Obatuque
- Quando o senhor veio para o Brasil?
FH - Em
1965.
Obatuque
- Foi
nessa época que o sr. entrou para o mundo do samba?
FH - Vim
para cá com 12 anos, terminei meus estudos e depois, com 20 anos, entrei
para o samba.
Obatuque
- Qual
sua formação?
FH - Não
cheguei a me formar. Estudei até o quarto ano e depois, por uma questão
profissional, fui trabalhar no comércio, onde estou até hoje
como empresário do ramo de vidro, cristais e galeria de arte.
Obatuque
- Quando o sr. entrou para Unidos da Tijuca?
FH - Em
1983, não como presidente, e sim para ajudar, já que tinha comércio
no bairro.
Obatuque
- Quando
o sr. tornou-se presidente?
FH - Em
1987. De lá para cá nem sempre fui presidente, mas continuava
trabalhando dentro da escola.
Obatuque
- Houve
algum preconceito por parte da comunidade, já que o senhor é
português?
FH - Não,
fui muito bem aceito. Eu não queria, mas a comunidade fez vários
pedidos. Preconceito foi por parte da imprensa e da crítica.
Obatuque
- O
senhor sabe sambar?
FH - Não
sou especialista no assunto. Eu apenas escolho as pessoas certas. Não
sou nenhum passista, mas dou meus passos. (risos)
Obatuque
- O
senhor bate algum instrumento?
FH - Praticamente
todos. Dentro de casa, eu tenho todos os instrumentos. Meu hobby é
bater os instrumentos, um tamborim, um surdo, uma caixa. Não sou especialista,
mas dou meu jeito.
Obatuque
- Já
saiu na bateria?
FH - Não,
porque vou atrapalhar a bateria. (Risos)
Obatuque
- Qual
o samba que o senhor mais gosta de cantar na Unidos da Tijuca?
FH - A
Unidos sempre fez grandes sambas. Eu gosto muito do samba deste ano, mas os
outros também são bons. Agora, o melhor é aquele que
dá o resultado para a escola.
Obatuque
- Quanto
a escola vai gastar este ano?
FH - Nós
investimos o que é necessário para fazer o carnaval. A Unidos
da Tijuca deve ser a escola que mais investe na comunidade. Nós vestimos
três mil pessoas. Isso corresponde a 90% dos componentes, pessoas que
não pagam fantasia.
Obatuque
- Como
é a participação da prefeitura e da LIESA?
FH - A prefeitura dá apenas uma pequena ajuda. Ela
é nossa parceira, porque tem participação na venda dos
ingressos. O dinheiro da escola é arrecadado com os ensaios, os direitos
de imagem de TV e o CD. Já a LIESA nos representa. Ela é que
faz a captação. Não haveria condições de
cada escola fazer as negociações, então foi criada a
Liga para que houvesse essa organização.
Obatuque
- A
Unidos da Tijuca, na sua gestão, desenvolveu vários enredos
com temas portugueses. Até que ponto o sr. tem participação
na escolha dos enredos?
FH - Eu
dei uma cara diferente para a escola. A Unidos da Tijuca é uma escola
que está crescendo muito, ganhando grandes adeptos e eu dei a cara
luso-brasileira à escola. Consegui trazer a comunidade portuguesa,
não só para desfilar, mas também para ajudar financeiramente.
Hoje a Unidos tem uma torcida muito grande. Você está vendo aí
que nossos ensaios estão sempre cheios. Recebemos milhares de e-mails,
talvez seja a página mais consultada na Internet, tanto no Brasil como
em Portugal. Nós tínhamos que dar uma linha para a escola e
conseguimos.
Obatuque
- O
Milton Cunha escolheu um enredo afro. Houve alguma divergência em relação
a essa escolha?
FH - Não,
absolutamente. A escola sempre fala de história do Brasil, e falando
no Brasil sempre vamos falar de Portugal. Quem deu a idéia do enredo
fui eu.
Obatuque
- O
sr. é historiador?
FH - Leio
muito. Como já havia lhe falado, sou ligado à arte, tenho uma
galeria desde a idade de quatorze anos.
Obatuque
- A
escola homenageou o Vasco no seu centenário e desceu para o Grupo de
Acesso. Na sua opinião, foi o Eurico Miranda, presidente do Vasco,
que atrapalhou a escola?
FH - Não
foi o Eurico. Foi carta marcada. Antes de desfilar já estava descendo.
A escola fez um grande carnaval, fez um grande desfile e estava sendo apontada
como uma das favoritas. Foi uma tremenda sacanagem que fizeram com a escola.
Quem fez já morreu.
Obatuque
- De
que forma o Vasco ajuda a Unidos da Tijuca?
FH - O
Vasco nunca ajudou a Unidos da Tijuca. Nós temos um convênio.
O Vasco colocou à disposição da escola sua área
de lazer, sua quadra de esportes, seu parque aquático. O Vasco dá
essa cobertura à nossa comunidade, já que não temos área
de lazer.
Obatuque
- Por
que os ensaios são no Clube dos Portuários e não na própria
quadra no Borel?
FH - A
Unidos da Tijuca fez a primeira quadra coberta do Rio de Janeiro. No momento
que foi criada, ela atendia à comunidade e ao samba. A quadra é
pequena, em um terreno acidentado e não tem condições
de atender à escola. Hoje colocamos aqui nos Portuários de cinco
a seis mil pessoas e lá não temos condições para
isso. Precisamos faturar e lá não dá. Mas não
esquecemos a comunidade, sempre fazemos alguma coisa durante a semana.
Obatuque
- Na
homenagem a Nelson Rodrigues, muitos tricolores reclamaram que não
havia na letra do samba o nome do Fluminense, clube de coração
do Nelson. Foi trauma pelo fato de ter descido falando do Vasco ou foi dedo
do Eurico?
FH - Não,
absolutamente. Aqui, quem manda sou eu. O samba que ganhou, por coincidência,
não falava do Fluminense.
Obatuque
- Qual
o projeto que a Unidos da Tijuca vem realizando junto à comunidade
e quais os projetos que a escola pretende realizar?
FH A Unidos da Tijuca vem desenvolvendo diversos projetos sociais para o pessoal
da terceira idade e para as crianças. Estamos tentando desenvolver
a Vila Olímpica.
Obatuque
- A
Unidos da Tijuca vem desenvolvendo grandes carnavais e crescendo a cada desfile.
Este ano ela vem para ganhar ou vem para se manter no Grupo Especial?
FH - O
ano em que eu fizer carnaval para me manter no Grupo Especial, eu tô
fora. Eu faço para ganhar. A Unidos já fez carnavais que mereciam
o título. Este ano estamos com tudo para isso.
Obatuque
- Um momento triste?
FH - Não
só como presidente da escola, mas também na vida pessoal. Em
1998, o centenário do Vasco, onde a escola desceu.
Obatuque
- Um
momento marcante?
FH - Em
1999, a escola campeã do Grupo de Acesso, com o enredo “O Dono
da Terra”.
Obatuque
- Uma
mensagem para a comunidade.
FH - Eu faço tudo que é possível pela
escola. Espero que ela se comporte bem, porque tudo que a escola se propõe
a fazer, estamos fazendo. Só depende dela para levantarmos este campeonato.
Obatuque
- Presidente
Francisco Horta, foi uma honra entrevistá-lo. Em nome da nossa equipe,
eu agradeço à sua gentileza e desejamos à Unidos da Tijuca
um belíssimo carnaval.
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