L
a
i
l
a
e
J
a
n
g
a
i
O Batuque - A comissão foi inspirada no Salgueiro?
Laíla – O Salgueiro tinha uma comissão
desde a década de 60, com o primeiro campeonato, Chica da Silva, com
Arlindo Rodrigues, que foi o grande arquiteto, mas tinha outras pessoas colaborando,
dentro da parte de Alegorias e Adereços. Essa comissão foi se
fortalecendo durante os anos e eu tive a felicidade de participar dessa caminhada
do Salgueiro. Aqui na Beija-Flor, a comissão foi por acaso, até
porque no Salgueiro eles não davam o nome de comissão, eles
tinham duas pessoas que comandavam o carnaval. Primeiro foi o Sr. Fernando
Pamplona, que era o homem administrador, e o Arlindo cuidava da parte artística.
O restante era coadjuvante, que muito pouco aparecia, mas muito trabalhava.
Aqui, foi num momento muito especial, pois ninguém pensava que o carnavalesco
da época ia sair, até porque ele já havia dado a palavra
ao seu Anísio que iria ficar. Então, nós fomos pegos
de surpresa, porque ele passou na casa do seu Anísio dizendo que ia
embora, ficando um clima ruim, porque a conversa que rolou é que iria
junto. Na primeira conversa com seu Anísio, ele me sugeriu grandes
nomes e eu achei que não haveria necessidade, porque havia pessoas
dentro de casa. Então surgiu o nome do Carvalho, que poderia ser aproveitado
já que ele estava mexendo com as fantasias etc. Eu falei para o seu
Anísio que era muito cedo, até porque eu já tinha na
minha cabeça uma idéia formada sobre esse poder que se dava
a uma única pessoa, em detrimento de uma série de coisas: detrimento
de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, diretor de Bateria, diretor de Harmonia.
Todas essa pessoas trabalhavam para que, no final, o carnaval seja de fulano.
Mas quando o sapato da porta-bandeira quebra e se perde um carnaval ali, nessa
hora da derrota todo mundo tira. Eis a razão porque sou contra uma
única pessoa participar como carnavalesco da escola. Eu sou um cara
que assumo derrota, eu não assino vitória em nada. Derrota eu
sempre assumi. Porque sempre sobra para alguém, então tem que
sobrar para aqueles que eles têm mais medo.
Surgiu a comissão e o próprio Anísio ficou desconfiado,
porque ele pensava em ter um grande nome. Voltou a conversar comigo e eu firmei
pé dizendo: está na hora de formar uma comissão e vou
lhe garantir que vai ser um grande trabalho. Ele aceitou e tivemos a felicidade
de no primeiro ano falar da Pajelança Cabloca, que me interessei muito
ao ler, e aí fui conhecer dona Zeneida, que nos proporcionou um grande
enredo e no ano seguinte outro grande enredo, que era Agotime, a tataravó
de Zeneida. Então esse é o papel do diretor de carnaval, formar
uma comissão, e hoje a comissão é uma realidade, embora
com um número bem inferior, não por culpa nossa, e sim pela
vaidade do pensamento de cada um.
O
Batuque - Quem deu a idéia do enredo para 2003?
Laíla – Olha! Deixa eu te falar uma coisa. Eu
falo sempre que nunca vou ser carnavalesco. Eu já participei de grandes
obras apresentadas na Avenida com idéias minhas e nunca falei isso
pra ninguém, coisas que de dois anos pra cá estou falando muito.
Todos os enredos, desde a criação da comissão, saíram
do meu pensamento, inclusive a Pajelança Cabocla. O enredo de 2003,
eu dei a idéia do título e o restante da comissão pesquisa
a história. E assim tem dado certo, tanto que quando a idéia
é dada, todos são unânimes. A única exceção
foi O Descobrimento do Brasil, que era obrigatório.
O
Batuque - Como o enredo vai ser desenvolvido na Avenida?
Laíla – O título é tão
fácil! “O Povo Conta a sua História: Saco Vazio Não
Pára em Pé, a Mão que faz a Guerra faz a Paz”.
O Brasil é o país que mais pode entender essa história.
Hoje a gente escuta o presidente que está saindo dizer que no Brasil
não existe fome Pra ele realmente não existe. É de um
sadismo à toda prova, né? Num país onde você não
tem saúde, educação, saneamento, emprego, fica todo mundo
atacando. Por exemplo: a situação de hoje no Rio de Janeiro.
O povo que mora no morro, que desce para fazer coisa errada e o tóxico
está impregnado no morro. Agora, o que fizeram por esse povo? O que
fizeram por mim? Fui moleque nascido e criado no morro. Se eu não tivesse
a minha cabeça, minha formação e a minha índole,
eu teria ido para outro caminho, porque desde a minha infância já
existia isso, só que com número menor. O que fizeram para dar
emprego a esse povo? Não fizeram nada. É muito fácil
falar, mas vai trabalhar ganhando um salário mínimo, ter que
enfrentar o ônibus e depois ter que subir o morro com tantos metros
de altura, sem saneamento, sem água, sem luz etc. Aí a cabeça
pira, o cara vê a facilidade e vai. Era com isso que eles deveriam se
preocupar. Mas só se atacam, os irmãos estão matando
irmãos. Os caras não estão querendo saber de nada. Porque
é a sobrevivência deles. Nós estamos tentando sobreviver
através do trabalho. Todo esse lado social a Escola está se
prontificando a fazer.
Neste momento entra na sala, um dos componentes da comissão, Carlos Fernandes, artista plástico, mais conhecido como Shangai. Nascido e criado no Centro da Cidade há 51 anos. Iniciou sua carreira no Salgueiro. No momento que entra na sala, Laíla comenta:
Laíla
– Quando ele começou no Salgueiro, correu muito de mim (Risos).
Shangai – O Laíla, naquela época era
considerado o cara que só via o erro.
O
Batuque – ele é exigente?
Shangai – O pessoal aqui costuma dizer que eu sou puxa-
saco do Laíla, mas é que sou fã da competência,
e o Laíla é a competência em pessoal. Escuto do Laíla
diariamente, coisas que um garoto de vinte não ouviria, mas ele quer
o melhor de mim e de todos, inclusive dele mesmo. O cara pega sete da manhã
no barracão e não tem hora pra sair da quadra. Aqui 2.000 pessoas
recebem fantasias grátis, eu tenho que falar o que desse cara?
Laíla – Assim vou chorar.
(Risos)
Shangai – Hoje estava comentando com um amigo que o
Laíla recebe 80 ligações, 99 são pedidos de alguma
coisa.
(Risos)
Shangai – Iniciei no Carnaval através do Braga,
fiz carnaval em Manaus, Unidos da Tijuca e voltei ao carnaval através
do Laíla, né? Quando ele montou a comissão, se lembrou
do metal e me chamou. Em 1986, eu fiz o metal da Beija Flor. Nós temos,
talvez, hoje, o atelier de metal mais forte do Rio de Janeiro.
O
Batuque - Houve uma melhoria das escolas, em relação
ao material utilizado nos carros alegóricos. Vocês não
acham que ainda pode haver mais profissionalismo? Até porque tem sempre
um carro quebrado que bate num poste, num muro etc. Um jurado vê essa
avaria e tira pontos. Vocês perderam o carnaval deste ano por um décimo.
A opinião de vocês a respeito deste um décimo?
Laíla – Nós fomos penalizados em cinco carros.
Shangai – Seria importante que os jurados tivessem conhecimento de como
se constrói a “opera de asfalto” chamada de Desfile de
Escola de Samba. Nós temos a pior condição de sair de
onde são confeccionados os trabalhos. Nós somos obrigados a
construir carros alegóricos com mecanismos com altura e largura exata
ao desfile, não é para se movimentar. Só no abre-alas
deste ano tínhamos noventa bichos se mexendo e fomos penalizados por
uma asa. Estivemos na Suíça para fazer um show, os caras pararam
tudo para nos levar até o local. Aqui a gente sai na marra. Então
o que é o acabamento? A Beija-Flor, hoje, talvez seja a escola que
mais prima pelo maior espetáculo, em termos de alegoria e fantasia.
Quando se fabrica alegoria, tem que saber que nós vamos sair num portão
de oito metros. Não é falta de profissionalismo, não,
se falta nas outras escolas eu não sei. Eu gostaria que os jurados
pudessem ver o trabalho da Beija-Flor por baixo, por dentro, porque eu trabalho
com um cara chamado Laíla, que é insuportável em termos
de acabamento. O Laíla é capaz de passar por baixo de um carro
todo acabado e dizer que esquecemos de rebordar embaixo do embaixo.
(Risos)
Laíla – A jurada deveria saber como justificar
a sacanagem dela, porque nem isso ela soube. A justificativa dela não
nos convenceu. Disse ela: “Belíssimas alegorias, idéias
fantásticas, porém, mal acabadas.”
Shangai – Depois que criaram a Liga, o carnaval ficou mais organizado.
Nas reuniões com a Liga, o Capitão falava que fosse visto com
bons olhos, as escolas que procurassem inovações. Me lembro
com se fosse hoje. Não é possível julgar uma comissão
de frente que fizesse 90 movimentos diferentes, com uma que só tira
o chapéu. A pessoa está tentando inovar. Só no nosso
carro 90 animais se mexiam. Foi a primeira vez que se ouviu som de floresta
na Avenida. Quanto valem esses 90 animais? Ela deveria ter peso e medida.
Dizer: o peso pelo movimento é X.
O
Batuque - Laíla, você é considerado um dos melhores
diretores de harmonia e dentro da escola você faz um pouco de tudo.
Como você consegue administrar tudo isso?
Laíla – Primeiramente, não me considero
o melhor. Eu estou pronto para trabalhar e colaborar com o projeto que agente
elabora e sempre foi dessa maneira. A grande verdade é que nasci no
Samba e me meti no Carnaval fazendo alegoria, o que era uma pesquisa, até
porque no início desta entrevista eu falei que participei com grandes
nomes do Carnaval. Quando eu assumi a harmonia de carnaval da Beija-Flor,
eu falei com Anísio que assumiria a Harmonia e a direção
de carnaval, porque não queria ficar discutindo com gente que entende
menos que eu. Por que eu propus isso? O diretor de Carnaval foi criado pra
bater de frente com o diretor de harmonia. A princípio, o Diretor de
Carnaval era o homem de confiança do carnavalesco, com isso o diretor
de harmonia passou a não ser o homem de confiança do carnavalesco
ou da presidência. Porque eles achavam que o diretor de harmonia tinha
poder demais, eles tiravam o poder de quem conhecia demais e levaram para
os que estavam chegando, que não tinha o conhecimento sambista que
nós temos. Então, eu acabei com isso e tem dado certo. Eu não
sou o melhor.
Shangai – Ele pode não ser o mais alto diretor de harmonia, mas
ele tem um problema. Ele tem um coração muito grande. O Laíla
inventou a harmonia. Ele inventou aquele negócio de andar dentro da
escola. A Harmonia hoje vive em cima daquilo que Laíla inventou.
Por que eu digo que Laíla é o sambista do século? Porque
ele veio da ala, ele inventou uma escola que batia em lata. Eu assisto o Laíla
colocar a escola e tirar da Avenida. A cada ano ele tem um jeito de fazer.
O Laíla mexe com o andamento da Escola, a bateria vai andar mais, porque
está grande, está pequena. Eu não sei como funciona,
mas sai no tempo. Tem hora que dá 78 minutos, ele vai lá e tira.
Hoje nós temos uma cadeira chamada harmonia, que nada mais é
que a experiência do Laíla.
O
Batuque - O Alexandre Louzada reclamou que não teve participação
na escolha de samba da Portela. Como vocês participam da escolha na
Beija-Flor? O carnavalesco realmente tem que participar ou não?
Laíla – Aqui quem escolhe é a comunidade,
juntamente com o pensamento da Comissão. Já trabalhei com o
Alexandre na Grande Rio e ele escolheu um samba e eu juntei três. Foi
aquele samba: “O luar, o luar....” . Fui juntar na casa dele junto
com seu Jaime Soares. Ele não teve participação, porque
o modelo lá é diferente do daqui. Aqui ele teria participado.
O
Batuque - Várias escolas de samba já contaram sua própria
história, quando a Beija-Flor vai contar a sua?
Shangai – Nós somos uma direção.
O
Batuque - Vocês se acham caçula para contar uma historia?
Shangai – Nós já temos uma cara. Hoje a idéia da
comissão é exaltar o povo brasileiro. Começou com Patuanu,
trazendo histórias que o povo brasileiro ainda não conhece.
Laíla – Na segunda parte do desfile a Beija-Flor
vai contar sua história.
Shangai – Nos fazemos um pouco diferente. Falamos da aviação
ao mesmo tempo em que o Salgueiro. Só que nós falamos do ímpeto
de voar, não falamos da máquina, não levamos pra lá
um avião. Levamos o momento avião, o pensamento avião,
o homem avião. A Beija-Flor tem essa maneira de falar, até mesmo
de si. Hoje, neste enredo, falaremos que surgiu na Baixada uma poderosa guerreira
que já vestiu seus soldados com reis e rainhas. Já protegeu
prostitutas, mendigos. Deu cultura ao pobre. A história da Beija-Flor
é a historia desse povo. A fome e a miséria não são
coisas de hoje, porém existe no centro de Nilópolis um modelo
que deu certo, de apoio à comunidade. Nos temos o CAC – Centro
de Atendimento à Comunidade, onde se profissionalizam milhares de pessoas.
O nosso presidente de honra mantém a creche e educandário. A
Beija-Flor não tem ensaio comercial, a Beija-Flor ensaia as segundas
e quintas-feiras. A Beija-Flor está voltada para o seu poder maior,
pra sua raíz, pra sua comunidade. Por isso a Beija Flor faz esse grande
desfile. Você vai lá segunda-feira, tem duas mil pessoas ensaiando.
O
Batuque - O fato de a Beija-Flor passar a ser um escola popular nos
últimos anos, até porque ela era considerada uma escola anti-social,
se deve a este apoio à comunidade de Nilópolis?
Shangai – Exatamente. Já coloquei isso, foi
um processo de volta à comunidade. A cara deste enredo é enaltecer
o povo brasileiro. O Patuanu foi o marco, a Beija-Flor começa a cantar
par o povo, começa a enaltecer o emotivo.
O
Batuque - O povão reclama que não entende os enredos
por achá-los rebuscados. Vocês também não acham
que têm enredos complicados? Você acha que o carnavalesco é
um gênio ou é uma pessoa normal, mas que viaja um pouco?
Shangai – Gênio é uma pessoa normal. Você
ser normal é genial. Não tenha dúvida. O que é
ser normal? É estar bem com a natureza, com o ser. Coisa muito difícil.
Agora, a obra cada um escreve como sabe, como pode. Tem pessoas que rebuscam.
Tem pessoas que intelectualizam coisas populares. Na verdade, a clareza está
no desfile. Um desfile de arte popular. O desfile de uma escola de samba é
levar para Avenida o trabalho de um ano em uma comunidade. Houve um BOOM,
onde as escolas se elitizaram. Não acabaram porque voltaram para as
raízes. Nos temos alas mirins com 200 componentes da escola. O que
é uma ala mirim? Uma ala mirim é o amanhã dessa escola.
Então, essa volta para a comunidade é que está fazendo
com que haja mais clareza no enredo. A Beija-Flor nos últimos anos
tem feito os melhores sambas-enredos, ao contrário de outros anos,
onde a escola cantava mal. Sambas populares. A sinopse que estou te entregando
está clara de como vai ser nosso desfile.
O
Batuque - Um momento marcante na Avenida?
Shangai – Todo mundo que desfila pela primeira vez,
chora ali.
O
Batuque - Você chorou?
Shangai – Sem dúvida. No Salgueiro, com dona
Beija. Você já chorou? A primeira vez a gente não esquece.
O
Batuque - Vocês são a favor de que a criança
comemore o Haloween, aqui no Brasil?
Shangai - Não sou contra, sou a favor de todo tipo
de comemoração. Nós somos o fruto da miscigenação.
O povo brasileiro é fantástico por causa disso. Até o
Haloween está dentro de nós, olha aonde nós chegamos.
O
Batuque - O que o torcedor da Beija-Flor pode esperar da escola no
ano que vem?
Shangai – O torcedor pode esperar o que tem acontecido.
Não temos parâmetros para consertar, estamos crescendo naturalmente.
Estamos tranqüilos, leves e soltos. Vamos levar para a Avenida, sem dúvida,
o maior desfile que a Sapucaí já viu.
O
Batuque - Lula presidente, o que vocês gostariam que ele fizesse
pela cultura brasileira?
Shangai – O que é cultura? Cultura é
academia? Então o índio não era culto? O Lula vai levar
para o palácio a cultura popular brasileira. A cultura popular brasileira
é a inteligência. Acredito que o Lula fará um grande governo.
Iremos homenageá-lo no nosso desfile.
O
Batuque - Em nome da nossa equipe, agradeço a gentileza deste
bate-papo. Para o batuque.com, é uma honra entrevistá-los. Desejamos
à Beija-Flor um grande desfile em 2003. Obrigado.
|
|||||||
| |
|||||||
| |
|||||||