Por Isabel de Godoys Monteiro Gomes*
As escolas de samba ecoam cultura, tradição, geram trabalho e renda, e ao se apresentarem transferem para o imaginário das pessoas beleza, alegria e muitas formas do significado carnaval.
A voz é instrumento de comunicação e elemento suntuoso de aproximação das histórias a ser desenvolvido no maior espetáculo a céu aberto: o carnaval carioca, ou seja, as escolas de samba se fazem presentes nas memórias dos indivíduos e em muitas das vezes, pelo que se apresenta, não somente pela imagem visual, mas pela via auditiva. Partindo do princípio da musicalidade, onde notas, harmonia, melodia e letra são ferramentas para construção do samba-enredo, percebe-se que quando bem arranjadas esteticamente transformam um conjunto harmônico numa preciosidade para a escola de samba, ou seja, meio caminho andado…
Temos num mesmo samba-enredo uma gama de informações, que conforme sua disponibilidade e aplicabilidade, se torna prejudicial ou não à apresentação. Nesse fluxo, a figura dos intérpretes de samba-enredo é fundamental. Tais profissionais terão que administrar seus potenciais vocais associado a outras questões que envolvem sua imagem, seu registro sonoro e a marca (agremiação), na qual defende e ainda, uma composição (letra) favorável que venha somar a esse processo.
Cada intérprete de samba possui características próprias e muitas delas tornam-se referência para a escola. São em grande maioria dotados de potencias vocais, em que muitas das vezes “apresentam desvios do considerado padrão vocal saudável” e que podem ou não comprometer seu desempenho. Em contrapartida, alguns obtém sucesso, mesmo com alterações vocais, que se tornam marca registrada.
Samba é um gênero musical brasileiro e que há tempos vem se subdividindo em categorias, citamos: samba-breque, samba-canção, samba de terreiro etc. Todas com suas formatações básicas de subsistência. O samba-enredo tem especificidades próprias. Atualmente, observa-se o próprio samba-enredo sofrendo algumas alterações, como: a estrutura melódica, a métrica, a dinâmica harmônica, que são geralmente voltadas para um foco que inclui a marca da escola (influências da percussão – bateria) e o que o enredo propõe, como dinâmica a ser desenvolvida na avenida, e ainda outros fundamentos de cada escola, como exemplo mais observado, a cadência. Vale dizer que, muitas das vezes prejudica a criatividade do compositor e que refletirá no conjunto da obra.
A funcionalidade de um samba-enredo é uma incógnita até o dia do desfile. O que se faz valer são requisitos de musicalidade, acompanhados de uma letra bem escrita e que faça sacudir os desfilantes e os presentes ao evento. No aspecto de apresentação, é importante se dizer que são fundamentais a integração do intérprete oficial, coro e bateria com cordas, somados aos componentes da escola.
O intérprete oficial deve ter domínio da letra do samba, da cadência rítmica e das bossas que serão desenvolvidas. Além disso, equilíbrio entre voz e instrumentos somados a um esquema de apresentação, que envolve comunicabilidade com o público (carisma, objetividade e credibilidade). A interpretação ideal é aquela capaz de unir: voz, dicção, projeção e afinação, e que emocione os ouvintes. Para isso, realizam-se ensaios técnicos com intuito de ajustar estruturas nas áreas, como:
1) canto – no que diz respeito à letra do samba, neste caso dicção e dinâmica harmônica; e
2) canto e bateria – bossas e sons de apoio – Na forma da entrada e precisão com alusivos, viradas dos sambas, cacos (chamadas) etc. É importante lembrar que, quando há mais de um intérprete oficial, estes devem estar bem entrosados, a fim de não comprometer o andamento e tirar a atenção da plateia e dos desfilantes, assim como do staff vocal (apoio) em prol do conjunto.
Na complexidade das escolas de samba, a visão empresarial atual enfatiza que a organização do produto carnaval não contempla mais amadorismo e a cada momento vem se aprimorando e criando protocolos, parâmetros que visem qualidade, visibilidade e retorno financeiro para a escola e profissionais envolvidos, no entanto, as cobranças são muitas e vão desde equipamentos às condutas técnicas especializadas.
Observa-se que, agremiações tratadas como empresas fazem diferença neste seleto grupo. Nelas, a dinâmica operacional adotada por muitos profissionais vem sendo observada, no caso de intérpretes de samba-enredo, na forma como lidam com a sua voz e a sua identidade em ações diretas e indiretas. Os dirigentes perceberam que os intérpretes são foco de representatividade da escola, e nesse aspecto, há um maior controle para se alcançar resultados satisfatórios.
Ao questionarmos “Que voz é essa?”, entendemos que muito além da expressão oral/vocal de um personagem, está a complexidade que o tema propõe, pela abrangência e influência diretas nos aspectos sociais, culturais e econômicos, e que paralelamente a isso está a figura do intérprete.
*Especialização em Fonoaudiologia Clínica;
Especialista em Voz CEV/ Pesquisadora;
Especialização em Geriatria/Gerontologia UVA;
Profa. Universitária Núcleo Pós;
Profa. Universitária UVA; e
Profa. Instituto do Carnaval.



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