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- Nome completo, idade, onde nasceu.
Milton Cunha - Milton Reis Junior, 41 anos, Belém
do Pará
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- Formação?
Milton Cunha - Sou psicólogo, formado pela Universidade
Federal do Pará.
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- Trabalho fora das escolas de samba?
Milton Cunha - Eu faço cenário de figurinos
para shows, teatro, como free-lancer contratado de produções,
sou comentarista e debatedor da TV Educativa já há quatro anos
e três programas - o Primeiro Time, do Fernando Barbosa Lima, o Sem
Censura, da Leda Nagle e o Comentarista Geral, do Miguel Paiva.
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- O programa em que participa na TV (o Primeiro Time) tem sido bem conceituado.
Como está recebendo isso e como vê essa sua experiência
como debatedor?
Milton Cunha - Antes de ser carnavalesco, fiz teatro a minha
juventude toda. Então, a princípio, eu deveria ser ator e diretor
de teatro, por isso tenho essa coisa de falar em público. Foi depois
que eu me tornei carnavalesco, porém essa sempre foi a minha segunda
opção. O meu verdadeiro sonho é ser apresentador de televisão,
ser ator, diretor, e o fato de eu ser folião e de amar o carnaval também
me dá algum prazer, mas a minha profissão básica é
estar no palco, é apresentar coisas e falar.
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- Na escolinha do tio Milton, na hora do desfile técnico das escolas
de samba, o pessoal parava para ouvi-lo, assisti-lo. Você acha que realmente
tem esse dom para ser um grande apresentador?
Milton Cunha - Realmente, o samba me deu esse crivo. Não
é raramente que eu consigo, numa quadra de escolas de samba, dominar
entre aspas, no bom sentido, cinco mil pessoas, não. É que eu
consigo prendê-las, diverti-las em um ensaio de rua, fazer com que as
pessoas prestem atenção em mim. É muito mais difícil
prender a atenção numa rua do que num teatro. Então o
samba me deu a certeza de que eu nasci pra isso, pra comunicar, pra ser um
comunicólogo, entreter multidões. E eu digo que sim, que acredito
que nasci para isso.
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- Quantos anos de carnaval?
Milton Cunha - Nove anos de carnaval. Estreei na Beija-Flor,
em 1994, “Margaret Mee, a Dama das Bromélias”; em 95, “Bidú
Sayão e o Canto de Cristal”; em 96, “Aurora do Povo Brasileiro”
e em 97, meu último carnaval na Beija-Flor, “A Beija-Flor É
Festa da Sapucaí”. Já em 98, na União de Ilha,
“Fatumbi, a Ilha de Todos os Santos” e em 99, também na
União, “Barbosa Lima, 102 anos de Sobrinho do Brasil”.
EM 2000 eu fiquei parado, descansando, assistindo ao desfile dos outros. Em
2001 fui para São Paulo e fiz a Leandro de Itaquera, “Os Seis
Segredos do Arial” e depois fiz dois anos de Unidos da Tijuca, em 2002
“ O Sol Brilha, Eternamente sobre o Mundo de Língua Portuguesa”
e em 2003 “Agudás , os que Levaram a África no Coração
e Trouxeram para o Coração da África o Brasil”.
Portanto, eu tenho oito anos de carnaval e estou caminhando para o nono, sem
contar o ano em que fiquei parado me reciclando.
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- Quantos prêmios você ganhou como melhor enredo?
Milton Cunha - Com “Fatumbi”, “Língua
Portuguesa” e “Agudás” ganhei o Estandarte de Ouro,
então eu sou tricampeão de estandarte.
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- Neste ano, o último carro, quebrado, não ia prejudicá-lo
no enredo? Eles avaliam pelo que está escrito ou é pelo que
a escola desenvolve no desfile?
Milton Cunha - Olha, eu tinha certeza que ia ser penalizado
pelo júri oficial, porque o manual manda o jurado tirar ponto em conjunto,
enredo e alegoria caso alguma alegoria quebre. Eu tinha certeza que não
estaria na noite das campeãs por causa daquele carro quebrado. Agora,
quanto ao Estandarte, eu percebo que os jurados têm uma visão
mais ampla do que fez o enredo, e não só daquilo que passa na
Avenida. Quer dizer que eles analisam a importância para o carnaval
carioca do enredo proposto, a importância histórica e cultural
e a relevância do enredo para o Brasil, e a partir daí eles premiam.
Então eu acho que eles só não premiam se aquilo que passar
na Avenida for bem fraquinho em relação ao tema proposto.
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- E como foi pegar a Beija-Flor pós-Joãosinho Trinta?
Milton Cunha - Isso nunca me passou pela cabeça, eu
nunca pensei no João, eu nunca pensei na Beija-Flor como a grande escola.
Eu sempre fui muito atirado, o medo é uma palavra que não faz
parte do meu dicionário. Desde de muito criança que eu montei
peças , que estava no palco. Então, para mim, era mais um trabalho
que poderia dar certo ou poderia não dar certo, mas eu não ia
sofrer com antecedência, não sofro de véspera . Deixo
a coisa acontecer e depois escuto o que as pessoas vão dizer. Concluo
o que eu vou achar a partir daí. Nunca me motivou pegar a Beija-Flor
pós-Joãosinho Trinta. O que houve foi que eu brinquei de ser
carnavalesco e deu certo. E era só isso para mim.
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- Já gostava de escolas de samba antes? Acompanhava?
Milton Cunha - Já desfilava, eu sempre amei o carnaval.
A primeira lembrança que tenho de carnaval eu acho que é de
75, lá em Belém do Pará, televisão preto e branco,
vendo “As Minas do Rei Salomão” do João (na Salgueiro),
e quando vim para o Rio, eu disse: “agora vou aproveitar pra desfilar”.
E aí eu desfilei na Mangueira, Salgueiro...Isso nos anos 80, desfilei
na Portela...
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- Notamos que nos ensaios e nos desfiles você se transforma, você
se torna uma pessoa feliz, tanto que você se veste como baiana e outras
coisas. De onde partiu essa idéia de se fantasiar em ensaios ou desfiles?
Milton Cunha - Na verdade, não é uma idéia,
e ela não surgiu em momento nenhum, ela não parte em momento
nenhum. Antes de ser um carnavalesco, eu sou um folião. Antes de ser
um folião, eu sou um artista. Então, eu acho importante você
viver a alegria do carnaval. Voltando àquela questão de que
ser carnavalesco para mim é uma idéia muito pessoal, o carnavalesco
para mim é o cartão de visita da escola. Assim, por que não
me fantasiar? Por que não botar plumas? Por que não botar cabeças?
Bem, se as outras pessoas não querem, paciência, tudo bem, é
cada um na sua. Eles não se vestem, eu me visto, até porque
eu gosto muito de show time, eu gosto muito de perceber a platéia me
olhando, isso não me pesa, não me deixa nervoso, até
porque é um prazer dançar, brincar, falar, me fantasiar... E
é claro que as pessoas percebem o extremo prazer com que faço
essas coisas, e elas percebendo o mundo então já andou e eu
estou satisfeito.
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- O que mais o atraiu como profissional nos desfiles da escolas de samba?
Milton Cunha - O desfile das escolas de samba é uma
grande vitrine, a maior do Brasil, onde um artista plástico cenógrafo
pode expor o seu talento e suas idéias. Então, o que mais me
seduz é a grandeza do espetáculo, os carros alegóricos,
todas as esculturas, todas as fantasias. Nada é pequeno. A escala do
carnaval, a escala da escola de samba é gigantesca, milhares metros
de tecidos, milhares de isopor... Essa grandeza me seduz muito. Poder fazer
oito carros alegóricos, poder trabalhar com uma verba de um milhão
e seiscentos mil reais por ano, isso é muito legal. O espetáculo
é profissionalíssimo, ele anda não enterra. Isso me seduz
muito e eu acho que seduz a todos os artistas brasileiros. Todos cenógrafos
gostariam de estar no carnaval do Rio de Janeiro.
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- Há alguns anos, o barracão da União da Ilha pegou fogo
e você criticou muito a prefeitura por não dar condições
às escolas de trabalhar dentro de um barracão. Você continua
com esse pensamento?
Milton Cunha - Impressionante como um espetáculo tão
profissional, que recebe tanto dinheiro dos órgãos oficiais,
seja feito nos bastidores de forma tão amadora. Que bom que nós
reclamamos tanto, porque agora já saiu do papel a parceria da Liesa
com a prefeitura, com a criação da Cidade do Carnaval, onde
as escolas de samba vão ter um camarim. Ou seja, os barracões
serão novos. Quem não chora não mama, você tem
que realmente pedir melhores condições para que isso ocorra.
Já estou sabendo que agora, em julho de 2004, serão entregues
barracões novos, quatorze barracões. Vamos ter barracões
do nível do espetáculo que a gente apresenta. Outra coisa inadmissível
é o caminho que a gente percorre até chegar à Sapucaí,
cheio de postes, árvores com galhos sem podagem, buracos no asfalto.
Como pode um espetáculo tão maravilhoso e que traz tanto lucro
para o país ser tratado dessa forma? Tomara que o caminho que será
feito entre a Cidade do Samba e o Sambódromo seja melhor.
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- Como você definiria seu estilo de trabalho, em relação
a enredos, materiais e concepção de fantasias e adereços?
Milton Cunha - Eu sou uma pessoa sem referências, rebelde,
que mistura estilos. Eu não vou atrás de escolas pré-concebidas,
escolas que já deram certo. Faço aquilo em que acredito. Então,
meu carnaval é multicolorido, alternativo. Eu apresento novas formas,
apresento novas saídas. Não estou interessado no que já
fizeram. Eu quero que o carnaval ande pra frente e que a gente continue a
pesquisa para apresentar novas coisas.
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- Perguntamos ao Paulo Menezes e ficamos curiosos em saber a opinião
e preferência de outros carnavalescos: luz natural ou luz artificial?
Você, como carnavalesco, tem preferência pelo horário que
sua escola desfile, manhã ou noite?
Milton Cunha - Eu só acho que o problema da manhã
é o cansaço. Eu acho que o sol é bonito nascendo, a luz
do dia clareia as fantasias. Nada como a luz do sol, poderosa como ela é,
para iluminar as fantasias. Mas o horário é muito cansativo.
Você atravessa a madrugada acordado, e isso cansa. Tem pessoas muito
idosas para desfilar, como baianas, velha guarda. A ala das crianças
não tem condições de ficar acordada tão tarde.
Prefiro desfilar entre a terceira e a quinta escola. Mas acho a luz do sol
bonita. Eu vi a luz do sol no “Fatumbi”.
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- O que você mais pensa quando está elaborando um enredo? Na
receptividade junto ao público, na satisfação de desenvolver
um projeto pessoal, divulgar idéias ou assuntos que gostaria de compartilhar
com as comunidades das escolas ou as pessoas em geral...?
Milton Cunha - Tudo isso. Penso que tenho que acreditar no
enredo, para que eu possa ser feliz, para que eu possa dançar e me
exibir. Eu tenho que pensar no público. O público tem que entender,
ainda que eu trabalhe com enredos que ninguém conheça. Eu tenho
a preocupação que a platéia compreenda o que estou contando.
Eu quero ser feliz e quero que o público seja feliz.
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- Costumamos fazer esta pergunta aos carnavalescos: o carnavalesco é
um louco ou uma pessoa normal, mas que viaja um pouco?
Milton Cunha - Eu não diria louco, e sim criativo.
Ele tem que sair da forma tradicional e tentar dar sua imaginação.
Pegar um livro e passar para o carnaval ficaria muito monótono. Você
poderia fazer o descobrimento do Brasil mil vezes, mas se estiver na mão
do artista ele vai dar outra visão, uma visão mais poderosa.
Não existe enredo ruim, e sim falta de artistas que consigam dar honra
e glória. Tem que ser artista para ser carnavalesco.
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- Você falou em cópia. A Liesa está querendo reeditar
antigos carnavais. Sua opinião a respeito?
Milton Cunha - Sou a favor, desde que os artistas modernos
não copiem o que foi apresentado. Acho uma boa idéia você
cantar sambas de antigamente, mas passando com uma roupagem nova. Novas fantasias,
novos carros alegóricos. Os sambas eram mais bonitos, mas o aspecto
visual evoluiu muito. Seria muito legal ouvir aqueles sambas com o visual
de hoje.
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- Você acha que o samba daquela época deveria ser julgado? Já
pensou em um jurado dar nota 8 para “Os Sertões”?
Milton Cunha - O samba é um instrumento vivo. Mesmo
que tenha nascido como uma obra-prima, ele pode ser mal cantado na Avenida.
O samba que funcionou há vinte anos, pode muito bem não funcionar
hoje, ainda que seja uma obra-prima. Isso não desmereceria a qualidade
do samba, e sim a forma que foi cantado na Avenida.
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- É difícil passar uma idéia do papel para o barracão?
Milton Cunha - Não. Você tem que ter talento
para passar a mensagem e transformar na linguagem visual. Tem que ser claro.
A platéia tem que saber que aquela fantasia é a feijoada, que
aquilo ali é o acarajé.
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- Você participa da seleção de samba-enredo das escolas
onde trabalha? E até que ponto considera importante o samba em relação
ao trabalho que você apresenta?
Milton Cunha - Sou procurado pelo presidente para saber da
minha opinião, mas não acho que minha opinião tenha que
ser levada em consideração sozinha. A Harmonia da escola, que
entende muito, também tem que participar e opinar. Todos têm
que conversar para escolher civilizadamente.
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- Como foi a experiência no carnaval de São Paulo?
Milton Cunha - Foi difícil, duro. Trabalhei com uma
verba de quatrocentos e cinqüenta mil reais. Você tem a obrigação
de apresentar grandes carros alegóricos. Meu carnaval foi melhor em
alegoria do que em fantasia, porque a escola não teve dinheiro para
reproduzir a qualidade dos meus protótipos. Trabalhei embaixo de um
viaduto. O barracão é muito ruim. Se eu reclamo dos barracões
aqui do Rio, eu digo que lá são “terrrrívvveis,
terrrivvveiss”... (risos).
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- Há diferenças na concepção dos carros alegóricos
e fantasias entre os carnavais carioca e paulista? Quais seriam?
Milton Cunha - Os carros de São Paulo são mais
retos, sem grandes trabalhos e sem muita originalidade. A escola que trabalhei,
a Leandro de Itaquera, trouxe a equipe de Parintins. Então conseguimos
fazer carros gigantescos e deslumbrantes. No carnaval de São Paulo
dei um passo à frente na minha carreira, que foi uma cobra de duzentos
metros que coloquei na Avenida. A cabeça dessa cobra estava no final
de um carro alegórico e o rabo estava no início de outro. Ou
seja, havia um setor inteiro com essa cobra. Deve ter sido a primeira vez
que um carnavalesco fez uma alegoria de duzentos metros. As laterais da cobra
representavam o encontro dos rios Negro e Solimões. Um lado era todo
barrento e outro lado era todo marrom. A parte da cobra barrenta se confundia
com os brincantes em fantasias dessa cor de um lado e o lado marrom da cobra
se confundia com os brincantes em marrom do outro. Foi um passo à frente.
Agradeço ao carnaval de São Paulo por ter me deixado fazer isso.
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- Você é um carnavalesco que costuma se envolver bastante com
as comunidades das escolas que defende, participando ativamente dos ensaios
técnicos e na promoção de eventos. É esse o seu
“jeito” mesmo de trabalhar?
Milton Cunha - Eu só gostaria de trabalhar assim.
No dia em que não me sobrar tempo para viver a escola eu vou ser um
carnavalesco frustrado. No dia em que não puder participar dos almoços,
dos jantares, dos pagodes, eu não vou gostar. Eu gosto de gente. Não
gosto de ser um carnavalesco que não participe da comunidade. Assim
que sou feliz e eu só vivo pra ser feliz.
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- Como sente-se ao ver um enredo desenvolvido por você ser bem recebido
no Sambódromo?
Milton Cunha - Orgulhosíssimo. Feliz quando a escola
passa bem. É a coroação por um ano de trabalho. É
curioso como o carnaval te dá tanto trabalho, trezentos e sessenta
e quatro dias por uma hora e vinte de desfile. Meu Deus, como pode a gente
se matar tanto para que se acabe tão rápido? Quando a escola
passa bem, é uma glória!
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- Você estava consciente de que se não houvesse a quebra daqueles
carros, você estaria no desfile das campeãs este ano com a Unidos
da Tijuca?
Milton Cunha - Eu e a platéia toda. Havia uma torcida
muito grande. Não foi só o carro. Houve problemas no canto.
O samba, que era tão elogiado, foi mal cantado ou não rendeu
o que tinha que render. Foi uma pena. A Neusa Borges caiu, graças a
Deus já está se recuperando. Enfim, vamos em frente que uma
hora vai dar certo.
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- Qual de seus enredos lhe deu mais satisfação desenvolver?
Milton Cunha - “Fatumbi”. Fatumbi era uma personalidade
humana que me interessava demais. Quando eu crescer quero ser igual a Pierre
Vergê. Como um francês, rico, branco, que abandona seu conforto
e vai morar na África, nas palhoças. Estudar e respeitar a beleza
negra. Eu realizei um sonho e agradeço a ele o meu primeiro Estandarte
de Ouro.
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- E há algum enredo que preferiria esquecer de ter trabalhado?
Milton Cunha - O que menos reflete a minha crença
do que seja carnaval, que seja arte. Eu não faria “ A Beija-Flor
É Festa na Sapucaí”, mas entendi a idéia do Anísio
de homenagear um garoto de 14 anos de Goiás. Foi singelo, mas não
me deu muito prazer em fazer. Não era um enredo que nasceria em mim.
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- Dos enredos que já passaram na Avenida, qual gostaria de ter podido
desenvolver?
Milton Cunha - Vários. “Alô, Alô,
Taí Carmem Miranda”, Império Serrano (1972), eu tenho
esse DNA de Carmem Miranda. Corre nos meus cromossomos, essa coisa de perua
(risos). “A Festa do Círio de Nazaré” (São
Carlos, 1975), para homenagear minha terra. “Brasil: Devagar com o Andor
que o Santo É de Barro”, Unidos da Tijuca (1983) e “Os
Sertões”, Em Cima da Hora (1976), Antonio Conselheiro deslumbrante.
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- Existe algum enredo, ou tema, que o faça pensar: “um dia levo
isso para a Avenida”?
Milton Cunha - Existe, e que será um grande desafio.
O problema será encontrar um escola que tenha coragem de colocá-lo
na Avenida, que é a história da comunidade gay desde o início
dos tempos até os dias atuais. O enredo seria: “O amor que não
Ousa Revelar o seu Nome”, que é uma frase de um dos grandes gays
da humanidade, Oscar Wilde. O enredo começaria com a múmia que
foi encontrada nas geleiras chinesas, que era a “boneca pré-histórica”
(risos). Foram encontrados restos de sêmen no ânus dele. Depois
passaria pela Ilha de Lesbos. A palavra lésbica vem dessa ilha. Na
Grécia, ainda falaria dos meninos que serviam de relação
sexual para os poetas. Iria para a Idade Média, com a fogueira da Inquisição
queimando os gays. Passo por toda Renascença e termino com Rogéria
e Roberta Close, a passeata e o casamento gay. Acho difícil uma escola
aceitar.
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- Como avalia o Carnaval 2003, em relação ao seu trabalho na
Unidos da Tijuca e ao desfile em geral?
Milton Cunha - Belo carnaval, luxuoso, grande. As escolas
deram um show de profissionalismo. Ainda estamos à procura de uma boa
luz, um bom som. No aspecto técnico, estamos chegando lá. No
aspecto do espetáculo em si, estamos num grande nível.
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- Planos para o Carnaval 2004?
Milton Cunha - Estudar cada vez mais. Continuar comentando.
Recebi muitos elogios como comentarista. Quero continuar a fazer carnaval
e que ele fique mais bonito e alegre. Fique com a cara do povo do Brasil.
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- Um samba-enredo?
Milton Cunha - “Bidu Sayão e o Canto de Cristal”
(Beija-Flor, 1995).
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- Um carnavalesco?
Milton Cunha - Joaosinho Trinta.
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- Uma escola?
Milton Cunha - A primeira de todas elas, a grande Mangueira.
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