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o Carnaval 2003


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Luis Fernando de Oliveira do Carmo, o Laíla. Nascido no Rio de Janeiro, iniciou a carreira no Salgueiro. Hoje, aos 59 anos, é considerado um dos maiores diretores de harmonia de todos os tempos, fazendo parte da comissão de carnaval da Beija-Flor. Laíla gentilmente nos concedeu esta entrevista.


O Batuque - A comissão foi inspirada no Salgueiro?
Laíla – O Salgueiro tinha uma comissão desde a década de 60, com o primeiro campeonato, Chica da Silva, com Arlindo Rodrigues, que foi o grande arquiteto, mas tinha outras pessoas colaborando, dentro da parte de Alegorias e Adereços. Essa comissão foi se fortalecendo durante os anos e eu tive a felicidade de participar dessa caminhada do Salgueiro. Aqui na Beija-Flor, a comissão foi por acaso, até porque no Salgueiro eles não davam o nome de comissão, eles tinham duas pessoas que comandavam o carnaval. Primeiro foi o Sr. Fernando Pamplona, que era o homem administrador, e o Arlindo cuidava da parte artística. O restante era coadjuvante, que muito pouco aparecia, mas muito trabalhava. Aqui, foi num momento muito especial, pois ninguém pensava que o carnavalesco da época ia sair, até porque ele já havia dado a palavra ao seu Anísio que iria ficar. Então, nós fomos pegos de surpresa, porque ele passou na casa do seu Anísio dizendo que ia embora, ficando um clima ruim, porque a conversa que rolou é que iria junto. Na primeira conversa com seu Anísio, ele me sugeriu grandes nomes e eu achei que não haveria necessidade, porque havia pessoas dentro de casa. Então surgiu o nome do Carvalho, que poderia ser aproveitado já que ele estava mexendo com as fantasias etc. Eu falei para o seu Anísio que era muito cedo, até porque eu já tinha na minha cabeça uma idéia formada sobre esse poder que se dava a uma única pessoa, em detrimento de uma série de coisas: detrimento de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, diretor de Bateria, diretor de Harmonia. Todas essa pessoas trabalhavam para que, no final, o carnaval seja de fulano. Mas quando o sapato da porta-bandeira quebra e se perde um carnaval ali, nessa hora da derrota todo mundo tira. Eis a razão porque sou contra uma única pessoa participar como carnavalesco da escola. Eu sou um cara que assumo derrota, eu não assino vitória em nada. Derrota eu sempre assumi. Porque sempre sobra para alguém, então tem que sobrar para aqueles que eles têm mais medo.
Surgiu a comissão e o próprio Anísio ficou desconfiado, porque ele pensava em ter um grande nome. Voltou a conversar comigo e eu firmei pé dizendo: está na hora de formar uma comissão e vou lhe garantir que vai ser um grande trabalho. Ele aceitou e tivemos a felicidade de no primeiro ano falar da Pajelança Cabloca, que me interessei muito ao ler, e aí fui conhecer dona Zeneida, que nos proporcionou um grande enredo e no ano seguinte outro grande enredo, que era Agotime, a tataravó de Zeneida. Então esse é o papel do diretor de carnaval, formar uma comissão, e hoje a comissão é uma realidade, embora com um número bem inferior, não por culpa nossa, e sim pela vaidade do pensamento de cada um.

O Batuque - Quem deu a idéia do enredo para 2003?
Laíla – Olha! Deixa eu te falar uma coisa. Eu falo sempre que nunca vou ser carnavalesco. Eu já participei de grandes obras apresentadas na Avenida com idéias minhas e nunca falei isso pra ninguém, coisas que de dois anos pra cá estou falando muito. Todos os enredos, desde a criação da comissão, saíram do meu pensamento, inclusive a Pajelança Cabocla. O enredo de 2003, eu dei a idéia do título e o restante da comissão pesquisa a história. E assim tem dado certo, tanto que quando a idéia é dada, todos são unânimes. A única exceção foi O Descobrimento do Brasil, que era obrigatório.

O Batuque - Como o enredo vai ser desenvolvido na Avenida?
Laíla – O título é tão fácil! “O Povo Conta a sua História: Saco Vazio Não Pára em Pé, a Mão que faz a Guerra faz a Paz”. O Brasil é o país que mais pode entender essa história. Hoje a gente escuta o presidente que está saindo dizer que no Brasil não existe fome Pra ele realmente não existe. É de um sadismo à toda prova, né? Num país onde você não tem saúde, educação, saneamento, emprego, fica todo mundo atacando. Por exemplo: a situação de hoje no Rio de Janeiro. O povo que mora no morro, que desce para fazer coisa errada e o tóxico está impregnado no morro. Agora, o que fizeram por esse povo? O que fizeram por mim? Fui moleque nascido e criado no morro. Se eu não tivesse a minha cabeça, minha formação e a minha índole, eu teria ido para outro caminho, porque desde a minha infância já existia isso, só que com número menor. O que fizeram para dar emprego a esse povo? Não fizeram nada. É muito fácil falar, mas vai trabalhar ganhando um salário mínimo, ter que enfrentar o ônibus e depois ter que subir o morro com tantos metros de altura, sem saneamento, sem água, sem luz etc. Aí a cabeça pira, o cara vê a facilidade e vai. Era com isso que eles deveriam se preocupar. Mas só se atacam, os irmãos estão matando irmãos. Os caras não estão querendo saber de nada. Porque é a sobrevivência deles. Nós estamos tentando sobreviver através do trabalho. Todo esse lado social a Escola está se prontificando a fazer.

Neste momento entra na sala, um dos componentes da comissão, Carlos Fernandes, artista plástico, mais conhecido como Shangai. Nascido e criado no Centro da Cidade há 51 anos. Iniciou sua carreira no Salgueiro. No momento que entra na sala, Laíla comenta:

Laíla – Quando ele começou no Salgueiro, correu muito de mim (Risos).
Shangai – O Laíla, naquela época era considerado o cara que só via o erro.

O Batuque – ele é exigente?
Shangai – O pessoal aqui costuma dizer que eu sou puxa- saco do Laíla, mas é que sou fã da competência, e o Laíla é a competência em pessoal. Escuto do Laíla diariamente, coisas que um garoto de vinte não ouviria, mas ele quer o melhor de mim e de todos, inclusive dele mesmo. O cara pega sete da manhã no barracão e não tem hora pra sair da quadra. Aqui 2.000 pessoas recebem fantasias grátis, eu tenho que falar o que desse cara?
Laíla – Assim vou chorar.
(Risos)
Shangai – Hoje estava comentando com um amigo que o Laíla recebe 80 ligações, 99 são pedidos de alguma coisa.
(Risos)
Shangai – Iniciei no Carnaval através do Braga, fiz carnaval em Manaus, Unidos da Tijuca e voltei ao carnaval através do Laíla, né? Quando ele montou a comissão, se lembrou do metal e me chamou. Em 1986, eu fiz o metal da Beija Flor. Nós temos, talvez, hoje, o atelier de metal mais forte do Rio de Janeiro.

O Batuque - Houve uma melhoria das escolas, em relação ao material utilizado nos carros alegóricos. Vocês não acham que ainda pode haver mais profissionalismo? Até porque tem sempre um carro quebrado que bate num poste, num muro etc. Um jurado vê essa avaria e tira pontos. Vocês perderam o carnaval deste ano por um décimo. A opinião de vocês a respeito deste um décimo?
Laíla – Nós fomos penalizados em cinco carros.
Shangai – Seria importante que os jurados tivessem conhecimento de como se constrói a “opera de asfalto” chamada de Desfile de Escola de Samba. Nós temos a pior condição de sair de onde são confeccionados os trabalhos. Nós somos obrigados a construir carros alegóricos com mecanismos com altura e largura exata ao desfile, não é para se movimentar. Só no abre-alas deste ano tínhamos noventa bichos se mexendo e fomos penalizados por uma asa. Estivemos na Suíça para fazer um show, os caras pararam tudo para nos levar até o local. Aqui a gente sai na marra. Então o que é o acabamento? A Beija-Flor, hoje, talvez seja a escola que mais prima pelo maior espetáculo, em termos de alegoria e fantasia. Quando se fabrica alegoria, tem que saber que nós vamos sair num portão de oito metros. Não é falta de profissionalismo, não, se falta nas outras escolas eu não sei. Eu gostaria que os jurados pudessem ver o trabalho da Beija-Flor por baixo, por dentro, porque eu trabalho com um cara chamado Laíla, que é insuportável em termos de acabamento. O Laíla é capaz de passar por baixo de um carro todo acabado e dizer que esquecemos de rebordar embaixo do embaixo.
(Risos)
Laíla – A jurada deveria saber como justificar a sacanagem dela, porque nem isso ela soube. A justificativa dela não nos convenceu. Disse ela: “Belíssimas alegorias, idéias fantásticas, porém, mal acabadas.”
Shangai – Depois que criaram a Liga, o carnaval ficou mais organizado. Nas reuniões com a Liga, o Capitão falava que fosse visto com bons olhos, as escolas que procurassem inovações. Me lembro com se fosse hoje. Não é possível julgar uma comissão de frente que fizesse 90 movimentos diferentes, com uma que só tira o chapéu. A pessoa está tentando inovar. Só no nosso carro 90 animais se mexiam. Foi a primeira vez que se ouviu som de floresta na Avenida. Quanto valem esses 90 animais? Ela deveria ter peso e medida. Dizer: o peso pelo movimento é X.

O Batuque - Laíla, você é considerado um dos melhores diretores de harmonia e dentro da escola você faz um pouco de tudo. Como você consegue administrar tudo isso?
Laíla – Primeiramente, não me considero o melhor. Eu estou pronto para trabalhar e colaborar com o projeto que agente elabora e sempre foi dessa maneira. A grande verdade é que nasci no Samba e me meti no Carnaval fazendo alegoria, o que era uma pesquisa, até porque no início desta entrevista eu falei que participei com grandes nomes do Carnaval. Quando eu assumi a harmonia de carnaval da Beija-Flor, eu falei com Anísio que assumiria a Harmonia e a direção de carnaval, porque não queria ficar discutindo com gente que entende menos que eu. Por que eu propus isso? O diretor de Carnaval foi criado pra bater de frente com o diretor de harmonia. A princípio, o Diretor de Carnaval era o homem de confiança do carnavalesco, com isso o diretor de harmonia passou a não ser o homem de confiança do carnavalesco ou da presidência. Porque eles achavam que o diretor de harmonia tinha poder demais, eles tiravam o poder de quem conhecia demais e levaram para os que estavam chegando, que não tinha o conhecimento sambista que nós temos. Então, eu acabei com isso e tem dado certo. Eu não sou o melhor.
Shangai – Ele pode não ser o mais alto diretor de harmonia, mas ele tem um problema. Ele tem um coração muito grande. O Laíla inventou a harmonia. Ele inventou aquele negócio de andar dentro da escola. A Harmonia hoje vive em cima daquilo que Laíla inventou.
Por que eu digo que Laíla é o sambista do século? Porque ele veio da ala, ele inventou uma escola que batia em lata. Eu assisto o Laíla colocar a escola e tirar da Avenida. A cada ano ele tem um jeito de fazer. O Laíla mexe com o andamento da Escola, a bateria vai andar mais, porque está grande, está pequena. Eu não sei como funciona, mas sai no tempo. Tem hora que dá 78 minutos, ele vai lá e tira. Hoje nós temos uma cadeira chamada harmonia, que nada mais é que a experiência do Laíla.

O Batuque - O Alexandre Louzada reclamou que não teve participação na escolha de samba da Portela. Como vocês participam da escolha na Beija-Flor? O carnavalesco realmente tem que participar ou não?
Laíla – Aqui quem escolhe é a comunidade, juntamente com o pensamento da Comissão. Já trabalhei com o Alexandre na Grande Rio e ele escolheu um samba e eu juntei três. Foi aquele samba: “O luar, o luar....” . Fui juntar na casa dele junto com seu Jaime Soares. Ele não teve participação, porque o modelo lá é diferente do daqui. Aqui ele teria participado.

O Batuque - Várias escolas de samba já contaram sua própria história, quando a Beija-Flor vai contar a sua?
Shangai – Nós somos uma direção.

O Batuque - Vocês se acham caçula para contar uma historia?
Shangai – Nós já temos uma cara. Hoje a idéia da comissão é exaltar o povo brasileiro. Começou com Patuanu, trazendo histórias que o povo brasileiro ainda não conhece.
Laíla – Na segunda parte do desfile a Beija-Flor vai contar sua história.
Shangai – Nos fazemos um pouco diferente. Falamos da aviação ao mesmo tempo em que o Salgueiro. Só que nós falamos do ímpeto de voar, não falamos da máquina, não levamos pra lá um avião. Levamos o momento avião, o pensamento avião, o homem avião. A Beija-Flor tem essa maneira de falar, até mesmo de si. Hoje, neste enredo, falaremos que surgiu na Baixada uma poderosa guerreira que já vestiu seus soldados com reis e rainhas. Já protegeu prostitutas, mendigos. Deu cultura ao pobre. A história da Beija-Flor é a historia desse povo. A fome e a miséria não são coisas de hoje, porém existe no centro de Nilópolis um modelo que deu certo, de apoio à comunidade. Nos temos o CAC – Centro de Atendimento à Comunidade, onde se profissionalizam milhares de pessoas. O nosso presidente de honra mantém a creche e educandário. A Beija-Flor não tem ensaio comercial, a Beija-Flor ensaia as segundas e quintas-feiras. A Beija-Flor está voltada para o seu poder maior, pra sua raíz, pra sua comunidade. Por isso a Beija Flor faz esse grande desfile. Você vai lá segunda-feira, tem duas mil pessoas ensaiando.

O Batuque - O fato de a Beija-Flor passar a ser um escola popular nos últimos anos, até porque ela era considerada uma escola anti-social, se deve a este apoio à comunidade de Nilópolis?
Shangai – Exatamente. Já coloquei isso, foi um processo de volta à comunidade. A cara deste enredo é enaltecer o povo brasileiro. O Patuanu foi o marco, a Beija-Flor começa a cantar par o povo, começa a enaltecer o emotivo.

O Batuque - O povão reclama que não entende os enredos por achá-los rebuscados. Vocês também não acham que têm enredos complicados? Você acha que o carnavalesco é um gênio ou é uma pessoa normal, mas que viaja um pouco?
Shangai – Gênio é uma pessoa normal. Você ser normal é genial. Não tenha dúvida. O que é ser normal? É estar bem com a natureza, com o ser. Coisa muito difícil. Agora, a obra cada um escreve como sabe, como pode. Tem pessoas que rebuscam. Tem pessoas que intelectualizam coisas populares. Na verdade, a clareza está no desfile. Um desfile de arte popular. O desfile de uma escola de samba é levar para Avenida o trabalho de um ano em uma comunidade. Houve um BOOM, onde as escolas se elitizaram. Não acabaram porque voltaram para as raízes. Nos temos alas mirins com 200 componentes da escola. O que é uma ala mirim? Uma ala mirim é o amanhã dessa escola. Então, essa volta para a comunidade é que está fazendo com que haja mais clareza no enredo. A Beija-Flor nos últimos anos tem feito os melhores sambas-enredos, ao contrário de outros anos, onde a escola cantava mal. Sambas populares. A sinopse que estou te entregando está clara de como vai ser nosso desfile.

O Batuque - Um momento marcante na Avenida?
Shangai – Todo mundo que desfila pela primeira vez, chora ali.

O Batuque - Você chorou?
Shangai – Sem dúvida. No Salgueiro, com dona Beija. Você já chorou? A primeira vez a gente não esquece.

O Batuque - Vocês são a favor de que a criança comemore o Haloween, aqui no Brasil?
Shangai - Não sou contra, sou a favor de todo tipo de comemoração. Nós somos o fruto da miscigenação. O povo brasileiro é fantástico por causa disso. Até o Haloween está dentro de nós, olha aonde nós chegamos.

O Batuque - O que o torcedor da Beija-Flor pode esperar da escola no ano que vem?
Shangai – O torcedor pode esperar o que tem acontecido. Não temos parâmetros para consertar, estamos crescendo naturalmente. Estamos tranqüilos, leves e soltos. Vamos levar para a Avenida, sem dúvida, o maior desfile que a Sapucaí já viu.

O Batuque - Lula presidente, o que vocês gostariam que ele fizesse pela cultura brasileira?
Shangai – O que é cultura? Cultura é academia? Então o índio não era culto? O Lula vai levar para o palácio a cultura popular brasileira. A cultura popular brasileira é a inteligência. Acredito que o Lula fará um grande governo. Iremos homenageá-lo no nosso desfile.

O Batuque - Em nome da nossa equipe, agradeço a gentileza deste bate-papo. Para o batuque.com, é uma honra entrevistá-los. Desejamos à Beija-Flor um grande desfile em 2003. Obrigado.