Obatuque - Quando
você começou no carnaval?
Waldecyr Rosas - Venho
do teatro, sou ator. É meu primeiro ano na União de Jacarepaguá
como carnavalesco, mas já trabalhei em outras escolas, como a União
da Ilha, o Boi da Ilha, a Império da Tijuca e a própria União
de Jacarepaguá, mas nunca como carnavalesco, sempre como ator, na composição
de carros e como bailarino de comissão de frente. Este ano recebi o
convite porque colaborei dois anos com o carnaval da escola. Toda minha vida
tive ligação com a arte. Me formei no teatro como ator e diretor.
Estudei um pouco de figurino, iluminação e sempre trabalhei
com crianças em trabalhos sociais.
Obatuque
- Qual
sua formação ?
Waldecyr Rosas - Sou
formado em artes cênicas. Comecei no carnaval desfilando. Fiz parte
de várias comissões de frente. Meu primeiro convite foi na União
da Ilha, com o Mário Borrielo, homenageando o Glauber Rocha no enredo
“Pra Não Dizer que Não Falei de Flores” (2000).
Comecei a trabalhar com atores fazendo coreografia em carros alegóricos
e a partir disso fiz o segundo ano nessa escola. Ano passado fiz o Boi da
Ilha, trabalhando dois carros. Dirigi o quarto carro da Império da
Tijuca, os palhaços. E há dois anos desenvolvi um trabalho aqui
por intermédio do Mocieira, que me convidou para desfilar, e foi ai
que conheci a escola. No segundo ano dirigi dois carros, quando a escola subiu
para o Grupo de Acesso A com o enredo “A Magia da Dança”
(2000). Em um dos carros, quatro bailarinos dançavam balé clássico
e, em certa hora do samba, eles davam um salto do carro para o asfalto. O
público adorou. Em 2002 peguei cinco carros da escola, graças
ao Jorge Mendes, carnavalesco que me deu muita força. Depois disso
recebi o convite do presidente Reinaldo Bandeiras para o carnaval deste ano.
Obatuque
- Apesar
de não ter pensado em ser carnavalesco, você se inspira em alguém?
Waldecyr Rosas - É
verdade. Eu não cheguei a ser carnavalesco, minha área é
totalmente teatral. Tenho uma ideologia em que acredito. O carnaval se descaracterizou
muito devido à comercialização. Ele perdeu sua função,
que é levar cultura. O povo é inteligente e a melhor forma de
você levar cultura é quando você tem a massa, como na Marquês
de Sapucaí, onde há todos os tipos de pessoas. Eu não
tenho essa visão do carnavalesco. A palavra “carnavalesco”
ainda é forte pra mim. Tenho um carinho muito grande pela escola e
respaldo da diretoria, e isso é gratificante. Me deixam trabalhar e
apoiam minhas loucuras. O Grupo de Acesso é um grupo difícil,
porque é a divisão. O enfoque dado ao Grupo Especial é
muito, então tem que ter criatividade pra tudo. Eu não tinha
um enredo quando fui convidado, então comecei a pensar nas minhas peças
teatrais. Depois que elaborei uma idéia fui mudando. A partir disso,
notei que temos vários caminhos a seguir. Até que chegou em
minhas mãos, por intermédio do Eduardo Pamplona, uma revista
do Globo Rural de 1994, que falava do Boi Zebu. Eu gostei e comentei: “Isso
vai dar samba”.
Obatuque
- Você
falou em loucura. O carnavalesco é louco?
Waldecyr Rosas - Todo
mundo é louco. Só que no artista, a loucura aparece mais, pois
ele tem o compromisso de se expor. Uma pessoa normal se inibe devido à
sociedade. As pessoas têm medo de acreditar nos seus sonhos, o artista
não.
Obatuque
- Você
acha que o povo vai conseguir entender a sua “loucura”?
Waldecyr Rosas - Isso
é muito relativo. Falta divulgação das escolas, não
existe mídia, por isso as pessoas não conseguem entender os
enredos. É uma questão de sentimento. Quando o público
vê e bate palmas, é porque entendeu, ele sentiu. Me lembro do
Joãosinho Trinta, que levou uma ópera para o asfalto e todo
mundo entendeu. Ele não levou os personagens, levou o entendimento
da ópera, o objeto da ópera, a essência. Em reunião
com a comunidade eu destrinchei o enredo todo, falando da Índia, falando
da história de Uberaba, porque no início o enredo fala da Índia,
que foi a origem do gado. Depois fala no Brasil, que é a segunda pátria
do Zebu, e ao mesmo tempo falo da questão histórica.
Obatuque
- O
que está faltando para que os carros alegóricos não quebrem
mais?
Waldecyr Rosas - Estou
há três anos na escola e nunca quebrou um carro, e no Grupo Especial
já houve carros quebrados. Aqui nós trabalhamos com amor. As
pessoas às vezes falam: “O meu coreógrafo é famoso”
e de repente esse coreógrafo não é tão bom quanto
o outro menos famoso. As dificuldades do Grupo de Acesso são grandes,
teria que ser visto isso. Trabalhamos num galpão na Avenida Brasil
que não é adequado para o meu enredo. É um desafio concluir
meu carnaval naquele barracão. Mas tenho uma equipe maravilhosa, que
me ajuda o tempo todo, inclusive dando opinião de qual seria a melhor
forma, porque uma coisa é a teoria e outra coisa é a prática.
A estrutura tem que melhorar, o carnaval é a maior festa do mundo.
Obatuque
- Você
começa o carnaval por alguma ala?
Waldecyr Rosas - Não.
Começo a partir de uma idéia. A minha preocupação
é com a história. Depois que a obra está fechada é
que começo a encaixar a fantasia sem forçar a barra.
Obatuque
- Como
um dos mais novos carnavalescos, você já tem alguma idéia
para o próximo carnaval?
Waldecyr Rosas - Hoje
eu já tenho outros olhares. Quando leio um livro e vejo uma foto ou
uma situação, eu falo: “Isso dá enredo” e
começo a arquivar. Já tenho vários registros, mas por
enquanto só quero pensar no enredo deste ano. (risos)
Obatuque
- Uma
mensagem para a comunidade?
Waldecyr Rosas - Que mantenha a garra, porque está
sendo um trabalho muito difícil. 2002 foi um ano ruim em função
de ser um ano eleitoral, e só começaram a falar de carnaval
agora. Quando nós entrarmos na Sapucaí o carnaval não
é mais meu e nem do Reinaldo Bandeira, é do povo.
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