Por Wellington Lopes
Carlos Ferreira é músico, ator, compositor e produtor de eventos. Já Monalisa Capoeira trabalha com vendas por telefones e faz capoeira há 15 anos. Nilson Santos é analista de telecomunicações. O Guilherme Camará é professor de Educação Física. PH da Portela é estudante e Juliana Clara é dançarina. Eles são passistas, jovens e muito simpáticos. Juntos, formam o Grupo Jaqueira, que foi idealizado após uma viagem à Argentina. A semente plantada na terra dos hermanos cresceu e começou a dar frutos aqui no Brasil. Regado por sambas de saudosos compositores e inspirado nas raízes da cultura afro, o grupo chegou para saudar a velha guarda do samba brasileiro. Nesta entrevista, seus integrantes falam da formação, dos projetos e da estreia prevista para dezembro na reinauguração da quadra da Portela.
OBatuque.com – Valci, fale um pouco de você e de como surgiu o grupo?
Valci Pelé - Sou educador, trabalho com projetos de inclusão social, coordeno a ala de passista da Portela. A ideia de criar o Grupo Jaqueira surgiu durante uma viagem à Argentina com os grupos de passistas, e vendo realmente, além deles terem um talento de riscarem o chão de poesia também têm o dom da música. Nos reunimos no nosso escritório, ali debaixo do Viaduto Negrão de Lima. Foi a nossa primeira reunião. Todos embarcaram na ideia e conseguiram absorver. Estamos fazendo laboratórios de canto, percussão e harmonia, com apoio de Jorge Cardoso, como produtor da banda, e do padrinho, Carlos Monte, que adorou o nome por ser um símbolo histórico da Portela. Temos essa junção da Portela com a Mangueira, que não é de agora. Lá nos primórdios, Paulo da Portela tinha uma grande amizade com o Cartola, e nós estamos dando essa continuidade, fortalecendo a cultura local de Madureira e enaltecendo, como está sendo falado, a velha guarda do samba.
OBatuque.com – O Jaqueira tem algum projeto social voltado para jovens?
Valci - Na verdade, o Jaqueira é um braço do Projeto Primeiro Passo, que é um grupo voltado para a inclusão social. No Primeiro Passo, a filosofia é: antes de se tornar um exímio dançarino ou músico, ele tem que ser um grande ser humano. O Jaqueira segue essa linha.
OBatuque.com – Vocês têm idealizadores, e a pesquisa fica por conta de quem?
Valci - Carlos Monte. Ele é o pesquisador. Na verdade, é assim: eu fiz uma proposta para o Jorge Cardoso, que gostaria de um grupo que estivesse enaltecendo a cultura local de Madureira, como o partido alto, samba de raiz e o jongo. Aí o Jorge pediu para que cada um fizesse um repertório de dez a 15 músicas, voltadas para esses grandes compositores: Candeia, Cartola e José Luis… Com isso, fizemos um repertório de 40 músicas.
OBatuque.com – Vocês só cantam nos shows?
Valci – O diferencial do grupo é esse, além de estar tocando grandes sambas de vários bambas, ter essa musicalidade também em relação à dança no decorrer do show.
OBatuque.com – O porquê de buscar esses compositores das antigas, já que vocês são tão jovens?
Valci - Acho, não, tenho certeza que é o diferencial. Na Portela, eu faço isso na Ala de Passistas. Por ser um celeiro de bambas de passistas, eu procuro resgatar essa essência. Então, aqui no Jaqueira o sentido é o mesmo: resgatar a essência. Uma, porque eles também gostam. Eles curtem esses compositores até hoje. Nas pesquisas realizadas, encontramos um vídeo da Velha Guarda da Portela com Paulinho da Viola. Eles cantam e sambam também, apresentam o ritmo miudinho na forma da dança, é legal. Nós vamos trazer isso para os shows.
OBatuque.com – Vocês incluem o jongo tanto na pesquisa quanto nos shows. O Império Serrano, por meio da saudosa Tia Eulália e Dona Maria do Jongo, foi o pioneiro no assunto aqui na região. Como vocês estão conciliando isso?
Guilherme – Em relação ao jongo conseguimos resgatar as antigas comunidades de jongo do Rio, como Morro do São Carlos, Mangueira e Oswaldo Cruz, não somente a Serrinha. Em Oswaldo Cruz havia jongo. Infelizmente, essas comunidades foram se extinguindo, a única que permanece ainda é a da Serrinha. E por isso estamos resgatando essas histórias e essas culturas.
OBatuque.com – Como vocês veem o processo de esquecimento desses bambas e vocês tentando resgatar?
Nilson Santos - No meu modo de ver, além de sermos passistas, descobrimos que cada um tinha um pequeno talento, como cantar, outros, tocar, e aí veio a ideia do Valci, de formalizar o grupo. Só que a gente deixou bem claro que o interesse maior do nosso grupo é de resgatar os nossos ancestrais, especialmente a velhas guardas da Portela e da Mangueira, de Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia… Poderíamos muito bem ficar cantando músicas novas. Hoje, damos prioridade a cantar as músicas dos bambas das antigas.
Guilherme – O interessante também é se basear nas mensagens dessas músicas. Elas são atuais. Eles são eternos.
Juliana – Ao mesmo tempo que é daquela época é atual. Uma coisa que não sai de moda. O que eles fizeram naquela época não são letras, são joias raras. O Nilson estava falando hoje de uma letra, e comentou que o cara tinha que estar inspirado mesmo nessa hora. Eu acrescentei: nessa hora e em todas as horas. É uma coisa que não sai de moda, só ficou esquecido. E estamos resgatando e como jovens, assim como outros vão curtir bastante e vão se identificar com o grupo Jaqueira.
OBatuque.com – Por que o nome Jaqueira?
Valci - Jaqueira é um símbolo histórico da Portela. Na verdade, eu coloquei inúmeros nomes e fui escolhendo. Como só tem portelense no grupo, embora a Juliana seja a única mangueirense, mostrei a todos pedi a opinião, e eles acharam bacana.
Guilherme – Na cultura afro, acredita-se que onde há jaqueiras não existe influência negativa.
OBatuque.com – Houve alguma resistência quanto ao nome e ao repertório?
Carlos – Não, para mim é uma satisfação imensa. Com apenas 19 anos, cantando Cartola, Candeia… Qualquer roda de samba as pessoas ficam impressionadas. Eu nem era nascido, então é uma satisfação imensa.
OBatuque.com – O site sempre faz essa pergunta: como vocês veem os sambas-enredos atuais?
Carlos – Os que são lembrados hoje, são os sambas que foram campeões, então os atuais serão lembrados daqui para frente.
Nilson – Daqui a 20 anos serão relembrados da mesma forma. A ideia de sempre resgatar os ancestrais, resgatar as poesias. Hoje não tem como, porém amanhã os atuais compositores serão enaltecidos também assim como estamos enaltecendo os antigos e isso vale para o samba-enredo de antigamente.
Guilherme – Hoje a forma de compor mudou muito. A questão do andamento, a bateria, a questão também do pensamento dos compositores. Vimos na Vila Isabel, o Martinho da Vila ganhar e ser criticado com o andamento do samba, mas que para mim foi um samba maravilhoso, porém para outras pessoas, não.
Valci - Essa mudança que o Guilherme citou, lá nos primórdios mudou porque as pessoas faziam mais pelo amor mesmo. Não tinha tanto esse gasto.
OBatuque.com – Dos compositores que vocês estão resgatando, qual o que mais o grupo ou cada um de vocês se identificou?
Valci – Candeia.
Nilson – Apesar da carreira curta, Cartola. As composições marcaram.
Luciana – Todos eram excelentes. Para você ter uma ideia, no trabalho de pesquisa, em que cada integrante do grupo teria que buscar algumas músicas e formar 40, quando você se dava por conta já tinham 90. Só coisa boa.
OBatuque.com – E a estreia do show?
Monalisa – Estamos em laboratório ainda. A estreia mesmo será em dezembro, na Portela, na reinauguração da quadra.
OBatuque.com – E os ensaios?
Carlos - Nossos encontros são todos os sábados. Iniciam-se com uma aula de canto, em 1h de duração, depois passamos para parte de harmonia, onde nos trabalhamos ritmos. De 15 em 15 dias, temos a visita de uma fonoaudióloga na parte da voz.
OBatuque.com – Galera, muito obrigado pela conversa e por essa homenagem ao site com esse show agora no final. OBatuque.com está à disposição de vocês. Sucesso e que o Jaqueira dê muitos frutos.
Grupo Jaqueira – Muito obrigado pelo espaço.



10 Comentários »
Parabéns ao Jaqueira pela dedicação e compromisso com os grandes compositores que marcaram o gênero samba.
Falar de Candeia e de Cartola não é simples, interpretalos então é bem mais complexo.
Não é fácil nos dias de hoje trabalhar com resgate cultural. O artista, aliás, todo artista deveria lutar assim para ser valoirizado. Pois é valorizando o que se faz que você tem valor e, valorizar, representar, homenagear velha guarda e compositores renomados exige muito estudo, trabalho, gosto no que se faz….
Carlos Carvalho
Sendo componente da Projeto Primeiro Passo, tenho a oportunidade de conhecer esses Grandes Nomes do Passado. Penso que tendo o Grupo Jaqueira caminhando ao nosso lado, a tendência é evoluir com essa fonte de conhecimento, não só eu, que hoje tenho 18 anos, mas também os outros alunos de minha idade e principalmente os pequenininhos que começaram a conhecer esse novo mundo que é o Samba.
Parabéns e sucesso ao Grupo Jaqueira, espero que continuem destribuindo conhecimento!
Com certeza estarei na estréia!
Juliana Senra
Excelente entrevista com o grupo Jaqueira. É maravilhoso saber que jovens do samba cada vez mais pensam em resgatar e manter viva a história do mundo do samba. Parabéns a todos integrantes do grupo Jaqueira e seus idealizadores, sucesso e até a estréia em dezembro na Portela!!!
É lindo poder testemunhar um sonho ser concretizado bem próximo a nós. Sinto-me privilegiado e bastante feliz por ter presenciado desde a viagem a Argentina os momentos que levaram a idealização desse grupo. Valci pelé sonhou, todos embarcaram juntos e com competentes parcerias esse grupo promissor vai ganhando força e vida para se Deus quiser trilhar os caminhos do sucesso e levar essa linda proposta saudosista e inovadora a todos.
Boa sorte Jaqueira…Parabéns Valci!!!
Parabéns ao grupo , Mona torço por vc prima, fique com Deus e sucesso!
Beijosssss
seu primo saint Clair
Essa turma é a nata do samba, o chão da Portela! São fabulosos e tudo o que eles fazem é verdadeiro!
Mestre Valci, irmãos Camará, PH, Carlos e Nílson… meninas-águia Monalisa e Juliana… parabéns!
Tõ junto!!!
Mesmo de longe, vejo a motivação, determinação e objetividade de Valci Pelé. Desejo ao Grupo Jaqueira muito Sucesso e Conquistas nessa caminhada e que com certeza será uma grande revelação no mundo do samba.
Beijos em todos!
Belo trabalho Primo.
Valci Pelé.
Suas intenções são perfeitas, pois, precisamos de fato reavivar o samba de raiz esquecido pela população. Mais uma vez parabenizo pela iniciativa de promover tal ação engrandecedora para todos os campositores citados responsaveis pela alegria do samba e por você desejar manter isso em nossa cultura.
Que Deus ilumine e proteja a todos. Deixo aqui uma frase que gosto muito e na caminhada para um sucesso que não é facil, servirá demotivação pra todos. Frase essa que colhi em um site de ma produto escocês:" A DIFERENÇA ENTRE O SUCESSO E O FRACASSO ESTA NA MANEIRA DE COMO VOCÊ ENCARA AS ADVERSIDADES." ( Alexander Walker.)
Sucesso a todos.
Eu sempre admirador do saldoso valcy pela e equipe sempre mostrando o amor pelo o que faz dessejo tudo de bom pra ti parabens sabe que mesmo não podendo curtir o carnaval estarei aqui de longe mandando energia possitivas pra vc e toda sua equipe fique na paz
[...] em alguns projetos como o lançamento do livro “Passo dos Sonhos”; Produzindo o Grupo Jaqueira, escrevendo um livro juvenil cultural e atuando como presidente do Instituto de Cultura e Cidadania [...]