Na apresentação do enredo da União da Ilha para o Carnaval 2004, o carnavalesco Paulo Menezes mais uma vez cedeu um pouco de seu tempo para atender à reportagem de OBatuque.com.
OBatuque.com
- Ano passado você realizou um belo trabalho na União da Ilha,
muito elogiado e até mesmo premiado, mas a escola, apesar do favoritismo,
acabou não subindo. Como você recebeu o resultado?
Paulo Menezes – Recebi como já recebi alguns
outros no passado. Apesar de a escola ter feito um grande desfile, infelizmente
forças ocultas não deixaram que o resultado fosse aquele esperado
pela mídia e por quem estava na Sapucaí assistindo ao desfile.
Mas são coisas do carnaval e agora é pensar no carnaval de 2004
e ver o que a gente consegue novamente.
OBatuque.com - Apesar de não subir, seu trabalho foi
muito bem recebido pela comunidade, que ficou contente com sua permanência
na escola. Como um carnavalesco recebe uma situação dessas?
Paulo Menezes – É muito gratificante você
desenvolver um trabalho e no final desse trabalho sentir que ele foi correspondido,
que as pessoas compraram a sua idéia, viajaram no seu sonho e querem
continuar fazendo isso, que essa viagem continue acontecendo, que esse sonho
continue acontecendo. É realmente muito gratificante. Esse ano na Ilha
foi o meu carnaval mais feliz, meu carnaval mais tranqüilo e espero que
isso continue acontecendo. Eu estou apaixonado pela escola e gostaria de ficar
por um bom tempo aqui.
OBatuque.com - Seu trabalho tem sido cada vez mais bem conceituado
e muitas escolas, do Grupo Especial inclusive, gostariam de contar com você
no comando do barracão. O que o levou a decidir pela permanência
na União da Ilha, mesmo ainda estando no Grupo de Acesso A?
Paulo Menezes – É justamente isso que falei
anteriormente. É essa simpatia, esse carinho, esse amor que a gente
foi adquirindo pela escola, pelas pessoas que estão aqui. Eu acho que
fazer hoje um carnaval no Grupo Especial é importante, mas não
tanto quanto fazer um carnaval numa escola que acredita no seu trabalho, que
confia no seu trabalho, que deixa você fazer aquilo que quer e que é
o melhor pra você e pra escola. Isso é mais importante do que
estar no Grupo Especial hoje. Pensei muito, recebi alguns convites de escolas
do Grupo Especial, não me arrependo de minha decisão e acho
que essa atitude de permanência na Ilha foi a mais acertada pra mim.
OBatuque.com – Essa sua decisão tem a ver com
o fato de a União da Ilha ser uma escola de porte de Grupo Especial,
pela sua história, sua tradição e pelo potencial que
ela tem para retornar logo ao desfile principal?
Paulo Menezes – Não acho que tenha sido isso
o mais importante. O importante é a maneira como me entrosei com a
escola e que a escola se entrosou comigo. Porque eu acho que o carnaval da
Ilha foi um carnaval muito respeitado desde o início, tanto pelos componentes
da escola, quanto pela mídia, pelas pessoas envolvidas no carnaval.
As pessoas estavam acreditando muito naquilo que a Ilha ia mostrar. Isso pra
mim foi muito recompensador, porque foi a primeira escola de grande porte,
vinda do Especial, diferente da Tuiuti, onde cresci junto com a escola. Agora
estava me vendo na Ilha, que apesar de estar no Grupo de Acesso, é
uma escola que tem um grande respaldo. Então, isso foi muito legal,
muito importante.
OBatuque.com - Você desenvolveu o enredo sobre Maria
Clara Machado a partir de suas obras. Para este ano, a Atlântida seguirá
a mesma linha, sendo contada através de seus filmes? Ou artistas, diretores...?
Paulo Menezes – Não. Esse enredo é completamente
diferente. Vamos estar contando a história da Atlântida, das
chanchadas, mas ao mesmo tempo vamos estar fazendo uma grande brincadeira
em cima do clima do que era a década de 50, do carnaval da década
de 50. Na realidade, o enredo não é sobre a Atlântida,
sobre as chanchadas, é sobre o clima daquela época, que era
uma época feliz, onde as pessoas podiam ser felizes, podiam brincar
o carnaval à vontade. Então, a vontade da Ilha é brincar
o carnaval e sobre isso que é o enredo.
OBatuque.com - A chanchada, apesar de ter um caráter
eminentemente nacional e de todo sucesso que fez, marcando época e
fazendo a história de nosso cinema, costuma ser relegada nos desfiles
de escolas de samba. Tanto o movimento em si, os filmes, como seus ídolos.
A última escola a ter a Atlântida no enredo, ao menos no grupo
principal, foi a Império Serrano, e isso no já distante 1978
(“Oscarito, Carnaval e Samba – Uma Chanchada no Asfalto”,
enredo de Fernando Pinto). Em 1986 a Estácio ainda lembrou Grande Otelo
(“Prata da Noite”, de Oswaldo Jardim). Mas de lá pra cá...
A que você atribuiria esse esquecimento da Atlântida, da chanchada
e de seus ídolos? Ou isso seria apenas uma contingência da oferta
de enredos existentes?
Paulo Menezes – Bem, a Atlântida mesmo, a companhia
cinematográfica, nunca foi enredo no Grupo Especial. Como vocês
sabem, o Oscarito já foi enredo na Império e Grande Otelo na
Estácio. Então, a história da chanchada nunca foi contada
no Grupo Especial. Por que nunca foi contada eu não sei, já
que é um grande enredo pra se colocar na Avenida, tem uma base muito
boa, tem uma plástica muito boa. Não sei por que ainda não
foi contada. Por contingência de enredos patrocinados? Acho que não,
porque isso é uma coisa nova, de cinco anos pra cá. Talvez mesmo
porque ninguém teve a sacada de colocar esse enredo antes no Grupo
Especial.
OBatuque.com - Nessa celeuma que envolveu a decisão
da Liesa sobre os enredos, se seriam inéditos ou reapresentações
de enredos que tiveram grandes sambas, qual era a sua posição?
Paulo Menezes – Diante de tantos enredos patrocinados,
acho que a reedição de grandes enredos do passado teria uma
aceitação melhor, já que são grandes enredos e
seriam grandes carnavais, coisas que alguns enredos marqueteiros que a gente
vai vendo por aí não chegam a ser. Eu não teria nenhum
problema em reeditar enredos, assim como também não teria problemas
em fazer enredos patrocinados, desde que as pessoas patrocinem os enredos
que a gente quer colocar na Avenida. O que eu não gosto é de
ficar fazendo marketing pessoal e não contar história nenhuma,
apenas fazendo propaganda. Isso não uma coisa que me agrade, como também
não agrada nenhum colega meu. As pessoas fazem por contingência
do destino. Eu acho que alguns enredos reeditados, com uma nova visão,
com uma nova cara, podem virar novos enredos e com resultado muito legal.
Aqui na Ilha eu gostaria muito de ter reeditado “1910 – Burro
na Cabeça” (1981). Eu acho que é um grande enredo que
não foi muito bem aproveitado na época e que hoje daria um grande
tema.
OBatuque.com - Apesar de existirem ainda, claro, muitos assuntos
inéditos a passar na Avenida, não parece que, na verdade, a
maioria dos enredos são releituras, ou abordagens diferentes sobre
temas já apresentados?
Paulo Menezes – Eu acho que os enredos são enredos.
As idéias podem ser parecidas, os temas também, mas as leituras
delas são diferentes. Você pode falar da mesma coisa com uma
visão e interpretações diferentes e isso vai acarretar
em carnavais distintos. Eu acho que hoje existem escolas que deixam o enredo
de lado em troca de dinheiro, de patrocínio. Eu acho que o dinheiro
não deve falar mais alto. O que deve falar mais alto é o carnaval.
OBatuque.com - Você particularmente prefere realizar
enredos culturais brasileiros ou enredos livres, internacionais, como atualmente
o regulamento permite?
Paulo Menezes – Bom, eu sou formado em História,
tenho uma visão carnavalesca de que carnaval é cultura. E sendo
cultura, a gente tem a obrigação de mostrar um pouco de cultura
ao nosso povo. E pra mostra isso, a gente tem que mostrar um pouco daquilo
que é nosso, daquilo que é o nosso Brasil. Eu gosto muito disso,
esse caminho que tenho seguido, tenho procurado seguir e acho muito difícil
mudar essa minha visão de ver e fazer o carnaval, porque eu gosto muito
de ser brasileiro, dessa brasilidade que está no sangue da gente. Acho
que esse é um carnaval puro e o caminho do carnaval que eu gosto.
OBatuque.com - Qual sua expectativa sobre o samba da escola,
já que toda quinta-feira, como hoje, você tem uma maratona de
entrevistas com compositores da escola? Como você está percebendo
a compreensão dos compositores e como tem sido o material que está
sendo apresentado?
Paulo Menezes – Para mim está sendo um pouco
surpreendente. Nós já tivemos dois encontros com os compositores
e estão vindo uma série de sambas com uma qualidade muito boa.
Não sei em termos de melodia, já que na quadra com bateria fica
diferente, mas em termos de letra e de interpretação de enredo
estão me surpreendendo, porque as pessoas conseguiram captar muito
o clima daquilo que a gente queria passar na sinopse, do que era a chanchada
e o que era a década de 50. Eu acho que a Ilha vai ter uma disputa
de samba muito boa.
OBatuque.com agradece ao carnavalesco pela entrevista e deseja
sucesso na realização do carnaval 2004.
Paulo Menezes – Obrigado a todos vocês e ao OBatuque.com
por estar sempre prestigiando a União da Ilha, o trabalho da escola
e ao meu também. Um abraço a todos.
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