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o Carnaval 2003
José Fernando Horta de Souza Vieira, 50 anos, nascido em Portugal, vascaíno, amante de um bom bacalhau, sambista de primeira, ritmista anônimo e sambista declarado, nos concede esta entrevista.

Obatuque - Quando o senhor veio para o Brasil?
FH - Em 1965.

Obatuque - Foi nessa época que o sr. entrou para o mundo do samba?
FH - Vim para cá com 12 anos, terminei meus estudos e depois, com 20 anos, entrei para o samba.

Obatuque - Qual sua formação?
FH - Não cheguei a me formar. Estudei até o quarto ano e depois, por uma questão profissional, fui trabalhar no comércio, onde estou até hoje como empresário do ramo de vidro, cristais e galeria de arte.

Obatuque - Quando o sr. entrou para Unidos da Tijuca?
FH - Em 1983, não como presidente, e sim para ajudar, já que tinha comércio no bairro.

Obatuque - Quando o sr. tornou-se presidente?
FH - Em 1987. De lá para cá nem sempre fui presidente, mas continuava trabalhando dentro da escola.

Obatuque - Houve algum preconceito por parte da comunidade, já que o senhor é português?
FH - Não, fui muito bem aceito. Eu não queria, mas a comunidade fez vários pedidos. Preconceito foi por parte da imprensa e da crítica.

Obatuque - O senhor sabe sambar?
FH - Não sou especialista no assunto. Eu apenas escolho as pessoas certas. Não sou nenhum passista, mas dou meus passos. (risos)

Obatuque - O senhor bate algum instrumento?
FH - Praticamente todos. Dentro de casa, eu tenho todos os instrumentos. Meu hobby é bater os instrumentos, um tamborim, um surdo, uma caixa. Não sou especialista, mas dou meu jeito.

Obatuque - Já saiu na bateria?
FH - Não, porque vou atrapalhar a bateria. (Risos)

Obatuque - Qual o samba que o senhor mais gosta de cantar na Unidos da Tijuca?
FH - A Unidos sempre fez grandes sambas. Eu gosto muito do samba deste ano, mas os outros também são bons. Agora, o melhor é aquele que dá o resultado para a escola.

Obatuque - Quanto a escola vai gastar este ano?
FH - Nós investimos o que é necessário para fazer o carnaval. A Unidos da Tijuca deve ser a escola que mais investe na comunidade. Nós vestimos três mil pessoas. Isso corresponde a 90% dos componentes, pessoas que não pagam fantasia.

Obatuque - Como é a participação da prefeitura e da LIESA?
FH - A prefeitura dá apenas uma pequena ajuda. Ela é nossa parceira, porque tem participação na venda dos ingressos. O dinheiro da escola é arrecadado com os ensaios, os direitos de imagem de TV e o CD. Já a LIESA nos representa. Ela é que faz a captação. Não haveria condições de cada escola fazer as negociações, então foi criada a Liga para que houvesse essa organização.

Obatuque - A Unidos da Tijuca, na sua gestão, desenvolveu vários enredos com temas portugueses. Até que ponto o sr. tem participação na escolha dos enredos?
FH - Eu dei uma cara diferente para a escola. A Unidos da Tijuca é uma escola que está crescendo muito, ganhando grandes adeptos e eu dei a cara luso-brasileira à escola. Consegui trazer a comunidade portuguesa, não só para desfilar, mas também para ajudar financeiramente. Hoje a Unidos tem uma torcida muito grande. Você está vendo aí que nossos ensaios estão sempre cheios. Recebemos milhares de e-mails, talvez seja a página mais consultada na Internet, tanto no Brasil como em Portugal. Nós tínhamos que dar uma linha para a escola e conseguimos.

Obatuque - O Milton Cunha escolheu um enredo afro. Houve alguma divergência em relação a essa escolha?
FH - Não, absolutamente. A escola sempre fala de história do Brasil, e falando no Brasil sempre vamos falar de Portugal. Quem deu a idéia do enredo fui eu.

Obatuque - O sr. é historiador?
FH - Leio muito. Como já havia lhe falado, sou ligado à arte, tenho uma galeria desde a idade de quatorze anos.

Obatuque - A escola homenageou o Vasco no seu centenário e desceu para o Grupo de Acesso. Na sua opinião, foi o Eurico Miranda, presidente do Vasco, que atrapalhou a escola?
FH - Não foi o Eurico. Foi carta marcada. Antes de desfilar já estava descendo. A escola fez um grande carnaval, fez um grande desfile e estava sendo apontada como uma das favoritas. Foi uma tremenda sacanagem que fizeram com a escola. Quem fez já morreu.

Obatuque - De que forma o Vasco ajuda a Unidos da Tijuca?
FH - O Vasco nunca ajudou a Unidos da Tijuca. Nós temos um convênio. O Vasco colocou à disposição da escola sua área de lazer, sua quadra de esportes, seu parque aquático. O Vasco dá essa cobertura à nossa comunidade, já que não temos área de lazer.

Obatuque - Por que os ensaios são no Clube dos Portuários e não na própria quadra no Borel?
FH - A Unidos da Tijuca fez a primeira quadra coberta do Rio de Janeiro. No momento que foi criada, ela atendia à comunidade e ao samba. A quadra é pequena, em um terreno acidentado e não tem condições de atender à escola. Hoje colocamos aqui nos Portuários de cinco a seis mil pessoas e lá não temos condições para isso. Precisamos faturar e lá não dá. Mas não esquecemos a comunidade, sempre fazemos alguma coisa durante a semana.

Obatuque - Na homenagem a Nelson Rodrigues, muitos tricolores reclamaram que não havia na letra do samba o nome do Fluminense, clube de coração do Nelson. Foi trauma pelo fato de ter descido falando do Vasco ou foi dedo do Eurico?
FH - Não, absolutamente. Aqui, quem manda sou eu. O samba que ganhou, por coincidência, não falava do Fluminense.

Obatuque - Qual o projeto que a Unidos da Tijuca vem realizando junto à comunidade e quais os projetos que a escola pretende realizar?
FH A Unidos da Tijuca vem desenvolvendo diversos projetos sociais para o pessoal da terceira idade e para as crianças. Estamos tentando desenvolver a Vila Olímpica.

Obatuque - A Unidos da Tijuca vem desenvolvendo grandes carnavais e crescendo a cada desfile. Este ano ela vem para ganhar ou vem para se manter no Grupo Especial?
FH - O ano em que eu fizer carnaval para me manter no Grupo Especial, eu tô fora. Eu faço para ganhar. A Unidos já fez carnavais que mereciam o título. Este ano estamos com tudo para isso.

Obatuque - Um momento triste?
FH - Não só como presidente da escola, mas também na vida pessoal. Em 1998, o centenário do Vasco, onde a escola desceu.

Obatuque - Um momento marcante?
FH - Em 1999, a escola campeã do Grupo de Acesso, com o enredo “O Dono da Terra”.

Obatuque - Uma mensagem para a comunidade.
FH - Eu faço tudo que é possível pela escola. Espero que ela se comporte bem, porque tudo que a escola se propõe a fazer, estamos fazendo. Só depende dela para levantarmos este campeonato.

Obatuque - Presidente Francisco Horta, foi uma honra entrevistá-lo. Em nome da nossa equipe, eu agradeço à sua gentileza e desejamos à Unidos da Tijuca um belíssimo carnaval.