Obatuque - Idade?
Nêgo - Quarenta e uns, (risos). Põe quarenta aí.

Obatuque - Onde você nasceu?
Nêgo - Nasci em Nova Iguaçu, bairro Nova América, no mesmo lugar onde nasceu René do Vasco.

Obatuque - Onde você trabalha?
Nêgo - Antes de ser intérprete, eu trabalhava no Estaleiro Mauá, depois fui pro Cais do Porto onde continuo até hoje e também sou intérprete na Unidos da Tijuca.

Obatuque - De onde vem o apelido “Nêgo”?
Nêgo - Nêgo vem de casa, um apelido carinhoso. Por eu ser o caçula, meus irmãos me deram o apelido de neguinho, depois fiquei maior que o meu irmão, aí trocaram tudo (risos). Eu passei a ser o Nêgo e ele o Neguinho.

Obatuque - Quando você começou no Carnaval?
Nêgo - Comecei em 1976, junto com o Neguinho, que apesar de ser mais velho que eu seis anos, sempre me levava para o samba. E comecei a me espelhar no Neguinho. Em 1983, ganhei meu primeiro samba na Beija-Flor. Era mais ou menos assim: ...E a Muralha que me fascina, quem tem olho grande não entra na China... Depois, ganhei, “... Pina eh eh Pina, a Cinderela negra que ao Príncipe encantou... Depois ganhei junto com o Neguinho, “E tem fuzuê alegrando o Patopi.

Obatuque - Ganhou algum samba em outra escola ou foi só na Beija-Flor?
Nêgo - Fui fazer um teste na Unidos da Tijuca, passei para intérprete. Ganhei em 1988 o samba “Brasil bar Brasil”

Obatuque - Canta pra gente.
Nêgo - Brasil... Bar Brasil
Berço das grandes resoluções
Pra quem se queixa que dá um duro danado
E é mal remunerado
Pro revoltado com as broncas do patrão
Ai, quem me dera se eu fosse um marajá (obá)
Ganhasse a vida sem precisar trabalhar
Mas acontece que é só a minoria
Que desfrita a mordomia
Nessa tal democracia
Apertaram o gatilho num salário baleado
Outra piada depois desse tal Cruzado (bis)

Nêgo - Depois ganhei em 1989 na Tijuca

Nêgo - ... Até o meu Borel ganhou cor bem mais viril
Foi João, foi
Dom rei fujão (bis)
Que trouxe a missão
Que fez da arte a profissão...

Nêgo - Depois ganhei como cantor e compositor.
... Por mares nunca dantes navegados
Meu Borel vem empolgado
Pra mostrar
Terras e eras tão distantes
Um passado emocionante
Vou contar (laraiá...)
Na Idade Média, onde tudo começou
O povo já pensava em ser feliz...

Nêgo - Depois ganhei

... Tá na mesa Brasil, oh, meu Brasil
Ninguém pode censurar
Da elite à raiz
O Rei mandou convidar...

Nêgo - Depois fui pra Grande Rio e fui autor desse Samba

O luar o luar o luar, vem pratear a nossa rua.

Obatuque - O Laíla, me confessou que esse samba foi uma composição com três sambas. Foi isso mesmo?
Nêgo -
Foi. Meu samba entrou com 22 linhas e então foi feita a fusão desses três sambas.

Nêgo - Depois ganhei

... Ei, ei, ei, Chateau é o nosso rei
Fez do rádio a nossa comunicação...

Obatuque - Fez curso de canto?
Nêgo - Eu fiz aulas de canto durante oito anos e até hoje estudo com Dona Filhinha, diafragma

Obatuque - As escolas escolhem o samba que vai ficar melhor na boca do intérprete ou o intérprete é que tem que se virar?
Nêgo - O samba que ganhar, o intérprete tem que fazer algumas observações, mudar alguma coisa, alterar algumas notas, porque ele vai ser o responsável na Avenida juntamente com diretor de bateria, por tudo que vai acontecer na hora do desfile.

Obatuque - A sua opinião já foi determinante para que algum samba fosse o vencedor?
Nêgo - Não. Eu sempre deixo os jurados à vontade. Os jurados decidem. Depois sim, eu dou minha “piruada” converso com o presidente, mudo alguma coisa para que fique melhor. O presidente da Escola é o Fernando Horta, que graças a Deus escolheu um samba ótimo.

Obatuque - De onde surgiu o grito “Alô povão agora é sério”?
Nêgo - Foi no Borel. Logo quando comecei, as pessoas diziam que a Escola não ia ficar bem colocada. Aí eu entrei com aquele grito “Alô povão agora é sério, canta Borel, segura”. (risos)

Obatuque - Os sambas estão sendo criticados porque estão sem melodia, estão retos. Você concorda com isso?
Nêgo - A cada ano, eles têm uma característica. Teve ano que vem maior pra menor, vem reto, vem alegre etc. Eu adoro os sambas de Silas de Oliveira. A característica dos sambas atuais, mudou, até porque tem que ser mais curto, por isso o samba tem que ser mais objetivo. Adoro os sambas antigos, mas as Escolas desfilam com mais de 4.000 componentes e por esse motivo o samba tem que ser mais objetivo.

Obatuque - Existe o samba, marcheado e cadenciado. Qual é o melhor para o seu estilo?
Nêgo - Eu já tive a felicidade de vir com o samba cadenciado na Grande Rio e na Unidos da Tijuca e também já cantei sambas embalados. Eu acho que todos os dois estilos dependem de como a Escola quer se apresentar. Isso depende da característica harmônica da escola. Eu me adaptei com os dois estilos.

Obatuque - Pra ser intérprete, basta ter gogó ou tem que ter afinação?
Nêgo - Você tem que ter afinação. Nenhum ser humano gosta de ouvir uma música desafinada. Nós temos o Jamelão que é super afinado, o Neguinho e muitos outros por aí. O que é a Harmonia da Escola? A Harmonia é o canto, se eu desafinar, todos vão desafinar juntos.

Obatuque - Em que ano você ganhou estandarte de ouro de melhor puxador e a bateria da Grande Rio de melhor bateria? O que aconteceu de fato para isso ocorresse?
Nêgo - Eu ganhei três Estandartes de Ouro, 91, 94 e 99. Você trabalhar com um diretor de bateria como Odilon, Celinho e outros bons pelo Rio de Janeiro, não tem mistério nenhum. É só ter tranqüilidade e fazer um bom trabalho.

Obatuque - Jamelão não gostou quando foi chamado de puxador. Qual sua opinião a respeito desse episódio?
Nêgo - Vale mais o carinho do povo com você. Às vezes a pessoa fala: O Nego é meu puxador. Essa é a maneira da pessoa pronunciar, é a maneira da pessoa te tratar com carinho. Se me chamarem de intérprete, tudo bem, se me chamarem de puxador, não fico chateado.

Obatuque - Seu irmão e Jamelão nunca interpretaram em outra escola. Você concorda que o troca-troca dos intérpretes, faz com que eles percam a identidade com as escolas?
Nêgo - O samba é universal. O Jamelão começou na Mangueira e tem 60 anos de Avenida, o Neguinho começou na Beija-Flor e tem 30 anos de escola. Eu fico feliz de saber que eles têm essa identidade. Isso depende do puxador, eles gostam que o público fique com ele. Fui para a Unidos da Tijuca e fui bem aceito, na Grande Rio também fui bem aceito e no Salgueiro a mesma coisa. A coisa mais importante do mundo é você ter amigos e cada vez mais adquirir mais amigos.

Obatuque - Você já pensou em gravar um CD?
Nêgo - Eu fiz um CD em São Paulo, com a produção de Milton Manhãs. Ficou legal pra caramba. Gostaria de gravar outro CD para mostrar ao público que eu não só canto samba-enredo, eu canto o samba de raiz como o pagode.

Obatuque - Existe algum sindicato dos intérpretes?
Nêgo - Quem cuida da minha carreira é a minha irmã Tina, que é empresária do Neguinho.

Obatuque - Como está sendo a sua volta pra Unidos da Tijuca?
Nêgo - Maravilhosa, a Unidos foi a escola que me deu a primeira oportunidade como cantor. Se eu ficasse na Beija-Flor, seria eternamente o compositor irmão do Neguinho. Hoje é a mesma coisa, como se fosse uma pessoa que estivesse voltando pra casa. A Unidos da Tijuca é maravilhosa, é uma escola de comunidade, que te recebe muito bem.

Obatuque - Tem algum samba que você gostaria de puxar e não puxou?
Nêgo - Eu gostaria de puxar o Dono da Terra, que é do meu compadre Vicente das Neves, que além de ser compositor é uma pessoa que eu adoro.

Obatuque - Um estilo musical?
Nêgo - Roberto Ribeiro

Obatuque - Um ídolo?
Nêgo - Neguinho da Beija-Flor.

Obatuque - Um Intérprete?
Nêgo - Neguinho da Beija-Flor.

Obatuque - Um samba-enredo?
Nêgo - No mundo da Lua

Obatuque - Um time?
Nêgo - Flamengo

Obatuque - Uma escola de samba?
Nêgo - Todas

Obatuque - Um desfile?
Nêgo - 1991 - Tá na mesa Brasil

Obatuque - Um momento marcante?
Nêgo - Meu primeiro Estandarte de Ouro em 1991.

Obatuque - Uma mensagem ao povo da Unidos da Tijuca?
Nêgo - Vamos pra Avenida com um samba forte, uma bateria forte e se Deus quiser estaremos no Desfile das Campeãs, esta é a minha mensagem para este povo maravilhoso.

Obatuque - Nêgo, que você continue sendo essa pessoa simples, simpática e profissional. A Unidos da Tijuca está fazendo um grande trabalho e com certeza, uma dessas grandes conquistas, foi trazer você de volta à Escola. Parabéns.


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