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“Mesmo proibido, olhai por nós!”

Por Wellington Lopes

Na história do carnaval, dificilmente uma frase gerou tantos comentários quanto à que João Clemente Jorge Trinta, o Joãosinho Trinta, escreveu numa faixa de protesto, quando foi proibido, pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, a desfilar com um carro alegórico alusivo a um Cristo Redentor vestido de mendigo, em 1989: “Mesmo proibido, olhai por nós!”.

Aquela era uma entre tantas outras polêmicas que o carnavalesco se envolveria durante a sua vida. Considerado por muitos como um dos revolucionários do carnaval carioca, Joãosinho, a cada festa de Momo, inovava os estilos dos modismos carnavalescos.

O início promissor no Acadêmicos do Salgueiro, durante os aprendizados do ex-carnavalesco Fernando Pamplona, João conquistou como assistente os títulos de 1965, 1969 e 1971. Dois anos mais tarde assinou, ao lado de Maria Augusta, ainda na vermelho e branco da Tijuca, o enredo “Eneida: Amor e Fantasia”.

Nos dois anos seguintes, já como carnavalesco principal do Salgueiro, conquistou o bicampeonato com "O Rei de França na Ilha da Assombração" e "O Segredo das minas do Rei Salomão".

Em 1976, decidiu ir para a Beija-Flor de Nilópolis, onde despontou como um carnavalesco voltado para um estilo luxuoso, que lhe rendeu os títulos de 76, 77, 78, 80 e 83. Seus carros alegóricos luxuosos eram imponentes para gerar um impacto visual. Durante esse período, foi criticado pelo luxo exagerado em que utilizava em suas fantasias e alegorias. Em resposta às críticas, outra polêmica: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”.

No carnaval de 1986, ao fazer a homenagem à Copa do Mundo daquele ano, a Beija-Flor desfilou embaixo de uma forte chuva muito que atingira o Rio de Janeiro. No entanto, para surpresa de todos – já que a chuva é considerada uma das maiores “inimigas” das escolas de samba -, o carnavalesco, ao olhar para o céu, agradecia a Deus pelo temporal que caía sobre a Beija-Flor. Mesmo com a impiedade da natureza, a escola, com muita garra, fez um grande desfile e ficou com o vice-campeonato.

Em 1989, assinou o carnaval de três escolas de samba: Unidos do Peruche, vice-campeã em São Paulo; Acadêmicos da Rocinha, campeã do Grupo 1-D (atualmente Grupo C); e a própria Beija-Flor, que apesar do vice-campeonato, passou por um dos melhores momentos de sua carreira. Com o enredo “Ratos e Urubus larguem a minha fantasia”, revolucionou o carnaval daquele ano, com um desfile irreverente ao contrastar o luxo e o lixo. Algumas fantasias, inclusive as dos passistas, eram de mendigos. A diretoria estava travestida de gari. A escola, que era considerada um luxo só, se transformou num “lixo”, no bom sentido, é claro, e com isso, foi aclamada pelo público como campeã, mesmo com o Cristo proibido.

Joãosinho Trinta, no ano seguinte, foi enredo da União da Ilha do Governador, com o tema “Sonhar com rei dá João”. A Ilha encerrou o desfile com o povo atrás da escola. Os seguranças não permitiram que o público se aproximasse do último carro, onde estava o homenageado, que do alto da alegoria, pedia, implorava para que os seguranças deixassem a plateia participar. Assim era João: polêmico, revolucionário, criativo e, sobretudo, uma figura popular.

Sua trajetória na Beija-Flor terminou em 1993. Dois anos depois, se transferiu para a Unidos do Viradouro, permanecendo por sete anos, quando em 1997, conquistou mais um título em sua carreira, ao descrever o enredo “Trevas! Luz! A explosão do universo”. O abre-alas foi considerado, na época, outro marco assinado pelo carnavalesco. Como alguém conseguiria descrever as trevas num carro alegórico? Para ele não foi difícil.

Em 2001, já pela Grande Rio, outro espetáculo e mais uma polêmica: o astronauta norte-americano Eric Scott sobrevoou a Marquês de Sapucaí, fazendo referência ao Novo Milênio com o avanço do homem para o espaço sideral em busca de uma mensagem positiva.

Três anos depois, talvez a pior fase do carnavalesco na confecção de um desfile. Ainda pela Grande Rio, deixou a plateia e a crítica especializada perplexas com o enredo “Veste a camisinha, meu amor”, em função do mau gosto dos carros alegóricos, e, além disso, de duas alegorias terem sido censuradas pela Justiça.

Em 2005, encerrou a sua participação no carnaval do Rio, assinando o enredo da Vila: “Singrando em mares bravios… E construindo o futuro”.  No ano subsequente, um Acidente Vascular Cerebral (AVC) o deixou completamente debilitado e foi morar em Brasília. A partir daí a sua saúde foi se agravando, a ainda sim, recebeu o título Cidadão Honorário do Distrito Federal, em 2010.

Este ano, no último dia 17, João Clemente Jorge Trinta nos deixou, aos 78 anos; não resistiu às complicações e veio a falecer justamente no estado em que fora projetado para o mundo, o Maranhão, e que coincidentemente será tema da Beija-Flor em 2012.

O Rei do Paetê e do Miserê, com toda a sua genialidade fez do seu reinado o povo brasileiro mais feliz.

Desfiles assinados por Joãosinho Trinta:

Ano

Escola

Colocação

Grupo

Enredo

1973

Salgueiro

3º lugar

Grupo 1-A

Eneida, amor e fantasia[5]

1974

Salgueiro

Campeão

Grupo 1-A

O Rei de França na Ilha da Assombração

1975

Salgueiro

Campeão

Grupo 1-A

O Segredo das minas do Rei Salomão

1976

Beija-Flor

Campeão

Grupo 1-A

Sonhar com Rei dá Leão

1977

Beija-Flor

Campeão

Grupo 1-A

Vovó e o Rei da Saturnália na corte egipiciana

1978

Beija-Flor

Campeão

Grupo 1-A

A criação do mundo segundo a tradição Nagô

1979

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo 1-A

O paraíso da loucura

1980

Beija-Flor

Campeão

Grupo 1-A

O sol da meia-noite – uma viagem ao país das maravilhas

1981

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo 1-A

Carnaval no Brasil – a oitava das sete maravilhas do mundo

1982

Beija-Flor

6 Lugar

Grupo 1-A

O olho azul da serpente

1983

Beija-Flor

Campeão

Grupo 1-A

A grande constelação das estrelas negras

1984

Beija-Flor

3ºlugar

Grupo 1-A

O gigante em berço esplêndido

1985

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo 1-A

A Lapa de Adão e Eva

1986

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo 1-A

O mundo é uma bola

1987

Beija-Flor

4ºlugar

Grupo 1-A

As mágicas luzes da ribalta

1988

Beija-Flor

3º lugar

Grupo 1-A

Sou Rei negro, do Egito à liberdade

1989

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo 1-A

Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia

Unidos do Peruche

Vice-Campeão

Grupo Especial

Deuses Africanos

Rocinha

Campeão

Grupo 1-D

O esplendor dos divinos orixás

1990

Beija-Flor

Vice-Campeão

Grupo Especial

Todo mundo nasceu nu

Unidos do Peruche

Vice-campeão

Grupo Especial

De Roma Pagã ao Esplendor da Paulicéia

Rocinha

Campeão

Grupo 1-C

Um coração chamado Brasil

1991

Beija-Flor

4º lugar

Grupo Especial

Alice no Brasil das maravilhas

Rocinha

Campeão

Grupo 1-B

Do esplendor da Roma pagã ao despertar da Rocinha

1992

Beija-Flor

7º lugar

Grupo Especial

Há um ponto de luz na imensidão

1994

Viradouro

3º lugar

Grupo Especial

Tereza de Benguela, uma rainha negra no Pantanal

1995

Viradouro

8º lugar

Grupo Especial

O rei e os três espantos de Debret

1996

Viradouro

13º lugar

Grupo Especial

Aquarela do Brasil ano 2000

1997

Viradouro

Campeão

Grupo Especial

Trevas! Luz! A explosão do universo

1998

Viradouro

5º lugar

Grupo Especial

Orfeu, o negro do carnaval

1999

Viradouro

3º lugar

Grupo Especial

Anita Garibaldi, heroína das sete magias

2000

Viradouro

3º lugar

Grupo Especial

Brasil, visões de paraísos e infernos

2001

Grande Rio

6º lugar

Grupo Especial

Gentileza, o profeta do fogo

2002

Grande Rio

7ºlugar

Grupo Especial

Os papagaios amarelos nas terras encantadas do Maranhão

2003

Grande Rio

3ºlugar

Grupo Especial

O Brasil que Vale

2004

Grande Rio

10ºlugar

Grupo Especial

Veste a camisinha, meu amor

2005

Vila Isabel

10ºlugar

Grupo Especial

Singrando em mares bravios… E construindo o futuro[6]

Fonte: site Wikipedia

1 Comentário »

  • Nenem andrade disse:

    *OS OLHOS DE SABEDORIA DE JOÂOZINHO TRINTA FICARA FIXO NO CORAÇÃO DE TODOS OS SAMBISTA,MESMO SEM CONHECE-LO PESSOALMENTE SOFRO COM A PERDA DE UM GRANDE CARNAVALESCO DE TODOS OS TEMPOS*DESCASE EM PAZ*

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