o Carnaval 2004
Marco Antonio Pereira Guimarães, 36 anos, carioca de Guadalupe, imperiano, filho de Alcides Gregório, pai de oito filhos (Douglas, Antony, Vitor, Mayara, Gisele, Ingride, Ester e Marcos), ex-menino de rua. Profissão atual: Arrumador de Capatizia no Cais do Porto, além de mestre de bateria e presidente do Instituto Sócio-Cultural Faísca Samba Show. Estamos falando de Mestre Faísca.
Faísca começou sua vida no mundo do samba, na ala das crianças da Império Serrano. Anos mais tarde, passou a ser ritmista da bateria comandada por seu próprio pai. Nessa época, a bateria da Império tinha uma brincadeira, que era punir com um cascudo quem errasse. E por ser arisco e conseguir fugir da punição devido ao erro, Faísca recebeu este apelido.
Apaixonado por um surdo de terceira, Faísca chegou a diretor de bateria da escola da Serrinha, que em 1986 recebeu o Estandarte de Ouro de Melhor Bateria. Mas em 1991 o diretor passou pela pior fase de sua vida com o falecimento de seu pai.
“Foi o pior momento de minha vida. Fiquei sem saber o que fazer, fui morar na rua, embaixo de viadutos. Meu pai dizia que eu ia ser o ‘Discípulo do Discípulo’, ou seja, iria aprender com seus ex-alunos. Hoje, pra mim é uma alegria muito grande ensinar meus discípulo a tocar”, explica, emocionado, o mestre.
Em 1995, a Secretaria de Cultura do Estado fez um convite a Faísca para que, como animador cultural, desse aulas de percussão a menores carentes, com a intenção de formar novos ritmistas e tirar menores da marginalidade. A partir dessa iniciativa, Faísca deu início ao seu próprio projeto.
“Começamos a dar aulas na UFRJ, aqui na Zona Sul, e fizemos muito sucesso. O número de alunos aumentou e, conseqüentemente, o barulho também. A Associação de Moradores da Lauro Müller entrou com uma ação criminal contra mim”, conta Faísca. “Tive que sair de lá e, graças ao convite do sr. Jailton Mangabeira, que faz um bonito trabalho junto ao Samba de Raíz, aqui na Praia Vermelha, passei a dar aulas sem ter problemas”.
Junto à sua equipe de colaborares, como Maria José e Ana Cora, que também são alunas, Faísca foi além e há dois anos é presidente do Instituto Sócio-Cultural Faísca Samba Show. Sem dúvida, o melhor momento da sua vida: “Quando Maria José, hoje vice-presidente do Instituto, me deu a notícia que o CNPJ estava pronto, não me contive e comecei a chorar”, comenta Faísca.
Além do reconhecimento do Instituto pelo Rio de Janeiro e parte do Brasil, Mestre Faísca viajou com seus shows para várias cidades italianas. É no exterior, mais precisamente de um grupo suíço, que poderá vir um maior apoio financeiro, pois hoje o instituto conta apenas com a mensalidade dos alunos, que variam de 30 a 40 reais, para despesas como compra de instrumentos, coro, baquetas, instrutores, passagens etc.
“São várias oficinas e cada uma com cerca de 70 alunos. Tem aluno que já toca todos os instrumentos. Precisamos de recursos para manter o Instituto. Estamos lançando outro projeto, o ‘Viaja que eu fico’: você viaja, que eu fico aqui no Rio tocando, que é muito melhor. Na verdade, é um bloco oriundo de cada oficina, já que, no Carnaval, eu não saio mais como diretor de bateria. Desfilei ano passado pela Vila Rica, mas em 2004 estaremos cuidando dos blocos”.
Por baixo de um terno marrom, com a elegância de um presidente de um instituto e com a garra de um menino que venceu as dificuldades da vida, Mestre Faísca comanda seus alunos com a intenção de formar novos ritmistas, pois, assim como eles, já foi “Discípulo do Discípulo”.