Nosso entrevistado dispensa maiores apresentações. O renomado jornalista José Carlos Rego é um dos grandes conhecedores da história do carnaval e da cultura popular em geral. Atenciosamente, José Rego recebeu a reportagem de OBatuque.com e conversou sobre fatos e curiosidades ligados às escolas de samba e toda sua tradição.
Obatuque.com
- Sua idade?
José
Carlos Rego - 67
anos.
Obatuque.com
- Há
quantos anos acompanha o carnaval e as escolas de samba em particular?
José
Carlos Rego - Desde
1958.
Obatuque.com
- Como
começou essa paixão pelo carnaval?
José
Carlos Rego - Bem,
isso já era uma relação de etnia. Como negro, eu sempre
me sensibilizei pelas coisas de carnaval, que é onde o negro tem uma
contribuição muito grande. Nasceu daí.
Obatuque.com
- Sua
escola de coração?
José
Carlos Rego - Eu
sempre respondo isso: “Não me pergunte a que samba que eu vou,
porque eu lhe direi: vou pro Império, sim senhor. Eu sou imperiano
na alegria e na dor!”
Obatuque.com
- Nos
fale um pouco sobre isso, como descobriu a Império Serrano e fale um
pouco da sua escola?
José
Carlos Rego - Mais
ou menos em 1959, o Irene Delgado, que foi um grande cronista carnavalesco,
me pinçou na seção de polícia do jornal Última
Hora, e me perguntou se eu era interessado em fazer carnaval. Eu disse que
sim e ele, então, me pediu para entrevistar Mano Décio da Viola,
na Império Serrano. Como a relação foi integral, eu já
sai de lá imperiano, envolvido pela figura da mansuetude, da poesia,
do Mano Décio da Viola que, se não foi o criador, foi o configurador
do la-ra-iá. Então, eu saí de lá, impressionadíssimo
com a figura do Mano Décio da Viola e incorporei a Império dele.
Obatuque.com
- Como
você vê o Império hoje?
José
Carlos Rego - Essa
questão amorosa... A gente tanto quando a escola está no esplendor
vai ao céu, como quando ela vai ao inferno, a gente também vai
junto, e eu fui para A Império toda vez que desceu. Agora a administração
do Império Serrano já estabilizou, as pessoas estão com
a cabeça no lugar. A Neide é uma excelente presidente e vai
levar a Império ao seu devido lugar.
Obatuque.com
-Como
eram as escolas de samba naquela época, quando o senhor começou
no carnaval?
José
Carlos Rego - Era
o tempo romântico das escolas de samba. A Império Serrano, por
exemplo, nesse período ensaiava na avenida Edgar Romero, mais pra perto
do largo do Vaz Lobo. Era uma quadra muito simples e tudo era com a sonoridade
natural, sem cobertura, sem microfone e aquelas figuras da Império
Serrano, João Fabrício, Antônio Fuleiro, Mulequinho, Mocorongo,
me impressionaram muito e ,em particular, a bateria, que tinha um som que
me tomava de emoção. Mas as escolas de samba eram muito simples.
Nesse período a Mangueira ensaiava praticamente numa quadrinha, que
seria um terço da quadra que é hoje. No Salgueiro, a quadra
era lá no alto do morro, onde agora tem o nome de Casemiro Calça
Larga e é uma área de lazer. Então era um período,
como eu tô dizendo, muito romântico das escolas de samba. O que
se buscava nas escolas de samba era, basicamente, a recreação,
por isso não tinha assim essa questão do dinheiro. Mas determinados
objetivos na representação da cultura popular não dominavam
o samba dessa época. Então era uma representação
muita autêntica, e aquilo me comovia.
Obatuque.com
-E
como eram o desfiles nessa época, muito diferente dos dia de hoje ?
José
Carlos Rego - A
competição era acirradíssima. Os desfiles tinham mais
ou menos esse perfil do que eram as quadras de escola de samba e, quando comecei,
eram realizados na avenida Rio Branco, da Beira-Mar para a Cinelândia.
O que separava o público da escola de samba era a linha do meio-fio
e eu sabia que dali em diante não podia ir porque já vinham
aqueles cavalos afastando as pessoas e, às vezes, ocorria muita violência.
Mas o contato era muito direto e a disputa era acirradíssima.
Obatuque.com
- É
verdade que o mestre-sala surgiu para defender a bandeira da escola contra
a investida de componentes de escolas rivais?
José
Carlos Rego - Nada
disso. As figuras de mestre-sala e da porta-bandeira dentro das escolas de
samba é uma das heranças dos ranchos, que o samba encontrou
quando se organizou em escolas. Mestre-sala e porta-bandeira eram personagens
que já existiam nos ranchos e as escolas de sambas incorporaram. A
comissão de frente, a formação e inúmeras outras
representatividades, como o anúncio de quem vinha através de
um carro alegórico, tudo isso o samba herdou dos ranchos carnavalescos.
Então, rigorosamente, a figura de um dançarino cortejando uma
dançarina, que conduzia a porta-bandeira, tem essa razão.
Obatuque.com
-Também
conta-se que era importante para a escola amarrar o máximo de tempo
na Avenida. Como era isso?
José
Carlos Rego - Bem,
isso se devia a um regulamento, que era livre. Houve um tempo, até
o decorrer dos anos 70, que não existia cronometragem no regulamento
dos desfiles. As escolas tinham um tempo mais ou menos livre e, às
vezes, por uma estratégia para prejudicar os adversários, outras
para dar tempo de corrigir dificuldades dos carros alegóricos daquela
época, que quebravam muito, faziam isso. Esse negócio de eixo
de carros era uma questão terrível. Muitas vezes a escola se
demorava na pista exageradamente por isso. Provocavam atrasos no desenvolvimento
dos concursos e era uma coisa bastante comum naquela época.
Obatuque.com
-Quais
seriam os marcos no tempo mais significativos na evolução das
escolas de samba e dos desfiles? Os divisores de água? Inovações,
mudanças de regulamento...
José
Carlos Rego - No
princípio, as escolas de samba eram abreviações que associavam,
quem? O morador do morro, da favela, que não tinha espaço para
brincar seu carnaval. O carnaval dos anos 30 era o rancho carnavalesco e todas
as comunidades do morro não podiam se habilitar, porque exigiam fantasias
que custavam um pouco mais. Exigiam uma freqüência aos ranchos
carnavalescos com a permanência durante um ano, nas festas dos ranchos,
o que também significava despesas. As escolas de samba nasceram como
um instrumento do gueto. Os moradores das escolas de samba eram do morro,
eram pessoas muito humildes, muito pobres e que criaram esse instrumento como
forma de fazer seu lazer, como forma de passar às ruas cantando, dançando,
porque isso é uma característica dos negros: exibir-se dançando,
dançar, suar através de tambores. Isso vem da própria
religiosidade, vem do Candomblé, da Umbanda, a necessidade desse lazer,
uma necessidade natural. Na etnia negra essa inclinação é
sempre muito grande. O negro é festeiro, é uma raça em
que o lúdico é uma exigência muito grande.
A propósito, o seu marco inicial era isso, congregar as famílias,
botar os moradores daquela comunidade em seu lazer. Os instrumentos eram rústicos,
muitos deles emprestados pelas casas de santo que essas pessoas freqüentavam.
Tanto que o primeiro organizador de carnaval nos anos 20 era um macumbeiro,
o Zé Espinguela, que era da Mangueira e tinha um terreiro de macumba
no Engenho de Dentro. Portanto, essa primeira fase é chamada fase primitiva.
A partir de 1935, quando o prefeito Pedro Ernesto dá reconhecimento
às escolas de samba, incluindo-as no calendário de carnaval
da prefeitura, as escolas ganham uma certa alforria, ganham um foro de representatividade
frente à sociedade, mas ainda continuam naquele período em que
todas as suas quadras eram dentro das comunidade de morro. As exceções
eram raríssimas, e assim foi até os anos 40. Nos anos 40, as
escolas sofrem uma transformação, através do samba-enredo:
a constituição e a introdução do enredo na escola
de samba como um elemento gerador do tema do samba - porque antes as escolas
de samba saíam com um tema e cantavam um samba de terreiro qualquer.
Aqueles mais aplaudidos durante a pré temporada muitas vezes batia
de frente com o enredo, não era obrigatório. Aí, nessa
década de 40, o departamento de sentenças da prefeitura torna
obrigatório que a escola tenha, antecipadamente, um enredo. Então,
as escolas de samba entram nessa fase, que passa a produzir os versos e as
melodias correspondentes ao tema único. Antes, as escolas de samba
saíam até com dois sambas, um chamado de o “samba de chegada”
e o outro, o “samba de saída”, porque a escola de samba
tinha um negócio curioso: nos ano 30 não existia couro sintético.
O couro tinha que ser esquentado à medida que a escola desfilava, porque
o couro ia afrouxando. Então essa parada entre o “samba de chegada”
e o “samba de saída” era uma estratégia. Parava-se,
o presidente se adiantava perante o júri, anunciava seu enredo, discorria
sobre o enredo...E esse era o tempo necessário para se pegar os jornais,
botar fogo e esquentar o couro dos instrumentos. Quando acabava aquela cerimônia
de apresentação, a bateria já estava outra vez condicionada
a dar procedimento ao desfile.
Obatuque.com
- É
verdade que o tamborim era quadrado?
José
Carlos Rego - O
tamborim pode ser quadrado até hoje. O tamborim tem até um instrumento
que o Fuleiro falava muito que era o avô do tamborim, que era o tamborão:
uma placa de meio metro e que só homens fortes batiam, e batiam com
a palma da mão mais à frente. Na própria escola de samba
se instituiu a baqueta ,que é também uma herança dos
candomblés. Nos candomblés batem com akidavi, que é a
vara que se percute nos tambores ligados ao Candomblé. Hoje, temos
a baqueta. Com a baqueta você vai ter uma sonoridade ainda maior e mais
aguda pra bateria, porque a bateria também precisa de uma. Mas essa
questão do tamborim ser quadrado ou redondo, não significa nada.
Podia ser quadrado até hoje.
Obatuque.com
- O
senhor falou de samba-enredo e tema. O Fernando Pamplona questiona muito isso.
O senhor também questiona? O senhor acha que tem escolas de samba que
não fazem samba-enredo, e, sim, tema?
José
Carlos Rego - Eu
não tenho preocupação com isso. A escola de samba sempre
persegue o enredo em que ela opta pra ter. Vejo nada de importante nisso.
Pode anuir bem na passagem do enredo, na contagem do enredo que ela persegue:
bota um figurino nas fantasias adequadas, elevam a idéia do carnavalesco,
as alegorias adequadas ao enredo e um pouco do samba-enredo, quer dizer: eu
não vejo essa diferença toda.
Obatuque.com
- Como
viu a liberdade atual do regulamento, que não limita mais os enredos
das escolas a temas nacionais?
José
Carlos Rego - Pra
mim, o ideal, é que se limitasse a tema nacional, porque a escola de
samba sempre foi um grande veículo de uma descoberta da memória
do Brasil, descoberta da cultura nacional, dos ares, dos valores regionais
e isso me comovia muito. Mas nós temos que viver com o nosso tempo,
e isso chega a esse ponto de que deve se abrir o tema. Porque a fixação
do tema como elemento a ser repassado pela escola de samba era uma herança
que vinha da ditadura e já se decorreu muitos anos da ditadura de Vargas,
que impôs isso às escolas de samba. Eu acho que toda a atividade
cultural deve ser livre, deve ser aberta e aberta a esses caminhos, tanto
que a própria escola de samba está atravessando um período
de mudança. A maioria das escolas de samba tratam de temas históricos
do Brasil. Você pega esse ano a Mangueira: é raro isso, uma escola
de samba tratando de um tema bíblico. Isso é próprio
também da cultura do samba, as mudanças não se fazerem
radicalmente. Isso vai mudando isso aos poucos, sendo uma evolução
natural e temos que respeitar as escolas de samba do jeito que elas são,
e não como queríamos que fosse.
Obatuque.com
- O
sr. tem trabalhos importantes sobre o carnaval e a dança do samba.
Poderia nos falar sobre eles?
José
Carlos Rego - É,
realmente fiz um livro chamado “Dança do Samba - Exercício
do Prazer”, da editora Aldeia. A dança para as manifestações
culturais negras é fundamental. Isso vem de que os orixás negros,
todos eles, têm uma dança com propriedades individuais. O Xangô
dança de uma forma, o Oxossi dança de outra forma. Danças
que representam seus próprios perfis. Xangô é uma dança
rigorosa como ele, deus poderoso e rigoroso. A de Oxossi é rápida
como a sua própria representação de orixá protetor
das matas, protetor do verde, e ele é rápido como o vento descortinando
as folhas. A dança de Oxum é uma dança de sedução,
é uma dança miúda, dança de um orixá feminino
poderoso, que é correspondente a Iansã, e é uma dança
que tem o caráter de Iansã. Aquela instantaneidade da Iansã,
aquela rapidez de repentes que ela tem de humor. Então, estão
todos representados ali. Com isso, em todas as manifestações
da cultura negra, seja na África ou em outros países em que
houve a transferências de povos africanos para eles, as danças
são preponderantes. Tendo essa visão, é que eu me defini
a importância das danças como elemento universal. Em todas as
culturas a dança está representada. Então, eu quis fazer
uma fotografia da dança dentro das escolas de samba. Inclusive mostrando
os ícones da dança em respectivos pequenos perfis dessas pessoas
que sobressaíam com a dança, porque compreendi que assim estaria
traduzindo, de certa forma, a importância cultural do samba.
Obatuque.com
- As
baterias batem para algum santo?
José
Carlos Rego - Fica
sempre um resíduo. Os primeiros instrumentos do samba eram instrumentos
também dos santos. A maioria dos adeptos das escolas de samba, quando
ela surgiu, era de gente do culto aos orixás. As pessoas que vinham
nesses cultos e que batiam no samba traziam resíduos daquela casa -
e toda casa de santo é dedicada a um orixá. Por conseqüência,
dança-se muito mais para aquele orixá na casa dele, do que para
os outros. É natural que fiquem resíduos disso.
Obatuque.com
- A
Mangueira, por exemplo: a marcação única. O senhor sabe
a qual santo é a referência?
José
Carlos Rego - A
Mangueira tem uma vinculação com Oxum, tanto que eles têm
uma Nossa Senhora da Glória lá no alto e, inclusive, têm
seus fundamentos enterrados lá na quadra. Agora, aquela batida da Mangueira,
que é chamada de batida diferente, que o Pandeirinho até vez
um samba, “batida diferente das demais”, foi uma criação
de uma pessoa identificada na Mangueira como Juca Pato. Ele que sinalizou
aquela ausência, que é uma das identidades mais célebres
de bateria do Rio.
Obatuque.com
- De
todos os desfiles que presenciou quais considera mais marcante?
José
Carlos Rego - Muitos,
mas o que mais me tocou, extraordinariamente, foi o de 1988, com a Vila Isabel
apresentando “Kizomba”. Aquele desfile da Vila Isabel surpreendeu
até a ela mesmo, que nunca esperou fazer uma coisa daquelas. A Vila
chegou na concentração para fazer mais um desfile. Não
vinha com aquela coisa “nós vamos fazer um desfile excepcional”.
Eles descobriram que era um desfile excepcional dentro do desfile. Naquele
ano choveu tanto que não houve o desfile das campeãs. Então,
foi uma coisa do tipo: quem viu, viu; quem não viu, não viu.
Obatuque.com
- Poderia
contar alguns fatos curiosos, pitorescos, ocorridos em desfiles?
José
Carlos Rego - Há
muita coisa. Eu me lembro de algo muito interessante. Naqueles anos 60, justamente
quando o regulamento não era tão rigoroso, havia quebra de carro
nos desfiles escolas de samba, e eles então interrompiam o desfile
e passava-se horas na avenida para retomar o desfile. E eu vi uma vez o Geraldo
das Neves, da Mangueira, com o Casquinha, da Portela e o Hélio, da
Cartolinha de Caxias. Parou tanto tempo, que eles começaram a lembrar
o samba-canção que um tinha feito. Aí o outro dizia que
viu outro samba na gafieira assim, assim...E o outro “eu fui ao samba
uma vez e ouvi um seu...” Aí eles começaram a cantar samba-canção
no dia do carnaval, na Avenida, e eu ali como testemunha privilegiadíssima,
ouvindo aquelas maravilhas de sambas-canção e todos eles cantando
fantasiados. Foi uma coisa inesquecível para mim.
Obatuque.com
- Ainda
há espaço para o passista nas escolas de samba? E os passistas
de que ainda resistem, hoje, estão dançando samba mesmo?
José
Carlos Rego - Com
certeza estão dançando samba e, diga-se de passagem, muito bem.
O espaço do passista hoje está muito reduzido. O passista tem
que ou criar uma estratégia pra poder mostrar suas criações,
ou sambar em duas ocasiões certas: uma na concentração,
e outra quando a bateria pára pra se exibir para o jurado dela. Ali
o passista arranja um espaço pra ficar, em frente da bateria ou do
outro lado, embaixo da cadeira do juiz, e se exibe mais. Mas o sistema de
desfile de hoje é realmente um cadafalso paro o passista.
Obatuque.com
-E
para sambas melódicos e cadenciados, ainda há espaço?
Melodia tem sido um ítem um tanto esquecido nos sambas-enredos atuais.
José
Carlos Rego - É
verdade. A aceleração da passagem das alas das escolas de samba
na avenida e necessidade de cumprir o horário fizeram com que se transformassem
o samba-enredo cadenciado de muitas décadas num samba mais apressado,
mais corrido, que realmente quebrou a magia das escolas de samba, que era
passar mais ou menos como o rancho de onde elas vinham. Os ranchos eram lentos,
a própria música dos ranchos, era lenta. Isso era uma carga
de herança muito grande. Aliás, diga-se de passagem, essa forma
de passar mais cadenciada era uma forma de dar maior prazer aos desfilantes,
de o desfile ser mais prazeroso. Contudo, você ainda acaba se divertindo
muito nas escolas de samba. De tempos pra cá a gente reclama de tudo
das escolas de samba, das modificações. Mas podemos observar
bem uma coisa, que hoje é extraordinário, que não havia
antigamente. Quer dizer, não havia com essa constância que se
faz hoje, que é o ensaio de rua. Antigamente, praticamente se fazia
um ensaio de rua e um ensaio geral. Hoje, se faz ensaios de rua. A partir
de janeiro, já há uma nova tradição, que está
se firmando, de ensaiar no próprio local do desfile. Isso aí
significa uma programação na vida de muitas pessoas, que rigorosamente
não fazem fantasias, não desfilam no dia do carnaval, mas desfilam
no ensaio técnico, no ensaio do bairro, toda semana. Isso significa
outro carnaval muito satisfatório, porque é gostoso. Você
desfila, as famílias botam cadeira na calçada pra ver a escola
passar. Você vê lá em Nilópolis isso. Você
pode esperar a escola no seu próprio bairro. Você se inclui nisso.
São transformações prazerosas. Tem pessoas que não
fazem fantasias e brincam muito carnaval nessas ocasiões.
Obatuque.com
- Haveria
alguma influência da gravação do disco das escolas nisso?
Muitas faixas em único álbum?
José
Carlos Rego - Pode
ser que isso tenha contribuído muito também, mas o que contribuiu
decisivamente para a alteração da velocidade do samba-enredo
foi o regulamento, porque o regulamento hoje é cumprido. Antigamente
respeitava-se o regulamento e não dava em nada, pois acabava que sempre
no dia da apuração se arranjava uma forma de não contar
os pontos negativos, resultado de ultrapassagem de horário e outras
irregularidades. Agora, de uns anos pra cá, a Liga transformou isso
em uma questão de respeito. Tirou ponto e vai tirar mesmo ponto da
escola. Resultado: agora as escolas perceberam que a regra é pra valer,
e realmente isso transformou muito o samba.
Obatuque.com
- Como
o sr. vê o futuro das escolas de samba? Para onde evoluirão?
José
Carlos Rego - Isso
a Deus pertence, porque cultura popular, você nunca pode dizer que há
um caminho. Porque de repente se redescobre ou se inventa o caminho. Então,
fazer previsão de como as escolas de samba serão daqui a dez
anos é difícil, porque elas estão aprendendo alguma coisa.
As escolas de samba estão procurando reunir um acervo, e exibir esse
acervo. As escolas de samba mirins têm tido um tratamento mais efetivo,
mais caloroso, mais carinhoso. Então, são elementos que estão
sendo introduzidos nas escolas de sambas, que são transformações
positivas. A gente tem a mania de só olhar para o negativo da escola
de samba. Hoje, você vai à Mangueira, à Império
Serrano, e tem atividade de profissionalização durante o ano
todo. Você vai em julho, no meio do ano, e encontra todos os camarotes
Mangueira ocupados com atividades profissionalizantes, com atividades que
dão rendimentos pras pessoas. Isso é modernidade, que veio aprimorar
esse centro de lazer, centro de atividades culturais que é a escola
de samba.
Obatuque.com
- E
as escolas pequenas, o que o senhor acha para o futuro?
José
Carlos Rego - Eu
desejo que elas cresçam, que elas cresçam e fiquem melhores,
mas que elas continuem um centro de lazer. Pequenininha ela chega lá,
faz um bailezinho no fim de semana, as cabeças-brancas, como eu, vão
jogar cunca - aliás um jogo de cartas que só tem na escola de
samba, meio parecido com o pif-paf -, tem o dominó, a dama...A escola
de samba é um centro de laser, um ponto de encontro de pessoas, e isso
é muito positivo.
Obatuque.com
- Os
enredos de aluguel seriam uma válvula de escape, principalmente para
as escolas menores?
José
Carlos Rego - Não
é a solução. Pode ser uma solução de caráter
financeiro, mas isso sempre caminha para a deformação. A escola
pequena deve ter orgulho de funcionar, porque para funcionar tem que funcionar
bem, seja ela pequena, média ou grande. Tem escola grande que não
funciona bem e tem escola pequena que funciona admiravelmente em relação
a seus objetivos de caráter social.
Obatuque.com
- No
mapa de apuração do desfile do Grupo Especial de 2000, um jurado
de um determinado quesito justificou a nota para uma grande escola falando
em “próximo à perfeição”. O mesmo
jurado, na avaliação de uma escola de menor porte escreveu “próximo
à grande perfeição”. Esse jurado deu nota 9,5 para
a grande, e 8 para a de menor porte. Há esperanças que um dia
esse tipo de distorção – e injustiça - possa acabar?
José
Carlos Rego - Cabeça
de jurado é igual a barriga de mulher, você nunca sabe o que
vai sair dali. Agora esse ditado morreu, porque hoje as mulheres sabem no
terceiro mês o sexo da criança. Mas o julgamento das escolas
de samba é muito cansativo. Já aconteceu comigo em julgamentos
menores, eu queria ter dado nota maior a um samba e dei a outro. Isso é
derivado do cansaço, derivado até da forma da organização,
de como você dar a nota. Mas o certo é que o jurados acertem.
Obatuque.com
- Qual
seria a solução para isso?
José
Carlos Rego - Isso
é questão humana, não tem como mudar.
Obatuque.com
- Um
samba-enredo?
José
Carlos Rego - “Aquarela
Brasileira”, do Império Serrano (Silas de Oliveira, 1964).
Obatuque.com
- Um
compositor?
José
Carlos Rego - Martinho
da Vila.
Obatuque.com
- Um
mestre-sala?
José
Carlos Rego - Delegado,
da Mangueira.
Obatuque.com
- Uma
porta-bandeira?
José
Carlos Rego - Vilma,
da Portela
Obatuque.com
- Um
mestre de bateria?
José
Carlos Rego - Alcídio
Gregório, do Império Serrano.
Obatuque.com
- Uma
passista?
José
Carlos Rego - Maria
Helena, da Mangueira.
Obatuque.com
- Um
passista?
José
Carlos Rego - Joel
Vitalino, do Salgueiro.
Obatuque.com
- Uma
personalidade?
José
Carlos Rego - Paulo
da Portela.
Obatuque.com
- Que
mensagem o sr. deixaria para as comunidades que tanto se esforçam para
colocar o carnaval na avenida e que, com seu suor, produzem o mais fascinante
espetáculo da Terra?
José Carlos Rego - Em primeiro lugar, divirtam-se
com a escola. Tenham a escola como uma coisa prazerosa, que isso já
é um ganho extraordinário para a pessoa como ser humano. Em
primeiro lugar os veículos de escola de samba têm que ser uma
coisa prazerosa, um instrumento de prazer para o ser humano, de brincadeira
,de recreação e até de certo orgulho pessoal, de você
ser de uma escola de samba, até de admirar a escola adversária.
Eu acho que a comunidade do samba deve seguir isso: sobretudo, a felicidade.
|
|||||