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Grupo Jaqueira: uma juventude em busca de salvaguardar a velha guarda do samba

OBatuque.com | Carnavais,Carnaval 2012,Destaques,Entrevistas,Grupo Especial,Notícias | 30 de agosto de 2011 20:14

Por Wellington Lopes

Carlos Ferreira é músico, ator, compositor e produtor de eventos. Já Monalisa Capoeira trabalha com vendas por telefones e faz capoeira há 15 anos. Nilson Santos é analista de telecomunicações. O Guilherme Camará é professor de Educação Física. PH da Portela é estudante e Juliana Clara é dançarina. Eles são passistas, jovens e muito simpáticos. Juntos, formam o Grupo Jaqueira, que foi idealizado após uma viagem à Argentina. A semente plantada na terra dos hermanos cresceu e começou a dar frutos aqui no Brasil. Regado por sambas de saudosos compositores e inspirado nas raízes da cultura afro, o grupo chegou para saudar a velha guarda do samba brasileiro. Nesta entrevista, seus integrantes falam da formação, dos projetos e da estreia prevista para dezembro na reinauguração da quadra da Portela.

OBatuque.com – Valci, fale um pouco de você e de como surgiu o grupo?

Valci Pelé - Sou educador, trabalho com projetos de inclusão social, coordeno a ala de passista da Portela. A ideia de criar o Grupo Jaqueira surgiu durante uma viagem à Argentina com os grupos de passistas, e vendo realmente, além deles terem um talento de riscarem o chão de poesia também têm o dom da música. Nos reunimos no nosso escritório, ali debaixo do Viaduto Negrão de Lima. Foi a nossa primeira reunião. Todos embarcaram na ideia e conseguiram absorver. Estamos fazendo laboratórios de canto, percussão e harmonia, com apoio de Jorge Cardoso, como produtor da banda, e do padrinho, Carlos Monte, que adorou o nome por ser um símbolo histórico da Portela. Temos essa junção da Portela com a Mangueira, que não é de agora. Lá nos primórdios, Paulo da Portela tinha uma grande amizade com o Cartola, e nós estamos dando essa continuidade, fortalecendo a cultura local de Madureira e enaltecendo, como está sendo falado, a velha guarda do samba.

OBatuque.com – O Jaqueira tem algum projeto social voltado para jovens?

Valci - Na verdade, o Jaqueira é um braço do Projeto Primeiro Passo, que é um grupo voltado para a inclusão social. No Primeiro Passo, a filosofia é: antes de se tornar um exímio dançarino ou músico, ele tem que ser um grande ser humano. O Jaqueira segue essa linha.  

OBatuque.com – Vocês têm idealizadores, e a pesquisa fica por conta de quem?

Valci - Carlos Monte. Ele é o pesquisador. Na verdade, é assim: eu fiz uma proposta para o Jorge Cardoso, que gostaria de um grupo que estivesse enaltecendo a cultura local de Madureira, como o partido alto, samba de raiz e o jongo.  Aí o Jorge pediu para que cada um fizesse um repertório de dez a 15 músicas, voltadas para esses grandes compositores: Candeia, Cartola e José Luis… Com isso, fizemos um repertório de 40 músicas.

OBatuque.com – Vocês só cantam nos shows?

Valci – O diferencial do grupo é esse, além de estar tocando grandes sambas de vários bambas, ter essa musicalidade também em relação à dança no decorrer do show.

OBatuque.com – O porquê de buscar esses compositores das antigas, já que vocês são tão jovens?

Valci - Acho, não, tenho certeza que é o diferencial. Na Portela, eu faço isso na Ala de Passistas. Por ser um celeiro de bambas de passistas, eu procuro resgatar essa essência. Então, aqui no Jaqueira o sentido é o mesmo: resgatar a essência. Uma, porque eles também gostam. Eles curtem esses compositores até hoje. Nas pesquisas realizadas, encontramos um vídeo da Velha Guarda da Portela com Paulinho da Viola. Eles cantam e sambam também, apresentam o ritmo miudinho na forma da dança, é legal. Nós vamos trazer isso para os shows.

OBatuque.com – Vocês incluem o jongo tanto na pesquisa quanto nos shows. O Império Serrano, por meio da saudosa Tia Eulália e Dona Maria do Jongo, foi o pioneiro no assunto aqui na região. Como vocês estão conciliando isso?

Guilherme Em relação ao jongo conseguimos resgatar as  antigas comunidades de jongo do Rio, como Morro do São Carlos, Mangueira e Oswaldo Cruz, não somente a Serrinha. Em Oswaldo Cruz havia jongo. Infelizmente, essas comunidades foram se extinguindo, a única que permanece ainda é a da Serrinha. E por isso estamos resgatando essas histórias e essas culturas.

OBatuque.com – Como vocês veem o processo de esquecimento desses bambas e vocês tentando resgatar?

Nilson Santos - No meu modo de ver, além de sermos passistas, descobrimos que cada um tinha um pequeno talento, como cantar, outros, tocar, e aí veio a ideia do Valci, de formalizar o grupo. Só que a gente deixou bem claro que o interesse maior do nosso grupo é de resgatar os nossos ancestrais, especialmente a velhas guardas da Portela e da Mangueira, de Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia… Poderíamos muito bem ficar cantando músicas novas. Hoje, damos prioridade a cantar as músicas dos bambas das antigas.

Guilherme – O interessante também é se basear nas mensagens dessas músicas. Elas são atuais. Eles são eternos.

Juliana – Ao mesmo tempo que é daquela época é atual. Uma coisa que não sai de moda. O que eles fizeram naquela época não são letras, são joias raras. O Nilson estava falando hoje de uma letra, e comentou que o cara tinha que estar inspirado mesmo nessa hora. Eu acrescentei: nessa hora e em todas as horas. É uma coisa que não sai de moda, só ficou esquecido. E estamos resgatando e como jovens, assim como outros vão curtir bastante e vão se identificar com o grupo Jaqueira.

OBatuque.com – Por que o nome Jaqueira?

Valci - Jaqueira é um símbolo histórico da Portela. Na verdade, eu coloquei inúmeros nomes e fui escolhendo. Como só tem portelense no grupo, embora a Juliana seja a única mangueirense, mostrei a todos pedi a opinião, e eles acharam bacana.

Guilherme – Na cultura afro, acredita-se que onde há jaqueiras não existe influência negativa.

OBatuque.com – Houve alguma resistência quanto ao nome e ao repertório?

Carlos – Não, para mim é uma satisfação imensa. Com apenas 19 anos, cantando Cartola, Candeia… Qualquer roda de samba as pessoas ficam impressionadas. Eu nem era nascido, então é uma satisfação imensa.

OBatuque.com – O site sempre faz essa pergunta: como vocês veem os sambas-enredos atuais?

Carlos – Os que são lembrados hoje, são os sambas que foram campeões, então os atuais serão lembrados daqui para frente.

Nilson – Daqui a 20 anos serão relembrados da mesma forma. A ideia de sempre resgatar os ancestrais, resgatar as poesias. Hoje não tem como, porém amanhã os atuais compositores serão enaltecidos também assim como estamos enaltecendo os antigos e isso vale para o samba-enredo de antigamente.

Guilherme – Hoje a forma de compor mudou muito. A questão do andamento, a bateria, a questão também do pensamento dos compositores. Vimos na Vila Isabel, o Martinho da Vila ganhar e ser criticado com o andamento do samba, mas que para mim foi um samba maravilhoso, porém para outras pessoas, não.

Valci - Essa mudança que o Guilherme citou, lá nos primórdios mudou porque as pessoas faziam mais pelo amor mesmo. Não tinha tanto esse gasto.

OBatuque.com – Dos compositores que vocês estão resgatando, qual o que mais o grupo ou cada um de vocês se identificou?

Valci – Candeia.

Nilson – Apesar da carreira curta, Cartola. As composições marcaram.

Luciana – Todos eram excelentes.  Para você ter uma ideia, no trabalho de pesquisa, em que cada integrante do grupo teria que buscar algumas músicas e formar 40, quando você se dava por conta já tinham 90. Só coisa boa.

OBatuque.com – E a estreia do show?

Monalisa – Estamos em laboratório ainda. A estreia mesmo será em dezembro, na Portela, na reinauguração da quadra.

OBatuque.com – E os ensaios?

Carlos - Nossos encontros são todos os sábados. Iniciam-se com uma aula de canto, em 1h de duração, depois passamos para parte de harmonia, onde nos trabalhamos ritmos. De 15 em 15 dias, temos a visita de uma fonoaudióloga na parte da voz.

OBatuque.com – Galera, muito obrigado pela conversa e por essa homenagem ao site com esse show agora no final. OBatuque.com está à disposição de vocês. Sucesso e que o Jaqueira dê muitos frutos.

Grupo Jaqueira – Muito obrigado pelo espaço.

10 Comentários »

  • Carlos Carvalho disse:

    Parabéns ao Jaqueira pela dedicação e compromisso com os grandes compositores que marcaram o gênero samba.
    Falar de Candeia e de Cartola não é simples, interpretalos então é bem mais complexo.
    Não é fácil nos dias de hoje trabalhar com resgate cultural. O artista, aliás, todo artista deveria lutar assim para ser valoirizado. Pois é valorizando o que se faz que você tem valor e, valorizar, representar, homenagear velha guarda e compositores renomados exige muito estudo, trabalho, gosto no que se faz….
     
    Carlos Carvalho

  • Juliana Senra disse:

    Sendo componente da Projeto Primeiro Passo, tenho a oportunidade de conhecer esses Grandes Nomes do Passado. Penso que tendo o Grupo Jaqueira caminhando ao nosso lado, a tendência é evoluir com essa fonte de conhecimento, não só eu, que hoje tenho 18 anos, mas também os outros alunos de minha idade e principalmente os pequenininhos que começaram a conhecer esse novo mundo que é o Samba.

    Parabéns e sucesso ao Grupo Jaqueira, espero que continuem destribuindo conhecimento!
     Com certeza estarei na estréia!
     
    Juliana Senra

     

  • Victor Hugo disse:

    Excelente entrevista com o grupo Jaqueira. É maravilhoso saber que jovens do samba cada vez mais pensam em resgatar e manter viva a história do mundo do samba. Parabéns a todos integrantes do grupo Jaqueira e seus idealizadores, sucesso e até a estréia em dezembro na Portela!!!

  • Jackson Senhorinho disse:

    É lindo poder testemunhar um sonho ser concretizado bem próximo a nós. Sinto-me privilegiado e bastante feliz por ter presenciado desde a viagem a Argentina os momentos que levaram a idealização desse grupo. Valci pelé sonhou, todos embarcaram juntos e com competentes parcerias esse grupo promissor vai ganhando força e vida para se Deus quiser trilhar os caminhos do sucesso e levar essa linda proposta saudosista e inovadora a todos.
    Boa sorte Jaqueira…Parabéns Valci!!! 

  • Parabéns ao grupo , Mona torço por vc prima, fique com Deus e sucesso!
     
    Beijosssss
     
    seu primo saint Clair

  • Hélio Ricardo disse:

    Essa turma é a nata do samba, o chão da Portela! São fabulosos e tudo o que eles fazem é verdadeiro!
    Mestre Valci, irmãos Camará, PH, Carlos e Nílson… meninas-águia Monalisa e Juliana… parabéns!
    Tõ junto!!!

  • Daniela Lemos disse:

    Mesmo de longe, vejo a motivação, determinação e objetividade de Valci Pelé. Desejo ao Grupo Jaqueira muito Sucesso e Conquistas nessa caminhada e que com certeza será uma grande revelação no mundo do samba.
    Beijos em todos!

  • FELIPE EDUARDO disse:

    Belo trabalho Primo.
    Valci Pelé.
    Suas intenções são perfeitas, pois, precisamos de fato reavivar o samba de raiz esquecido pela população. Mais uma vez parabenizo pela iniciativa de promover tal ação engrandecedora para todos os campositores citados responsaveis pela alegria do samba e por você desejar manter isso em nossa cultura.
    Que Deus ilumine e proteja a todos. Deixo aqui uma frase que gosto muito e na caminhada para um sucesso que não é facil, servirá demotivação pra todos. Frase essa que colhi em um site de ma produto escocês:" A DIFERENÇA ENTRE O SUCESSO E O FRACASSO ESTA NA MANEIRA DE COMO VOCÊ ENCARA AS ADVERSIDADES." ( Alexander Walker.)
    Sucesso a todos.

  • amauri disse:

    Eu sempre admirador do saldoso valcy pela e equipe sempre mostrando o amor pelo o que faz dessejo tudo de bom pra ti parabens sabe que mesmo não podendo curtir o carnaval estarei aqui de longe mandando energia possitivas pra vc e toda sua equipe fique na paz

  • [...] em alguns projetos como o lançamento do livro “Passo dos Sonhos”; Produzindo o Grupo Jaqueira, escrevendo um livro juvenil cultural e atuando como presidente do Instituto de Cultura e Cidadania [...]

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