Paulo Menezes é um carnavalesco da nova geração que vem mostrando muita consistência e competência em seu trabalho. Depois de brilhar com a Paraíso do Tuiuti, inclusive levando a escola ao Grupo Especial - de onde desceu ano passado em decisão injusta para boa parte da mídia -, Paulo tenta levar a União da Ilha de volta ao desfile principal, com um carnaval que promete muitas surpresas na Sapucaí. Em meio ao ritmo alucinante do barracão, o carnavalesco recebeu a reportagem de OBatuque.com e contou um pouco de sua história, suas origens, estilo e influências, além, é claro, da Maria Clara Machado que levará para a Avenida.
OBatuque.com
– Qual seu nome, idade e onde nasceu?
Paulo Menezes – Meu nome é Paulo Menezes, tenho
38 anos e sou carioca de Olaria, terra da Imperatriz Leopoldinense.
OBatuque.com – Qual sua formação?
Paulo Menezes - Sou Historiador, formado em História
pela Universidade Veiga de Almeida.
OBatuque.com – Quais as principais atividades que você
desempenha fora do carnaval?
Paulo Menezes - Fora do carnaval eu sou programador visual.
Trabalho com decoração de lojas, shopping ….
OBatuque.com – Quantos anos de carnaval você
tem?
Paulo Menezes - São dez anos de carnaval.
OBatuque.com – Como foi esse caminho?
Paulo Menezes - Acabou sendo meio que por acaso. Eu sempre
desenhei, desde de criança. Eu já trabalhava e um rapaz, que
fazia o carnaval na Unidos de Manguinhos estava com dificuldade para desenhar
os figurinos, me chamou para desenhar as fantasias pra ele. Só que
no meio do carnaval ele desistiu e a escola pediu para eu tocar o barco. Eu
peguei o trabalho e estou aí.
OBatuque.com – Você já gostava de escola
de samba antes, acompanhava?
Paulo Menezes - Já gostava, eu venho de uma família
de portelenses. Sou do samba desde pequenininho.
OBatuque.com – A partir da sua formação,
profissionalmente, o que o atraiu mais no trabalho com as escolas de samba?
Paulo Menezes - Tudo acabou virando um grande conjunto. Eu
atuo na área de programação visual, que é a plástica
do carnaval. Sou formado em História, que é a parte teórica
do carnaval. Então, acabou juntando as duas coisas e eu consegui unir
o útil ao agradável. Hoje consigo trabalhar unindo a teoria
e a prática e acho que venho conseguindo bons resultados.
OBatuque.com – Como você definiria o seu estilo de trabalho,
em relação a enredos, material, concepção de fantasias
e adereços? Tem uma linha que você segue?
Paulo Menezes - Eu prefiro enredos mesmo. Não gosto
de trabalhar com temas abstratos. Não digo nem que nunca farei um dia,
mas prefiro enredos, onde possa contar uma história que tenha início,
meio e fim. Até mesmo pela minha formação, prefiro trabalhar
com fatos, dentro de um contexto histórico. Pra mim é mais fácil,
é mais rico e mais abrangente. E a minha formação de
carnaval, eu acho que sou da escola de Arlindo Rodrigues e da Rosa Magalhães,
aqueles carnavais, mais conceituais mais históricos e mais detalhistas.
Eu sigo essa linha.
OBatuque.com – De certa forma, você acabou respondendo
nossa próxima pergunta, que seria justamente sobre quais seriam as
pessoas cujo trabalho você admirava e que teriam se tornado um espelho
para sua obra…
Paulo Menezes - É, porque quando era criança
eu sempre gostava de carnaval, mas o que me encantava era poder ver os desfiles
do Arlindo. Eu sempre ficava esperando para ver o que ele iria trazer pra
Avenida. E o trabalho dele foi me influenciando e, hoje, eu acho até
que a Rosa é um Arlindo moderno. Talvez se ele estivesse aqui estaria
trilhando o mesmo caminho que a Rosa está fazendo. São os dois
estilos de carnaval que eu mais gosto, que me identifico mais, e acho que
é o meu caminho no carnaval mesmo.
OBatuque.com – O que você mais pensa quando
elabora um enredo? Na receptividade junto ao público, na satisfação
de desenvolver um projeto pessoal, divulgar idéias ou a oportunidade
de compartilhar assuntos com as comunidades das escolas?
Paulo Menezes - Pela minha formação, quando
estou desenvolvendo um enredo, eu quero sempre trazer um pouco de cultura
para as pessoas, mostrar um pouco de cultura e mostrar um pouco do que é
nosso, do nosso Brasil, da nossa História. Eu tenho bastante dessa
preocupação. Acho que o carnaval é isso. É você
enriquecer a cultura das pessoas. Através dos desfiles das escolas
de samba, você está aguçando a curiosidade das pessoas
para elas procurarem conhecer um pouco mais do que o desfile mostrou. Acho
que o caminho é esse, mostrar um pouco mais da nossa cultura, fazer
com que as pessoas se interessem e conheçam muito de tudo aquilo que
é tão rico no Brasil.
OBatuque.com – Se você estiver passando um enredo
com forte conteúdo cultural e de repente perceber que a receptividade
do público não foi a esperada, Isso pode causar frustração?
Paulo Menezes - Pode sim. Porque se não houve uma
receptividade muito boa, é porque você não conseguiu passar
o seu recado muito bem. Então você tem que procurar trabalhar
isso. Procurar ver onde foram suas falhas, onde foram os defeitos. Carnaval
é muito isso. às vezes você acerta, às vezes você
erra, e vai trabalhando isso com o tempo. É um carnaval atrás
do outro e você vai tentando corrigir suas falhas e amadurecer seu trabalho.
Eu acho que ninguém é perfeito o tempo todo. Em cada carnaval
você pode acertar e errar. Tem carnavais que são mais ricos em
elaboração do que outros, e o trabalho do carnavalesco é
esse, não é perfeição 100%.
OBatuque.com – Diante das dificuldades normais que cada escola
atravessa, como é que você organiza o trabalho de passagem da
idéia do papel para o barracão?
Paulo Menezes - Bom, isso depende muito do orçamento
da escola. Quando você trabalha com uma escola que não tem problemas
financeiros, você voa, faz o que imagina e a escola voa com você
e banca o seu trabalho. Agora, se você trabalha no vermelho, tem que
trabalhar com a máquina de calcular ao lado. Geralmente é isso
que poucos privilegiados conseguem: voar e deixar a imaginação
à solta. Na maioria das vezes, você tem que podar um pouquinho
o seu trabalho, sendo que até isso , apesar do lado ruim, tem seu lado
bom. Você exercita a sua criatividade. Você consegue dar resolutividades
muito melhores na dificuldade financeira. A dificuldade financeira exercita
sua criatividade.
OBatuque.com – Você participa da seleção
dos sambas-enredos das escolas em que trabalha? E até que ponto você
considera importante o samba em relação ao trabalho que você
vai apresentar?
Paulo Menezes - O samba é a voz do enredo. É
através do samba que as pessoas vão conhecer o enredo e se comunicam
com a escola. O samba é a alma viva do carnaval, sem ele não
tem o carnaval. Eu acho que o samba corresponde hoje a 90% do seu carnaval.
Você pode ter um carnaval maravilhoso, mas se não tiver um bom
samba que se identifique com a platéia, você acaba passando em
branco e não vai dizer nada. A plástica pode estar linda, mas
não vai fluir. E às vezes o carnaval não está
nem tão bom, mas o samba é tão bom que pode levar a escola
a ganhar o campeonato.
OBatuque.com – Você tem influência na
escolha do samba?
Paulo Menezes - Olha, isso depende muito da escola onde se
trabalha. Tem escolas onde o carnavalesco exerce total influência sobre
o samba vencedor. E tem escolas nas quais o carnavalesco não tem nenhuma
participação na escolha. Eu acho muito importante a opinião
do carnavalesco, mas também acho que não deva ser primordial.
A gente erra também. Escolhe um samba achando que é o melhor
e o samba não acontece na Avenida. Depende muito do carnaval.
OBatuque.com – “Chega em seu Cavalinho Azul,
uma Bruxinha Boa: a Ilha Trouxe do Céu Maria Clara Machado”.
Como será a Maria Clara Machado que a Ilha levará para a Avenida?
Paulo Menezes - A Maria Clara Machado da Ilha é a
própria União da Ilha. É uma Maria Clara simpática,
alegre, extrovertida, colorida, cheia de vida, cheia de luz. Assim vai ser
o carnaval da gente. Assim que a gente vai entrar na Avenida, mostrando esse
lado brincalhão, alegre e extrovertido da Maria Clara Machado. E resgatando
a imagem da Ilha de ser aquela escola simpática, de atrair o público
e fazer com que as pessoas esperem ela passar.
OBatuque.com – Com quantos carros e componentes a escola vem?
E as surpresas?
Paulo Menezes - As surpresas serão várias na
Avenida, mas são surpresas e eu não posso contar. A gente vem
com cinco carros alegóricos, com 3.100 componentes. É uma escola
grande para o grupo de Acesso A. Estamos fazendo um carnaval bem legal, a
comunidade está feliz com o enredo e a escola está feliz com
o barracão. E as surpresas...É só esperar o carnaval
chegar e com certeza vamos dar um susto na avenida.
OBatuque.com – Você vem de três belos
carnavais na Tuiuti. Sendo que em 2000 com o título e 2002 com o quarto
lugar, você encerrou o desfile, já pela manhã, sempre
usando muito branco e prata, tendo inclusive uma ala em homenagem ao Arlindo
Rodrigues que recebeu o troféu Samba-Net de melhor ala. Você
encerrará o desfile mais uma vez esse ano, agora com a Ilha, usando
as mesmas cores claras?
Paulo Menezes - Não. Na verdade o desfile de 2002
era praticamente uma homenagem ao Arlindo (“Arlindo, Arlequins e Querubins
- um Carnaval no Paraíso”). Mostramos como eram os carnavais
do Arlindo, daí as tonalidades claras. Este ano não. A União
da Ilha vai entrar muito colorida na avenida. Cor atrás de cor. O branco
sempre tem, já que é o refresco do carnaval, mas a União
da Ilha vai ter muita cor, assim como exige o enredo da Maria Clara.
OBatuque.com – Você demostra ter preferência
pelo desfile da manhã. Para o carnavalesco, quais as diferenças
entre a luz natural e a luz artificial em relação a utilização
de materiais?
Paulo Menezes - Realmente eu tenho preferência por
fechar desfile. Esse será o quarto desfile que fecho. Eu acho que a
luz natural é muito mais bonita que a artificial. Tudo reflete realmente
como é. Não tem, artifícios. O azul é azul, o
vermelho é vermelho, o rosa é o rosa. Todas as cores são
aquilo que realmente são. Agora, é rezar pra ter sol, não
chover como no ano passado, e ver que acontece, porque fechar o desfile é
muito mais gostoso do que abrir.
OBatuque.com – Quantos componentes a escola vai vestir?
Paulo Menezes - São 1.200, fora baianas e bateria.
Vai dar em torno de 1.500, 1.600 componentes vestidos pela escola. Com média
de cem componentes em cada ala.
OBatuque.com – Quais outras escolas você trabalhou?
E Quais os enredos que você mais gostou de ter desenvolvido?
Paulo Menezes - Eu comecei em Manguinhos e depois fui em
1994 para a Difícil É o Nome. Foi meu primeiro campeonato na
escola, no Grupo de Acesso B. O enredo foi “Olubaxé - Uma Homenagem
ao Orixá Obaluaê”, que foi um superenredo, foi um grande
carnaval lá. Fiquei lá até 98 e fui para o Engenho da
Rainha, e em 99 fui para a Tuiuti, onde fiquei até o ano passado.
OBatuque.com – Qual desses enredos deu maior prazer
em realizar?
Paulo Menezes - Com certeza foi o em homenagem a Arlindo
Rodrigues, ano passado na Paraíso do Tuiuti. Foi o que me deu maior
prazer, foi o mais maduro, tirando o desse ano, que eu acho o meu carnaval
da Maria Clara Machado o mais maduro, o mais consciente, já que a escola
está comprando a idéia de tudo o que estou querendo fazer em
termos de carnaval, está comprando o meu sonho. Apesar da dificuldade
financeira da escola está acontecendo muita coisa legal. Então,
esse é meu carnaval mais maduro. Agora, o do ano passado também
me deu muito prazer em fazer, porque eu estava falando do Arlindo, uma pessoa
que sempre admirei.
OBatuque.com – Existiram enredos que você desenvolveu
e que tenha achado que faltou algo? Ou que poderia ter feito de outra maneira?
Paulo Menezes - Todos. Quando a gente põe o carnaval
na Avenida sempre acha que está faltando alguma coisa. Nenhum carnaval
é completo, 100%, sempre vai ficar faltando alguma coisa. O artista
que diz que o carnaval dele está completo com certeza vai estar mentindo.
OBatuque.com – Chegou a ter algum tema do qual tenha se arrependido
de fazer e se pensasse de outra maneira, chegaria a conclusão que seria
melhor não tê-lo feito?
Não. Nenhum. Todos eu realizei da maneira que queria e que pude realizar
na época. Existem enredos que, se fosse hoje, poderia até vir
a fazer com um olhar diferenciado, mas isso depende muito do contexto que
você está vivendo na época.
OBatuque.com – Dos enredos que você já
teve a oportunidade de acompanhar na Avenida, ou ter estudado de carnavais
mais antigos, qual deles você gostaria de ter tido a chance de desenvolver
primeiro?
Paulo Menezes - São dois que eu gostaria muito de
ter feito. Um é “O Rei da Costa do Marfim Visita Chica da Silva
em Diamantina” (1983), que é da Imperatriz e foi feito pelo Arlindo,
e o outro é da Imperatriz também, feito pela Rosa Magalhães,
que é “Mais Vale um Jegue que me Carregue do um Camelo que me
Derrube...Lá no Ceará” (1995). São os dois melhores
enredos do carnaval. Se eu tivesse que optar por realizar um releitura, seria
por um desses dois.
OBatuque.com – Qual o seu momento particular mais
marcante no carnaval?
Paulo Menezes - Acho que foi o carnaval de 2001 na Tuiuti,
no Grupo Especial. Porque toda a mídia e a imprensa achou, depois do
carnaval, que a escola não merecia ter descido. Foi compensador. Você
ver que o trabalho foi reconhecido pelas pessoas. Apesar da escola ter caído
de grupo, as pessoas acharam que a escola correspondeu além das expectativas.
Foi bom pessoalmente pra mim e para toda a escola.
OBatuque.com – Um samba enredo inesquecível?
Paulo Menezes - É difícil citar um. Acho que
seria um crime citar apenas um. Existem vários sambas bons e inesquecíveis
por aí. Prefiro não falar um para não ser injusto com
outros.
OBatuque.com – Um carnavalesco?
Paulo Menezes - Eu gosto muito, como já disse, do
Arlindo Rodrigues e da Rosa Magalhães. Mas tem também o Oswaldo
Jardim, que também gosto muito, mas que hoje em dia não está
fazendo carnaval e não deixou escola, não tem ninguém
que segue o mesmo caminho dele. Acho que ele faz muita falta ao carnaval.
OBatuque.com – Uma escola de samba?
Paulo Menezes - União da Ilha do Governador. Uma escola
que está me dando uma felicidade muito grande de trabalhar. Está
me deixando realizar coisas que em outras escolas talvez eu não tivesse
oportunidade de estar trabalhando da mesma maneira. A escola é muito
jovem, alegre, é muito viva. Então isso é muito importante
pra gente, pro artista. A escola está acompanhando o seu pensamento
e está seguindo aquilo que você está pensando e comprando
sua briga.
OBatuque.com – O Jornal OBatuque.com agradece pela
oportunidade de atender nossa equipe com essa parada rápida no trabalho
do barracão.
Paulo Menezes - Obrigado a todos do jornal e aos internautas,
um bom carnaval pra todos e prestem atenção no desfile da Ilha,
que com certeza vai fazer um grande carnaval.
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