Por Vinícius Natal*
Nesta jornada passearemos pelo caminho da criação dos departamentos culturais das escolas do Rio de Janeiro, tão importante hoje pela preservação da memória do carnaval carioca. Comecemos pela apresentação do Departamento Cultural da Imperatriz Leopoldinense.
Em 1959, Amaury Jório cria a Imperatriz Leopoldinense, oriunda do bloco Recreio de Ramos que já desfilava pelas ruas próximas, até virar escola com apoio de sambistas de grande importância da região, como Bide. Já no primeiro estatuto, está contida a responsabilidade em criar os departamentos esportivo, social e cultural.
É importante falar do momento histórico em que o departamento cultural surgiu, em meio ao período anterior à ditadura militar do Brasil, onde as ideias autoritárias já se chocavam com os anseios de liberdade de diversos grupos que atuavam na cena política nacional.
Dentre os grupos, destacava-se o Partido Comunista Brasileiro (PCB), grupo que tinha estreitas ligações com a União Nacional dos Estudantes, a UNE. Ambos atuaram firmemente na luta contra a repressão das forças militares em favor da liberdade, antes e depois da entrada dos militares no poder, em 1964.
Amaury Jório e grande parte do grupo que o acompanhava mantinham ligações com esses grupos de esquerda. Portanto, a própria criação da Imperatriz Leopoldinense está entrelaçada com essa “esfera vermelha” e contestadora.
Pois bem, apesar de já em 1959 estar prevista a criação do Departamento Cultural, somente em 1968, por meio do convite de Amaury a Hiran Araújo, seu companheiro de militância, é que o setor fora criado. Nascia então, o primeiro Departamento Cultural de uma escola de samba.
É importante frisar que a função desse departamento se fazia totalmente diferente das funções atuais de qualquer outro departamento atual, ou seja, cuidar da manutenção da memória da escola. Até mesmo porque as escolas eram instituições recentes na década de 1950 e acabavam de serem criadas. Como cuidar da memória de algo que acabava de nascer? Essa preocupação só surgiria posteriormente.
Inicialmente, a função do departamento, segundo o próprio Hiran, era criar enredos nacionalistas, que trouxessem a alma da brasilidade para a escola, ao mesmo tempo em que se preocupava em trazer um espírito cultural para ela, promovendo palestras com compositores da música erudita, peças teatrais dentro da quadra, entre outras ações que ultrapassavam a agremiação, tendo a função de “levar a cultura para as classes populares das escolas de samba”. Dessa forma, a Imperatriz apresentou os seguintes enredos de cunho popular e nacionalista:
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1968 |
Bahia em Festa. |
1ª no Grupo 2. Ascende ao Grupo 1 |
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1969 |
Brasil: Flor Amorosa de Três Raças. |
8ª no Grupo 1 |
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1970 |
Oropa, França e Bahia |
6ª no Grupo 1 |
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1971 |
Barra de Ouro, Barra de Rio, Barra de Saia |
7ª no Grupo 1 |
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1972 |
Martim Cererê |
4ª no Grupo 1 |
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1973 |
ABC do Carnaval a Maneira da Literatura de Cordel |
5ª no Grupo 1 |
Porém, em 1973, Hiran Araújo foi convidado pela Portela – sua escola de coração – para criar o Departamento Cultural da azul e branco, de Madureira, o que acabou coincidindo pouco depois com a chegada de Luizinho Drumond à Imperatriz.
Com isso, o papel do Departamento Cultural de fazer enredos diminuía, como também seu campo de atuação dentro da escola. Entretanto, já havia plantado a semente para que novos departamentos surgissem posteriormente e fizessem parte definitivamente do carnaval carioca.
*É graduado em História, pela Universidade Federal Fluminense, e pesquisador do Centro Cultural Cartola.



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