"Alô, povão! Agora é sério! Canta, Borel!" O responsável por este grito de guerra é o Nêgo, que além de grande puxador e compositor, também é irmão do seu próprio ídolo, Neguinho da Beija-Flor.
Obatuque
- Nome completo?
Nêgo
- Edson Feliciano Marcondes
Obatuque
- Idade?
Nêgo
- Quarenta e uns, (risos). Põe quarenta aí.
Obatuque
- Onde você nasceu?
Nêgo
- Nasci em Nova Iguaçu, bairro Nova América, no mesmo lugar
onde nasceu René do Vasco.
Obatuque
- Onde você trabalha?
Nêgo
- Antes de ser intérprete, eu trabalhava no Estaleiro Mauá,
depois fui pro Cais do Porto onde continuo até hoje e também
sou intérprete na Unidos da Tijuca.
Obatuque
- De onde vem o apelido “Nêgo”?
Nêgo
- Nêgo vem de casa, um apelido carinhoso. Por eu ser o caçula,
meus irmãos me deram o apelido de neguinho, depois fiquei maior que
o meu irmão, aí trocaram tudo (risos). Eu passei a ser o Nêgo
e ele o Neguinho.
Obatuque
- Quando você começou no Carnaval?
Nêgo
- Comecei em 1976, junto com o Neguinho, que apesar de ser mais velho que
eu seis anos, sempre me levava para o samba. E comecei a me espelhar no Neguinho.
Em 1983, ganhei meu primeiro samba na Beija-Flor. Era mais ou menos assim:
...E a Muralha que me fascina, quem tem olho grande não entra na China...
Depois, ganhei, “... Pina eh eh Pina, a Cinderela negra que ao Príncipe
encantou... Depois ganhei junto com o Neguinho, “E tem fuzuê alegrando
o Patopi.
Obatuque
- Ganhou algum samba em outra escola ou foi só na Beija-Flor?
Nêgo
- Fui fazer um teste na Unidos da Tijuca, passei para intérprete. Ganhei
em 1988 o samba “Brasil bar Brasil”
Obatuque
- Canta pra gente.
Nêgo
- Brasil... Bar Brasil
Berço das grandes resoluções
Pra quem se queixa que dá um duro danado
E é mal remunerado
Pro revoltado com as broncas do patrão
Ai, quem me dera se eu fosse um marajá (obá)
Ganhasse a vida sem precisar trabalhar
Mas acontece que é só a minoria
Que desfrita a mordomia
Nessa tal democracia
Apertaram o gatilho num salário baleado
Outra piada depois desse tal Cruzado (bis)
Nêgo - Depois ganhei em 1989 na Tijuca
Nêgo
- ... Até o meu Borel ganhou cor bem mais viril
Foi João, foi
Dom rei fujão (bis)
Que trouxe a missão
Que fez da arte a profissão...
Nêgo
- Depois ganhei como cantor e compositor.
... Por mares nunca dantes navegados
Meu Borel vem empolgado
Pra mostrar
Terras e eras tão distantes
Um passado emocionante
Vou contar (laraiá...)
Na Idade Média, onde tudo começou
O povo já pensava em ser feliz...
Nêgo - Depois ganhei
... Tá
na mesa Brasil, oh, meu Brasil
Ninguém pode censurar
Da elite à raiz
O Rei mandou convidar...
Nêgo - Depois fui pra Grande Rio e fui autor desse Samba
O luar o luar o luar, vem pratear a nossa rua.
Obatuque
- O Laíla, me confessou que esse samba foi uma composição
com três sambas. Foi isso mesmo?
Nêgo
- Foi.
Meu samba entrou com 22 linhas e então foi feita a fusão desses
três sambas.
Nêgo - Depois ganhei
... Ei, ei, ei,
Chateau é o nosso rei
Fez do rádio a nossa comunicação...
Obatuque
- Fez curso de canto?
Nêgo
- Eu fiz aulas de canto durante oito anos e até hoje estudo com Dona
Filhinha, diafragma
Obatuque
- As escolas escolhem o samba que vai ficar melhor na boca do intérprete
ou o intérprete é que tem que se virar?
Nêgo
- O samba que ganhar, o intérprete tem que fazer algumas observações,
mudar alguma coisa, alterar algumas notas, porque ele vai ser o responsável
na Avenida juntamente com diretor de bateria, por tudo que vai acontecer na
hora do desfile.
Obatuque
- A sua opinião já foi determinante para que algum samba fosse
o vencedor?
Nêgo
- Não. Eu sempre deixo os jurados à vontade. Os jurados decidem.
Depois sim, eu dou minha “piruada” converso com o presidente,
mudo alguma coisa para que fique melhor. O presidente da Escola é o
Fernando Horta, que graças a Deus escolheu um samba ótimo.
Obatuque
- De onde surgiu o grito “Alô povão agora é sério”?
Nêgo
- Foi no Borel. Logo quando comecei, as pessoas diziam que a Escola não
ia ficar bem colocada. Aí eu entrei com aquele grito “Alô
povão agora é sério, canta Borel, segura”. (risos)
Obatuque
- Os sambas estão sendo criticados porque estão sem melodia,
estão retos. Você concorda com isso?
Nêgo
- A cada ano, eles têm uma característica. Teve ano que vem maior
pra menor, vem reto, vem alegre etc. Eu adoro os sambas de Silas de Oliveira.
A característica dos sambas atuais, mudou, até porque tem que
ser mais curto, por isso o samba tem que ser mais objetivo. Adoro os sambas
antigos, mas as Escolas desfilam com mais de 4.000 componentes e por esse
motivo o samba tem que ser mais objetivo.
Obatuque
- Existe o samba, marcheado e cadenciado. Qual é o melhor para o seu
estilo?
Nêgo
- Eu já tive a felicidade de vir com o samba cadenciado na Grande Rio
e na Unidos da Tijuca e também já cantei sambas embalados. Eu
acho que todos os dois estilos dependem de como a Escola quer se apresentar.
Isso depende da característica harmônica da escola. Eu me adaptei
com os dois estilos.
Obatuque
- Pra ser intérprete, basta ter gogó ou tem que ter afinação?
Nêgo
- Você tem que ter afinação. Nenhum ser humano gosta de
ouvir uma música desafinada. Nós temos o Jamelão que
é super afinado, o Neguinho e muitos outros por aí. O que é
a Harmonia da Escola? A Harmonia é o canto, se eu desafinar, todos
vão desafinar juntos.
Obatuque
- Em que ano você ganhou estandarte de ouro de melhor puxador e a bateria
da Grande Rio de melhor bateria? O que aconteceu de fato para isso ocorresse?
Nêgo
- Eu ganhei três Estandartes de Ouro, 91, 94 e 99. Você trabalhar
com um diretor de bateria como Odilon, Celinho e outros bons pelo Rio de Janeiro,
não tem mistério nenhum. É só ter tranqüilidade
e fazer um bom trabalho.
Obatuque
- Jamelão não gostou quando foi chamado de puxador. Qual sua
opinião a respeito desse episódio?
Nêgo
- Vale mais o carinho do povo com você. Às vezes a pessoa fala:
O Nego é meu puxador. Essa é a maneira da pessoa pronunciar,
é a maneira da pessoa te tratar com carinho. Se me chamarem de intérprete,
tudo bem, se me chamarem de puxador, não fico chateado.
Obatuque
- Seu irmão e Jamelão nunca interpretaram em outra escola. Você
concorda que o troca-troca dos intérpretes, faz com que eles percam
a identidade com as escolas?
Nêgo
- O samba é universal. O Jamelão começou na Mangueira
e tem 60 anos de Avenida, o Neguinho começou na Beija-Flor e tem 30
anos de escola. Eu fico feliz de saber que eles têm essa identidade.
Isso depende do puxador, eles gostam que o público fique com ele. Fui
para a Unidos da Tijuca e fui bem aceito, na Grande Rio também fui
bem aceito e no Salgueiro a mesma coisa. A coisa mais importante do mundo
é você ter amigos e cada vez mais adquirir mais amigos.
Obatuque
- Você já pensou em gravar um CD?
Nêgo
- Eu fiz um CD em São Paulo, com a produção de Milton
Manhãs. Ficou legal pra caramba. Gostaria de gravar outro CD para mostrar
ao público que eu não só canto samba-enredo, eu canto
o samba de raiz como o pagode.
Obatuque
- Existe algum sindicato dos intérpretes?
Nêgo
- Quem cuida da minha carreira é a minha irmã Tina, que é
empresária do Neguinho.
Obatuque
- Como está sendo a sua volta pra Unidos da Tijuca?
Nêgo
- Maravilhosa, a Unidos foi a escola que me deu a primeira oportunidade como
cantor. Se eu ficasse na Beija-Flor, seria eternamente o compositor irmão
do Neguinho. Hoje é a mesma coisa, como se fosse uma pessoa que estivesse
voltando pra casa. A Unidos da Tijuca é maravilhosa, é uma escola
de comunidade, que te recebe muito bem.
Obatuque
- Tem algum samba que você gostaria de puxar e não puxou?
Nêgo
- Eu gostaria de puxar o Dono da Terra, que é do meu compadre Vicente
das Neves, que além de ser compositor é uma pessoa que eu adoro.
Obatuque
- Um estilo musical?
Nêgo
- Roberto Ribeiro
Obatuque
- Um ídolo?
Nêgo
- Neguinho da Beija-Flor.
Obatuque
- Um Intérprete?
Nêgo
- Neguinho da Beija-Flor.
Obatuque
- Um samba-enredo?
Nêgo
- No mundo da Lua
Obatuque
- Um time?
Nêgo
- Flamengo
Obatuque
- Uma escola de samba?
Nêgo
- Todas
Obatuque
- Um desfile?
Nêgo
- 1991 - Tá na mesa Brasil
Obatuque
- Um momento marcante?
Nêgo
- Meu primeiro Estandarte de Ouro em 1991.
Obatuque
- Uma mensagem ao povo da Unidos da Tijuca?
Nêgo
- Vamos pra Avenida com um samba forte, uma bateria forte e se Deus quiser
estaremos no Desfile das Campeãs, esta é a minha mensagem para
este povo maravilhoso.
Obatuque - Nêgo, que você continue sendo essa pessoa simples, simpática e profissional. A Unidos da Tijuca está fazendo um grande trabalho e com certeza, uma dessas grandes conquistas, foi trazer você de volta à Escola. Parabéns.
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